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A crise financeira e os Muçulmanos

Por: Hajj Uthman Morrison e Hajj Abdassamad Clarke (11.10.2008)

O Arcebispo de Canterbury, Rowan Williams. Assumam: Marx estava parcialmente correcto no que respeita ao capitalismo. The Spectator Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008.

Crise? Qual crise?

Durante a passada semana, a Igreja de Inglaterra reuniu a sua artilharia pesada, na forma dos Arcebispos de York e Canterbury, tendo apontado ambas as armas para aquele que se entende ser o culpado da actual crise financeira mundial, em forma de um duo de “polícia bonzinho e polícia mau”, no qual o “polícia mau” (Canterbury) é tão bom que o polícia “bonzinho” (York) se vê forçado a agir de forma servil.

Foi uma homenagem eloquente aos poderes apazi- guadores dos condados ingleses, quando até um homem de discurso humilde do Uganda optou por se dirigir à reunida fraternidade de banqueiros internacionais num tom mais adequado a ser utilizado numa casa de chá de Harrogate, em vez do discurso inflamado de fogo que o seu consumo desenfreado de usura realmente merece.

Quando se começa a aproximar do final do seu discurso, percebemos que tudo aquilo não passara de um elegante preâmbulo de um pedido para obter parte dos lucros daquilo que o seu parceiro (Canterbury) acertadamente descreve no Spectator como sendo “…essa fortuna quase inimaginável [que] foi gerada por níveis inimagináveis de transacções de acções ficcionais, sem resultados concretos para além do lucro dos accionistas.” O nosso polícia mau talvez devesse notar que estas transacções só raramente envolvem algo realmente tangível como papel!

é agora que entra o nosso polícia “novato”, Norwich (que representa uma mesquita e não uma igreja). Limitando-se a citar as escrituras judaica e cristã, o representante de Canterbury continua a apresentar uma “negação orgânica” já com séculos, fa- zendo orelhas moucas às vozes mais claras e intrépidas de todas, as dos muçulmanos, que constantemen- te se surpreendem com a recusa, por parte dos seus colegas “seniores”, já “cansados desta vida”, em tra- zer os culpados à baila. No entanto, independentemente do quão frustrante esta realidade possa ser, a razão fundamental para essa opção é muito clara para nós. Que outra coisa poderíamos esperar de uma organização eclesiástica que aprovou cegamente as origens do mercado financeiro moderno aquando do próprio nascimento da era moderna, pactuando, dessa forma, com as suas acções? Que outra coisa poderí- amos esperar quando a Cristandade abandonou o próprio conceito de que Deus poderia ter uma palavra a dizer acerca da lei, relegando esse conceito para o judaísmo, que é tido como uma “antiga religião da justiça”. Visto que estivemos reunidos em oração na Mesquita de Norwich, noite após noite, durante o recentemente passado mês do Ramadão, escutando a récita integral do Alcorão por um jovem Imame inglês que o sabia de cor, recordamo-nos com um sentimento de infinita gratidão do facto de termos acesso imediato e constante a algo que os nossos colegas mais velhos não têm e que não são capazes de reconhecer – o Alcorão.

O Alcorão é a mais recente das várias revelações monoteístas, a última inovação a nível da orientação revelada e do aviso contra qual- quer forma de idolatria, uma “religião da justiça” mais recente, que teve como único objectivo esta fase final da história da humanidade, de modo a conduzirmos os assuntos da nossa vida da forma que mais nos convém neste mundo e no próximo.

Por esse motivo, e regressando ao caso dos banqueiros internacionais em particular e do capitalis- mo em geral, é do conhecimento de todos no mundo muçulmano e, cada vez mais, noutros círculos para além dele, que os “novatos” de Norwich têm tentado que a culpa não morra solteira ao longo dos últimos vinte anos. Tantas vezes apontámos que o rei vai obviamente nú, já descrevemos os seus pormenores mais feios, já lhe tirámos as medidas e já lhe oferecemos uma muda de roupa decente. Até agora, ele preferiu dar ouvidos à adulação dos seus amigos da Igreja e do Estado, mas o frio que vem da Wall Street está a começar a incomodar bastante. É por isso que agora, deixando-nos de ironias, voltamos a tentar. A pergunta que temos a fazer aos Arcebispos de Canterbury e York é a seguinte: O que aconteceu à religião do homem que baniu as trocas monetárias do templo? Ou, ainda mais apropriado, o que aconteceu à religião monoteísta que rejeitava a idolatria? Como é que aprovou a idolatria declarada do dinheiro e da ganância que define os tempos actuais? Concluímos que o dilema da Cristandade reside no facto de desejar fazer o que está correcto mas já não saber o que é correcto. Mas esta falta de clareza teve como causa o abandono da lei revelada, deixando a César o que é de César, apenas para que esses privilégios possam ser herdados pelos banqueiros que, muito claramente, manipulam a lei de modo a prosseguirem os seus próprios fins, servindo-se de qualquer César que lhes seja apresentado, seja ele Bush, Brown, Obama ou McCain – ou então, zelando pelos seus interesses directamente – o Sr. Paulson não seguiu logo do Goldman Sachs Investment Bank para o Tesouro norte-americano? Nada resta à Cristandade senão protestar à margem, tal como no caso do nosso polícia mau, ou ficar reduzida à adulação, como no caso do nosso polícia bonzinho.

“Ajudemos os comerciantes a estabelecer as suas barracas no templo, que talvez eles sejam suficientemente generosos para nos deixarem algum para a manutenção do templo e para algumas boas acções.” É esta situação impossível que tornava necessária a revelação do Alcorão e a prática do Profeta Muhammad (p.e.c.e.), de entre as religiões reveladas, mantém uma percepção perfeitamente clara daquilo que não é permitido na prática comercial, isto é, a usura, a acumulação e o aviltamento de preços.

