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Carta de Jean-Moise Braitberg

Jean-Moise Braitberg

Escritor judeu, ao presidente de Israel
Apaguem o nome do meu avô em Yad Vashem

Nesta carta ao presidente de Israel, Jean-Moise Braitberg, escritor judeu, a quem foi assassinado o avô em Treblinka, deportado com outros familiares em campos de concentração pede ao presidente de Israel que retire o nome dos seus familiares do Memorial em Israel, dedicado à memória das vítimas judias do nazismo.

Senhor Presidente do Estado de Israel

Escrevo-lhe pedindo-lhe que intervenha junto de quem de direito, para que seja retirado do Memorial de Yad Vashem, dedicado à memória das vítimas judias do nazismo, o nome do meu avô, Moshe Brajtberg, gaseado em Treblinka em 1943, assim como os dos outros membros da minha família mortos na deportação em diferentes campos nazis durante a II Guerra Mundial. Peço-lhe que atenda o meu pedido, senhor presidente, porque o que se passou em Gaza e dum modo geral, a sorte reservada ao povo árabe da Palestina desde há sessenta anos, a meu ver, desqualifica Israel como centro da memória do mal feito aos judeus, e portanto, a toda a Humanidade.

Veja, vivi desde a minha infância rodeado de sobreviventes dos campos da morte. Vi os números tatuados nos braços, ouvi os relatos das torturas; conheci os lutos impossíveis e partilhei os seus pesadelos.

Ensinaram-me que é necessário que estes crimes jamais se repitam; que jamais um homem, sentindo-se superior pela sua pertença a uma etnia ou a uma religião, despreze outro, o ultraje nos seus direitos mais elementares, que são uma vida digna em segurança, a ausência de entraves, e a esperança, por mais longínqua que seja, dum futuro de serenidade e de prosperidade.

Ora, senhor presidente, observo que, apesar das muitas dezenas de resoluções decididas pela comunidade internacional, apesar da gritante evidência da injustiça cometida contra o povo palestiniano desde 1948, apesar das esperanças nascidas em Oslo e apesar do reconhecimento do direito dos judeus israelitas a viver em paz e segurança, muitas vezes reafirmado pela Autoridade palestiniana, as únicas respostas dos sucessivos governos do seu país têm sido a violência, o sangue derramado, o encarceramento, os controlos incessantes, a colonização, as espoliações.

Dir-me-á, senhor presidente, que é legítimo, ao seu país, defender-se contra os que lançam roquetes sobre Israel, ou contra os kamikazes que arrastam consigo nu

merosas vidas israelitas inocentes. A isto responder-lhe-ei que o meu sentimento de humanidade não varia conforme a nacionalidade das vítimas.

Pelo contrário, senhor presidente, o senhor dirige os destinos de um país que pretende, não só representar todos os judeus, mas também a memória dos que foram vítimas do nazismo. Isso é que me diz respeito e que me é insuportável. Mantendo no Memorial de Yad Vashem, no coração do Estado judeu, o nome dos meus próximos, o seu Estado retém a minha memória familiar prisioneira detrás do arame farpado do sionismo, para a tornar refém de uma pretensa autoridade moral que comete todos os dias a abominação que é a negação de justiça [1]

Assim sendo, faça o favor de retirar o nome do meu avô do santuário dedicado à crueldade feita aos judeus, de modo que não sirva para continuar a justificar a que é feita aos palestinianos.

Queira aceitar, senhor presidente, a minha respeitosa consideração.

Notas:

[1] No original “déni de justice”, que na língua francesa tem o significado de recusa, pelo Juiz ou pelo Tribunal, de realizar o acto de justiça, que é parte integrante da sua função (N.T.)

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O caso do assassínio de Theo Van Gogh

Por Yiossuf Adamgy

Segundo a Comunicação Social, Van Gog era “um desbocado – ganhou cartel como livre-pensador, foi sistematicamente despedido dos principais jornais de referência holandeses. Ofensas aos leitores. O próprio Van Gogh gostava de exemplificar: “escrevi um dia que sou muito religioso e que o meu ser supremo é um porco cujo nome é Alá”.”. Agente provocador, qualificou um Imame de Amesterdão como “Chulo de Alá”. Definia os Muçulmanos como “fornicadores de cabras”, afirmação que é seguramente deveras forte, quiçá abusiva e insultuosa. Mas – como dizia Joaquim Vieira num artigo publicado na revista mensal da Grande Reportagem – “só deve viver na Europa e na democracia quem aceita que tais termos fazem parte da liberdade de expressão que assiste a qualquer cidadão, e que é legítimo rebatê-los por meios pacíficos, mas não pelo assassínio”. A violência gera violência. Por outro lado, deverá ter-se em conta, também, que a nossa liberdade termina onde co- meça a do outro.

