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A História Profética: Ismael (paz esteja com ele)

O Profeta Muhammad (s.a.w.) foi descendente directo do Profeta Ismael (a.s.)

 

Coord. Por: M. Yiossuf Adamgy

08.Setembro.2016 /06.Zu-al-Hijjah.1437

 

 

Eram três pessoas benditas: Abraão (a.s.), a sua esposa Hagar (a.s.) e o seu filho Ismael (a.s.) nos seus braços, que viajavam para partes desconhecidas dos desertos da Arábia. Na realidade a viagem entranhava um mistério.

Uma manhã, Abraão e Hagar chegaram à presença de Sara… O pequeno Ismael gatinhava e sorria a todos. Abraão tinha um porte muito sério. Parecia que ia dizer algo importante. Mais tarde, deu a ordem de viajar. Não puderam dizer nem perguntar nada.

— Porquê? Para onde? — Perguntavam-se.

É óbvio que Abraão não fazia nada por si mesmo. Era uma Ordem Divina. Sara despediu-se …. O pequeno Ismael não compreendia nada ao despedir-se da primeira esposa do seu pai.

Passaram os dias e os meses. Os três benditos viajantes passaram por montanhas, dunas, desertos e rios. Por fim, chegaram aos desertos arábicos.

Abraão deixou Ismael sobre as areias do deserto. Olhou profundamente os olhos do seu filho. Ismael sorria apesar do calor abrasador, do Sol e das dunas abrasadoras. Abraão dificilmente podia suportar a dor de abandoná-los no deserto. Estava a ponto de romper a chorar. Olhou o seu filho pela última vez e depois, voltou-se e começou a andar.

Hagar estava confusa ao ver Abraão ir. «Onde podia ir? Junto a quem os deixava neste deserto? O que comeriam e beberiam? Quem os protegeria dos ataques dos animais selvagens?»

Hagar correu atrás de Abraão e perguntou:

— Onde vais, deixando-nos aqui?

A pergunta de Hagar desapareceu no vasto espaço do deserto. O Profeta Abraão (a.s.) andava sem olhar para trás. No seu interior desatava-se toda a classe de tempestades emocionais. Hagar continuou a correr atrás dele, deixando o seu filho atrás. Chamou-o outra vez:

— Senhor meu!

De repente calou-se. Compreendeu tudo. Era uma ordem de Deus. Quando Abraão ficou entre a ordem e os seus sentimentos, escolheu a ordem de Deus sem pensar nem um momento. Hagar perguntou outra vez:

— É uma ordem de Deus?

Sim, era uma ordem de Deus. Então, não restava mais alternativa que admiti-lo. Hagar compreendeu os senti-mentos de Abraão e disse para o consolar:

— No caso de ser uma ordem de Deus, sei que Ele está connosco. Podes ir tranquilo. Deus proteger-nos-á aqui!

Ismael olhou para trás, para o seu pai, até que desa-pareceu. Quando compreendeu que o seu pai se tinha ido, começou a chorar. A sua mãe chorava também assim como o seu pai atrás da duna. Os anjos não puderam suportá-lo mais e começaram a chorar. Todas as criaturas choravam pela triste cena… Os céus, a terra, as montanhas…

Abraão abriu as mãos e suplicou a Deus:

— Senhor Meu! Louvado sejas! Vês e ouves tudo no Universo! Deixei a minha família naquele vale árido em que não há nem uma folha verde, próximo da Tua Casa Sagrada. Estou seguro que és Aquele que os protegerá!

Ismael sorriu quando regressou a sua mãe. Hagar apertou o seu filho contra o seu peito. Caíram umas lágrimas sobre a cara luminosa de Ismael.

No deserto, a água é igual à vida e a falta de água é a morte segura. Passados uns dias, a água tinha termi-nado. Ismael começou a chorar de sede. Hagar levan-tou-se e começou a procurar água. Esperava encontrar um oásis no deserto. Viu uma duna mais à frente, a duna de Safa. Subiu a duna e olhou para o horizonte. Procurou uma pessoa, uma árvore ou um poço. Mas não havia nada no horizonte senão a nebulosa do calor. Desceu da duna de Safa e subiu à outra duna, a duna de Marwa. Olhou em seu redor mas os seus esforços para encontrar água foram vãos. Não havia nada senão vastos de areia.

