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Religião é um Sentimento

Coord. por M. Yiossuf Adamgy, in Revista Al Furqán, nº. 182

A Religião não é apenas regras, deveres e obrigações, mas um sentimento e uma percepção que nos faz conscientes de que há uma força maior que lida com o Universo.

Caros leitores, queria compartilhar estas reflexões sobre religião e o seu verdadeiro significado convosco. Muitas pessoas entendem a religião em geral, e em particular o Islão, como uma série de deveres e obrigações e uma lista interminável de coisas lícitas e proibições com que se deve reger. Religião em árabe é derivado da palavra Dayn, din, o mesmo que dívida, e a religião em seu sentido mais profundo é ser grato a Deus. Tudo o que se tem é de Deus, e todas as criaturas, por si só, pertencem a Deus, pelo que se a pessoa reconhece esse facto pode ser chamada religiosa. O incrédulo, ao contrário, é aquele que nega os dons e graças com que foi abençoado por Deus. Na verdade, quem reconhece que todas as suas posses são de Deus tenta, na medida das suas capacidades, retornar a dívida, ou melhor, parte do cumprimento das ordens do seu Criador e Sustentador.

Uma vez que ninguém pode pagar a dívida na totalidade, porque ninguém merece entrar no Paraíso, a menos que Deus nos cubra de sua misericórdia infinita, como disse nosso nobre Profeta (Paz e bênçãos de Allah estejam com ele). É verdade que devemos cumprir as nossas obrigações religiosas, mas sem esquecer que tudo o que façamos nunca poderá pagar as nossas dívidas a Deus. No entanto, o facto de cumprir os nossos deveres religiosos é o que nos faz aproximar de Deus e, portanto, merece fazer a sua clemência. Para uma melhor com-preensão do que foi dito anteriormente, vamos dar um exemplo. Se um pai dá a seu filho um dólar e este último o dá na caridade, qual dos dois merece a recompensa? A resposta é: ambos merecem o prémio, mas graças ao pai a criança pode ser generosa. Porque, se o pai não tinha dado o dólar, a criança não teria hipótese de fazer caridade. Da mesma forma, se não fosse por Deus, não poderíamos ter feito nada; por isso temos de agradecer de forma constante, uma vez que é Ele que dá a todos a força e o poder que nos move. Ninguém e nada tem a sua própria força, mas a força vem de Deus, o Todo-Poderoso.

Religião não é apenas regras, deveres e obrigações, mas um sentimento e uma percepção que nos faz conscientes de que há uma força grande que corre no Universo e não é afectada pelo sono ou sonolência ou distraída por qualquer coisa. Este sentimento tem de ser manifestado em boas obras. Práticas de culto e as boas maneiras são, na verdade a consequência da fé e do sentimento de amor por Deus. Este sentimento de amor para com Deus é o que nos impulsiona a fazer o bem e nos arrasta de volta para evitar o mal. Sem sentimentos, o ser humano não daria um passo em frente. Nós, humanos, somos movidos pelo amor, ganância, medo e desejo. Somos movidos pelo desejo e dor e todos os sentimentos são sensações. Há muitos versículos do Alcorão e ditos do nobre Profeta (s.a.w.) salientando a importância dos sentimentos e do coração como o motor que impulsiona os outros órgãos.

A questão enfática neste ponto é: podemos controlar os nossos sentimentos ou algo que está além do nosso alcance e poder? Muitas pessoas acreditam que não podemos, mas a realidade é exactamente o oposto. A melhor prova disso é o que disse o nosso nobre Profeta (que Allah lhe conceda paz e bênçãos), quando um homem lhe pediu conselhos: “Não fique com raiva”, disse. Ele disse-lho três vezes porque sabia que é algo controlável, senão não o teria dito, e na verdade a raiva ou ira é um sentimento de irritação e alteração produzida na mente da pessoa e é um dos sentimentos mais fortes e, se se pode controlar a raiva, é muito mais fácil controlar os sentimentos que são menos fortes. O que não se pode controlar é o ambiente onde pode se mover, e assim por diante, mas a chave para o seu coração, caro leitor, está consigo, se você escolher ficar zangado ou não, escolher amar isto ou aquilo, você escolhe ser feliz ou não. Mas o que nos ajuda a ter esses sentimentos?