Actualmente, a proibição que o Islão impõe à usura é conhecida até pelos não-muçulmanos com um nível de educação médio. Articula igualmente um conjunto perfeitamente coerente de práticas comerciais lucrativas permitidas, incluindo formas de associação, partilha de lucros, partilha de colheitas, etc, e que foram suficientemente eficazes para manter uma civilização global vigorosa durante um milénio, até que a ganância e a ingenuidade insensatas fez com que os muçulmanos se tornassem presa fácil da malícia de homens ardilosos com livros de cheques, que ofereciam quantias astronómicas de dinheiro, as quais apenas poderiam ser conseguidas recorrendo a meios não naturais.

No entanto, para a era moderna a palavra “usura” causa preocupação. Pensamos logo em Shylock e no anti-semitismo, e se formos ao dicionário consultar o significado, apenas a encontramos definida como sendo “um juro excessivo ou exorbitante sobre um empréstimo”, a menos que consultemos o dicionário etimológico, onde a encontramos definida como sendo “qualquer juro sobre um empréstimo”. A definição moderna é, claramente, problemática, uma vez que aquilo que é exorbitante é essencialmente uma questão de moda, tendo sido estabelecida no tempo de Calvino como sendo qualquer coisa acima dos 4%, sendo que actualmente pode ter quase qual- quer valor. Não existe, provavelmente, melhor ilustração da relação autêntica do Islão com as religiões que o precederam do que esta questão do comércio, da qual s

e pode claramente concluir que o Islão é a confirmação daquilo que era verdadeiro nas revelações anteriores.

O indivíduo com conhecimentos e interesse na história, uma espécie em vias de extinção, irá descobrir que interdições idênticas às do Islão contra vá- rias práticas comerciais que se tornaram comuns hoje em dia, constituíam igualmente violações da lei co- mum, que foram simplesmente eliminadas aquando da ascensão da ordem comercial dos nossos dias, como por exemplo:

MONOPOLIZAR: comprar a totalidade de um bem de forma a controlar os preços, obtendo monopólio. Esta é a própria base das cadeias de super e hipermercados. O facto de serem várias organizações e não apenas uma entidade única a monopolizar o co- mércio não nos serve de grande consolo, quando nos encontramos oprimidos pela sua depredação.

ANTECIPAÇÃO À VENDA: o acto de ir ao encontro dos negociantes antes de estes terem os seus bens no mercado. Outra base fundamental dos supermercados, que pelo simples facto de possuírem exclusividade no mercado para o qual os comerciantes estão a levar os seus bens, já não precisam de antecipar a venda dos comerciantes.

AVILTAMENTO DE PREÇOS: vender deliberadamente produtos a preços mais baratos que os seus concorrentes, de forma a retirar o negócio aos concorrentes e aniquilar-lhes o negócio. Esta é uma forma de barbárie que não permite a existência de um mundo onde todos têm o direito a comer.USURA: significa, literalmente, “aumento”; em geral, qualquer aumento não justificado que reverte em prol de uma parte e que resulta de uma venda, e em que esse crescimento fica estipulado no negócio. O pagamento de juros é um exemplo óbvio. Esta definição de usura foi deitada por terra pela velocidade com que as finanças modernas conceberam meios e formas de conseguir algo a partir do nada, ou de conseguir mais do que emprestaram, sem esforço algum, quando a soma emprestada não passou de uma mera introdução de dados num terminal de computador. Eles chegaram a extremos tais que os instrumentos do mundo financeiro moderno são simples- mente incompreensíveis até para os economistas e banqueiros mais entendidos e com grande experiência no seu ramo, estando quase exclusivamente na mão de programadores informáticos de grandes conhecimentos e de teóricos da matemática.

Esta situação teve como consequência a criação do clássico efeito de “bolha” e os colapsos seus decorrentes, a recessão e a depressão (já para não falar na inevitável inflação), que têm acompanhado o capitalismo-usura desde a sua origem, em proporções exponenciais, a tal ponto que as pessoas perguntam não se vai haver uma recessão, mas sim se é desta que se vai dar o “crash” final e inevitável.

Um dos axiomas fundamentais no qual a pseudo-ciência dos economistas se baseia inclui conceitos com nomes pomposos tais como “lei da oferta e da procura” para criar a ilusão de que é algo comparável à lei da gravidade. Esta é uma das suas verdades axiomáticas (ou seja, inquestionáveis) que não precisam de mais provas. Mas a lei da oferta e da procura está longe de ser axiomática. Com efeito, muitas sociedades, durante largas épocas da sua história, não confiaram nela de forma alguma. Mercadores, agricultores, pastores e artesãos sabiam os preços das matérias-primas, do trabalho e os outros custos, e marcavam os preços dos bens finais ou produtos hor- tícolas dentro de limites bem definidos, dentro dos quais um nível comum de vendas lhes garantiria viver razoavelmente bem. A ideia de que se deve cobrar uma elevada quantia por um produto devido ao facto de este ser procurado leva à conclusão lógica de que, quando há fome, se pode cobrar uma fortuna por comida, o que é totalmente imoral. A situação actual representa o extremo lógico desta imoralidade. As pessoas que se tornaram obscenamente ricas através dos ganhos decorrentes dos negócios e da gestão de fundos especulativos (que são eles próprios múltiplos de várias ordens do valor monetário do PIB total a nível mundial, de acordo com esta nova perspectiva de “ficção cientifica” da economia) procuram, cons- tantemente, utilizações rentáveis nas quais possam investir o seu dinheiro imaterial e ilusório, e por isso compram, vendem e especulam entre si pelos bens: ouro, petróleo e, actualmente, comida, e é por isso que assistimos a uma subida dos preços.