Ismael chorava quando via que a sua mãe corria entre as dunas. Era muito difícil para um menino ficar sem água horas e horas. Mas era uma prova para Ismael. Deus queria que o Seu Mensageiro crescesse nas situa-ções mais difíceis. Sete vezes vagueou entre as duas dunas e por isso, os muçulmanos vão e vêm sete vezes quando realizam a Peregrinação para recordar os sentimentos de Hagar e compreender os sucessos desse dia.

Hagar estava muito cansada mas continuava a correr. Fazia um calor intenso. Ela chorava muito pelo seu filho, não por si mesma. Quem podia aguentar esta situação?

Os anjos começaram a chorar e suplicaram a Deus, o Misericordioso. Deus contemplava a cena também. Não há nada que permaneça em segredo para Ele.

A compaixão de todas as criaturas é uma gota no mar da Compaixão Divina. É óbvio que havia um segredo neste sucedido. Deus queria que os acontecimentos fos-sem bordados como uma epopeia nas páginas da história da humanidade. Queria que o ocorrido neste deserto, que estava muito longe da civilização, corresse de boca em boca, séculos e séculos. Queria que todo o mundo compreendesse o Milagre Divino. Era uma manifestação do poder de Deus. Quem é mais poderoso que Ele no Céu e na Terra? O mesmo Poder enviaria o Último Profeta, o Profeta dos Profetas (paz e bênçãos de Deus estejam com ele) no futuro.

O Todo-Poderoso enviou o anjo Gabriel à Terra. Quan-do o pequeno Ismael viu Gabriel, esqueceu-se da sede e começou a sorrir. Que belo era o anjo! Ismael chamava Gabriel com a mão; queria brincar com ele. Depois, co-meçou a golpear a terra com os seus pequenos pés.

De repente começou a brotar água de dentro das areias, da terra erma. Era um milagre! Não é Deus o Todo-Poderoso? Hagar tinha voltado junto a seu filho desesperançada, mas quando viu Ismael a brincar com a água, não soube o que fazer. A tristeza converteu-se em alegria, Abraão tinha confiado em Deus e mãe e filho beberam até se fartar. Cercaram a zona, sendo denominada, a partir desse momento, como o Poço de Zamzam.

Zamzam levou a vida à zona. Graças à água a erva começou a crescer na areia. Todo o vale se encheu de verdura. Dentro do deserto infernal nasceu um paraíso. Veio muita gente ver a água e a erva; construiu-se ali uma nova sociedade.

Passaram os anos, Ismael cresceu. Tinha treze ou catorze anos. Quando Abraão veio para visitá-los, viu a fecundidade que tinha trazido a água, e deu graças a Deus pelos seus benefícios abundantes. Abraão queria muito o seu filho Ismael, era um menino formoso. Toda a gente sabia que era um jovem decente e muito inteli-gente. Tinha boas qualidades porque era filho de um Profeta.

O nosso querido Profeta, o Profeta dos Profetas, o último Profeta Muhammad (s.a.w.) disse: «Se Deus quer alguém, põe-no à prova. As provas dos Profetas são as mais difíceis».

Agora, Deus preparava uma nova prova para Abraão e seu filho Ismael.

Um dia, pela manhã, Abraão e Ismael davam um passeio. Abraão ia dizer algo muito importante. Contar-lhe-ia o que tinha sonhado na noite anterior. Tinha uma expressão muito séria. Olhou nos olhos de Ismael e disse:

— Filho meu! Sonhei que tentava sacrificar-te, o que opinas acerca disto?

Que decência tinha o Profeta Abraão! Consultava o seu filho! Ismael sabia que o sonho dos Profetas era um tipo de Revelação. Olhou a cara do seu pai e disse:

— Meu Pai! Faz o que te for ordenado por Deus! Verás, por Deus, que sou paciente entre os pacientes.