Há duas razões principais: por um lado ajuda-nos o amor e o desejo e, por outro o medo e a saudade. A primeira razão está relacionada ao prazer e alegria e faz com que a pessoa atenda os seus desejos; e a segunda tem a ver com dor e faz com que a pessoa evite qualquer coisa que possa causar sofrimento. Glorificado seja Deus que nos criou e fez inatos nos outros de quem nos aproximamos para disfrutar o prazer que obtemos e para nos afastarmos da dor e do sofrimento dos outros (no Alcorão) pelo estilo que queremos entender que o Paraíso é uma fonte de alegria e satisfação, e tememos o Inferno que é a fonte de dor e punição na vida após a morte.

Concluímos o nosso pequeno estudo, dizendo que a religião está no coração e o nobre Profeta (paz esteja com ele) disse uma vez: “A piedade é aqui” e apontou para seu coração, mas o que está no coração tem que ser traduzido por outros organismos. Quem afirma ser religioso e diz que ele é uma pessoa com fé terá que demons-trar, através de acções, cumprindo os mandamentos de Deus. Se você disser a alguém que você ama, mas não pergunta por ela, não a visita, não mostra interesse por ela e não se preocupa com ela, mentiria ao dizer que a ama. Como qualquer sentimento deve manifestar-se em factos, porque se não, o sentimento é inexistente ou muito fraco.

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Mensagem de Id ul Fitr – 2011 / 1432 H

Al Furqan

Neste dia de Id ul Fitr, expressamos os nossos desejos sinceros de felicidade para toda a Comunidade Islâmica.

Assalamu Alaikum:

O Id ul Fitr marca o fim do mês do Ramadão. Dizemos adeus ao mês abençoado, aos seus dias e às suas noites belas, espirituais e perfumadas. Deixamos o mês de buscar proximidade com al Gafur, al Rahim, esperando termos recarregado as nossas baterias espirituais.

O Id-ul-Fitr está relacionado com o mês sagrado do Ramadão. Isto significa o fim do mês de jejum (o primeiro dia do mês de Xaual).

O Id-ul-Fitr é um festival único. Não tem nenhuma conexão com qualquer evento histórico, nem está relacionado com a mudança das estações ou ciclos da agricultura. Não é um festival relacionado de alguma forma com assuntos mundanos. O seu significado é puramente espiritual. Este é o dia em que os muçulmanos agradecem a Deus por lhes ter dado a vontade, força e resistência para observar e obedecer rapidamente ao seu comando durante o mês sagrado do Ramadão.

Este dia traz alegria e felicidade no mundo muçulmano. A alegria não é, contudo, pela partida do Ramadão, é a felicidade que o ser humano (crente muçulmano) sente depois de concluir com sucesso uma tarefa importante.

É comemorado durante três dias. Presentes são trocados. Amigos e familiares reúnem-se para rezar em congregação.

A festa do Fitr é a recompensa de Deus para aqueles que jejuaram durante o mês sagrado do Ramadão. Neste mês, os homens devem tentar acumular o seu verdadeiro conhecimento sobre Allah, fazer actos de caridade aos necessitados, renovar as suas crenças para com o seu Senhor, e, portanto, será uma fonte de unidade e solidariedade para todos os muçulmanos em todo o mundo.

O Santo Profeta (Paz e Bênçãos estejam sobre Ele) comemorou o Id e encorajou todos os muçulmanos a fazê-lo. Ele disse aos muçulmanos para usar boas roupas, usar perfume e ir para a Mesquita para rezar a oração do Id. Ele também disse para trocarem presentes no Id, visitando-se uns aos outros, e passar o feriado geralmente de uma forma festiva. Devemos lembrar aos pobres, dando-lhes a fitrah antes do Id.

