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11 de Setembro – cinco anos depois

Coord. por Yiossuf Adamgy

Trabalhar para o Caminho do Encontro

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

Cinco anos se passaram desde os atentados de Nova Iorque, o 11 de Setembro.

Os acontecimentos deram-se da maneira prevista. As invasões de países organizados muito antes dos atentados encontraram uma justificação aos olhos do público, insensibilizado peran- te a dor alheia. Leis anti-terroristas impróprias de um estado de direito foram promulgadas pelos defensores da liberdade. A guerra é a paz e o terror a democracia. Violações de mulheres iraquianas, assassinatos de civis sem motivo, talvez pelo prazer de ver como a vida se esvai. Prisões secretas onde se tortura meros suspeitos, detidos sem necessidade de provas, testemunhas, tribunais ou advogados. Campo de concentração onde o poder afoga toda a dissidência enquanto proclamam a liberdade de expressão como um valor inalienável. Falsas operações anti-terroristas onde se detêm muçulmanos pelo simples facto de o serem, para manter viva entre a opinião pública a ameaça que justifica o massacre de novos inocentes. A chamada “luta contra o terrorismo” está a semear a destruição e o ódio, dando azo a que outros justifiquem os seus ataques perante outro público também anestesiado perante a dor alheia. Os atentados de Londres e de Atocha são a prova disso. A violência gera a violência. Há interesse em que tudo continue na mesma, como estava previsto desde há muito tempo.

A cidadania no Ocidente debate-se entre a aceitação e a impotência. O pensamento crítico, que no século passado pertenceu a alguns dos maiores pensadores da era moderna, está em franca retirada. Assistimos à difusão crescente de um pensamento único, que se acredita superior e destinado a impôr-se ao conjunto dos povos. Assistimos à consolidação de uma corrente de opinião auto complacente com “os enganos do ocidente” que descarta toda a crítica como uma traição.

A política deixou de ser o reino do possível. Os verdadeiros problemas estruturais das nossas sociedades não fazem parte da agenda política, nem aparecem nos meios de informação. A democracia deixou de ser um meio para ser um fim em si mesma, desvinculado da ânsia de justiça que a viu nascer. O poder aquisitivo da maioria baixa abruptamente, de forma imparável, enquanto alguns, acumulam imensas fortunas à custa do trabalho da cidadania. Aproximamo-nos de uma situação de paralisia institucional, do beco sem saída da economia de mercado, do poder sem limite dos especuladores. A maioria dos meios de comunicação estão cheios de analistas ao serviço das multinacionais que lutam pela hegemonia, relegando para segundo plano os verdadeiros intelectuais.

E nada é o que parece, entramos numa espiral onde a representação que o poder faz de si mesmo passa por ser a própria Realidade, zelando por todo o bem e beleza contidos na Criação, cegando os corações e enchendo as nossas mentes de lixo. Ruído mediático que deverá desvanecer-se um dia, incha’Allâh.

Apesar do tempo passado, os acontecimentos sucederam-se desde o 11 de Setembro sem nos dar tempo a assimilá-los, levando-nos a um estado onde a visão interior fica turva. Alguns permanecem presos às emoções do primeiro momento, convenientemente recordadas em cada nova cena. Para outros, a impotência perante a fome e o massacre dos afegãos, dos iraquianos, dos palestinianos, dos libaneses e de tantos outros povos, confundem-se com o sentimento de libertação que experimentaram ao ver cair as Torres. Libertação de uma raiva largamente contida, de um desalento perante a impunidade com a qual o terror se impõe nas nossas vidas, em nome da civilização e democracia. Mas a manipulação desvanece-se. Muito depressa a falsa euforia de se ter “ferido o império” se dissipou na imensa maioria da , que se apercebia perfeitamente que nos mentiam e que se estavam a utilizar dos atentados para promover a destruição do mundo islâmico e a apoderar-se do petróleo afegão e iraquiano. Também nos demos conta de que o sucedido era o assassinato cruel de milhares de pessoas em nome de não se sabe o quê, sem que chegássemos a conhecer reivindicação alguma.

As imagens das Torres Gémeas desvanecendo-se converteram-se já num ícone do século XXI, através do qual as emoções mais primárias saem a jorros, para serem apanhadas e postas ao serviço de interesses obscuros. Mas não devemos deixar que essas imagens nos condicionem, não devemos ficar num estado meramente emocional e devemos avançar em direcção a uma consciência mais profunda. Esses interesses obscuros conduzem-nos ao desespero e logo nos oferecem o anzol, a “salvação” que criaram como desculpa para nos massacrar. A promoção mediática da figura de Bin Laden como um “ídolo” para as massas muçulmanas fracassou estrondosamente. A imensa maioria dos muçulmanos considera-o um agente da CIA. Eles tratam de nos manipular, mas a verdade é Deus quem nos põe à prova.