A oferta e a procura não são uma lei, mas sim um abuso estratégico do mercado. As coisas têm o seu valor e o lucro tem o seu limite natural. Esta “lei” falaciosa é apenas mais um exemplo da economia enquanto pseudo-ciência, criada a fim de justificar o roubo.

Para os ocidentais da classe média esta situação já é suficientemente má, ainda que não passe de um constrangimento, mas para os pobres, seja em que parte do mundo estiverem, é uma questão de vida ou de morte. Tendo em conta o que acima foi referido, é obvio que a crise actual é apenas a ponta do iceberg, cujas causas são um enorme número de teorias e práticas injustas e inaceitáveis, que constituem elas próprias manifestações de uma ganância extrema que ultrapassou todos os limites razoáveis e, possivelmente, constituem a causa que irá conduzir à destruição da biosfera e o sistema que se esconde por detrás do assassinato de mais de um milhão de iraquianos e dezenas de milhares de afegãos no vigente e falaciosamente denominado “combate ao terrorismo”, que seria melhor descrito pela expressão “combate terrorista” e que apenas os incorrigivelmente ingénuos crêem ter como objectivo a democratização do Médio Oriente.

Portanto, restam-nos poucas opções. Podemos ficar nas margens a dar à cabeça em sinal de reprovação, tal como os arcebispos de Canterbury e York, estando perfeitamente conscientes que seremos acei- tes desde que não procuremos de forma séria contra- riá-los no exercício do poder de forma substancial. Tal constituiria, então, aval de todo o empreendimento, exactamente como o bobo da corte que era o único a quem era permitido troçar do rei, de forma a desarmar as ambições da corte. Uma válvula de segurança. Poderíamos encetar uma campanha para pôr fim a esta loucura. No entanto, se o fizéssemos, isso seria um esforço redundante, uma vez que, de acordo com a nossa perspectiva actual, os financeiros e os banqueiros têm feito um excelente trabalho no que toca a pôr fim aos seus próprios negócios, ainda que possam arrastar com eles os últimos remanescentes da civilização. Pela mesma razão, não vemos qual- quer vantagem em desenvolver uma luta armada, uma vez que eles já bateram toda a gente no que toca à opção da violência. No que toca às urnas, só precisamos de olhar para os “Césares” que referimos anteriormente para sabermos o que esperar do voto. A própria proposição de que o indivíduo se encontra a tomar uma opção com significado, quando lhe são apresentados conjuntos de candidatos cujas perspectivas acerca da vida e cujas políticas são indistintas, é risível. Não, a segurança e a protecção são apanágio daqueles que optam pela sanidade e compreendem o comércio não com invenções da imaginação, mas com produtos e bens reais, sendo acompanhados de modos aceitáveis de transacção.

Mas a loucura que decorre da atribuição de números a abstracções através de mecanismos duvidosos, na crença de que tal lhes confere valor, deve ser entendida enquanto tal.

Aqueles que desejam adoptar a sanidade terão de reaprender o que é uma transacção justa, porque isso já não é obvio – e terão de se empenhar duramente para aprender o que é a injustiça, pois, tal como já vimos, abrir a porta à injustiça abre a porta à ga- nância, abrir a porta à ganância abre a porta à idolatria e abrir a porta à idolatria abre a porta à loucura. Muitos dos elementos essenciais que são sãos e conduzem à sanidade fizeram, no passado, parte da herança da Europa, herança essa que o continente, em larga medida, abandonou, mas eles estão presentes na última revelação do Divino, o Alcorão, e na concomitante prática do Profeta Muhammad, que a paz esteja com ele, e nas primeiras gerações do Islão, que confirmam aquilo que era genuíno nas anteriores revelações e tudo aquilo que é sadio na vida humana.

Estes dois aspectos voltam a surgir juntos através do elevado número de europeus e ocidentais que abraçam o Islão, procurando, dessa forma, com se- riedade um caminho por onde a humanidade possa avançar e sair de uma época de trevas. No entanto, quando tudo já foi feito e dito, aquilo que permanece perfeitamente claro é que nem a Igreja nem a Sinagoga nem o Estado possuem a vontade, o método ou a coragem para enfrentar as consequências de optar pela sanidade, pois entre outras coisas que inicialmente seriam desagradáveis, tal implicaria a adesão à refrescante sabedoria dos “novatos”, assim como o reconhecimento da fonte desse saber – O Alcorão e o Profeta Muhammad, que a paz esteja com ele.

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Mensagem do Vaticano relativamente à ‘Id al-Fitr

Da autoria de Monsenhor Michael L. Fitzgerald
Pres. do Cons. Pontífice para o Diálogo Religioso
sexta-feira, 12/11/2004

Caros amigos Muçulmanos,

Agora que se preparam para festejar o fim do mês do Ramadão, com a celebração da ‘Id al- Fitr, uma vez mais, como faço anualmente, apresento-vos os melhores votos do Conselho Pontífice para o Diálogo Inter-Religioso, ministério de Sua Santidade, o Papa, para as relações com pessoas de outras religiões. Nas suas preces, muitos foram os Cristãos que pensaram em vós e vos acompanharam neste período de jejum, o qual ocupa uma posição tão importante na vida da vossa comunidade. Logo que possível, vós ensinais aos vossos filhos a respeitarem este mês de jejum, assim desenvolvendo neles o sentido de Deus, a submissão à religião e, ao mesmo tempo, a vontade e o domínio de si mesmo. Deste modo, a família constitui o lugar de excelência para a educação religiosa inicial dos vossos filhos.

