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Acabe com a injustiça, dizem personalidades muçulmanas a Obama

(Versão Portuguesa de Al Furqán)

CAIRO – Uma panóplia de pensadores escolásticos muçulmanos, activistas políticos e académicos escreveram uma carta aberta ao Presidente norte-americano Barack Obama, incentivando-o a iniciar o seu reinado com a remediação das injustiças infligidas aos árabes e muçulmanos, para que a paz possa prevalecer e que a América recupere a sua imagem.

“A civilização não pode prosperar e a paz e a segurança não podem ser desfrutadas pelo mundo, a menos que a justiça prevaleça na terra e seja dominante nas relações internacionais,” dizia a carta, da qual o IslamOnline.net obteve uma cópia.

A carta fazia uma lista das injustiças que deverão ser mitigadas de forma a pôr fim às hostilidades e a promover a paz no mundo.

Os líderes muçulmanos acrescentaram: “Nenhuma outra nação da história sofreu tamanha injustiça como aquela que foi infligida ao povo palestiniano”.

“Este facto tem sido ignorado pelos E.U.A. de forma a responder a pressões de índole financeira, política ou dos media, ou então a ilusões ideológicas, lendas ou ambições eleitorais.”

Entre os signatários encontram-se o Sheikh Yusuf al-Qaradawi, presidente da International Union of Muslim Scholars (IUMS), Rashid Al-Ghanoushi, Secretário-Geral do Al-Nahdha Movement da Tunísia, Qazi Hussein Ahmad, líder do Jamaat-e-Islami, do Paquistão, e Ali Sadruddin Al-Bayanoni, Presidente da Irmandade Muçulmana da Síria.

A carta afirma que não podem ser retomadas as relações normais com árabes e muçulmanos, “a menos que a injustiça infligida à nação palestiniana” seja levantada e “a não ser que as soberanias iraquianas e afegãs sejam preservadas.”

Obama, que prestou juramento como o 44º presidente norte-americano, e o primeiro de raça negra, na terça-feira, dia 20 de Janeiro, prometeu um recomeço nas relações com o mundo islâmico.

No seu discurso de nomeação, que foi visto por milhões em todo o mundo, Obama afirmou o seguinte: “Em relação ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho, com base no interesse e respeito mútuos.”

Os líderes muçulmanos lamentaram o facto de uma grande parte das injustiças do mundo actual ser perpetuada ou ignorada pelos Estados Unidos, tendo afirmado: “Embora os Estados Unidos sejam, de todos os países do mundo, o que mais clama pela liberdade e respeito pelos direitos humanos, somos da opinião de que, na prática, os governos norte-americanos são aqueles que mais violam os direitos humanos e que mais confiscam a liberdade dos outros.”

“Além do mais, mostrou ter a parte de leão no que diz respeito ao apoio a regimes ditatoriais, à conspiração contra democracias em desenvolvimento, ao planeamento de golpes militares e ao desrespeito face às organizações internacionais.”

A carta alertava para o facto de as tentativas de impor um modelo americano através da força e da pressão teriam apenas como consequência o efeito oposto ao pretendido.

“Quem primeiro sofre as consequências destes métodos são os próprios Estados Unidos.”

A imagem dos Estados Unidos foi severamente denegrida durante os oito anos de presidência de George Bush, o antecessor de Obama.

A chamada “guerra ao terrorismo” de Bush, uma série de escândalos relativamente a abusos de detidos no Afeganistão, Iraque e no conhecido centro de detenção de Guantanamo, empolaram os sentimentos anti-americanos pelo mundo fora, especialmente nos países islâmicos.

Os líderes muçulmanos incentivaram Obama a assegurar que os Estados Unidos, durante a sua governação, iriam reconsiderar com seriedade a sua abordagem na relação com o mundo.

“No entanto, esta posição requer, da parte da liderança norte-americana, uma coragem que transcende interesses políticos e partidários.

“Irá ser um homem de ética, princípios e sonhos, tal como prometeu ao seu povo e ao mundo?”

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Alexandria, Capital da Cultura Islâmica 2008

Reportagem coordenada por: M. Yiossuf Adamgy (24/12/2008)

A Alexandria celebra este ano o título de “capital da cultura islâmica”, outorgado pela ISESCO, a Organização Islâmica para a Educação, Ciência e Cultura. Como parte desta celebração, são muitas as actividades que foram organizadas nesta cidade que chegou a ser capital do Egipto por mais de 1000 anos. Uma capital onde podiam ouvir-se até cinco idiomas: árabe, francês, inglês, grego e arménio (ou italiano, etc). A Alexandria era uma rica combinação, onde o Oriente e o Ocidente permaneciam em harmonia.

