Posted on

O Mundo no Final de 2011

Sheikh Aminuddin Mohamad (de Moçambique)

26.12.2011 – O nosso belo Mundo vive actualmente envolto na grande onda macaréu de crime. A corrupção está no seu auge, estando difusa por todos os lados, até mesmo na rua. O assassinato, o sequestro, o assalto, a pilhagem e outras formas de crime violento, já não são praticados apenas por gente esfomeada, não educada, não civilizada enfim, por bárbaros ou gente grosseira e boçal, como acontecia em tempos idos.

As guerras tornaram-se algo semelhante a um capricho, um hobby, uma ocupação favorita e um grande negócio por todo o lado por esse Mundo fora.

A opressão e exploração estão na ordem do dia. A justiça adquiriu um novo significado completamente distorcido, isto é, o direito ao aborto, à fornicação, à prática de homossexualismo, ao adultério enfim, a verdade vai sendo degolada de forma cruel.

Qualquer pessoa pode ser perdoada por pensar que o Homem e o animal por vezes se assemelham, são um, e o mesmo. Porém, actualmente o Homem tornou-se pior que os animais.

Muitos daqueles que se consideravam guias, e em quem se depositavam grandes esperanças de resgatar este grande barco das águas tempestuosas – médicos, advogados, professores, estudantes universitários, até mesmo alguns religiosos – também se encontram profundamente atolados no lodaçal da paixão, da ambição desmedida da ganância pelo poder, das mulheres e outros divertimentos imorais.

A prostituição, os jogos de azar, o homossexualismo, o aborto, o alcoolismo, o adultério, a fornicação e outros grandes pecados, estão em operação neste chamado mundo livre.

A maior parte das pessoas no Mundo, caíram nesta situação, e os que ainda não perderam o seu equilíbrio, estão sob o risco iminente de perdê-lo.

O fruto proibido deixou de o ser. Que mau negócio fizemos nós! Trocamos o bem pelo mal. Trocamos diamantes por pedras, a fé pela infidelidade, o Paraíso pelo Inferno! Mas estamos enganados, pois nem tudo o que brilha é ouro, e o nosso negócio não foi lucrativo. Tudo isso é apenas uma miragem, uma ilusão e nada mais do que isso.

Mais um ano da vida de cada um de nós passou, e agora estamos mais próximos do nosso fim, pois estamos mais velhos. Não nos devemos esquecer da existência de Deus, pois foi Ele Quem nos criou, fez-nos respirar, olhar, andar, ouvir, sentir, viver e morrer. Nada é nosso. O Sol, a Lua, os dias, as noites, o ar, a chuva, a comida, a água, todos os seres animados ou inanimados, é tudo criação de Deus. A todo o momento estamos sob seu controlo e a Ele teremos que prestar contas depois da morte, que nos pode chegar a qualquer momento.

Todas as coisas, exceptuando o Homem, estão cumprindo inteiramente com o que lhes foi ordenado por Deus, segundo os Seus preceitos.

Todo o fenómeno, desde o mais pequeno ao maior, foi planeado pelo Criador, pelo que não nos devemos esquecer de O recordar em cada lufada de ar que inspiramos.

Temos alguma dificuldade em perceber por que razão, na chamada Nova Ordem Mundial não se pode mencionar publicamente o nome de Deus.

O objectivo de todos os ensinamentos divinos é criar a percepção e a intimidade com o nosso Senhor, pois todas as outras são subsidiárias. Elas foram narradas para facilitar o alcance desse objectivo, pois o propósito dos rituais é facilitar a relação dos crentes para com o seu Criador, lembrando-O constantemente.

O Homem, na base da sua fraqueza humana e na distração da omnipresença de Deus, pode até cometer algum pecado, mas se se recordar d’Ele, Deus pode perdoar-lhe imediatamente, não precisando do sangue de quem quer que seja, para que o perdão dos pecados cometidos lhe possa ser concedido.