Hoje, gostaria de chamar a atenção para as crianças em geral e para o acolhimento que estas deverão receber, nas diversas etapas da sua vida, por parte dos seus pais, da sua família e de toda a sociedade. A criança tem o direito imprescindível à vida e, dentro do possível, de ser acolhida por uma família natural e estável. Do mesmo modo, tem o direito de ser alimentada, vestida e protegida. Além disso, tem o direito de ser educada, de modo a que todas as suas capacidades se desenvolvam e, mais tarde, ela própria proceda a esse mesmo desenvolvimento. Nesta perspectiva, a criança tem o direito a receber tratamento, caso adoeça ou seja vítima de algum acidente. A vida da criança, assim como a vida de qualquer outro ser humano, é sagrada.

Vós entendeis as crianças como uma benção de Deus, especialmente para os pais das mesmas. Nós, Cristãos, partilhamos desta mesma perspectiva religiosa. Mas, a nossa fé Cristã, ensina-nos também a descobrir na criança um modelo para as nossas relações para com Deus. Jesus indicou-nos, como exemplo, a simplicidade da criança, a sua confiança, a sua docilidade, a sua alegria de viver, dizendo-nos, assim, que devemos viver numa submissão confiante em relação a Deus, vendo n’Ele um Pai.

Nos últimos anos, e em diversas ocasiões, encontrámo-nos lado a lado em várias instâncias internacionais, onde confirmámos ou defendemos os valores humanos e religiosos fundamentais. Muitas vezes, o que estava em causa era a defesa dos direitos dos mais fracos, especialmente os da criança, desde o momento em que esta é concebida, até ao momento em que nasce.

Se pelo em diversas partes do Mundo, e relativamente a determinados aspectos, a criança beneficiou do respeito para com os Direitos do Homem, ela continua, todavia, a ser vítima de diversos males. Muitas são as crianças ainda sujeitas a trabalhos penosos, os quais comprometem o seu desenvolvimento físico e psicológico, impedindo-as de frequentar a escola e receberem a instrução a que têm direito. Muitas outras são recrutadas e envolvidas em guerras e conflitos. E foi nelas que o aumento dos abusos sexuais e da prostituição, verificados nos últimos anos, encontrou as suas principais vítimas. A criança tornou-se, principalmente, a nova vítima de determinadas mutações verificadas nas nossas sociedades. De facto, quando a família se separa, é a criança a primeira a sofrer. O desenvolvimento do tráfico e o consumo de droga, especialmente em países pobres, faz-se, muitas vezes, às suas custas. O ignóbil tráfico de órgãos humanos atinge particularmente as crianças. Frequentemente, a tragédia da Sida faz delas pequenos seres contaminados assim que nascem.

Face a todos estes males que atingem as nossas crianças, prezados amigos Muçulmanos, devemos unir esforços, recordando a dignidade de todo o ser humano, cuja existência é da vontade do próprio Deus, denunciando ininterruptamente tudo aquilo que degrade a criança e lutando, com todas as nossas forças, contra estas “estruturas de pecado”, citando, aqui, uma expressão utilizada pelo Papa João Paulo II. Temos perfeita consciência de que o futuro de toda a Humanidade depende do futuro das crianças. Assim sendo, espero que a nossa cooperação ao serviço das crianças continue e, inclusive, se desenvolva, proporcionando, assim, à Humanidade de hoje, uma das provas do carácter benéfico da religião para toda a comunidade humana.

Que neste mês do Ramadão, possam as vossas crianças sair fortalecidas com o cumprimento de obras be- néficas! Que elas aprendam, também, a resistir às felicidades ilusórias e aos prazeres efémeros, de modo a conquistarem uma liberdade interior e a melhor se submeterem a Deus! Que elas concedam, assim, um testemu- nho da importância dos valores religiosos! Uma vez mais, afirmo a minha oração a Deus Todo-Poderoso e Misericordioso, por vós e pelas vossas crianças em particular. Que Ele derrame sobre vós as Suas benções, fortifique as vossas famílias e as torne magnânimas e que Ele conceda, a cada um de vós, a Sua paz!

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Desafio Islâmico na Era da Informação

Excertos da conferência da oitava Cimeira OIC, em Teerão.

O Dr. Mahathir Muhammad, Primeiro Ministro de Malásia, advertiu o Mundo Islâmico que eles poderiam eventualmente perder a sua fé, identidade e modo de vida se não participarem no desafio da Era da Informação e globalização.

Ele disse que se os Muçulmanos insistirem em não participar no conhecimento nestas áreas, podem estar certos de que eles e a sua religião estariam sob constante ataque e seriam para sempre isolados. é importante que apreciemos estas poderosas forças que se estão a juntar à nossa volta, forças que na sua maior parte nos são hostis.

Se comprarmos estas capacidades deles, então, será como adquirir a nossa capacidade de defesa através deles …, disse o Dr. Mahatir. Afirmou que o Mundo Islâmico estava a testemunhar duas revoluções simultâneas uma revolução tecnológica e uma revolução no conceito do relacionamento entre as nações referidas como globalização.

Quer gostemos delas quer não, elas cercar-nos-ão tanto ou mais do que a Revolução Industrial. Felizmente, que os nossos detractores são tão novos nessas mudanças como nós. Estão a juntar-se em torno delas através da labirinto do conhecimento e potencialidades que a Tecnologia da Informação e a queda das fronteiras criam. disse ele.