Veja-se a conjuntura actual do mundo Islâmico. Veja-se a conjuntura actual do que é a actual Comunicação Social, dita ocidental e poderosa. Todos os dias, na Comunicação Social ouvimos, vimos e lemos o seguinte: ‘Um bombista suicida faz-se explodir num autocarro cheio de mulheres e crianças, em Telavive: Turistas estrangeiros são massacrados, pelos fundamentalistas islâmicos, numa estância balnear em Luxor. Carro armadilhado explode em Falluja, Iraque. Etc. etc.. A lista dos acontecimentos em todo o mundo que vieram a simbolizar o “Terror Islâmico”, são infindáveis. Desde os anos 70 e 80 todos estes incidentes viriam a ser identificados com a religião do Islão. Tais incidentes desde o passado até ao presente têm, sem dúvida, afectado os Muçulmanos em todo o Mundo e ainda mais no Ocidente. Qualquer Muçulmano que queira praticar a sua religião e expressar o desejo pio de viver islâmicamente é catalogado de fundamentalista ou extremista. Qualquer homem Muçulmano que cami- nhe ao longo de uma movimentada rua em Londres ou Paris (e em Paris ainda mais) com uma barba e um topi ou outra coberta na sua cabeça, é olhado como “terrorista islâmico” …. As mulheres Muçulmanas que usem véu (lenço) não podem ir a nenhum lado no mundo Ocidental sem serem criticadas como sendo oprimidas ou estarem loucas ou atrazadas (pelo facto de se cobrirem).

Uma das grandes falhas que tem surgido no Ocidente é julgarem o Islão pela conduta de uma minoria de pessoas islâmicas. Segmentos da sociedade Ocidental têm muitas vezes empolado as acções desesperadas de alguns Muçulmanos e deram-lhe o nome do Islão. Tal catalogação claramente que não é objectiva e procura distorcer a percepção do Islão. São tais crenças e opiniões sobre o Islão realmente justificadas? E como devem ser combatidas?

É certo que, com a ocupação ilegal do território Palestiniano e com a invasão ilegítima do Iraque, porque foi ao arrepio das leis internacionais, a Co- munidade Islâmica mundial também se sente, pelo seu lado, humilhada e violada, o que só veio agra- var as tensões civilizacionais e culturais, originando um perigoso espírito de cruzada e anticruzada.

Os Muçulmanos e as Comunidades Islâmicas devem combater tudo isso com informação correcta, através de todos os meios de difusão, do que verdadeiramente diz a mensagem do Islão: uma religião de tolerância, amor, fraternidade, justiça e compaixão, rejeitando a violência, o extremismo e o terrorismo.

Por sua vez, os governos na Europa devem tomar as medidas para um maior e equilibrado acompanhamento da comunidade imigrante. Não há dúvidas de que o caminho do extremismo começa quando outros são marginalizados da sociedade.

Está de parabéns, pois, Portugal que, recentemente, por intermédio do secretário de Estado Adjunto do ministro da Presidência, Feliciano Barreiras Duarte, anunciou em Argel a criação em Portugal de uma unidade de missão para o diálogo com as religiões, que, na verdade, “poderá revelar-se um instrumento precioso para a compreensão da diversidade religiosa e para o fomento de um espírito de tolerância religiosa no nosso país”.

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Cegueira (Palestina)

Tradução de Salma Sheherezade

in JEUNE AFRIQUE – Nº 1866 – de 9 a 15 /10/ 1996 – Pág. 82

Os grandes medias ocidentais não param de vo-lo dizer: o bloqueio das negociações no Próximo Oriente é o resultado da intransigência dos Israelitas e dos Palestinianos. Para que haja progresso seria então necessário que Bill Clinton se esforçasse em levar os protagonistas do conflito à mesa das negociações, que cada um aceite fazer um gesto.