Que prova tão difícil! Que obediência tão forte! Era a manifestação da confiança em Deus. Era o preço de ser o Pai dos Profetas.

Pai e filho despediram-se para se verem depois. Não puderam fazer nada senão aceitar a ordem. Quando Is-mael ia para o lugar da referência, Satanás apareceu-lhe:

— Estás louco? O teu pai vai sacrificar-te!

Quando Ismael viu Satanás, começou a apedrejá-lo e Satanás fugiu dali. Mais tarde, apareceu-lhe outra vez e disse o mesmo. Ismael apedrejou-o de novo. Desde este dia, quando os muçulmanos realizam a Peregrinação a Meca, apedrejam Satanás de maneira figurada. Ele não pode vencer Ismael, foi derrotado e foi embora. Não era possível vencer um Mensageiro de Deus!

Mais tarde, Ismael tinha-se posto contra o solo para o sacrifício. Toda a natureza os olhava; todas as criaturas tinham vontade de saber o que se passaria pouco depois. Viam a manifestação de uma obediência total. Era uma prova muito difícil para ambos. Quando Abraão aproximou a faca ao pescoço de Ismael, ouviu uma voz celestial: «Abraão! Isto prova que tens confiança e fé em Deus! Submeteste-te à Ordem Divina! Sacrifica este carneiro em lugar de Ismael!»

Abraão, Ismael, os anjos no céu e as criaturas na Ter-ra suspiraram de alívio, profundamente. Tinha terminado a Prova Divina e tinha sido superada. Era um dia festivo para todo o Universo. Este dia foi nomeado como a Festa do Sacrifício para os Muçulmanos. Neste dia, os muçulmanos sacrificam cordeiros e carneiros recordando a história do Profeta Abraão e seu filho Ismael.

Passaram os anos, Ismael cresceu e fez-se adulto, casou e teve filhos. A população dos arredores de Zamzam foi aumentando. O povo de Ismael venerava Deus ajudado pelas palavras que tinham aprendido dele.

Um dia, Abraão e Ismael saíram para dar um passeio. Abraão sorria. Deus tinha-lhes mandado construir a Caaba, a Casa Sagrada. Os dois Profetas começaram a trabalhar sem perder tempo. Construíram a Caaba sobre a base que tinha escavado Adão.

A Caaba, coração do mundo. A Caaba, a pupila do Universo. A Caaba, o lugar sagrado onde os anjos no céu e os muçulmanos no mundo realizam a circunvalação (tawaf) ao seu redor.

Os dois Profetas suplicaram a Deus quando construíram a Caaba: «Senhor Meu! Aceita-o de nós! Tu és Quem tudo ouve, Quem tudo sabe! Senhor Meu! Faz-nos dos que se submetem a Ti e faz de nossos descendentes uma comunidade muçulmana que se submeta à Tua Divindade, sendo os representantes mais notáveis da obediência ao teu Poder! Envia-lhes um Profeta que lhes leia os Teus versículos! Para que lhes ensine o oculto, os chame ao recto caminho, à pureza! Tu és a única fonte de sabedoria!»

Deus aceitou as suas súplicas e o Profeta Muhammad (s.a.w.) foi descendente directo do Profeta Ismael (a.s.). Ele foi o Grande Profeta e os seus crentes, o povo da Umma, são os crentes mais fiéis.

Um dia o Nosso Querido Profeta Muhammad (s.a.w.) dirigia umas palavras aos seus discípulos. Quando lhe calhou a vez de falar do Profeta Abraão (a.s.) disse: «Eu sou a súplica do meu pai Abraão; sou o filho de dois sacrifícios».

O primeiro sacrifício era o do Profeta Ismael e o segundo era o do seu pai Abdullah.