Deus não reage despoticamente, pelo contrário, proporciona inúmeras oportunidades para o perdão do Ser Humano. Numa expressão de um santo, isto é traduzido da seguinte forma: ‘Volte! volte, independentemente daquilo que és. Volte! Mesmo se sejas um infiel ou um adorador de ídolos, volte para Mim. A Nossa Corte Real não é a corte do desespero. Mesmo que tenhas transgredido cem vezes, voltando para trás do teu arrependimento, volte para Mim (isto é, a Deus)’.

Existem pessoas que não cometem pecados no sentido convencional, e que continuam a fazer orações e a cumprir com todos os outros rituais, mas fisicamente circulam naturalmente à volta dos seus interesses e desejos materialistas. Nunca dão nada aos pobres, aos necessitados, aos órfãos, às viúvas, etc., o que é muito mau, pois perante Deus isto constitui crime, incorrendo na Sua ira. O grande perigo com esse tipo de gente, é que eles nunca sentem a necessidade de arrependimento.

Ouvimos episódios de assassinos, de corruptos, de bêbados, de adúlteros e de assaltantes que se arrependeram e se regeneraram, sendo-lhes perdoados os pecados cometidos, tornando-se assim amigos de Deus, mas nunca se houve falar de nenhum sovina, ganancioso ou egoísta, ter renunciado aos seus desejos de preferência material, pois tais pessoas nunca pensam que estão a cometer algum crime.

O Profeta Muhammad S.A.W. diz: ‘O avarento está longe das pessoas, longe de Deus, e longe do Paraíso, e o generoso está perto das pessoas, perto de Deus e perto do Paraíso’.

Como é possível que haja tantos pobres e esfomeados no Mundo, quando existem tantos milionários e multimilionários? Isto decorre do facto de estes não partilharem as suas riquezas com os necessitados. Tornaram-se insensíveis perante a dor e o sofrimento das pessoas, e pensam que, o que eles possuem é por mérito próprio e não uma dádiva de Deus.

De facto, o Homem é um ser sentimental, mais do que racional, pois se não fosse assim, ele não poderia ajoelhar-se perante ídolos e nem teria rejeitado os sinais manifestos de Deus, revelados aos Profetas, conforme consta no Al-Qur’án, Cap. 2, Vers. 28:
‘Como é que vós negais Deus, enquanto éreis outrora inanimados (inexistentes) e foi Ele Quem vos deu a vida, depois vos dará a morte, depois de novo, a vida, e depois a Ele sereis retornados’?

Com o passar dos anos, e vendo as nossas vidas a chegarem ao fim, a pergunta fica no ar: ‘Quando chegarão os bons dias com que cada um de nós sonha na vida? Talvez só na outra vida!

Para terminar, gostaríamos de manifestar a nossa mais veemente condenação aos ataques bombistas contra igrejas na Nigéria. Reafirmamos sem equívocos, que o Isslam é alheio a tais práticas.

Gostaria igualmente de desejar a todos um Feliz e Próspero Ano Novo.

Posted on

Uma moralidade que se mede num acto de urinar

(23/01/2012 – Autor: Julio Valdez – Fonte: Webislam)

O processo de embrutecimento das tropas estrangeiras no Afeganistão

A Força Internacional de Assistência para a Segurança do Afeganistão ISAF assegurava que se tinha produzido ‘um inexplicável acto de falta de respeito que não está de acordo com os altos níveis de moralidade que esperamos das forças da aliança’, logo depois de ver as imagens de quatro marines a urinar sobre os cadáveres de combatentes afegãos. E isto leva-nos a colocar a questão: a que moralidade se referem ? Depois de terem liderado o bombardeamento massivo e selectivo sobre população civil e de proteger os narcotraficantes que produzem ópio no Afeganistão, de enriquecerem com empresas de reconstrução e com a exploração dos recursos naturais, evidentemente que sob estas circunstancias, este acto de urinar sobre cadáveres parece irrelevante.