Fica-se estupefacto perante uma tal má fé. Arafat nunca cessou de querer negociar. E não se vê muito bem que gesto suplementar os Palestinianos poderiam fazer, à parte, talvez, deixarem-se encerrar no sistema de quase apartheid que Benjamin Netanyahu sonha para eles.

Já foi dito, mas é necessário dizê-lo novamente: apesar dos acordos de Oslo, os Palestinianos não têm, ainda hoje, praticamente nenhum direito. Estão encerrados em Gaza e não dispõem de nenhum acesso às cidades da Cisjordânia que é suposto controlarem. Foram expulsos de Jerusalém-Leste, as suas terras são confiscadas e as que lhes restam são sulcadas por “estradas da vergonha” que não têm o direito de pedir emprestadas. Eles não têm sequer o direito de pensar em construir um aeroporto ou um porto. Para eles, a aplicação estricta dos acordos de Oslo é apenas o minímo vital para evitar uma nova Intifada.

Já foi dito, mas é necessário dizê-lo novamente: Se Netanyahu não fosse israelita, ninguém, ou quase, aceitaria recebê-lo. Falar-se-ía talvez de sanções, de pressões contra o seu país. A sua intransigência seria comparada à de um Slobodan Milosevic. Ele é no entanto também o chefe de um governo que recusa aplicar um acordo internacional assinado pelo seu país e garantido pelos Estados Unidos! Ele é o chefe de um governo que propõe a paz contra … nada. Ele é o chefe de um governo que manipula sem complexos o religioso para concretizar o político. Alguns dos seus ministros não querem uma paz verdadeira, porque se crêm superiores aos Árabes, como os Afrikaners se consideravam superiores aos Negros.

Já foi dito, mas não se sabe suficientemente, a própria sociedade israelita ainda não está pronta para uma paz verdadeira. Poucos israelitas, mesmo à esquerda, pensam realmente coexistir, cohabitar com os seus vizinhos árabes. Nenhum israelita, ou quase, imagina ver um dia a bandeira palestiniana flutuar sobre Jerusalém ao lado da sua. Tudo isso é desesperante. Quem será capaz de explicar aos israelitas que isso não leva a nada? Que os Palestinianos nunca aceitarão desaparecer ou deixar-se encerrar num ghetto, que já não têm dez ou quinze anos.

Quem será capaz de explicar aos israelitas que vivem num mundo árabe com o qual, um dia ou outro, lhes será necessário viver e compor? Que esses mesmos Árabes estão desgastados pelo conflito, que estão prontos para a paz, com a condição de que esta seja a dos “bravos”. Quem pedirá contas a Benjamin Netanyahou por todas essas mortes inúteis, por essas vidas israelitas e palestinianas sacrificadas diariamente? Israel deve compreender. A paz não vem como opção, segundo o humor ou a relação de força do momento. A paz é uma necessidade.

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11 de Setembro – cinco anos depois

Coord. por Yiossuf Adamgy

Trabalhar para o Caminho do Encontro

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

Cinco anos se passaram desde os atentados de Nova Iorque, o 11 de Setembro.

Os acontecimentos deram-se da maneira prevista. As invasões de países organizados muito antes dos atentados encontraram uma justificação aos olhos do público, insensibilizado peran- te a dor alheia. Leis anti-terroristas impróprias de um estado de direito foram promulgadas pelos defensores da liberdade. A guerra é a paz e o terror a democracia. Violações de mulheres iraquianas, assassinatos de civis sem motivo, talvez pelo prazer de ver como a vida se esvai. Prisões secretas onde se tortura meros suspeitos, detidos sem necessidade de provas, testemunhas, tribunais ou advogados. Campo de concentração onde o poder afoga toda a dissidência enquanto proclamam a liberdade de expressão como um valor inalienável. Falsas operações anti-terroristas onde se detêm muçulmanos pelo simples facto de o serem, para manter viva entre a opinião pública a ameaça que justifica o massacre de novos inocentes. A chamada “luta contra o terrorismo” está a semear a destruição e o ódio, dando azo a que outros justifiquem os seus ataques perante outro público também anestesiado perante a dor alheia. Os atentados de Londres e de Atocha são a prova disso. A violência gera a violência. Há interesse em que tudo continue na mesma, como estava previsto desde há muito tempo.