Passados cinco anos temos uma perspectiva muito precisa da situação e podemos a partir dela interrogarmo-nos: Qual foi o efeito real do atentado? Quem beneficiou desde o primeiro momento? As companhias petrolíferas lançaram-se na exploração dos recursos naturais do Iraque e do Afeganistão. O poderoso lobby do armamento conseguiu definir um “inimigo invisível” que pode servir-lhes de desculpas para múltiplos negócios. Os sionistas legitimam o seu direito aos assassinatos selectivos e às matanças de civis, assimilando a resistência à Shoá do povo palestino à nebulosa do “terrorismo islâmico”. A ultra direita evangélica anglo saxónica aplaude as invasões como um passo para a destruição do Islão … Em qualquer caso, o 11 de Setembro significou um retrocesso importante para a justiça em todo o mundo, piorando a situação dos mais desfavorecidos, jogando a favor daqueles que se apresentaram (cinicamente) como vítimas.”

O combate contra esta manipulação é hoje uma tarefa iniludível. Devemos ser capazes de dar a volta à situação, pegar nas imagens e oferecer outra leitura. Ao apontar o Islão como ‘inimigo do ocidente ‘, manifesta-se a pretensão do terrorismo neoliberal se apresentar como único ‘representante do ocidente’. Mas na verdade o Islão faz parte do ocidente e eles apenas representam a barbárie. Entre estas linhas do discurso dominante vemos aparecer uma verdade mais certa, que se refere à força do Islão como algo capaz de opor-se ao capitalismo selvagem que nos querem impor como único modelo (pensamento único, monoteísmo de mercado) sem ter em conta que os privilégios que gozam as classes altas da metrópole não chegam à maior parte dos habitantes da terra, de que para a maioria a globalização neo liberal significa escravidão e desenraizamento, militarismo e agiotagem, fome e sofrimento para centenas de milhares de pessoas.

Já não é possível aguentar mais a maquinaria de morte que se espalha sobre o mundo. Uma grande parte do planeta vive no limite do humanamente suportável e parece evidente que se algo não acontecer urgentemente vamos ver como tudo explode. Quando vemos a crueldade sem limites do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das grandes multinacionais e o descaramento absoluto dos Estados Unidos para massacrar povos inteiros perante a opinião pública, estremecemos. Que se esconde por trás de tudo isto? Trata-se do sonho de domínio de um povo eleito ou de uma raça superior? Ou ainda do sonho de um império universal que tem acompanhado a humanidade desde os seus pri- mórdios? Não conseguimos sabê-lo, mas em todo o caso é importante não nos deixarmos arrastar por umas dicotomias que apenas a eles interessam, não cair no jogo da morte.

Perante esta situação, torna-se imprescindível pensar no nosso Jihad (Esforço), aqui e agora. O Islão, ainda que sendo altamente combativo, não é violento. Não pode ser violento. Não pode ser manipulado para a violência. Existe uma delicadeza no tratamento que é inseparável do Islão, isso a que chamamos adab e que nos impede a violência sem fazermos cair na afectação. Basta dizer que o Profeta Muhammad [Maomé] (s.a.w.) tratava até mesmo as coisas com delicadeza. Não gostava que se batesse nem numa mesa ou que se tratasse mal a roupa. Punha nomes às suas capas e acariciava as montanhas. É, no sentido literal do termo, um homem do Jardim.

Não se trata de repetir que o Islão e o terrorismo são contrários para satisfazer a opinião pública, nem para sair desse estado de suspeita em que continuamente nos colocam. Trata-se da nossa obrigação de desenvolver meios islâmicos (lícitos) para travar a destruição do mundo, na medida das nossas possibilidades. O certo é que o verdadeiro muçulmano tem um sentido implícito de justiça, do equilíbrio interno das coisas, que o torna incompatível com qualquer forma de destruição generalizada. Existem numerosas prescrições relativas ao modo islâmico de combater, tiradas a partir das palavras do Profeta. Todas elas demonstram um respeito pela vida que vai muito além do aparente. Muhammad (s.a.w.) diz-nos que não devemos destruir uma árvore ou envenenar um poço para vencer uma batalha e muito menos matar um inocente. Não há vitória que justifique a injustiça. No Islão, o fim não justifica os meios, pois essa é uma ideia puramente utilitarista, que nada tem a ver com a ikhlas, a pureza de intenção que Deus nos prescreveu.

