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O que é o Alcorão?

Por: M. Yiossuf Adamgy (09.Fevereiro.2015 / 20.Rabial Akhir.1436)
In livro “Sobre o Alcorão” — Edição de Al Furqán (ver aqui: http://www.alfurqan.pt/index.php/montra-de-livros/islao-em-geral/sobre-o-alcorao-detail)

O Alcorão é uma Mensagem que explica os tesouros espirituais de Deus, que são observados na terra e no céu. Fornece-nos informações sobre o desconhecido. É o sol, a fundação e o plano definitivo do Islão, bem como a tradução eterna do Universo. É um livro generoso e celestial, que Deus nos enviou para satisfazer todas as nossas necessidades, quer físicas ou espirituais. Os mais belos nomes de Deus e o seu trono são a fonte do Alcorão. Quando falamos de «a Palavra de Deus», referimo-nos ao Alcorão. Através dele, o Criador do Céu e da Terra nos fala; é um édito do Criador do Universo, a Palavra de Deus, o Senhor de todos os seres criados.
O Alcorão é um livro de leis divinas, um livro de mensagens maravilhosas, comparáveis com o apreço dos seres humanos. O Alcorão veio d’Ele e foi criado dentro dos limites do mundo dos seres humanos. É um livro milagroso que contém a essência de todo o conhecimento. É um livro cujas maravilhas nunca acabam. Inclui discernimentos religio-sos e conhecimento inestimável e ensina-nos como devemos recitar, quando devemos rezar e como devemos rezar. Ela é a mãe de todos os livros. O Profeta, a paz esteja com ele, disse sobre o Alcorão: «É um tesouro que faz com que alguém só necessite dele». (Mayma al – Zawaid, 7, 158). Neste Hadith, o Profeta (ﷺ = S.A.W.) afirma que o Alcorão inclui todos os tipos de conhecimento, aborda todos os tipos de pessoas e oferece soluções para todos os tipos de problemas.
O Alcorão é a fonte da vida das almas, a base da moralidade e da essência das orações. O Profeta ﷺ expressou: «Podeis ter certeza de que o Alcorão é a festa oferecida por Deus» (Daarimi, Fadail Al Quran, 1). Este festival oferece todos os tipos de refeições, doces e saborosas. Embora cada refeição possa ter um sabor e composição diferentes, todos podem encontrar algo que gostem nesta festa. Ao dizer ‘que quem assistir a este festival não vai ter medo ou passar fome’, Abdullah ibn Masud assinala o facto de que o Alcorão, com o seu grande e abundante conteúdo, oferece soluções para os problemas do mundo. Uma vez que é a fonte de todo conhecimento e informação – de que os muçulmanos são orgulhosos – diz-se que «o Islão é a civilização Alcorânica». O Profeta ﷺ nos apresentou e ensinou esta Primavera sagrada. Suas palavras são as manifestações que explicam melhor o conteúdo do Alcorão. Num Hadith, o Profeta ﷺ disse:
O Alcorão é um livro que inclui crónicas do passado (das nações anteriores), a “fitna” (os actos de sedição e os conflitos internos, a anarquia e a subversão), que os perseguirão até o Dia do Juízo e os julgamentos sobre situações que ocorrem entre vós. É a única medida que separa o que é verdade e o que é falso. Todo o seu conteúdo é sensato. A quem o abandonar por medo de um tirano e deixar de praticar (o que diz o Alcorão), Deus o fará cair em devastação. Quem procurar uma orientação em qualquer outra parte será perdido por Deus. Certamente é a corda mais forte de Deus (a que podemos agarrar). É uma recordação cheia de sabedoria e um caminho que nos leva à Verdade. Salva àqueles que o seguem de desviação (ao evitar que fiquem apanhados por várias tentações).
Os estudiosos nunca podem saciar a sede do mesmo. As suas frequentes repetições não cansam a quem o lê, nem o prazer diminui. Os seus aspectos fascinantes não têm fim. É um livro tal que quando os génios o ouvem, não podem evitar dizer: «Na verdade, ouvimos um discurso admirável, que leva à rectidão; e que acreditamos nele!». (Alcorão, 72:1-2). Quem fala assim, diz a verdade. Quem o siga, certamente será recompensado. Quem julgue na base deste livro sagrado, julga de forma justa. Quem chama para este livro, chama para a senda recta. (Tirmidhi, Fadail al-Quran, 14).
Este hadith menciona muitas das características do Sagrado Alcorão. Ressalta que distingue o verdadeiro do falso, que é a mais forte orientação de Deus, que é a recordação mais sábia e que é o caminho para Deus. Uma das características fundamentais do Alcorão é o acto de distinguir o verdadeiro do falso. A este respeito, o Alcorão é também chamado de Furqán: «Bendito Aquele que o enviou, gradualmente, ao seu servo o critério (Furqán) para puder discernir o verdadeiro do falso» (25: 1).