A cidadania no Ocidente debate-se entre a aceitação e a impotência. O pensamento crítico, que no século passado pertenceu a alguns dos maiores pensadores da era moderna, está em franca retirada. Assistimos à difusão crescente de um pensamento único, que se acredita superior e destinado a impôr-se ao conjunto dos povos. Assistimos à consolidação de uma corrente de opinião auto complacente com “os enganos do ocidente” que descarta toda a crítica como uma traição.

A política deixou de ser o reino do possível. Os verdadeiros problemas estruturais das nossas sociedades não fazem parte da agenda política, nem aparecem nos meios de informação. A democracia deixou de ser um meio para ser um fim em si mesma, desvinculado da ânsia de justiça que a viu nascer. O poder aquisitivo da maioria baixa abruptamente, de forma imparável, enquanto alguns, acumulam imensas fortunas à custa do trabalho da cidadania. Aproximamo-nos de uma situação de paralisia institucional, do beco sem saída da economia de mercado, do poder sem limite dos especuladores. A maioria dos meios de comunicação estão cheios de analistas ao serviço das multinacionais que lutam pela hegemonia, relegando para segundo plano os verdadeiros intelectuais.

E nada é o que parece, entramos numa espiral onde a representação que o poder faz de si mesmo passa por ser a própria Realidade, zelando por todo o bem e beleza contidos na Criação, cegando os corações e enchendo as nossas mentes de lixo. Ruído mediático que deverá desvanecer-se um dia, incha’Allâh.

Apesar do tempo passado, os acontecimentos sucederam-se desde o 11 de Setembro sem nos dar tempo a assimilá-los, levando-nos a um estado onde a visão interior fica turva. Alguns permanecem presos às emoções do primeiro momento, convenientemente recordadas em cada nova cena. Para outros, a impotência perante a fome e o massacre dos afegãos, dos iraquianos, dos palestinianos, dos libaneses e de tantos outros povos, confundem-se com o sentimento de libertação que experimentaram ao ver cair as Torres. Libertação de uma raiva largamente contida, de um desalento perante a impunidade com a qual o terror se impõe nas nossas vidas, em nome da civilização e democracia. Mas a manipulação desvanece-se. Muito depressa a falsa euforia de se ter “ferido o império” se dissipou na imensa maioria da , que se apercebia perfeitamente que nos mentiam e que se estavam a utilizar dos atentados para promover a destruição do mundo islâmico e a apoderar-se do petróleo afegão e iraquiano. Também nos demos conta de que o sucedido era o assassinato cruel de milhares de pessoas em nome de não se sabe o quê, sem que chegássemos a conhecer reivindicação alguma.

As imagens das Torres Gémeas desvanecendo-se converteram-se já num ícone do século XXI, através do qual as emoções mais primárias saem a jorros, para serem apanhadas e postas ao serviço de interesses obscuros. Mas não devemos deixar que essas imagens nos condicionem, não devemos ficar num estado meramente emocional e devemos avançar em direcção a uma consciência mais profunda. Esses interesses obscuros conduzem-nos ao desespero e logo nos oferecem o anzol, a “salvação” que criaram como desculpa para nos massacrar. A promoção mediática da figura de Bin Laden como um “ídolo” para as massas muçulmanas fracassou estrondosamente. A imensa maioria dos muçulmanos considera-o um agente da CIA. Eles tratam de nos manipular, mas a verdade é Deus quem nos põe à prova.

Passados cinco anos temos uma perspectiva muito precisa da situação e podemos a partir dela interrogarmo-nos: Qual foi o efeito real do atentado? Quem beneficiou desde o primeiro momento? As companhias petrolíferas lançaram-se na exploração dos recursos naturais do Iraque e do Afeganistão. O poderoso lobby do armamento conseguiu definir um “inimigo invisível” que pode servir-lhes de desculpas para múltiplos negócios. Os sionistas legitimam o seu direito aos assassinatos selectivos e às matanças de civis, assimilando a resistência à Shoá do povo palestino à nebulosa do “terrorismo islâmico”. A ultra direita evangélica anglo saxónica aplaude as invasões como um passo para a destruição do Islão … Em qualquer caso, o 11 de Setembro significou um retrocesso importante para a justiça em todo o mundo, piorando a situação dos mais desfavorecidos, jogando a favor daqueles que se apresentaram (cinicamente) como vítimas.”