A conferência “Alexandria e a Cultura Islâmica” será, quiçá, a actividade mais destacada no momento. Conta com a participação de membros da mencionada ISESCO, bem como da Comissão Nacional de Educação, Ciência e Cultura do Egipto e outros académicos oriundos de fora do país. Esta conferência foi dirigida aos meios de comunicação e às associações e teve como objectivo principal educar e formar para a importância de continuar com o diálogo – entre civilizações e culturas – como componente central nos conteúdos comunicativos.

Entre os temas, estiveram o histórico carácter cosmopolita da comunidade alexandrina antes da chegada do período islâmico, a co-existência entre diferentes religiões, os intelectuais alexandrinos na idade islâmica – arquitectura e arte em geral – bem como um interessante ponto sobre as contribuições desta cidade para com o Islão. Aqui, convergem duas ideias: a Alexandria europeia e a Alexandria árabe. Sobre este dilema, falou o prestigiado Professor Dr. Mohamed Rafeek Khalil. Na apresentação do seu projecto sobre “O aspecto islâmico árabe vs. o aspecto europeu na cultura alexandrina,” concluiu dizendo que, apesar de Alexandria sempre ter sido uma cidade cosmopolita com uma identidade mediterrânea, nada pode negar o papel crucial das suas raízes históricas que se tornam mais e mais profundas ao largo dos séculos.

Os alicerces da Alexandria cosmopolita.

Hoje em dia, Alexandria conserva, não obstante o espírito das civilizações que encontraram nesta cidade, um lugar idílico para o seu desenvolvimento e força: a porta do Mediterrâneo. Com um porto marítimo de grande importância estratégica que unia as ricas civilizações gregas e romanas com África, foi ponto de desembarque das riquezas provenientes do Ocidente e também de piratas.

Alexandria é a segunda maior cidade do Egipto e conta com uma costa invejável, que muitos quiseram ter. A brisa do Mar Mediterrâneo penetra pelas suas ruas, envelhecendo fachadas, varrendo as ruas poeirentas e amolecendo os terríveis engarrafamentos de uma cidade ocupada e agitada.

A verdadeira Alexandria não é a que todos vemos. Para poder visitar a antiga cidade histórica, aquela fundada por Alexandre, o Grande, teríamos de submergir no mar. Já não há vestígios, embora, possamos ver milhares de ruínas, ptolemaicas, romanas, bizantinas e da era islâmica.

A multiculturalidade mistura-se com a multitude de religiões que aqui convivem, podendo encontrar-se igrejas católicas, anglicanas, protestantes, bem como ortodoxas – e ainda mais.

Encontramos também mesquitas tão conhecidas como a Abou El Abbas El Morsy, um sheikh que, chegado de Murcia, permaneceu mais de 30 anos em Alexandria e construiu esta mesquita. Para além das catacumbas greco-romanas, o anfiteatro romano ou o Pilar de Pompeia, conta com numerosos museus e com uma das maiores sinagogas do mundo.

Os parques e praias são mais um ponto a favor para motivar a vinda dos visitantes. Os turistas, claro está, não podem deixar de visitar a mítica Biblioteca de Alexandria.

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Aprender a coexistir

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

Há um milagre e um enigma na História Muçulmana que não podem ser logicamente explicados.

Alguns muçulmanos mostram-se desconfiados quando o assunto da coexistência vem à baila. Uns pensam que a mesma implica abdicar da Lei Islâmica, enquanto outros julgam-na um embuste enganador com um de dois objectivos: privar por completo o Islão dos seus princípios ou introduzir na crença e princípios islâmicos regras de outras fés e credos.

Outra razão que explica o cepticismo muçulmano relativamente ao tema da coexistência é o facto de a mesma ser considerada como algo que teve origem no Ocidente e que foi engendrado pelo mundo ocidental, sendo promovido por ele como uma forma de denegrir a cultura islâmica e os seus valores, com o intuito de fazer do mundo muçulmano uma cópia do ocidente.

Embora tenhamos de respeitar essas reservas e sentimentos, a verdade é que o conceito da coexistência é, na sua essência, algo que é defendido pelos ensinamentos islâmicos e que é atestado pelos textos sagrados.

Não devemos desconfiar do termo “coexistência” apenas porque algumas pessoas o usam com maus propósitos. Também não devemos preocupar-nos em demasia com questões de terminologia, pois o que nos interessa realmente é o significado da palavra. Devemos adoptar uma perspectiva razoável, aceitar o que é bom e rejeitar aquilo que é condenável.