Declarando que o Alcorão é universal, este versículo enfatiza que Furqán distingue o verdadeiro do falso, organiza as vidas dos que assimilam o Islão e mostra o que é bom e o que é mau. Como se afirma no hadith acima mencionado, o Alcorão é uma orientação firme, enviada por Deus para conduzir, àqueles que se aderem a ele, para o verdadeiro caminho. Ele é composto de palavras de sabedoria e é uma sábia recordação. O Alcorão, na sua infinita sabedoria, menciona tudo o que é suficiente para satisfazer as necessidades dos seres humanos. Proporciona aos crentes uma apropriada recordação e conselho para seguir o caminho que deve ser tomado e viver vidas que devem viver. É o caminho mais genuíno. É uma orientação que impede as pessoas dos extremos, não só nas questões relacionadas com a fé e crenças, mas também nos assuntos sociais, económicos e administrativos.

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Carta de uma sobrevivente do massacre da Noruega ao assassino Anders Behring Breivik

Opinião – 2011/08/08 – Fonte: pijamasurf.com – Versão Portuguesa: Al Furqán, nº. 182

Ivar Østebø Benjamin, 16 anos, sobreviveu ao trágico massacre perpetrado por Anders Breivik Behring, que matou mais de 70 jovens, e estas são as suas palavras para o assassino.

Sr. Anders Breivik Behring:

Muitos dos meus amigos que conheci na Utoya estão mortos e você é o carrasco. Você é o homem que, por coincidência, não me matou. Eu tive sorte.

Você pode pensar que você ganhou. Pode pensar que arruinou algo no Partido Trabalhista e para o povo do mundo que defende uma sociedade multicultural, matando os meus amigos e colegas de partido.

Perceba que você falhou.

Não só fez com que o mundo se unisse, como encheu a nossa alma de fogo e perceba que nós nunca estivemos tão unidos como agora. Você fala de si mesmo como um herói, um cavaleiro. Você não é nenhum he-rói. Mas você criou heróis. Neste dia quente de Julho em Utoya você criou alguns dos maiores heróis que o mundo tem visto, unindo as pessoas de todo o mundo. Negros e brancos, homens e mulheres, vermelhos e azuis, cristãos e muçulmanos.

Transformou em mártires as suas vítimas, imortais; e demonstrou-se ao mundo que se uma pessoa pode mostrar tanto ódio como você fez, imagine-se o quanto de amor se pode mostrar se estivermos juntos. Pessoas que pensavam que me odiavam deram-me abraços na rua, pessoas que não tiveram contacto comigo nos últimos anos escreverem-me 300 ou 400 palavras sobre o que significa eu ter sobrevivido. Que tal isso? Acha que quebrou alguma coisa? Em vez disso, juntou, uniu.

Você matou os meus amigos, mas não matou a nossa causa, as nossas opiniões, o nosso direito de nos expressarmos. Mulheres muçulmanas receberam abraços de simpatia, ao acaso, nas ruas. E se o seu objectivo era proteger a Europa do Islão, as suas acções foram contra o seu propósito.

Não merece agradecimentos, os seus planos falharam. Muitas pessoas estão com raiva, você é a pessoa mais odiada na Noruega. Não tenho raiva, não tenho medo de si. Não nos pode tocar, somos maiores do que você. Nós não respondemos ao mal com o mal, como querias.

Combatemos o mal com o bem. E ganhámos.

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A Preservação do Alcorão

Por: M. Yiossuf Adamgy (09.Fevereiro.2015 / 20.Rabial Akhir.1436)

In livro “Sobre o Alcorão” — Edição de Al Furqán (ver aqui: http://www.alfurqan.pt/index.php/montra-de-livros/islao-em-geral/sobre-o-alcorao-detail)

 

Existem, actualmente, centenas de religiões que prosperam um pouco por todo o Mundo: o Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, o Budismo, o Siquismo, o Hinduísmo, o Bahaismo, o Babismo, o Zoroastrianismo, o Mormonismo, o Jainismo, o Confucianismo, as Teste-munhas de Jeovás, etc. E cada uma destas religiões reivindica que, as escrituras que defendem, são as mesmas desde o dia em que foram reveladas (escritas), até aos dias de hoje.