O combate contra esta manipulação é hoje uma tarefa iniludível. Devemos ser capazes de dar a volta à situação, pegar nas imagens e oferecer outra leitura. Ao apontar o Islão como ‘inimigo do ocidente ‘, manifesta-se a pretensão do terrorismo neoliberal se apresentar como único ‘representante do ocidente’. Mas na verdade o Islão faz parte do ocidente e eles apenas representam a barbárie. Entre estas linhas do discurso dominante vemos aparecer uma verdade mais certa, que se refere à força do Islão como algo capaz de opor-se ao capitalismo selvagem que nos querem impor como único modelo (pensamento único, monoteísmo de mercado) sem ter em conta que os privilégios que gozam as classes altas da metrópole não chegam à maior parte dos habitantes da terra, de que para a maioria a globalização neo liberal significa escravidão e desenraizamento, militarismo e agiotagem, fome e sofrimento para centenas de milhares de pessoas.

Já não é possível aguentar mais a maquinaria de morte que se espalha sobre o mundo. Uma grande parte do planeta vive no limite do humanamente suportável e parece evidente que se algo não acontecer urgentemente vamos ver como tudo explode. Quando vemos a crueldade sem limites do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das grandes multinacionais e o descaramento absoluto dos Estados Unidos para massacrar povos inteiros perante a opinião pública, estremecemos. Que se esconde por trás de tudo isto? Trata-se do sonho de domínio de um povo eleito ou de uma raça superior? Ou ainda do sonho de um império universal que tem acompanhado a humanidade desde os seus pri- mórdios? Não conseguimos sabê-lo, mas em todo o caso é importante não nos deixarmos arrastar por umas dicotomias que apenas a eles interessam, não cair no jogo da morte.

Perante esta situação, torna-se imprescindível pensar no nosso Jihad (Esforço), aqui e agora. O Islão, ainda que sendo altamente combativo, não é violento. Não pode ser violento. Não pode ser manipulado para a violência. Existe uma delicadeza no tratamento que é inseparável do Islão, isso a que chamamos adab e que nos impede a violência sem fazermos cair na afectação. Basta dizer que o Profeta Muhammad [Maomé] (s.a.w.) tratava até mesmo as coisas com delicadeza. Não gostava que se batesse nem numa mesa ou que se tratasse mal a roupa. Punha nomes às suas capas e acariciava as montanhas. É, no sentido literal do termo, um homem do Jardim.

Não se trata de repetir que o Islão e o terrorismo são contrários para satisfazer a opinião pública, nem para sair desse estado de suspeita em que continuamente nos colocam. Trata-se da nossa obrigação de desenvolver meios islâmicos (lícitos) para travar a destruição do mundo, na medida das nossas possibilidades. O certo é que o verdadeiro muçulmano tem um sentido implícito de justiça, do equilíbrio interno das coisas, que o torna incompatível com qualquer forma de destruição generalizada. Existem numerosas prescrições relativas ao modo islâmico de combater, tiradas a partir das palavras do Profeta. Todas elas demonstram um respeito pela vida que vai muito além do aparente. Muhammad (s.a.w.) diz-nos que não devemos destruir uma árvore ou envenenar um poço para vencer uma batalha e muito menos matar um inocente. Não há vitória que justifique a injustiça. No Islão, o fim não justifica os meios, pois essa é uma ideia puramente utilitarista, que nada tem a ver com a ikhlas, a pureza de intenção que Deus nos prescreveu.

Se somos capazes de aprofundar o impacto de todos estes conhecimentos e ao mesmo tempo livrarmo-nos das imagens e das fantasias mentais suscitadas, se somos capazes de ir mais além da aparência, de superar o estado de ilusão a que nos conduziram e nos apercebemos da estratégia do império, teremos já alguma coisa valiosa com que nos opormos a eles e a sua estratégia terá dado um fruto inesperado. É assim que se torna realidade o versículo do Alcorão que, ao longo destes anos, tem estado presente entre nós: “Deixa que eles tramem, pois Deus está atento às suas maquinações”.

Eles não sabem o que fazem, não sabem quais as forças que estão a contribuir para o despertar em todo o mundo. Colocando o Islão em ponto de mira do terrorismo neo liberal estão a despertar uma curiosidade e um interesse em relação ao Islão que os irá (já está a) surpreender. Desde o 11 de Setembro que o Islão cresce no Ocidente. Cada dia que passa são mais os cidadãos europeus e norte americanos que encontram no Islão um caminho que os tira da banalidade e da mentira e os devolve à Realidade, à vasta terra de Deus, a uma Criação que se renova a cada instante.