Devemos adoptar o princípio que diz: “Os muçulmanos buscam a palavra verdadeira. Quando um muçulmano encontra essa palavra, tem maior legitimidade para a aceitar.” [sunan al-Tirmidhi – al-Tirmidhi considera esta narração invulgar].

Ter uma visão pessimista em relação à coexistência, com base na crença de que pomos em risco os princípios essenciais da nossa religião por adoptarmos outros credos a par do nosso, ainda que estes pareçam contraditórios, é uma noção claramente errada.

Allah

diz-nos:”Credes numa parte da Escritura e rejeitais a outra?” (Surah al-Baqarah, 2:85). Além disso, a coexistência tem um outro significado muito positivo, sendo, essencialmente, um dos valores morais mais nobres que podem ser aplicados à comunicação, ao diálogo e ao facto de aceitarmos trabalhar com outros no sentido de alcançarmos a paz e a prosperidade mútua. Depois de reconhecermos a existência de diferenças entre nós, torna-se necessário respeitá-las e este saber está ligado ao pluralismo. Foi a noção de coexistência que o Islão concebeu. O Alcorão refere-se-lhe de diversas formas, sendo muitas delas mais claras e precisas do que o conceito moderno de “coexistência”.

Por exemplo, quando Allah diz: “Ó humanidade! Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em tribos e nações, para que se conheçam uns aos outros.” (Surah Al Hujurat, 49:13).

Quando Allah diz “conhecer uns aos outros” não se está a referir apenas a conhecer um determinado nome ou tribo, está a referir-se a toda a humanidade, implicando a expressão, numa interpretação mais lata, a adopção da troca de saberes e aprendizagens e toda uma série de interacções positivas.

Este significado é reafirmado quando Allah diz: “Não permitais que o ódio das pessoas que em determinada ocasião vos expulsaram da Mesquita Sagrada vos leve à transgressão (e à hostilidade da vossa parte). Ajudai-vos uns aos outros na virtude e na piedade, mas não o façais em pecado e na hostilidade. E temei a Allah, pois Allah é severo no castigo”. (Surah al-Ma ‘idah, 5:2).

O Islão promove o conceito de nos ajudarmos uns aos outros e de cooperarmos naquilo que é benéfico, independentemente do facto de a outra parte concordar ou não connosco naquilo que é essencial. O que realmente interessa é a nossa cooperação para a concretização de algo legítimo, algo que esteja em concordância com os ditames da virtude e que não seja um pecado, injustiça ou transgressão. O conceito de nos conhecermos e ajudarmos uns aos outros é positivo para todos. Estes são valores que levam ao melhoramento da humanidade. Ao agimos em concordância com eles, os outros aproximam-se mais de nós e do Islão.

As pessoas são diferentes umas das outras e vivem em circunstâncias diversas; este é um dado adquirido. Allah destinou que assim fosse, tendo afirmado: “Se o teu Senhor quisesse teria feito da humanidade um povo único; porém, jamais deixarão de existir diferenças entre os homens, a não ser naqueles que Allah agraciou com a Sua Misericórdia…” (Surah Hud, 11:118-119).

Aceitar a existência de divergências e a multiplicidade de opiniões não implica a não diferenciação entre o correcto e o errado, entre o bem e o mal. Pelo contrário, a noção de divergência pressupõe a opo- sição entre o correcto e o errado. A coexistência não invalida que promovamos os nossos valores ou que nos tenhamos de abster de defender as nossas opi- niões. Podemos continuar a discutir com os outros, mas com toda a educação, mostrando o que está certo e proibindo o que está errado. Este é um valor que é considerado essencial na nossa fé.

A coexistência impele-nos a cooperar pacificamen- te com o outro para benefício e bem-estar mútuos e para que possamos viver como vizinhos, graças à força dos valores universais que partilhamos e que nos dão a oportunidade de dialogar e de trocarmos ideias.

O desejo do crente é aperfeiçoar as circunstâncias. O crente é alguém que se caracteriza por dizer o que está correcto e proibir aquilo que é errado, dando o seu melhor no sentido de promover a verdade e refutar a falsidade, de fomentar o conhecimento e dissipar a ignorância, agindo sempre da forma mais razoável para o conseguir. Um dos piores comportamentos que um indivíduo pode ter é assumir-se como o dono da verdade, seja qual for a designação que dê a si próprio, tendo o seu ponto de vista como absolutamente correcto ao ponto de se considerar no direito de julgar todas as outras pessoas. Esta atitude é, em si própria, um erro grave e algo que radicalmente se opõe aos ensinamentos islâmicos. Para o Islão todas as vidas são sagradas, sejam de muçulmanos ou de não-muçulmanos, desde que desejem viver em paz. Tem sido este o exemplo praticado ao longo da história.