Embrutecimento dos soldados invasores

Trata-se de impor maçãs podres como bem afirma Robert Fisk em La Jornada, argumentando em relação ao feito que os responsáveis por aqueles actos são a excepção à regra, tratando novamente de trair a colocação dos objectivos louváveis das guerras que eles têm promovido pelo planeta (a luta contra o comunismo, a luta contra o terrorismo, a libertação dos povos dos seus ditadores, a luta pela democracia, a luta pela liberdade, ajuda humanitária e outras justificações tiradas de guiões de Hollywood).

Uma das diferenças entre a guerra do Vietnam e a do Iraque é a baixa taxa de mortes de soldados norte-americanos em combate, não se passando o mesmo com os civis que, por regra, sofrem o peso dos bombardeamentos como vitimas colaterais, o que quase não varia é a quantidade de veteranos que sofrem de transtorno pós-traumático que provoca, entre muitas outras coisas, suicídios e casos de violência social e doméstica, somado ao problema social que provoca o consumo desmedido e massivo de licores e estupefacientes, que por si só é o mais alto do planeta e da história da humanidade.

As imagens de quatro soldados a urinar sobre os cadáveres reflectem o embrutecimento de um exército no qual se criou a mensagem dos filmes apologéticos do soldado indestrutível, profissional e moral (The Hurt Locker, Black Hawk Down, Green Zone). Evidentemente esses meios filmes contribuíram para a construção de uma imagem que pretende ser omnipresente no mundo, moralmente necessária a tal ponto que não esperam superar a sua auto-imagem de embaixadores da democracia e da liberdade; a arrogância é tal que se erguem por cima do bem e do mal.

A falta de solvência moral do exército norte-americano mede-se a partir do pouco ou muito que os seus próprios membros colocam filmes no Youtube; depois, a Hollywood faz o trabalho restante. Um dilema apresentado no filme de Oliver Stone ‘Platoon’, um sargento bom e outro mau, onde evidentemente, no final, a justiça impõe-se sobre a maldade e o bom sustém os ideais primários sobre os quais descansa a justificação da guerra.

‘Matei 255 pessoas e não me arrependo’

Esta é a frase do atirador Chris Kyle, oficial do pelotão Charly, terceiro grupo da força de elite dos Estados Unidos conhecida como Navy SEALs, que ganhou a reputação de ser o atirador mais mortífero em toda a história, que ao ser entrevistado pela BBC afirmava que ‘Custou-me o que fiz. No entanto gostei. Se a s circunstancias fossem diferentes – se a minha família não precisasse de mim – voltaria num abrir e fechar de olhos’ e logo voltou a afirmar: ‘as minhas balas salvaram muitos americanos cujas vidas valiam clara-mente muito mais que aquela mulher de alma retorcida’. (http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/-2012/01/120110_irak_francotirador_lp.shtml).

De facto, o elemento embrutecedor do soldado norte-americano tem a ver com a convicção desumana que cresce neles em forma de ódio ao inimigo a tal ponto que o degradam na sua qualidade humana; este processo é semelhante em todos os conflitos, mas o interessante no caso norte-americano é a carga emotiva e mediática que carrega.

Chris Kyle, da mesma forma que os quatro marines, possuem a particularidade de que provavelmente não têm uma mente perturbada nos seus contextos culturais, está fielmente convencido do seu papel na guerra ‘justa’; não há mais certeza do que a que pode proporcionar ao Exército e ao Estado e, se o esforço de guerra é justo, o divertir-se é quase um dever, como sucedeu com as centenas de fotografias que mostravam os prisio-neiros sodomizados e humilhados de Abu Ghraib.

Quando surgiram as avalanches de críticas aos soldados que profanaram os cadáveres de combatentes, ao mesmo tempo surgiram milhares de mensagens de apoio aos agora imputados por actos fora da moral militar, muitas delas eram de parentes e dos mesmos soldados norte-americanos que, inclusivamente, justificavam tais actos atrozes.