Conheço poucas pessoas que se tenham interressadas, sinceramente, pelo Islão e não tenham acabado reconhecendo-o como algo próprio, pois o Islão não é senão a recuperação do que chamamos de fitrat, da natureza primitiva de cada ser humano.

O modo como a maioria dos muçulmanos do mundo vive o seu Islão pouco tem a ver com todas as imagens que os meios de comunicação difundem. Há que ver os homens de luz reunidos à volta de uma chávena de chá para entender porque é que o Islão provoca o desespero e a recusa do sistema. Os povos reúnem-se à volta do mais simples, formam comunidades de um modo natural, não têm pressa e sabem olhar nos olhos a partir da sua humanidade, a partir do seu coração de criatura. Um homem enraizado, que recusa as ficções, não pode reduzir-se à imagem do produtor-consumidor que nos querem impor como modelo, tem que recusar quase todas essas coisas que nos querem presentear como necessidades, pois na verdade não passam de lixo. Essa é a tarefa do Islão aqui e agora, como o foi nos tempos do Profeta: reestabelecer os valores de uma cosmo-visão aberta, de uma comunidade não depredadora, que nos permite agarrar-se à terra e manter-se fiel à beleza e ao bem que emanam da Criação.

Necessitamos urgentemente de reflectir sobre um esforço de superação e de oposição ao terror que tem acompanhado os homens de bem desde o principio dos tempos. O chamamento de Jihâd realizado pelos tiranos e fanáticos de turno não é mais do que um engano. Cada vez que sai um vídeo onde um sósia de Bin Laden apela à “jihad contra os infiéis” a Bolsa em Nova Iorque sobe. Mas isso não quer dizer que o jihad (esforço, empenho) não seja uma peça do Islão, completamente imprescindível no momento em que a barbárie avança a passo firme: Como ultrapassar o nosso estado de dispersão sem o esforço do encontro? Como escapar a esse confronto que quer levar milhões de pessoas à morte sem um esforço lúcido de nos livrarmos de toda a idolatria? Os ídolos agora não são umas estatuetas de barro, mas sim a pornografia, a ideologia do consumo, a justificação da guerra e da euforia competitiva, todas as grandes mentiras que se institucionalizaram. Não há nada mais destrutivo que esse culto acenntuado do dinheiro que domina as nossas sociedades. Sobre isto o Alcorão tem um versículo clarificador: “Quando queremos destruir uma cidade…fazemos aos ricos detentores do poder” (XVII, 16), algo que se torne evidente tanto na América dos Bush e dos Cheney como na Arábia dos Banu Saud (Sauditas).

É necessário pensarmos na jihad (esforço) deste nosso compromisso com a Realidade, a partir da nossa entrega a Deus.

A nossa capacidade de resistência à alienação torna-se firme a partir do momento em que sentimos Deus como mais imediato. O Alcorão diz-nos que “Deus está mais perto do homem que a sua veia jugular”, que “Olhes para onde olhares está a Face de Deus”. Nada está mais distante disso que o ‘deus’ distante dos clérigos reaccionários, esse senhor severo sentado num trono de pedra, ou senhor cruxificado e sangran- do que nos enche de tristeza. Para o Muçulmano essas imagens não são mais que véus, pois ele sabe que o único real é o imediato, que a Realidade não pode ser quantificada, segregada a uma imagem.

Deus não só vê através das coisas e dos acontecimentos, em todos os momentos e olhares, no amor da mãe pelo filho, ou mesmo entre as ruínas de um incêndio.

A porta do Islão é o assombro, a capacidade que temos de nos maravilharmos perante um gesto de nobreza e isso é o que não devemos deixar que nos tirem, substituindo a beleza primária da terra por umas imagens de conforto ou de violência que eles espalham à sua volta. A Beleza e a Majestade da Criação são o nosso único horizonte, esse lugar comum de todos os encontros, à volta do qual os homens se reúnem tranquilamente. Esse é o mundo que as bombas nos escondem, e do qual, muitas vezes, as estratégias dos meios de comunicação tratam de nos desenraizar. Nós somos representantes de Deus e temos uma responsabilidade enorme: o cuidado do mundo. Devemos contribuir para recriar um mundo de luz paralelo ao mundo das guerras e das ideologias e a esse mundo torná-lo cada vez mais amplo, mais habitável e partilhável e convidar todos os nossos irmãos, sejam ateus, cristãos, judeus ou budistas, membros de qualquer religião ou de qualquer raça. Numa só frase: Trabalhar para o caminho do encontro.