A sociedade de Medina (ár. Madinah), a primeira cidade do mundo muçulmano e através da qual o Islão se difundiu por todo o mundo, ilustra bem a coexistência proposta pelo Islão. Com efeito, assim que o Islão se tornou forte e independente, Allah decidiu que Medina não deveria ser apenas uma cidade muçulmana, mas um local partilhado por pessoas de outras fés (judeus e pagãos) e também por hipócritas e por muçulmanos cuja fé era débil. Todos viveram lado a lado numa pequena cidade.

A coexistência é a forma que permite que todos os povos do mundo possam cooperar e trocar conhecimentos em prol da humanidade que partilhamos e de uma existência civilizada. Partilhamos as experiências que nos permitem ter uma vida melhor na Terra. Na verdade, essa é a forma que temos para que juntos possamos promover os valores que todos defendemos e o conhecimento universal. É, também, neste tipo de conjuntura que poderemos ter a oportunidade de chamar outros para ouvir a mensagem do Islão.

Não quer isto dizer que apenas um dos lados terá o direito de pregar a sua fé e ideias à outra parte. O que se pretende é criar a oportunidade para o surgimento de um diálogo construtivo (num contexto de coexistência a nível mundial) para a discussão de assuntos de importância religiosa bem como de interesse global.

Os Companheiros do Profeta Muhammad (que a paz e bençãos de Allah estejam com ele) perceberam perfeitamente que acreditavam numa religião que era substancialmente diferente de todas as outras religiões que existiam à sua volta. Essas diferenças acentua- ram-se ainda mais, cravadas por pormenores relativos às crenças, que ficaram registados nas escrituras de cada uma dessas religiões e que eram expressos nos seus diferentes ritos de devoção. Ainda assim, era reconhecida a existência entre essas religiões de um espaço para o diálogo, para além dos interesses mundanos que, por vezes, partilhavam entre si.

Com efeito, podemos constatar que Allah diz: “Dize-lhes: Ó adeptos do Livro! Vinde, para chegarmos a um acordo comum, entre nós e vós: comprometamo-nos, formalmente, a não adorar senão a Deus (ár. Allah), a não Lhe atribuir parceiros e a não nos tomarmos uns aos outros por senhores, em vez de Deus. Porém, caso se recusem, dize-lhes: testemunhai que somos submissos à Vontade de Deus”. (Surah al Imram, 3:64).

Apesar de os Mensageiros de Allah terem sido os homens que possuíram a maior fé de todas as pessoas que já viveram neste mundo, eles viveram junto dos seus clãs que demonstraram uma descrença categórica. Noé (que a paz esteja com ele) viveu entre o seu povo 950 anos.

Allah

diz: “(Noé) disse: “Ó Senhor meu! Tenho predicado ao meu povo noite e dia; mas as minhas predicações apenas os afastaram ainda mais (da verdade). E cada vez que os convocava ao arrepen- dimento, para que Tu os perdoasses, tapavam os ouvidos com os dedos e se envolviam com as suas vestimentas, obstinando-se no erro e ensoberbecendo-se grotescamente. Então, convoquei-os em voz alta; depois os exortei palatina e privativamente, dizendo-lhes: Inplorai o perdão do vosso Senhor, pois Ele é Indulgente…” (Surah Nuh, 71:5-10). Pelo que acima foi citado, percebemos que Noé (que a paz esteja com ele) os tentou atrair ao Islão, (submissão à Vontade de Deus) de uma forma objectiva e razoável, apelando ao seu bom-senso: tudo isto faz parte da chamada coexistência.

A coexistência não implica que tenhamos de negar a nossa opinião pessoal e muito menos que tenhamos de pôr de parte as nossas crenças religiosas. As nossas opiniões pessoais fazem parte da nossa identidade e ninguém nos pode obrigar ou coagir a mudá-las. No final, as nossas opiniões continuarão a ser isso mesmo, opiniões pessoais. O que se pretende realmente é pôr fim ao fanatismo sufocante e à agitação irreflectida, pois do que, na verdade, precisamos é de uma comunicação franca, procurando atrair as pessoas, servindo-nos daquilo que temos de melhor. A coexistência requer, pois, o abandono da obstinação relativamente às nossas opiniões e abstermo-nos de forçar outros a aceitarem-nas; não nos impõe o abandono das nossas crenças ou a obrigação de considerar que todos os pontos de vista estão correctos, porque existe uma enorme diferença entre esses dois extremos.

E Allah é quem sabe melhor.