O Dr. Mahathir acrescentou que os Muçulmanos não estavam tão atrasados nestes campos e que, de facto, alguns até eram pioneiros e contribuintes das novas capacidades, conhecimentos e conceitos de relações internacionais.

Temos uma oportunidade de jogo do eixo sobre a Era da Informação e mundo global e de estar ao mesmo nível que os outros. Infelizmente, parece que estamos como que a perder outra vez esta oportunidade de actualização, disse ele.

O Primeiro Ministro disse que se a Comunidade Muçulmana não conseguir acompanhar esta Era, haverá tais desvantagens que perderá a esperança, tornar-se-á desesperada e acabará por fazer coisas que seriam a sua derrota e re-subjugação.

A velocidade e facilidade de viajar, das telecomunicações, das tecnologias multimédia e a difusão da informação tudo isso expor-nos-á a tudo que está a acontecer à nossa volta. Eles podem minar a nossa fé ou podem empurrar-nos para o extremismo auto-destrutivo ou para a rejeição, acrescentou ele. O Dr. Mahathir exortou os países Muçulmanos a porem de parte as suas diferenças a fim de apresentarem uma frente unida contra as ameaças combinadas contra eles.

Não devemos nós próprios sermos os nossos inimigos. Embora, vejamos em tantos países Muçulmanos, guerras fratricidas e instabilidades que tornam a maior parte dos nossos governos impotentes, tanto para desenvolver e competir com os nossos detractores ou mesmo governar efectivamente. Disse que as quezílias e ambições pessoais pelo poder acabavam por desmembrar a administração governamental, deixando-a incapaz de acorrer às necessidades do povo. Como resultado, os países Muçulmanos ficaram grandemente subdesenvolvidos e a Ummah Muçulmana pobre, impotente, sem instrução e incapaz de contribuir positivamente para o bem estar dos Muçulmanos, da sua fé e dos seus países, disse.

Disse que, pela graça de Deus, a maior parte dos países Muçulmanos tinham à sua disposição ricos recursos mas não eram capazes de os aplicar correctamente, para servir e defender o Islão e os países Islâmicos contra aqueles que em voz alta confessam não gostar dos Muçulmanos e da sua religião. Tal é o estado dos nossos países, que o melhor do nosso povo emigrou e contribui para a riqueza do conhecimento e capacidades dos países em que vivem, muitas vezes países estes que nos são hostis. Não temos facilidades para oferecer a estas pessoas talentosas e as condições nos nossos próprios países não são adequadas para a aplicação das capacidades que elas possuem, e nós estamos deveras ocupados nas nossas muitas quezílias para tratar das suas necessidades, disse ele.

Descrevendo o presente sistema e conceito de democracia de estilo Ocidental como não melhor do que seus estados feudais teocráticos que os precederam, o Dr. Mahathir disse que os seus costumes podem ser diferentes mas o objectivo e os resultados finais eram os mesmos.

Ele disse que não devemos esquecer que foram eles a inventar a inquisição. Eles agora não queimam as pessoas no fogo mas o inferno económico que eles colocam debaixo e à volta de suas vítimas não é menos assustador. É ainda retratado, submeter ou ser liquidado disse ele. Assim, Mahathir disse que os países Muçulmanos não precisam inventar sistemas de governo porque os sistemas nunca poderiam ser aperfeiçoados nem ser garantia de boa governação.

O que cria uma boa governação é a qualidade do povo confiante no governo da nação. Para a boa qualidade, somente precisamos reverter aos ensinamentos da religião Islâmica os verdadeiros ensinamentos – não os ensinamentos que são interpretados para justificar o que estamos a fazer, certo ou errado, bom ou mau, disse.

O Dr. Mahathir disse que se os Muçulmanos não estiverem certos do que significavam os verdadeiros ensinamentos, eles somente precisam perguntar a si próprios algumas questões. Advoga o Islão a guerra e violência entre Muçulmanos quer como grupos ou seitas ou nações? Advoga o Islão a opressão ou o povo pelo governo ou a destabilização e subversão dos governos através de actos irresponsáveis do povo?

Advoga o Islão a rejeição da boa vida no Além, ou o Islão prega hassanah (bem-estar) neste mundo e no akhirah (Além)? disse ele.

Mais perguntou o Dr. Mahathir se os Mu- çulmanos poderiam verdadeiramente dizer que era o seu dever religioso serem pobres, sem conhecimentos e capacidades para se- rem capazes de defenderem a Ummah contra seus detractores e opressores?

Será que o Profeta (Muhammad s.a.w.) dependeu da riqueza e capacidades dos seus seguidores ou teria o Profeta comprado arcos e flechas, espadas, cavalos e camelos daqueles cujo manifesto objectivo era enriquecerem eles próprios, ou pior ainda, destruir os Muçulma- nos e o Islão? Ele disse que os Muçulmanos sabiam as respostas a todas estas perguntas e contudo não se preocupavam em seguir as respostas Islâmicas a elas.

Contudo, nós combatemos uns com os outros sobre diferenças mínimas na expressão da fé. Onde os Muçulmanos vivem em paz e na unidade, nós dividimo-los e causamos a luta entre eles por causa das diferenças criadas nas nossas práticas do Islão. O Islão é a religião da paz, irmandade e da flexibilidade, juntou ele.