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Acabe com a injustiça, dizem personalidades muçulmanas a Obama

(Versão Portuguesa de Al Furqán)

CAIRO – Uma panóplia de pensadores escolásticos muçulmanos, activistas políticos e académicos escreveram uma carta aberta ao Presidente norte-americano Barack Obama, incentivando-o a iniciar o seu reinado com a remediação das injustiças infligidas aos árabes e muçulmanos, para que a paz possa prevalecer e que a América recupere a sua imagem.

“A civilização não pode prosperar e a paz e a segurança não podem ser desfrutadas pelo mundo, a menos que a justiça prevaleça na terra e seja dominante nas relações internacionais,” dizia a carta, da qual o IslamOnline.net obteve uma cópia.

A carta fazia uma lista das injustiças que deverão ser mitigadas de forma a pôr fim às hostilidades e a promover a paz no mundo.

Os líderes muçulmanos acrescentaram: “Nenhuma outra nação da história sofreu tamanha injustiça como aquela que foi infligida ao povo palestiniano”.

“Este facto tem sido ignorado pelos E.U.A. de forma a responder a pressões de índole financeira, política ou dos media, ou então a ilusões ideológicas, lendas ou ambições eleitorais.”

Entre os signatários encontram-se o Sheikh Yusuf al-Qaradawi, presidente da International Union of Muslim Scholars (IUMS), Rashid Al-Ghanoushi, Secretário-Geral do Al-Nahdha Movement da Tunísia, Qazi Hussein Ahmad, líder do Jamaat-e-Islami, do Paquistão, e Ali Sadruddin Al-Bayanoni, Presidente da Irmandade Muçulmana da Síria.

A carta afirma que não podem ser retomadas as relações normais com árabes e muçulmanos, “a menos que a injustiça infligida à nação palestiniana” seja levantada e “a não ser que as soberanias iraquianas e afegãs sejam preservadas.”

Obama, que prestou juramento como o 44º presidente norte-americano, e o primeiro de raça negra, na terça-feira, dia 20 de Janeiro, prometeu um recomeço nas relações com o mundo islâmico.

No seu discurso de nomeação, que foi visto por milhões em todo o mundo, Obama afirmou o seguinte: “Em relação ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho, com base no interesse e respeito mútuos.”

Os líderes muçulmanos lamentaram o facto de uma grande parte das injustiças do mundo actual ser perpetuada ou ignorada pelos Estados Unidos, tendo afirmado: “Embora os Estados Unidos sejam, de todos os países do mundo, o que mais clama pela liberdade e respeito pelos direitos humanos, somos da opinião de que, na prática, os governos norte-americanos são aqueles que mais violam os direitos humanos e que mais confiscam a liberdade dos outros.”

“Além do mais, mostrou ter a parte de leão no que diz respeito ao apoio a regimes ditatoriais, à conspiração contra democracias em desenvolvimento, ao planeamento de golpes militares e ao desrespeito face às organizações internacionais.”

A carta alertava para o facto de as tentativas de impor um modelo americano através da força e da pressão teriam apenas como consequência o efeito oposto ao pretendido.

“Quem primeiro sofre as consequências destes métodos são os próprios Estados Unidos.”

A imagem dos Estados Unidos foi severamente denegrida durante os oito anos de presidência de George Bush, o antecessor de Obama.

A chamada “guerra ao terrorismo” de Bush, uma série de escândalos relativamente a abusos de detidos no Afeganistão, Iraque e no conhecido centro de detenção de Guantanamo, empolaram os sentimentos anti-americanos pelo mundo fora, especialmente nos países islâmicos.

Os líderes muçulmanos incentivaram Obama a assegurar que os Estados Unidos, durante a sua governação, iriam reconsiderar com seriedade a sua abordagem na relação com o mundo.

“No entanto, esta posição requer, da parte da liderança norte-americana, uma coragem que transcende interesses políticos e partidários.

“Irá ser um homem de ética, princípios e sonhos, tal como prometeu ao seu povo e ao mundo?”