O stress pós-traumático que se produz durante a quebra da consciência, na raiz de presenciar ou participar em eventos sangrentos tem que ver com sentimentos posteriores de culpa ou de impotência que, evidentemente, os perpetradores de tortura em Abu Ghraib, Chris Kyle e os quatro marines que urinaram sobre os cadáveres de combatentes, superaram com doses de jocosidade e hilaridade, elevando o nível de cinismo que a empresa colonizadora requer, que, para o público que crê que é ameaçado pelo mundo, o feito dos soldados não é mais do que uma falta (não teria sido se não fossem apanhados). Esse mesmo cinismo imperial não pediu desculpas às famílias dos falecidos – pois na sua lógica, a sua morte estava plenamente justificada – , nem sequer para os povos afegãos nem para os muçulmanos do mundo; a preocupação era pelas possíveis armas propagandistas que se havia proporcionado ao inimigo que põe em perigo a vida das suas tropas, (somando ao facto de estarem a ocupar ilegalmente uma nação). Isto confirmou- se duas semanas depois quando um soldado afegão matou quatro soldados franceses.

O riso parece ser um elemento que mantém a coesão entre a acção militar e as vítimas civis. Tanto no Vietnam como no Iraque e no Afeganistão tornou-se evidente a remoção do agressor em forma de marine para a vítima, tanto que a castiga por não se deixar ‘proteger’, assim, a vítima é culpada da sua própria sorte, de tal forma que optou pelo caminho errado de ir com o inimigo. Desta forma, toda a acção contra civis é claramente justificada de tal forma que se põe na balança a vida de alguém que pode acabar com a própria vida, ou a de um amigo ou camarada de Unidade. O conflito atingiu todos os paradoxos existentes quando se produzem atentados entre os aliados em campo, quando um militar treinado e alimentado pelos cruzados se volta e mata os seus colegas de armas, não há infiltração, não há recompensas em dinheiro pela cabeça de um marine, há o simples desprezo pelo que sombreou de desprezo a própria terra, pleno de fúria do colonizador.

Posted on

Aprova o Islão a violência contra não muçulmanos?

(30.12.2011 – Coord. por M. Yiossuf Adamgy, in revista Al Furqán, nº. 185)

A violência não é religiosa. É crime. É como se tivesse assassinado toda a humanidade.

‘Uma sequência de explosões abalou a Nigéria durante a celebração da Missa de Natal em igrejas católicas, dando origem a 40 vítimas. O primeiro e mais mortal dos ataques ocorreu quando uma forte explosão destruiu a igreja de Santa Teresa, na periferia de Abuja, capital nigeriana, onde os serviços de emergência informaram que haviam resgatado dezenas de corpos no interior do templo… O grupo radical islâmico Boko Haram (termo que na língua local da etnia Hausa significa “educação ocidental é pecado”) reivindicou os ataques’. (1)

A primeira coisa que ocorre na mente de quem lê este parágrafo é “Os muçulmanos são terroristas, fanáticos da violência e fundamentalistas”. No entanto, deve-se dizer que essa ideia é baseada em preconceito e desconhecimento da realidade do Islão.

O Islão aprova a violência contra não muçulmanos? Absolutamente NÃO. O Islão é uma religião de paz. Não há nada no Alcorão, na doutrina ou na ética islâmica que permita, incentive ou tolere a violência em qualquer forma e sob nenhuma circunstância. Embora a ideia que exista no Ocidente seja que a violência na religião muçulmana é parte da prática, o reconhecimento dos direitos humanos de homens e mulheres em pé de igualdade, independentemente da origem, raça ou crença religiosa, encontra no Alcorão a sua fonte original.