Tinham terminado a construção da Caaba. Abraão pensou pôr um sinal no princípio do tawaf. Podia ser um sinal em forma de rocha mas seria diferente das demais rochas da construção. Ismael procurou uma rocha dife-rente nas montanhas mas não pode encontrá-la. Quando regressou, viu uma rocha negra levada pelo seu cansado pai:

— O que é isso?

Hajar al-Aswad, a rocha negra, a rocha sagrada.

— Onde a encontraste?

— Os anjos trouxeram-na do Éden.

Colocaram a Hajar al-Aswad no seu lugar especial, num muro da Caaba.

Desde este dia, os muçulmanos vêm visitar a Meca, realizar o tawaf em redor da Caaba, beijar Hajar al-Aswad. Para além disso, caminham entre as dunas de Safa e Marwa recordando a história de Hagar. Depois, apedrejam Satanás como o Profeta Ismael fez. Ofere-cem sacrifícios, cordeiros e carneiros, para manifes-tar a obediência a Deus. Durante as rezas, voltam os seus rostos para a Caaba e, deste modo, rezam.

Dois anjos falavam, entre eles, no Céu. Falavam do senhor do Universo. O senhor dos senhores estava a ponto de nascer, em Meca, próximo da Caaba, nos arredores do poço de Zamzam. Outro Zamzam que daria vida às almas desertas estava a ponto de nascer. Um dos anjos disse ao outro: «Entendeste o mistério da vinda de Ismael a Meca? O mistério do sacrifício? O mistério da construção da Caaba? Tudo era para ele! Para Muhammad (p.e.c.e.) — o último Profeta de Deus!».

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Como o passado prova que o Islão pode ser parte da identidade Europeia?

24 de Agosto 2016, por Konstantin Manyakin

In: http://www.thenewfederalist.eu/how-the-past-proves-that-islam-can-be-part-of-european-identity

Tradução de: M. Yiossuf Adamgy

 

Apesar das alegações de crescimento das manchetes e de muitos políticos de direita em toda a UE argu-mentando que o Islão não pertence à Europa, não é tão estrangeiro quanto parece, uma vez que as comunidades muçulmanas já existiam na Europa durante vários séculos. Bósnios, Albaneses, e alguns Gregos e Eslavos Búlgaros, são nativos Europeus Muçulmanos cujos antepassados, através da inter-acção com as civilizações Árabes e Turco-Otomanas, se converteram ao Islão. O Islão também foi reconhecido no Império Austro-Húngaro. Mesmo Adolf Hitler tentou encontrar simpatizantes da ideologia racista Nazi entre os muçulmanos bósnios. Hoje em dia, as Mesquitas de comunidades de imigrantes na Europa Ocidental já converteram dezenas de milhares de pessoas de ascendência nativa.

Como o Islão, o Cristianismo também é de origem do Médio Oriente. Mesmo quando o Imperador Constantino, o primeiro a assinar o “tratado de Milão”, que reconheceu o estatuto social dos cristãos no Império Romano, este édito marcou o Cristianismo como uma seita de fé judaica, praticada pelos hebreus israelitas.

Como o Cristianismo e o Budismo, o Islão é uma religião universal e não é uma nação ou cultura, como os nacionalistas afirmam. Qualquer um pode converter-se a ele, não importa o seu passado ou origem, independentemente da afiliação religiosa dos muçulmanos na Europa e da sua cor da pele. A única questão que deve ser levantada e respondida é – por que é que grupos de extrema-direita e outros movimentos de islamofobia tratam os muçulmanos como estrangeiros?

Em primeiro lugar, antes da imigração massiva da África e da Ásia para a Europa Ocidental durante o século XX, a população religiosa no continente era predominantemente Cristã e, ao mesmo tempo, um número crescente de pessoas aderiram aos pontos de vista ateus ou agnósticos.

Em segundo lugar, até ao final do século, imigrantes e cidadãos de ascendência Turca, Árabe e do Paquistão / Bangladesh, eram socialmente, culturalmente e economicamente segregados em ‘guetos Europeus devido à exploração e ao racismo das massas’.