Uma crença religiosa é tão verdadeira como o é a autenticidade das escrituras que segue. E para que uma qualquer escritura possa ser tida como uma escritura que foi verdadeiramente preservada, esta tem que obedecer a determinados critérios concretos e racionais.

Imagine a seguinte cena: Um professor lecciona durante três horas seguidas. Suponha ainda que nenhum dos seus alunos memo-riza o que por ele foi dito ou escrito. Presentemente, quarenta anos depois dessa mesma aula ter sido dada, caso estes mesmos alunos decidam reproduzir na íntegra o discurso proferido pelo professor, palavra por palavra, conseguirão fazê-lo? Evidentemente que não! Isto porque, as duas únicas maneiras de preservar algo para a História, consistem na escrita e no poder da memória. Por conseguinte, a alguns daqueles que defendem que as escrituras que seguem se encontram no seu estado puro, torna-se-lhes necessário apresentar provas de que essa Escritura foi escrita no seu todo e completamente memorizada desde que foi revelada, até aos dias de hoje, numa sequência linear e ininterrupta. Caso o momento da memorização não coincida com o da escrita, agindo como se de uma verificação e de um equilíbrio se tratasse, então, existe a verdadeira possibilidade de que a escritura escrita possa ter perdido a sua pureza devido a interpolações intencionais e não intencionais resultantes de erros por parte dos escribas, a adulterações causadas por inimigos, as páginas que se decompuseram, etc., sendo que estes erros seriam concorrentemente incorporados nos textos subsequentes, levando a que, por fim, e ao longo do tempo, se perdesse a pureza inicial.

Presentemente, de todas as religiões atrás mencionadas, existe alguma que possua as suas escrituras completamente intactas desde o dia em que foram reveladas, até aos dias de hoje, TANTO na forma escrita, COMO em memória?

Nenhuma delas obedece a este critério, com excepção de uma: esta única escritura é o Alcorão – a revelação concedida ao último Profeta de Deus, Muhammad ﷺ há 14 séculos, e que se pretende ser uma orientação para toda a humanidade.

Analisemos, pois, a reivindicação da preservação do Alcorão.

 

O Profeta Muhammad ﷺ: O Primeiro Memorizador

Foi nesta sociedade “oral”, no ano de 570 D.C., que o Profeta Muhammad ﷺ nasceu em Meca. Aos 40 anos, o Profeta começou a receber as divinas Revelações do Deus Único, (ár. Allah), as quais lhe eram transmitidas por intermédio do Arcanjo Gabriel. Este processo de transmissão de divinas Revelações prosseguiu ao longo de aproximadamente 22 anos e meio, altura em que o Profeta faleceu.

Milagrosamente, o Profeta Muhammad ﷺ memorizou cada uma das revelações e tinha por hábito proclamá-la aos seus Companheiros. A cada ano, o Arcanjo Gabriel costumava avivar as memórias Alcorânicas do Profeta.

O Profeta ﷺ era a mais generosa das pessoas e tinha por hábito sê-lo ainda mais no mês do Ramadão, o que se devia ao facto de o Arcanjo Gabriel costumar visitá-lo a cada noite do mês de Ramadão, isto desde que este começava até ao momento em que terminava. O Anjo costumava recitar-lhe o Alcorão. Quando Gabriel o visitava, o Profeta ﷺ tornava-se ainda mais generoso, sendo mais rápido do que o próprio vento a praticar o bem”.[1]

Uma vez por ano, Gabriel costumava repetir a recitação do Alcorão juntamente com o Profeta (s.a.w.) mas, no ano em que este faleceu, repetiu-a duas vezes”. [2]

O próprio Profeta tinha por hábito permanecer acordado grande parte da noite, orando e recitando o Alcorão de memória.

 

Os Companheiros do Profeta: A Primeira Geração de Memorizadores

O Profeta Muhammad ﷺ encorajou os seus Companheiros (r.a.) a aprenderem e a ensinarem o Alcorão:

Os melhores de entre vós (Muçulmanos) são aqueles que aprendem o Alcorão e o ensinam”.[3]

Alguns dos Companheiros do Profeta que memorizaram o Alcorão foram: ‘Abu Bakr, Umar, Uthman, Ali, Ibn Masud, Abu Huraira, Abdullah bin Abbas, Abdullah bin Amir bin al-As, Aisha, Hafsa e Umm Salama”.[4]

Abu Bakr (r.a.), o primeiro Muçulmano do sexo masculino a converter-se ao Islão, tinha por hábito recitar o Alcorão publi-camente, em frente à sua casa, em Meca”.[5]