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A dupla moral do Ocidente

Emir Sader

Quatro dos mais conhecidos intelectuais ocidentais divulgaram uma carta denunciando o que chamam de ‘moral dupla do Ocidente’ em relação ao que vem acontecendo no Médio Oriente, no conflito entre Israel e Palestina. Noam Chomsky e os escritores Harold Pinter, José Saramago e John Berger assinam o texto que denuncia ‘uma prática militar, económica e geográfica de longo prazo, cujo objectivo político é nada menos do que a extinção da nação palestina’. A íntegra do documento é a seguinte:

‘O último capítulo do conflito entre Israel e Palestina começou quando as forças armadas israelitas seqüestraram dois civis, um médico e seu irmão, em Gaza. Um incidente que teve escassa repercussão nos meios de opinião de qualquer parte do mundo, com excepção da imprensa turca. No dia seguinte, os palestinos tomaram como prisioneiro um soldado israelita – e propuseram libertá-lo negociando um intercâmbio de prisioneiros em mãos dos israelitas. Há aproximadamente 10 mil palestinos detidos nas prisões de Israel’.

‘Que este ‘seqüestro’ seja considerado uma atrocidade, enquanto que a ocupação militar ilegal da Cisjordânia e a apropriação sistemática dos recursos naturais dos palestinos – principalmente a água – por parte das forças armadas israelenses é considerada um facto da vida, lamentável mas realista, é típico da dupla moral que com freqüência emprega o Ocidente frente ao que ocorreu aos palestinos, na terra que lhes foi adjudicada mediante acordos internacionais, durante os últimos setenta anos’.

‘Hoje, a uma atrocidade segue-se outra atrocidade; os mísseis improvisados se cruzam com outros sofisticados. Estes últimos, em geral, encontram o seu alvo onde vivem os pobres despossuídos e morando empilhados, esperando o que alguma vez se chamou Justiça. Ambas categorias de mísseis dilaceram corpos de maneira horrorosa – quem senão os comandantes de campo podem esquecer isto por um momento?’

‘Cada provocação e contra-provocação é objectada e dá lugar a um sermão. Mas todos os argumentos, acusações e promessas subseqüentes servem como uma distração para desviar a atenção mundial de uma prática militar, económica e geográfica de longo prazo, cujo objectivo político é nada menos do que a extinção da nação palestina’.

Isso deve ser dito em voz alta e clara já que a prática, declarada somente metade das vezes e freqüentemente encoberta, avança a passos acelerados nestes dias e, em nossa opinião, é preciso reconhecê-la constante e eternamente como o que é, e opor resistência a ela’.

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Atitudes ocidentais face ao Islão

in Mundo Islâmico – Esplendor de uma Fé, de Francis Robinson – Círculo de Leitores

Durante grande parte dos últimos 1300 anos, os Europeus têm considerado o Islão como uma ameaça. Os cristãos devotos sentiram-se ameaçados por uma fé que reconhecia um único Deus como Criador do universo, mas que negava a doutrina da Trindade, que aceitava Cristo como Profeta nascido de uma virgem, mas que negava a sua divindade e a crucificação; que acreditava num Dia do Juízo, no Céu e no Inferno, mas que parecia considerar o sexo como a principal recompensa no paraíso; que considerava a Bíblia cristã como palavra de Deus, mas que conferia a autoridade suprema a um Livro que parecia, em grande parte, negar os seus ensinamentos.

Os Estados cristãos sentiram-se ameaçados pelo êxito do poderio muçulmano, que penetrou no coração da França no século VIII, explorou as profundezas da Europa Central nos séculos XVI e XVII e, durante quase mil anos, patrulhou os flancos sul e leste da cristandade. Mesmo nos séculos XVIII e XIX, quando a sorte já tinha mudado e o poderio europeu se espalhara por todo o mundo, os muçulmanos eram ainda vistos como um perigo, desta vez para a segurança do império europeu.

Factos como este influenciaram as atitudes dos Europeus em relação ao mundo Islâmico, incentivando, entre outras coisas, um antagonismo duradouro e uma relutância em compreender a visão Islâmica da forma como a vida deve ser vivida: ao mesmo tempo, a civilização característica formada por esta visão era avaliada menos por si própria do que como contraste em relação ao qual se podia discernir e identidade europeia e medir as suas realizações.

Desde o início, as atitudes europeias foram fundamentalmente hostis. Os primeiros europeus, separados dos principais centros da civilização Islâmica pelo Império Bizantino, construíram uma imagem vaga e fantástica do Islão com base em fontes bizantinas: “era uma heresia derivada dos ensinamentos cristãos que o monge Bahira fora forçado a revelar a Maomé; o Corão fora entregue ao povo sobre os chifres de um touro bran- co; o Profeta era um feiticeiro cujo êxito se devia, em grande parte, à revelação, por ele proclamada, de que Deus aprovava a liberdade sexual”.

No entanto, a partir do início do século XII e da época da Primeira Cruzada, desenvolveu-se uma apreciação bastante mais séria, marcada pela tradução do Corão para latim e inglês, feita em 1143 pelo erudito inglês Robert de Ketton. Nos séculos XIII e XIV, os Europeus passaram a dar ênfase a dois aspectos do seu conceito mais esclarecido do Islão. O primeiro era até que ponto se podia dizer que o Corão corroborava o Evangelho. O segundo cuja lógica é duvidosa quando combinado com o primeiro era um ataque ao estatuto de Maomé como Profeta. Como podia um homem que não fizera milagres e que, segundo a lenda cristã, mentira e vivera em deboche ser profeta de Deus?

Dois aspectos desta mensagem foram destacados como alvos da polémica cristã; o suposto apoio dado pelo Islão ao uso da força (embora também os cristãos se lançassem em guerra santa) e a liberdade sexual de que se julgava gozarem os muçulmanos nesta vida, aliada ao êxtase sensual que lhes era prometido na próxima.