Em paralelo, os governos europeus não poderiam lidar com o elevado desemprego e os baixos resultados educacionais entre os jovens de origem estrangeira. Além disso, com as políticas de reconhecimento que permitiram que centros islâmicos fossem financiados a partir do estrangeiro, as comunidades muçulmanas tornaram-se ainda mais culturalmente alienadas sob a influência estrangeira. Portanto, as crianças muçulmanas que vivem na França ou na Alemanha são obrigadas a seguir os costumes e tradições de origem dos pais, em vez de se tornarem cidadãos alemães ou franceses integrados, praticando a fé islâmica. Tais condições só violam a universalidade do Islão e impedem-nos de se adaptar em sociedades da Europa Ocidental. Além disso, por causa dos valores patriarcais praticados nestas comunidades imigrantes isoladas, muitos acreditam erroneamente que o Islão suprime os direitos das mulheres.

Em comparação, em algumas sociedades islâmicas como o Irão e a Turquia, um grande esforço é feito para manter a taxa de alfabetização alta entre a população feminina e proibir a poligamia. Depois da Primavera Árabe, países como Egipto e Tunísia tentam alcançar a igualdade de género, como costumava ser no Ocidente cristão durante os séculos XIX e XX.

Por outro lado, a exclusão social em curso com más condições económicas nas cidades europeias, austeridade e desemprego de longa duração são os principais catalisadores da radicalização religiosa, não só entre os jovens de origem imigrante, mas também entre os muçulmanos convertidos de ascendência nativa.

Se o objectivo dos governos da Europa Ocidental é transformar ‘o Islão na Europa “em” Islão da Europa “e trazer a Bósnia, o Kosovo e a Albânia para a UE, as políticas de integração devem, cultural e linguisticamente, absorver centros islâmicos, escolas e mesquitas.

Por exemplo, quando uma pessoa alemã escolhe converter-se ao Islão, ele/ela têm que aprender os ensinamentos religiosos no idioma alemão em vez de turco ou curdo, e não devem abandonar seus/suas tradições e valores culturais. Financiar mesquitas europeias por parte da UE e governos locais pode diminuir a influência do Estado Islâmico, localizado no Médio Oriente, diminuir a oportunidade de radicalização entre os jovens e, por fim, convidar bósnios, albaneses e kosovares como pessoas culturalmente Europeias, para a união. A língua árabe pode ser usada com a finalidade de compreender o significado do Alcorão, que foi originalmente escrito no dialeto local da península Arábica, mas não para demonstrar as comunidades muçulmanas europeias como culturalmente estrangeiras.

Uma abordagem alternativa para fazer com que o Islão seja parte integrante da identidade europeia é possível, a longo prazo, como a história da fé Cristã provou isso. Nos primeiros séculos, quando o Cristianismo foi quase indistinguível do Judaísmo original, os seguidores gentios de messias Yeshua ha-Notzri (ou Jesus de Nazaré) tiveram que estrictamente praticar e aprender os costumes culturais, tradições e língua dos hebreus do Médio Oriente, conhecido hoje como povo judeu.

Apesar do número de seguidores de Cristo ter crescido rapidamente no Império Romano, ao longo de décadas, os cristãos gentios, eventualmente em menor número, tornaram-se mais dominante do que judeus cristãos originais. As igrejas foram perdendo os laços com o Médio Oriente e com as diásporas judaicas e, eventualmente, as reformas sociais e religiosas do imperador Constantino o Grande, no século IV finalizaram o processo. A assimilação cultural e linguística do cristianismo ou “seita judaica” na civilização romana/europeia foi concluída, apesar da fé Cristã ainda hoje abraçar valores religiosos judaico-abraâmicos.

Se o Islão Europeu segue um processo muito similar, então os ensinamentos religiosos do Profeta Muhammad (p.e.c.e.) tornar-se-ão uma parte espiritual da UE. Mesquitas europeizadas podem tornar- -se uma arquitectura notável de arte europeia e da história, da mesma forma como as Catedrais cristãs.