O Islão reconhece aos ‘dzimmíes’ (minorias não-muçulmanas dentro de uma sociedade islâmica) os mesmos direitos que aos muçulmanos. Disse o Profeta Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos de Deus estejam com ele):

“Quem faz mal a um dzimmí, faz mal a mim próprio, e quem me prejudica, prejudica Al-lah.” É um grande pecado prejudicar as minorias de qualquer tipo. Um muçulmano que incorporou no seu coração e vida a mensagem de Deus (ár. Allah), não vai perturbar a vida de alguém que pensa, vive, ou sente diferente.

Existe uma Declaração dos Direitos Humanos no Islão (DDHI), também conhecida como a Declaração do Cairo (1990), pelos Estados membros da Organização da Conferência Islâmica, que fornece uma visão geral da perspectiva muçulmana sobre os direitos dos seres humanos e define a Sharia – lei islâmica, em geral, como sua principal fonte. O DCDHI declara que a sua meta é ser um guia para os Estados membros do OIC no campo dos direitos humanos. Geralmente, esta declaração é considerada como equivalente e resposta à Declaração Universal dos Direitos Humanos elaborado pela ONU em 1948.

Mas, mesmo que esta declaração não existisse, não compromete de todo os direitos inalienáveis da humanidade. No Islão, todas as pessoas são profundamente iguais. Todo o ser humano é, portanto, semelhante aos seus pares, a humanidade é uma comunhão a serviço de um único Deus. Neste contexto espiritual, o conceito islâmico de singularidade é fundamental e central e inclui, necessariamente, o conceito de unidade humana e fraternidade entre os seres humanos.

Diz o Alcorão Sagrado: ‘Ó crentes! Sede perseverantes na causa de Deus e prestai testemunho, a bem da justiça; que o ódio aos demais não vos impulsione a serdes injustos para com eles. Sede justos, porque isso está mais próximo da piedade, e temei a Deus, porque Ele está bem inteirado de tudo quanto fazeis’. (5:8).

‘… E se Deus não tivesse repelido alguns homens por intermédio de outros, estariam demolidos os mosteiros e as igrejas, as sinagogas e as mesquitas, onde o nome de Deus é tantas vezes invocado …’. (22.40).

‘Deus ordena a justiça e a benevolência’. (16:90).

‘Quando julgardes as pessoas, fazei-o com justiça’. (4:58).

Em muitos outros versículos, este princípio é referido.

A vida humana é sagrada e não deve ser tomada ou abusada sem nenhum motivo. Quando alguém viola a santidade da vida por matar uma pessoa sem justificação, o Alcorão compara com a morte de toda a humanidade:

‘ (…) Aquele que mata uma pessoa que não tenha morto ou feito danos na terra, é como se tivesse assassinado toda a humanidade’. (Alcorão, 5:32).

Disse o Profeta Muhammad (p.e.c.e.) que não há diferença entre um árabe e um estran-geiro (não árabe), entre um homem e uma mulher, entre ricos e pobres, excepto na piedade, na consciência de Deus. Qualquer pessoa que se respeite a si mesma é definitivamente a favor da implementação e monitoramento dos direitos humanos.

O Islão ordena, pela palavra de Deus, a respeitar o “Povo do Livro”, isto é, cristãos e judeus. Muçulmanos reconhecem a Torá e a Bíblia como revelações anteriores de Deus para a humanidade. Reconhecem Abraão, Moisés e Jesus (paz esteja com eles) como nossos Profetas e figuras-chave no desenvolvimento da nossa fé. Promover a coexistência pacífica baseada no respeito pelos direitos humanos é um mandato irrevogável para todo muçulmano que é digno do nome.

Um exemplo disso é a aliança do Profeta Muhammad (s.a.w.) com os cristãos de Najran, em 631, que gozavam de protecção “da sua vida, propriedade, terra, fé, templos e todos os seus pertences” como os muçulmanos. De acordo com este estatuto, as minorias religiosas no mundo muçulmano desfrutaram de uma autonomia quase completa e autogestão em assuntos religiosos, incluindo questões pessoais, família, direito sucessório e direito penal quando foram cometidos crimes dentro da minoria.