Se somos capazes de aprofundar o impacto de todos estes conhecimentos e ao mesmo tempo livrarmo-nos das imagens e das fantasias mentais suscitadas, se somos capazes de ir mais além da aparência, de superar o estado de ilusão a que nos conduziram e nos apercebemos da estratégia do império, teremos já alguma coisa valiosa com que nos opormos a eles e a sua estratégia terá dado um fruto inesperado. É assim que se torna realidade o versículo do Alcorão que, ao longo destes anos, tem estado presente entre nós: “Deixa que eles tramem, pois Deus está atento às suas maquinações”.

Eles não sabem o que fazem, não sabem quais as forças que estão a contribuir para o despertar em todo o mundo. Colocando o Islão em ponto de mira do terrorismo neo liberal estão a despertar uma curiosidade e um interesse em relação ao Islão que os irá (já está a) surpreender. Desde o 11 de Setembro que o Islão cresce no Ocidente. Cada dia que passa são mais os cidadãos europeus e norte americanos que encontram no Islão um caminho que os tira da banalidade e da mentira e os devolve à Realidade, à vasta terra de Deus, a uma Criação que se renova a cada instante.

Conheço poucas pessoas que se tenham interressadas, sinceramente, pelo Islão e não tenham acabado reconhecendo-o como algo próprio, pois o Islão não é senão a recuperação do que chamamos de fitrat, da natureza primitiva de cada ser humano.

O modo como a maioria dos muçulmanos do mundo vive o seu Islão pouco tem a ver com todas as imagens que os meios de comunicação difundem. Há que ver os homens de luz reunidos à volta de uma chávena de chá para entender porque é que o Islão provoca o desespero e a recusa do sistema. Os povos reúnem-se à volta do mais simples, formam comunidades de um modo natural, não têm pressa e sabem olhar nos olhos a partir da sua humanidade, a partir do seu coração de criatura. Um homem enraizado, que recusa as ficções, não pode reduzir-se à imagem do produtor-consumidor que nos querem impor como modelo, tem que recusar quase todas essas coisas que nos querem presentear como necessidades, pois na verdade não passam de lixo. Essa é a tarefa do Islão aqui e agora, como o foi nos tempos do Profeta: reestabelecer os valores de uma cosmo-visão aberta, de uma comunidade não depredadora, que nos permite agarrar-se à terra e manter-se fiel à beleza e ao bem que emanam da Criação.

Necessitamos urgentemente de reflectir sobre um esforço de superação e de oposição ao terror que tem acompanhado os homens de bem desde o principio dos tempos. O chamamento de Jihâd realizado pelos tiranos e fanáticos de turno não é mais do que um engano. Cada vez que sai um vídeo onde um sósia de Bin Laden apela à “jihad contra os infiéis” a Bolsa em Nova Iorque sobe. Mas isso não quer dizer que o jihad (esforço, empenho) não seja uma peça do Islão, completamente imprescindível no momento em que a barbárie avança a passo firme: Como ultrapassar o nosso estado de dispersão sem o esforço do encontro? Como escapar a esse confronto que quer levar milhões de pessoas à morte sem um esforço lúcido de nos livrarmos de toda a idolatria? Os ídolos agora não são umas estatuetas de barro, mas sim a pornografia, a ideologia do consumo, a justificação da guerra e da euforia competitiva, todas as grandes mentiras que se institucionalizaram. Não há nada mais destrutivo que esse culto acenntuado do dinheiro que domina as nossas sociedades. Sobre isto o Alcorão tem um versículo clarificador: “Quando queremos destruir uma cidade…fazemos aos ricos detentores do poder” (XVII, 16), algo que se torne evidente tanto na América dos Bush e dos Cheney como na Arábia dos Banu Saud (Sauditas).

É necessário pensarmos na jihad (esforço) deste nosso compromisso com a Realidade, a partir da nossa entrega a Deus.

A nossa capacidade de resistência à alienação torna-se firme a partir do momento em que sentimos Deus como mais imediato. O Alcorão diz-nos que “Deus está mais perto do homem que a sua veia jugular”, que “Olhes para onde olhares está a Face de Deus”. Nada está mais distante disso que o ‘deus’ distante dos clérigos reaccionários, esse senhor severo sentado num trono de pedra, ou senhor cruxificado e sangran- do que nos enche de tristeza. Para o Muçulmano essas imagens não são mais que véus, pois ele sabe que o único real é o imediato, que a Realidade não pode ser quantificada, segregada a uma imagem.