Talvez as mulheres muçulmanas europeias que também seguem valores sociais europeus, possam demonstrar-se como um excelente exemplo do Islão reformista, de igualdade de género e sucesso na educação, carreira e conquistas no desporto, política e ciência para congéneres que vivem em países muçulmanos fora da UE.

Em paralelo, há uma forte razão para evitar conflitos religiosos entre Muçulmanos e Cristãos, já que ambos acreditam no mesmo Deus (em árabe conhecido como Allah) e aderem aos mesmos Profetas, especialmente Jesus (conhecido como Issa no Islão), que é muito notável em ambas as confissões.

Finalmente, é importante ter em mente que a radicalização islâmica é tão hostil quanto o extremismo cristão, grupos de extrema-direita e movimentos ultra-esquerdistas, que diariamente abusam da democracia, direitos civis, liberdade de discurso e de expres-são na União Europeia e noutros países ocidentais. E os muçulmanos moderados, juntamente com outras confis-sões e grupos de direitos   cívicos, podem expressar a solidariedade em conjunto para proteger a democracia e a segurança europeia.

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Muçulmanos Hispânicos e os Efeitos de 11/09

Entrevistas – 25/08/2011 – Autor: Lyan Babylon – Fonte: Terra – Versão Portuguesa: Al Furqán, nº. 182

Hoje pode ter passado uma década desde a tragédia, mas o que não passou é a dor dos que perderam parentes no 11 de Setembro de 2001 e o ressentimento de outros.

Especial: os hispânicos superam os estereótipos no Islão

Com a tragédia de 11 de Setembro de 2001 a percepção sobre os muçulmanos nos Estados Unidos foi transformada. Imediatamente após os ataques, muitos americanos expressaram ressentimento contra este grupo religioso, mas hoje, 10 anos mais tarde, há um pouco mais de tolerância e a conversão ao Islão tem aumentado.

The New York Times diz que existem cerca de 200.000 hispânicos convertidos ao Islão a viver nos EUA. A maioria são porto-riquenhos, cubanos, dominicanos e mexicanos. Os números falam por si e mostram que o número de seguidores tem crescido após os mortíferos ataques na história dos EUA.

Embora inicialmente classificassem muitos muçulmanos como terroristas, existe agora uma maior consciência do problema. Nos EUA 20 mil pessoas convertem-se ao Islão em cada ano e é a religião que mais cresce em todo o mundo.

Wilfredo Ruiz Amr:

Ruiz, porto-riquenho que vive agora na Flórida diz que “a mesma notícia ruim e a má propaganda colocou o Islão em contacto com as pessoas.” “Desde 11 de Setembro, eu acredito que em qualquer jornal nacional não passam dois dias sem a palavra Islão ou muçulmanos aparecer em quaisquer de suas páginas. E na medida em que as pessoas estão vendo isso torna-se de interesse para saber mais sobre o Islão”, diz ele.

Amr Ruiz converteu-se em 2003, mesmo quando “os estereótipos estavam à flor da pele”, diz ele. O que o levou a buscar o Islão é que ele era um cristão não praticante e queria educar os seus filhos dentro de um quadro de fé. A sua família rejeitou-o e a sua mãe foi a mais relutante em aceitá-lo. Amr Ruiz tinha estudado toda a sua vida numa escola católica e sua mãe era um membro activo da Igreja Católica na sua comunidade.

“Disseram-me que eu estava errado, algumas pessoas disseram que o Islão não responde à nossa cultura e eu contestei dizendo de que país da América Latina era originário Jesus.”

Mas, eventualmente, a sua família aceitou pelo simples facto de que “as acções no Islão falam mais alto do que as palavras. Quando a minha família viu que não fumava, não bebia, rezava cinco vezes por dia, disse: que mal pode haver nisto”. Amr Ruiz afirma que os estereótipos contra os muçulmanos são em grande parte devido a equívocos instilados por pessoas de fora da religião.

Para além da crítica, Amr Ruiz não viveu qualquer situação mais grave, que não é o caso para todos os muçulmanos nos Estados Unidos depois de 11/09.