Outro exemplo disso é o histórico tratado com os Cristãos de Jerusalém assinado pelo Califa Omar (r.a.): ‘Esta é a protecção que o servo de Deus, Omar, o Chefe dos Crentes, garante ao povo de Eiliya (Jerusalém). A protecção diz respeito às suas vidas e propriedades, às suas igrejas e cruzes, às suas doenças e saúde, assim como para todos os seus correligionários. As suas igrejas não serão utilizadas como habitação, nem tão pouco serão demolidas; nem nenhuma injúria lhes será feita, nem as suas propriedades serão injuriadas de forma alguma. Não haverá compulsão para com estas pessoas em matéria religiosa, nem deverão, por isso, sofrer ou serem vítimas de injúria … Tudo o que aqui se encontra escrito é de acordo com a vontade de Deus e a responsabilidade do Seu último Mensageiro, dos califas e dos crentes, e deverá ser respeitado …’.

O uso da religião para justificar o ódio e a violência para dar uma aparência de santidade que não tem, é um recurso popular dos grupos cujo objectivo não é, em caso algum, honrar a Fé. Se assim fosse, apresentariam a sua conduta para a paz, não para a morte. Rancores pessoais, interesses culturais, estratos políticos e económicos, estão no fundo dessas atrocidades que em nada representam os muçulmanos em geral, e não são expressão do papel que Deus nos deu na terra. O confronto entre muçulmanos e cristãos não faz parte da nossa ética e devem ser rejeitados pelos verdadeiros crentes. O “ódio cego” não é islâmico, é um pecado mortal. A violência não é religiosa; é criminosa; é como se tivesse assassinado toda a Humanidade.

Que Deus ilumine a Humanidade no limiar deste Novo Ano, tornando-o Feliz e Próspero.

(1) – Apesar de muitos cristãos (e não cristãos) realmente estarem a ser assassinados na Nigéria (e em outros países), soube-se que a foto que acompanha essa notícia (falsa) foi tirada depois de uma explosão de um caminhão de combustível no Congo e não tem nada a ver com o facto citado no texto. Ver em: http://www.e-farsas.com/cena-chocante-cristaos-queimados-vivos-verdadeiro-ou-falso.html

Posted on

Lauren Booth: Agora sou muçulmana. Porquê tanto rebuliço?

Opinião – 20/11/2010 – Autora: Lauren Booth (cunhada de Tony Blair) – Fonte: The Guardian Versão Portuguesa: M. Yiossuf Adamgy – in revista islâmica portuguesa Al Furqán, nº. 178, de Novº./Dezº. 201

Finalmente, senti o que os muçulmanos sentem quando estão na verdadeira oração: um raio de doce harmonia.

Passaram cinco anos desde a minha primeira visita à Palestina. E quando cheguei à região para trabalhar junto de organizações de solidariedade em Gaza e na Cisjordânia, levei comigo a arrogância e a condescendência que todas as mulheres brancas de classe média (em segredo ou abertamente) mantêm para as pobres mulheres muçulmanas, mulheres que presumi que seriam pouco mais que manchas vestidas de negro, silenciosas na minha visão periférica. Como mulher ocidental com todas as minhas liberdades, esperava tratar apenas com homens no plano profissional. Afinal de contas, assim é o Islão, não é?

Esta semana, os gritos de falso horror dos companheiros colunistas, ao saberem da minha conversão ao Islão demonstram que a visão estereotipada prevalece sobre os quinhentos milhões de mulheres que actualmente praticam o Islão. Na minha primeira viagem a Ramalá, e em muitas visitas posteriores à Palestina, ao Egipto, à Jordânia e ao Líbano, efectivamente tratei com homens de poder. E, querido leitor, algum deles até tinha aquelas barbas que metem medo e que vemos nas notícias sobre lugares longínquos que nós bombardeamos até despedaçar. Surpreendentemente (para mim) também comecei a tratar com grande quantidade de mulheres de todas as idades, com todo tipo de lenços na cabeça, que também ocupavam cargos de poder. Acreditem ou não, as mulheres muçulmanas podem ter uma educação, trabalhar com o mesmo horário enfadonho com que nós trabalhamos, e até dar ordens aos maridos diante dos amigos, até que os primeiros abandonam a sala amuados para ir acabar de fazer o jantar.