O Profeta Muhammad ﷺ ouvia também a recitação do Alcorão por parte dos seus Companheiros: “O Apóstolo de Allah (s.a.w.) disse-me o seguinte (Abdullah bin Mas’ud): “Recita-me o Alcorão”. Respondi-lhe: “Poderei eu recitar-to, quando este foi a ti revelado?, ao que ele respondeu: “Gosto de ouvir os outros a recitarem-no”. Assim sendo, recitei-lhe a Sura-an-Nissa, até que cheguei à parte que diz: «Que será deles quando Nós trouxermos uma testemunha de cada Povo e te trouxermos a ti (ó Muhammad), como testemunha contra todos eles?» (4:41). Nessa altura, ele disse: “Pára!”. Observei, então, que dos seus olhos escorriam lágrimas”. [6]

Muitos dos memorizadores do Alcorão (Qurra) foram contemporâneos do Profeta Muhammad ﷺ e, mais tarde, disseminaram-se por todo o mundo Islâmico de então.

Aquando da Batalha de Yamama, muitos dos memorizadores do Alcorão foram martirizados”. Zaid bin Thabit al Ansan, um dos que costumavam escrever as Revelações Divinas, refere o seguinte: Após as duras baixas sofridas pelos guerreiros que haviam participado na Batalha de Yamama, onde pereceram inúmeros memorizadores, Abu Bakr (r.a.) chamou-me à sua presença. A

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Muçulmanos Hispânicos e os Efeitos de 11/09

Entrevistas – 25/08/2011 – Autor: Lyan Babylon – Fonte: Terra – Versão Portuguesa: Al Furqán, nº. 182

Hoje pode ter passado uma década desde a tragédia, mas o que não passou é a dor dos que perderam parentes no 11 de Setembro de 2001 e o ressentimento de outros.

Especial: os hispânicos superam os estereótipos no Islão

Com a tragédia de 11 de Setembro de 2001 a percepção sobre os muçulmanos nos Estados Unidos foi transformada. Imediatamente após os ataques, muitos americanos expressaram ressentimento contra este grupo religioso, mas hoje, 10 anos mais tarde, há um pouco mais de tolerância e a conversão ao Islão tem aumentado.

The New York Times diz que existem cerca de 200.000 hispânicos convertidos ao Islão a viver nos EUA. A maioria são porto-riquenhos, cubanos, dominicanos e mexicanos. Os números falam por si e mostram que o número de seguidores tem crescido após os mortíferos ataques na história dos EUA.

Embora inicialmente classificassem muitos muçulmanos como terroristas, existe agora uma maior consciência do problema. Nos EUA 20 mil pessoas convertem-se ao Islão em cada ano e é a religião que mais cresce em todo o mundo.

Wilfredo Ruiz Amr:

Ruiz, porto-riquenho que vive agora na Flórida diz que “a mesma notícia ruim e a má propaganda colocou o Islão em contacto com as pessoas.” “Desde 11 de Setembro, eu acredito que em qualquer jornal nacional não passam dois dias sem a palavra Islão ou muçulmanos aparecer em quaisquer de suas páginas. E na medida em que as pessoas estão vendo isso torna-se de interesse para saber mais sobre o Islão”, diz ele.

Amr Ruiz converteu-se em 2003, mesmo quando “os estereótipos estavam à flor da pele”, diz ele. O que o levou a buscar o Islão é que ele era um cristão não praticante e queria educar os seus filhos dentro de um quadro de fé. A sua família rejeitou-o e a sua mãe foi a mais relutante em aceitá-lo. Amr Ruiz tinha estudado toda a sua vida numa escola católica e sua mãe era um membro activo da Igreja Católica na sua comunidade.

“Disseram-me que eu estava errado, algumas pessoas disseram que o Islão não responde à nossa cultura e eu contestei dizendo de que país da América Latina era originário Jesus.”

Mas, eventualmente, a sua família aceitou pelo simples facto de que “as acções no Islão falam mais alto do que as palavras. Quando a minha família viu que não fumava, não bebia, rezava cinco vezes por dia, disse: que mal pode haver nisto”. Amr Ruiz afirma que os estereótipos contra os muçulmanos são em grande parte devido a equívocos instilados por pessoas de fora da religião.

Para além da crítica, Amr Ruiz não viveu qualquer situação mais grave, que não é o caso para todos os muçulmanos nos Estados Unidos depois de 11/09.