Khalid Salahuddin:

Khalid, que nasceu no Panamá, mas se mudou ainda criança com seus pais para a América, conta que um site antimuçulmano o acusou de apoiar a jihad ou guerra santa, luta extremista que levou Osama bin Laden a co-meter os actos terroristas de 2001. No entanto, apesar das alegações num artigo escrito num website não houve maiores consequências. “No meu trabalho o meu chefe disse-me que sabia que eu não estava envolvido nisso, por isso não o afectava”. A confiança das pessoas que gostavam dele foi instantânea e alguns ofereceram a sua ajuda, diz ele. Os seus conhecidos sabem o sentimento de Salahuddin relativamente aos ataques. “Isso foi uma desgraça, a verdade é que eu não podia acreditar que alguém que tivesse a mesma mentalidade que eu estava envolvido em alguma coisa. Quando eles fizeram isso deixaram de ser muçulmanos… A religião islâmica diz que se você matar uma só pessoa é como se matasse toda a raça da humanidade”.

Salahuddin disse que por causa das suas crenças, é muito difícil de acreditar que os ataques terroristas são um acto islâmico e que “só Deus sabe o que aconteceu.”

Roraima Aisha Kanar:

Roraima Aisha Kanar, cubana, concorda com Salahuddin. “Se eu tivesse viajado com meu marido (que tem um nome árabe) e ele tivesse estado naquele avião não o teriam acusado de ser um deles (terroristas)? E porque tenho eu de pensar que todos os que foram acusados e estão mortos hoje estavam envolvidos? “, diz ela.

Também relata que viveu na primeira pessoa a rejeição da comunidade após o 11/09. “Os que mais me julgaram foram os latinos, e como não sabiam que eu falava espanhol diziam coisas como, olha a pessoa que vem atrás de nós, anda rápido para não estar perto de nós, não sabemos o que pode acontecer.” No entanto, Kanar não ficava calada e dizia-lhes que não a julgassem pelo que não conheciam.

Mas isso não só aconteceu quando ela ia fazer compras ou saia fora de sua casa para qualquer tarefa, mas também com respeito ao seu trabalho. Kanar estava envolvida na venda de bens no momento e muitos clientes estavam distantes e constrangidos na sua presença. Mas Kanar disse que “nada pode ser alcançado sem paciência” e a sua atitude foi fazer com que as pessoas se sentissem confortáveis.

Quebrando os estereótipos:

Apesar de provenientes de outros países estas pessoas têm algo em comum: elas não estavam satisfeitas com o que lhes ofereceria o catolicismo. Kanar insiste que a Igreja Católica não forneceu respostas às suas perguntas. Além disso, refere que o que mais lhe chamou a atenção no Islão é que, diz ela, é uma religião cujo relacionamento com Deus é directo, sem intermediários, pois o seu comportamento, suas roupas e seu modo de agir é uma decisão pessoal ao aceitar o Islão como sua fé, e não algo imposto. Como muitos latinos tiveram que quebrar os estereótipos da sua família. Mas ao contrário do que alguns possam pensar, a sua mãe, uma católica praticante, não tinha pena que a sua filha não comungasse ou não assistisse à missa. “Um dia eu sentei-me com ela e ela disse-me que o que mais lhe doía é que eu não podia usar fatos de banho ou vestir roupas justas ou decotes como fazia antes”, diz ela. Mas para Kanar o próprio facto de as pessoas a valorizarem pela sua qualidade humana e não pelo que parecia foi um dos factores que a levaram a mudar de religião.

Kanar Amr Ruiz e Salahuddin concordam que a falta de aceitação para aqueles que não compartilham a fé cristã da maioria dos americanos é devida à ignorância. Um estudo realizado pelo Pew Hispanic Center diz isso, os hispânicos, especialmente os católicos, são o grupo com menos informações sobre sua própria religião e sobre as outras religiões, de acordo com a pesquisa nacional.