(…)A grande polémica medieval contra o Islão continuou a desenvolver-se durante o Renascimento e a Reforma e até ao século XVIII. Polidoro Virgílio, paradigma do saber histórico do Renascimento, limitou-se a repetir as acusações medievais: Maomé era um mágico, fora ensinado por um monge cristão, a sua heresia espalhara-se pela violência e pela promessa da aprovação divina em relação aos excessos sexuais, etc. … De entre as acusações destaca-se a de Maomé ser um impostor.

(…)A imagem do Profeta era de tal maneira negativa que se converteu em metáfora vigorosa a utilizar na polémica europeia. Assim, Lutero, colocava a Igreja Católica Romana ao lado da heresia de Maomé, considerando-a obra do Diabo na Cristandade, e Voltaire, atacando todas as religiões de revelação através do exemplo do Islão, fez cair o pano sobre a sua tragédia Le Fanatisme, ou Mahoumet le prophète, com um Maomé moribundo, pedindo ao seu sucessor que escondesse a sua maldade dos muçulmanos, para que não destruísse a sua fé.

A partir do século XVIII, contudo, a base para uma compreensão mais alargada do Islão começou a tomar forma. Na Europa, a revelação cristã estava a perder a sua vasta influência sobre os homens, e embora os velhos preconceitos ainda se mantivessem nos espíritos secularizados, esta mudança permitiu cada vez mais aos Europeus aperceberem-se de outras formas de percepção do mundo e até de sentirem afinidade com elas.

Ao mesmo tempo, a atitude das potências europeias para com as do Mundo Muçulmano ia passando do medo real da ameaça Otomana para uma igualdade confiante, à medida que tanto o Império Otomano como o Safévida e o Mogol entravam em declínio. Em finais do século XVIII, os Europeus sentiam-se inseguros de si nas relações com as potências muçulmanas, mudança esta simbolizada pela dramática invasão e ocupação do Egipto pelos Franceses, em 1799. Além disso, esta confiança continuou a crescer ao longo do século XIX quando Russos e Holandeses se aliaram aos Ingleses e Franceses para conseguirem exercer contrôle sobre os povos muçulmanos, até que em 1920, pelo Tratado de São Remo, mais de três quartos do mundo Muçulmano se encontrava sob domínio europeu. À medida que os Europeus se começavam a libertar da visão cristã medieval do mundo, que iam conhecendo mais muçulmanos e tendo um conhecimento mais aprofundado da sua civilização, tornou-se possível uma maior compreensão do Islão.

No entanto, entre as atitudes que se desenvolveram a partir do século XVIII, a velha atitude inflexível manteve a sua importância. Aproveitando as oportunidades proporcionadas pelo Império, os missionários Cristãos trabalharam como nunca entre os povos Muçulmanos, e embora alguns deles, como o bispo Heber e o Dr. Livingstone, tivessem alguma simpatia para com os Muçulmanos, outros voltavam facilmente a cair no padrão tradicional de preconceito cristão.

(…) De facto, os termos “muçulmano” e “fanático” tornaram-se quase sinónimos para os europeus que depararam com a resistência muçulmana em sítios tão distantes uns dos outros como a Argélia, a Índia e a Indonésia; durante a grande expansão europeia do século XIX, a imagem do Islão como religião “violenta” ganhou força, à medida que aumentava a resistência Muçulmana ao domínio europeu sobre o mundo: “A espada de Maomé e o Corão”, afirmava Sir William Muir, “são os mais persistentes inimigos da civilização, da liberdade e da verdade que o mundo jamais conheceu”.

Não existe maior contraste em relação à atitude de antagonismo dos cristãos do que o modo como Napoleão, filho do Iluminismo, assumiu uma postura muçulmana e manipulou as instituições muçulmanas, como parte dos seus desígnios imperiais no Egipto. “Respeito Deus, o seu Profeta e o Corão”, declarou ele ao desembarcar, em 1798, começando então a agir como governante muçulmano, prestando publicamente homenagem ao Profeta, começando as suas cartas aos potentados muçulmanos da zona com a biçmillah islâmica e conquistando os líderes religiosos e sociais da terra.

Assim, Napoleão, que, segundo Victor Hugo, “surgia perante as tribos deslumbradas como um Maomé ocidental”, exprimiu um pragmatismo face ao Islão de que os Europeus tinham até então sido, em larga medida, incapazes. Outros, ao procurarem, anos mais tarde, governar povos muçulmanos, visam a seguir o seu exemplo, embora nunca de forma tão notória. Não há dúvida de que havia também alguns laivos de romantismo na atitude de Napoleão face ao Islão, embora ele fosse o símbolo de uma época clássica recentemente triunfante. Ao adoptar uma identidade islâmica, Napoleão tentava, como fizeram os românticos, ultrapassar os limites clássicos da civilização do século XVIII, tal como o seu avanço em direcção ao Egipto e ao Oriente desafiava os do sistema de poder europeu. Ao fazê-lo, estava a explorar as possibilidades de um elemento cada vez mais importante da atitude europeia em relação ao mundo islâmico: a sua situação de mesa coberta de iguarias, onde se podia alimentar a imaginação europeia.