Khalid Salahuddin:

Khalid, que nasceu no Panamá, mas se mudou ainda criança com seus pais para a América, conta que um site antimuçulmano o acusou de apoiar a jihad ou guerra santa, luta extremista que levou Osama bin Laden a co-meter os actos terroristas de 2001. No entanto, apesar das alegações num artigo escrito num website não houve maiores consequências. “No meu trabalho o meu chefe disse-me que sabia que eu não estava envolvido nisso, por isso não o afectava”. A confiança das pessoas que gostavam dele foi instantânea e alguns ofereceram a sua ajuda, diz ele. Os seus conhecidos sabem o sentimento de Salahuddin relativamente aos ataques. “Isso foi uma desgraça, a verdade é que eu não podia acreditar que alguém que tivesse a mesma mentalidade que eu estava envolvido em alguma coisa. Quando eles fizeram isso deixaram de ser muçulmanos… A religião islâmica diz que se você matar uma só pessoa é como se matasse toda a raça da humanidade”.

Salahuddin disse que por causa das suas crenças, é muito difícil de acreditar que os ataques terroristas são um acto islâmico e que “só Deus sabe o que aconteceu.”

Roraima Aisha Kanar:

Roraima Aisha Kanar, cubana, concorda com Salahuddin. “Se eu tivesse viajado com meu marido (que tem um nome árabe) e ele tivesse estado naquele avião não o teriam acusado de ser um deles (terroristas)? E porque tenho eu de pensar que todos os que foram acusados e estão mortos hoje estavam envolvidos? “, diz ela.

Também relata que viveu na primeira pessoa a rejeição da comunidade após o 11/09. “Os que mais me julgaram foram os latinos, e como não sabiam que eu falava espanhol diziam coisas como, olha a pessoa que vem atrás de nós, anda rápido para não estar perto de nós, não sabemos o que pode acontecer.” No entanto, Kanar não ficava calada e dizia-lhes que não a julgassem pelo que não conheciam.

Mas isso não só aconteceu quando ela ia fazer compras ou saia fora de sua casa para qualquer tarefa, mas também com respeito ao seu trabalho. Kanar estava envolvida na venda de bens no momento e muitos clientes estavam distantes e constrangidos na sua presença. Mas Kanar disse que “nada pode ser alcançado sem paciência” e a sua atitude foi fazer com que as pessoas se sentissem confortáveis.

Quebrando os estereótipos:

Apesar de provenientes de outros países estas pessoas têm algo em comum: elas não estavam satisfeitas com o que lhes ofereceria o catolicismo. Kanar insiste que a Igreja Católica não forneceu respostas às suas perguntas. Além disso, refere que o que mais lhe chamou a atenção no Islão é que, diz ela, é uma religião cujo relacionamento com Deus é directo, sem intermediários, pois o seu comportamento, suas roupas e seu modo de agir é uma decisão pessoal ao aceitar o Islão como sua fé, e não algo imposto. Como muitos latinos tiveram que quebrar os estereótipos da sua família. Mas ao contrário do que alguns possam pensar, a sua mãe, uma católica praticante, não tinha pena que a sua filha não comungasse ou não assistisse à missa. “Um dia eu sentei-me com ela e ela disse-me que o que mais lhe doía é que eu não podia usar fatos de banho ou vestir roupas justas ou decotes como fazia antes”, diz ela. Mas para Kanar o próprio facto de as pessoas a valorizarem pela sua qualidade humana e não pelo que parecia foi um dos factores que a levaram a mudar de religião.

Kanar Amr Ruiz e Salahuddin concordam que a falta de aceitação para aqueles que não compartilham a fé cristã da maioria dos americanos é devida à ignorância. Um estudo realizado pelo Pew Hispanic Center diz isso, os hispânicos, especialmente os católicos, são o grupo com menos informações sobre sua própria religião e sobre as outras religiões, de acordo com a pesquisa nacional.

Hoje pode ter passado uma década desde a tragédia, mas o que não passou é a dor dos que perderam parentes no 11 de Setembro de 2001 e o ressentimento dos outros. Em 2 de Maio, o mundo testemunhou a forma como dezenas de pessoas nos Estados Unidos comemoraram a morte do autor dos ataques, Osama bin Laden. Mas, por anos, os muçulmanos nos Estados Unidos têm tentado dei-ar claro que o Alcorão condena qualquer acto terrorista e o que diz que mata em nome de Allah, mente.

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Crise Terminal do Capitalismo

Por: Leonardo Boff, teólogo e escritor. – Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/06/22/crise-terminal-do-capitalismo/

Crise terminal do capitalismo?

Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o génio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sútil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu, profeticamente, que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão económica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversida-de do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumos-sacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema económico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.