Deus não só vê através das coisas e dos acontecimentos, em todos os momentos e olhares, no amor da mãe pelo filho, ou mesmo entre as ruínas de um incêndio.

A porta do Islão é o assombro, a capacidade que temos de nos maravilharmos perante um gesto de nobreza e isso é o que não devemos deixar que nos tirem, substituindo a beleza primária da terra por umas imagens de conforto ou de violência que eles espalham à sua volta. A Beleza e a Majestade da Criação são o nosso único horizonte, esse lugar comum de todos os encontros, à volta do qual os homens se reúnem tranquilamente. Esse é o mundo que as bombas nos escondem, e do qual, muitas vezes, as estratégias dos meios de comunicação tratam de nos desenraizar. Nós somos representantes de Deus e temos uma responsabilidade enorme: o cuidado do mundo. Devemos contribuir para recriar um mundo de luz paralelo ao mundo das guerras e das ideologias e a esse mundo torná-lo cada vez mais amplo, mais habitável e partilhável e convidar todos os nossos irmãos, sejam ateus, cristãos, judeus ou budistas, membros de qualquer religião ou de qualquer raça. Numa só frase: Trabalhar para o caminho do encontro.

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Acabe com a injustiça, dizem personalidades muçulmanas a Obama

(Versão Portuguesa de Al Furqán)

CAIRO – Uma panóplia de pensadores escolásticos muçulmanos, activistas políticos e académicos escreveram uma carta aberta ao Presidente norte-americano Barack Obama, incentivando-o a iniciar o seu reinado com a remediação das injustiças infligidas aos árabes e muçulmanos, para que a paz possa prevalecer e que a América recupere a sua imagem.

“A civilização não pode prosperar e a paz e a segurança não podem ser desfrutadas pelo mundo, a menos que a justiça prevaleça na terra e seja dominante nas relações internacionais,” dizia a carta, da qual o IslamOnline.net obteve uma cópia.

A carta fazia uma lista das injustiças que deverão ser mitigadas de forma a pôr fim às hostilidades e a promover a paz no mundo.

Os líderes muçulmanos acrescentaram: “Nenhuma outra nação da história sofreu tamanha injustiça como aquela que foi infligida ao povo palestiniano”.

“Este facto tem sido ignorado pelos E.U.A. de forma a responder a pressões de índole financeira, política ou dos media, ou então a ilusões ideológicas, lendas ou ambições eleitorais.”

Entre os signatários encontram-se o Sheikh Yusuf al-Qaradawi, presidente da International Union of Muslim Scholars (IUMS), Rashid Al-Ghanoushi, Secretário-Geral do Al-Nahdha Movement da Tunísia, Qazi Hussein Ahmad, líder do Jamaat-e-Islami, do Paquistão, e Ali Sadruddin Al-Bayanoni, Presidente da Irmandade Muçulmana da Síria.

A carta afirma que não podem ser retomadas as relações normais com árabes e muçulmanos, “a menos que a injustiça infligida à nação palestiniana” seja levantada e “a não ser que as soberanias iraquianas e afegãs sejam preservadas.”

Obama, que prestou juramento como o 44º presidente norte-americano, e o primeiro de raça negra, na terça-feira, dia 20 de Janeiro, prometeu um recomeço nas relações com o mundo islâmico.

No seu discurso de nomeação, que foi visto por milhões em todo o mundo, Obama afirmou o seguinte: “Em relação ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho, com base no interesse e respeito mútuos.”

Os líderes muçulmanos lamentaram o facto de uma grande parte das injustiças do mundo actual ser perpetuada ou ignorada pelos Estados Unidos, tendo afirmado: “Embora os Estados Unidos sejam, de todos os países do mundo, o que mais clama pela liberdade e respeito pelos direitos humanos, somos da opinião de que, na prática, os governos norte-americanos são aqueles que mais violam os direitos humanos e que mais confiscam a liberdade dos outros.”

“Além do mais, mostrou ter a parte de leão no que diz respeito ao apoio a regimes ditatoriais, à conspiração contra democracias em desenvolvimento, ao planeamento de golpes militares e ao desrespeito face às organizações internacionais.”

A carta alertava para o facto de as tentativas de impor um modelo americano através da força e da pressão teriam apenas como consequência o efeito oposto ao pretendido.

“Quem primeiro sofre as consequências destes métodos são os próprios Estados Unidos.”

A imagem dos Estados Unidos foi severamente denegrida durante os oito anos de presidência de George Bush, o antecessor de Obama.