Hoje pode ter passado uma década desde a tragédia, mas o que não passou é a dor dos que perderam parentes no 11 de Setembro de 2001 e o ressentimento dos outros. Em 2 de Maio, o mundo testemunhou a forma como dezenas de pessoas nos Estados Unidos comemoraram a morte do autor dos ataques, Osama bin Laden. Mas, por anos, os muçulmanos nos Estados Unidos têm tentado dei-ar claro que o Alcorão condena qualquer acto terrorista e o que diz que mata em nome de Allah, mente.

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Crise Terminal do Capitalismo

Por: Leonardo Boff, teólogo e escritor. – Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/06/22/crise-terminal-do-capitalismo/

Crise terminal do capitalismo?

Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o génio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sútil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu, profeticamente, que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão económica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversida-de do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumos-sacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema económico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

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Afeganistão: 10 anos de morte

Conselho Português para a Paz e Cooperação – (conselhopaz@cppc.pt)
(in Revista Al Furqán, nº. 183, de Setembro/Outubro.2011)

7 de Outubro de 2011. Assinalam-se hoje 10 anos do início da agressão e ocupação do Afeganistão por parte dos EUA e da NATO. São dez anos de sangrenta e injustificável barbárie contra o povo afegão, que já causou dezenas de milhares de mortos e feridos e milhões de deslocados.

Ocorrida na sequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e sob o pretexto de ‘combater o terrorismo’, a agressão e ocupação do Afeganistão iniciou uma década em que o imperialismo, com destaque para os EUA, em conivência ou em aliança com outras potências e com a participação formal da NATO, elevou significativamente a sua agressividade e militarização, levando a cabo uma série brutal de ataques, invasões e ocupações em países soberanos, como o Iraque ou, mais recentemente, a Líbia – com o seu rol de centenas de milhar de mortos e estropiados e da degradação das condições de vida de milhões de seres humanos – numa estratégia de domínio global, de controlo de rotas e de recursos naturais, com destaque para os energéticos. Procurando assim, através da guerra e da usurpação da soberania e de recursos de outros povos, iludir ou encontrar uma (falsa) ‘saída’ para a profunda crise em que se encontra e para a qual arrasta o mundo.

Mas apesar de todos os seus esforços, longe de terem conseguido estabilizar a situação militar no terreno, as forças ocupantes no Afeganistão, que deveriam começar a retirada ao fim de uma década, anunciam agora a permanência por um período muito mais dilatado de tempo, num país destroçado, num contexto regional agravado e perante um futuro incerto.

De 2001 a 2011 assistimos a um novo recrudescimento da militarização das relações internacionais e da corrida aos armamentos protagonizada pelos EUA e seus aliados, que juntos representam mais de dois terços das despesas militares de todo o mundo. Agressão após agressão, renovam-se as ameaças de ingerência e agressão, como as que pairam sobre a Síria.

Assinalar cerca de 3650 dias de guerra no Afeganistão é denunciar e condenar a brutal violação de direitos humanos, a criação de autênticos campos de concentração, a prática da tortura, o sequestro e as prisões ilegais e secretas, a profusão de medidas atentatórias das liberdades e garantias dos cidadãos, o propagar do racismo, da intolerância e da xenofobia.

Assinalar os 10 anos de guerra no Afeganistão é denunciar e condenar a participação de Portugal na agressão e subsequentes missões na ocupação desse país, sinal de uma política externa subserviente aos interesses das grandes potências, dos EUA e da NATO, que de todo não está ao serviço dos interesses dos portugueses, bem pelo contrário, nem em consonância com a Constituição da República Portuguesa nem com a Carta das Nações Unidas.

É uma evidência para todos os amantes da paz que se impõe travar esta espiral de guerra e destruição que ameaça todo a humanidade. Por isso, assinalar uma década de guerra no Afeganistão é acima de tudo reafirmar a necessidade de lutar pela paz. A guerra não trouxe uma melhor vida, nem maior segurança para os povos. É tempo de afirmarmos uma vez mais a nossa profunda convicção que a luta dos povos pela paz é necessária, e que é ela que surgirá um mundo mais justo e fraterno.