Parece suficientemente condescendente?

Espero que sim, porque a minha conversão ao Islão foi a desculpa para que os comentaristas sarcásticos dirigissem todos esses pontos de vista paternalistas sobre as mulheres muçulmanas de todas as partes. Tanto é assim que, a caminho de uma reunião sobre a islamofobia, nos meios de comunicação, esta semana, considerei gravemente a compra de um gancho e fazer-me passar por Abu Hamza. Afinal de contas, a julgar pela reacção de muitas mulheres colunistas, agora sou para direitos das mulheres o que aquele do gancho é para a venda de facas e garfos.

Portanto, respiremos todos profundamente e deixá-los-ei ver o outro Islão no século XXI. Com certeza, não se pode passar por alto a maneira atroz como as mulheres são maltratadas pelos homens em muitas cidades e culturas, quer tenham, quer não, uma população islâmica. As mulheres que estão a ser maltratadas por parentes masculinos estão a ser maltratadas pelos homens, não por Deus. Grande parte das práticas e das leis de países “islâmicos” desviaram-se (ou não têm nada a ver) das origens do Islão. No seu lugar, basearam-se em práticas culturais ou costumes tradicionais (e, sim, machistas) que foram injectadas nessas sociedades. Por exemplo, na Arábia Saudita, as mulheres não podem conduzir por lei. Esta regra é um invento da monarquia saudita, estreita aliada do nosso governo [o britânico] no comércio de armas e petróleo. Tristemente, a luta pelos direitos das mulheres deve-se ajustar às necessidades do nosso próprio governo.

O meu próprio caminho para o Islão começou quando reparei na diferença entre o que se me subministrara, gota a gota, sobre a vida muçulmana e a realidade.

Comecei a perguntar-me acerca da tranquilidade que transmitem tantas “irmãs” e “irmãos”. Não todos, porque estamos a falar de seres humanos. Mas muitos. E na minha visita ao Irão no passado mês de Setembro, a lavagem, o ficar de joelhos e as recitações das orações nas mesquitas que visitei lembraram-me o ponto de vista ocidental de uma religião totalmente diferente, uma que é conhecida por evitar a violência e abraçar a paz e o amor através da meditação silenciosa. Uma religião de moda entre as estrelas de cinema, como Richard Gere, e que teria sido muito mais fácil admitir em público que se é adepto: o budismo. De facto, a prostração, o ajoelhar-se e a submissão das orações muçulmanas ressoam com palavras de paz e satisfação. Cada um começa assim: “Bismillahir Rah-manir Rahim” (“Em nome de Deus, o Beneficente, o Misericordioso”), e termina com a frase “Assalamu Alaikhum wa rahmatullahi wa bara-katuh” (‘A paz esteja contigo e a misericórdia e a bênção de Deus’).

Quase sem dar por isso, ao orar durante o último ano, mais ou menos, estive a dizer “Querido Allah” em lugar de “Querido Deus”. Ambos significam o mesmo, com certeza, mas para os conversos ao Islão a natureza estranha da língua das orações sagradas e do livro sagrado pode ser um obstáculo. Eu saltara esse obstáculo sem dar por isso. Depois veio a atracção: uma espécie de ir e vir emocional que responde à companhia de outros muçulmanos, com um elevado sentimento de franqueza e cordialidade. Bem, pelo menos assim foi para mim.