A chamada “guerra ao terrorismo” de Bush, uma série de escândalos relativamente a abusos de detidos no Afeganistão, Iraque e no conhecido centro de detenção de Guantanamo, empolaram os sentimentos anti-americanos pelo mundo fora, especialmente nos países islâmicos.

Os líderes muçulmanos incentivaram Obama a assegurar que os Estados Unidos, durante a sua governação, iriam reconsiderar com seriedade a sua abordagem na relação com o mundo.

“No entanto, esta posição requer, da parte da liderança norte-americana, uma coragem que transcende interesses políticos e partidários.

“Irá ser um homem de ética, princípios e sonhos, tal como prometeu ao seu povo e ao mundo?”

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Alexandria, Capital da Cultura Islâmica 2008

Reportagem coordenada por: M. Yiossuf Adamgy (24/12/2008)

A Alexandria celebra este ano o título de “capital da cultura islâmica”, outorgado pela ISESCO, a Organização Islâmica para a Educação, Ciência e Cultura. Como parte desta celebração, são muitas as actividades que foram organizadas nesta cidade que chegou a ser capital do Egipto por mais de 1000 anos. Uma capital onde podiam ouvir-se até cinco idiomas: árabe, francês, inglês, grego e arménio (ou italiano, etc). A Alexandria era uma rica combinação, onde o Oriente e o Ocidente permaneciam em harmonia.

A conferência “Alexandria e a Cultura Islâmica” será, quiçá, a actividade mais destacada no momento. Conta com a participação de membros da mencionada ISESCO, bem como da Comissão Nacional de Educação, Ciência e Cultura do Egipto e outros académicos oriundos de fora do país. Esta conferência foi dirigida aos meios de comunicação e às associações e teve como objectivo principal educar e formar para a importância de continuar com o diálogo – entre civilizações e culturas – como componente central nos conteúdos comunicativos.

Entre os temas, estiveram o histórico carácter cosmopolita da comunidade alexandrina antes da chegada do período islâmico, a co-existência entre diferentes religiões, os intelectuais alexandrinos na idade islâmica – arquitectura e arte em geral – bem como um interessante ponto sobre as contribuições desta cidade para com o Islão. Aqui, convergem duas ideias: a Alexandria europeia e a Alexandria árabe. Sobre este dilema, falou o prestigiado Professor Dr. Mohamed Rafeek Khalil. Na apresentação do seu projecto sobre “O aspecto islâmico árabe vs. o aspecto europeu na cultura alexandrina,” concluiu dizendo que, apesar de Alexandria sempre ter sido uma cidade cosmopolita com uma identidade mediterrânea, nada pode negar o papel crucial das suas raízes históricas que se tornam mais e mais profundas ao largo dos séculos.

Os alicerces da Alexandria cosmopolita.

Hoje em dia, Alexandria conserva, não obstante o espírito das civilizações que encontraram nesta cidade, um lugar idílico para o seu desenvolvimento e força: a porta do Mediterrâneo. Com um porto marítimo de grande importância estratégica que unia as ricas civilizações gregas e romanas com África, foi ponto de desembarque das riquezas provenientes do Ocidente e também de piratas.

Alexandria é a segunda maior cidade do Egipto e conta com uma costa invejável, que muitos quiseram ter. A brisa do Mar Mediterrâneo penetra pelas suas ruas, envelhecendo fachadas, varrendo as ruas poeirentas e amolecendo os terríveis engarrafamentos de uma cidade ocupada e agitada.

A verdadeira Alexandria não é a que todos vemos. Para poder visitar a antiga cidade histórica, aquela fundada por Alexandre, o Grande, teríamos de submergir no mar. Já não há vestígios, embora, possamos ver milhares de ruínas, ptolemaicas, romanas, bizantinas e da era islâmica.

A multiculturalidade mistura-se com a multitude de religiões que aqui convivem, podendo encontrar-se igrejas católicas, anglicanas, protestantes, bem como ortodoxas – e ainda mais.

Encontramos também mesquitas tão conhecidas como a Abou El Abbas El Morsy, um sheikh que, chegado de Murcia, permaneceu mais de 30 anos em Alexandria e construiu esta mesquita. Para além das catacumbas greco-romanas, o anfiteatro romano ou o Pilar de Pompeia, conta com numerosos museus e com uma das maiores sinagogas do mundo.

Os parques e praias são mais um ponto a favor para motivar a vinda dos visitantes. Os turistas, claro está, não podem deixar de visitar a mítica Biblioteca de Alexandria.