Durante cerca de cem anos, o apetite europeu fora já estimulado pelo número crescente de histórias de viajantes, especialmente por As Mil e Uma Noites, traduzida pela primeira vez por Galland, em 1704. Nesta obra encontrava-se uma sumptuosa colecção de califas, vizires, escravos génios, lâmpadas e acontecimentos fabulosos que constituiu uma grande parte do repositório de palavras e imagens utilizadas pelos Europeus para abarcar o mundo Islâmico.
De facto, para alguns esse mundo tornara-se num reino exótico no qual podiam explorar novas possibilidades, tal como o fez Montesquieu nas suas Cartas Persas, ou Mozart no seu Rapto do Serralho, ou Goethe no seu Divã Ocidental-Oriental; mas tornou-se igualmente num mundo em que os Europeus viajavam à procura de si próprios, vestindo-se com vestes estranhas e gosto pelas roupagens esvoaçantes e pelos galanteios árabes tem sido grande entre os Britânicos, desde Lady Hester Stanhope, que se vangloriava de ter entrado em Palmira pelo arco de triunfo e de ter montado a sua tenda no meio de milhares de beduínos, até T. E. Lawrence, que nunca parece ter-se recomposto da excitação provocada pelos árabes, camelos, areia e guerra no deserto.
Mas quer estes europeus tenham viajado pessoalmente ou apenas em imaginação, o facto é que se preocuparam mais em impôr a sua visão a este mundo do que em saborear a sua realidade, e mais em colocá-lo ao serviço dos seus próprios desígnios do que em apreciá-lo em si mesmo. É verdade que a sua atitude romântica trouxe algum avanço no conhecimento e compreensão do mundo Islâmico, acabando, no entanto, por criar uma nova barreira da imaginação que veio substituir uma parte importante da anterior barreira do preconceito.

Uma outra atitude, que se desenvolveu a partir das anteriores e ajudou a mantê-las de pé, foi o profundo sentimento de superioridade que foi crescendo com o império europeu. Abu Taleb Khan, um muçulmano indiano que visitou Londres em 1800, viu-se obrigado a tolerar um chorrilho de críticas intransigentes aos costumes muçulmanos, desde o hábito de comer com as mãos até às cerimónias realizadas pelos peregrinos em Meca. Este pressuposto de que os costumes europeus eram melhores teve eco junto daqueles que tinham eles próprios contactos com a sociedade muçulmana.

Uns anos mais tarde, alguns diplomatas franceses em Teerão, certos de que compreendiam os costumes nativos, queixavam-se da falta de honra ou vergonha dos Persas e da sua tendência para o exagero. Na Índia, quase três décadas mais tarde, Macaulay afirmava, na sua famosa nota sobre a educação, que, “como é geralmente reconhecido, não existem livros do saber muçulmano, nem do hindu, que mereçam ser comparados aos nossos”. Não admira que uma confiança tão ufana tivesse convencido o governo da Índia a esquecer, durante algum tempo, a base frágil em que acentava o domínio britânico e a apoiar moralmente os esforços para converter a população ao cristianismo: os Europeus estavam certos de serem ao mesmo tempo diferentes e melhores do que os muçulmanos. De facto, os Europeus governavam os muçulmanos por direito divino, enquanto estes, nas palavras do primeiro-ministro britânico Gladstone, eram “totalmente incapazes de estabelecer um governo bom ou tolerável sobre os povos cristãos civilizados”. (…)

Tal como seria de esperar, o estudo erudito do Islão foi reflexo das atitudes da sociedade em que se realizou. Simon Ockley, por exemplo, embora se preocupasse em apresentar os factos do desenvolvimento da civilização Islâmica e a sua relação com a Europa, não deixava de partilhar da visão comum na Europa de princípios do século XVIII, ou seja, de que o Islão era uma escandalosa heresia. Ernest Renan, especialista em filologia comparada e intérprete da Bíblia, considerava que o Islão, com a ênfase dada à autoridade avassaladora da palavra de Deus, era tipicamente semita, por oposição ao espírito científico, e constituía uma barreira ao progresso: a sua civilização era inferior à ariana, que produzira a ciência e a filologia.

De facto, a confiança na superioridade da civilização ocidental e no modo ocidental de ver as coisas sobre o Islâmico tem sido instintiva em grande parte dos estudos ocidentais. Há tendência para produzir estudos que parecem preocupar-se mais com debates em curso entre intelectuais ocidentais do que com uma compreensão imaginativa das sociedades muçulmanas. Para além disso, parece ser particularmente difícil para os estudiosos educados num ambiente basicamente agnóstico e materialista compreenderem o poder da fé. Isto pode explicar o porquê da investigação de maior qualidade e sensibilidade ter sido realizada por cristãos devotos; numa altura em que se vêem cada vez mais sobrecarregados pelas tensões mundiais, os cristãos encontraram uma nova afinidade com aqueles que também adoram o mesmo Deus.

Ficamos assim frente ao singular paradoxo de que, embora as tradicionais fontes de hostilidade para com o Islão que derivam da polémica cristã medieval ainda floresçam sob forma secular, são cristãos devotos quem parece estar mais perto de compreender o Islão. A velha objecção centrada no prazer e na sensualidade transformou-se numa nova objecção quanto à situação das mulheres. A preocupação com a violência tornou-se discordância quanto aos castigos desumanos e às políticas sanguinárias de algumas sociedades muçulmanas.

O medo do poder muçulmano, que deu lugar, com a expansão do Ocidente, a um sentimento de superioridade, volta a crescer à medida que o petróleo vai proporcionando aos muçulmanos a possibilidade de influenciarem a vida ocidental e que uma maior afirmação lhes dá vontade de o fazerem. Para além disso, embora os Ocidentais já não se sintam perturbados pela ideia da impostura de Maomé, preocupam-se pelo que agora parece, aos seus olhos, uma heresia: o desejo que muitos muçulmanos têm de subordinar a vida da sua sociedade e o funcionamento do Estado moderno à Lei sagrada. De facto, parece que a reprovação do Islão que, por vezes, se exprime em hostilidade aberta está arraigada na cultura secular do Ocidente. (…)