Que duros e cruéis começaram a parecer-me os meus amigos não muçulmanos e os meus colegas! Porque não podemos chorar em público, abraçar-nos mais uns aos outros, dizer “Amo-te” a um novo amigo, sem nos expor à suspeita ou ao ridículo? Via as emoções que se partilham nos lares junto das bandejas de doces com mel e perguntava: se a lei de Allah se baseia simplesmente no medo, por que não viram os amigos que amei e respeitei as costas às suas práticas e começam a beber, a “se divertir realmente” como fazemos no Ocidente? É isso que fazemos, não é?

Afinal senti o que os muçulmanos sentem quando estão na verdadeira oração: um raio de doce harmonia, um estremecimento de alegria em que me sentia agradecida por tudo o que tenho (pelos meus filhos) e segura na certeza de que não necessito de mais nada (junto com a oração) para estar totalmente satisfeita. Eu orava no oratório de Mesumeh, no Irão, depois da lavagem ritual dos antebraços, da cara, da cabeça e dos pés com água. E nada poderá ser o mesmo depois. É tão simples como isso.

O Xeique que no final me converteu, numa Mesquita, em Londres, há umas semanas, disse-me: “Não tenhas pressa, Lauren. Vai com calma. Deus está à tua espera. Não faças caso dos que te dizerem: ‘Deves fazer isto, vestir aquilo, levar o cabelo assim’. Segue os teus instintos, segue o Alcorão e que Deus te guie”. Portanto, agora vivo numa realidade não muito diferente da personagem de Jim Carrey no Show de Truman. Vi a grande mentira que é a fachada da nossa vida moderna; o materialismo, o consumismo, o sexo e as drogas dar-nos-ão uma felicidade duradoura. Mas também olhei mais além e vi uma encantadora e enriquecida existência de amor, paz e esperança. Enquanto isso, continuo com a vida diária, a fazer o jantar, os programas de televisão sobre a Palestina e, sim, a rezar cerca de meia hora por dia.

Agora, a minha manhã começa com a oração do amanhecer pelas 6h00 da manhã, rezo novamente às 13h30 e … finalmente às 22:30. O meu contínuo progresso com o Alcorão foi objecto de burla nalguns sectores (para que conste, estou na página 200). Estive à procura do aconselhamento de ayatolas, imames e xeiques, e todos disseram que cada pessoa tem a sua própria viagem ao Islão. Alguns decoram alguns textos antes da conversão; para mim, a leitura do livro sagrado levar-se-á a cabo lentamente e ao meu próprio ritmo. No passado, as tentativas para deixar o álcool não chegaram a nada; desde a conversão, nem sequer posso imaginar beber de novo. Não tenho nenhuma dúvida de que isto é para toda a vida: há tanto no Islão para aprender, desfrutar e admirar! Estou espantada com a sua maravilha. Nos últimos dias soube doutras mulheres que se converteram e disseram-me que isto é só o início, que continuam a amá-lo após 10 ou 20 anos.

Como nota final, gostaria de oferecer uma tradução rápida entre a cultura muçulmana e a cultura dos meios de comunicação, que pode ajudar a tirar a espinha da minha mudança de vida para alguns de vocês. Quando aparecem muçulmanos nas notícias da BBC a gritar “Alahu Akbar!” para o céu limpo do Médio Oriente, nós, os ocidentais, fomos treinados para ouvir: “Odiamos a todos vocês, sentados nas vossas salas britânicas, e estamos a ponto de nos explodir no Lidl enquanto fazem as compras semanais”. Pelo contrário, o que estamos a dizer é: “Deus é Grande!”, “e estamos a tirar forças da fraqueza depois das nações não muçulmanas atacarem os nossos povos”. Normalmente, esta frase proclama o nosso desejo de viver em paz com os nossos vizinhos, com o nosso Deus, com o nosso próximo, muçulmano ou não muçulmano. Ou, se não puder ser e no clima actual, simplesmente que nos deixem viver em paz; só isso já estaria bem.