O dia do Id é para a recordação de Deus. O Santo Profeta (Paz e bênçãos estejam sobre ele) disse: “Dê a beleza a seu Id fazendo o Takbir”.

Diz-se que o Profeta (paz e bênçãos estejam sobre ele) costumava sair de sua casa no dia do Id, recitando o Takbir e glorificando Deus em voz alta.

Hazrat Ali (r.a.) disse: “Id é para aqueles cujos jejuns foram aceites por Deus, e cujo culto foi apreciado por Deus. Cada dia que não desobedeçam a Deus é um dia de Id”.

O que fazer hoje? Qual a Sunnah da Oração do Id?

Os seguintes actos prescrevem-se como Sunnah no início do dia de Id-ul-Fitr antes de prosseguir para a oração do Id:

1. Acordar de manhã cedo.

2. Lavar os dentes um a um com um mishwaak ou escova.

3. Tomar um banho.

4. Usar uma das suas melhores roupas disponíveis.

5. Usar perfume.

6. Comer um alimento doce, de preferência tâmaras, antes da oração do Id.

7. Recitar o seguinte Takbir em voz baixa, enquanto se dirige à oração do Id:

Allahu Akbar, Allahu Akbar, Lá iláha Il’Allah; Allahu Akbar, Allahu Akbar ,Wa lil láhil hâmd. (Deus é Grande, Deus é Grande, Não há outra divindade senão Deus; Deus é Grande, Deus é Grande, e louvado seja Deus.

Prezados Irmãos:

Que Deus nos mantenha no caminho recto no sentido de obtermos as Bênçãos, a Misericórdia e o perdão de Deus;

Que Deus nos dê forças para vivermos como Muçulmanos, honesto e sinceros, dignos de exemplo;

E que o Dia de Id seja feliz para os Muçulmanos de todo o mundo.

Ameen

M. Yiossuf Mohamed

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S Ú P L I C A (D U Á)

Al Furqan

Ó Senhor! Reúne-nos no Dia da Ressurreição sob o estandarte do Teu amor!

Faz do Nobre Ramadão o intercessor de todos nós!

Salva-nos da Tua reclamação! Tu és o mais Generoso dos generosos. Tu não privas de sustento nem sequer o incrédulo, o politeísta ou o hipócrita.

Somos Teus servos, pois acreditámos em Ti e nos convertemos à Tua bem- amada Comunidade. As nossas bocas estão de jejum, os nossos rostos estão pálidos, os nossos corações tremem de temor perante a Tua Majestade e Glória. Os nossos olhos humedecem-se devido à Tua promessa. Os nossos corações palpitam com o Teu amor e o amor dos Teus bem-amados.

Vimos com esperança da Tua Misericórdia, do Teu Paraíso e de Tua Beleza. Longe de Ti, desiludimo-nos. Não nos desiludas! Concede-nos terminar o nosso tempo pronunciando a frase bendita: “Declaro que não há outra divindade senão Allah, e declaro que Muhammad é o Seu Men-sageiro!”

Protégé-nos do terror e da dor da morte. Não nos deixes morrer sem fé! Tem misericórdia com aqueles que, dentre nós, já morreram. Permite que nossos pais que ainda vivem se regozijem com o Teu perdão e com a Tua clemência!

Concede felicidade à Comunidade inteira de Muhammad. Perdoa à Comunidade pecadora de Muhammad e ilumina os seus corações com a luz do Alcorão e com a Luz da afirmação da Unidade Divina. Não nos tornes desprezíveis neste mundo, nem desonrados no Além. Faz os nossos corpos leves e as nossas almas puras.

Concede-nos que possamos ganhar o nosso sustento por meios legais, usando em boas obras a riqueza que obtemos com o suor dos nossos rostos, e gastando pela Tua causa.

Dota os nossos corpos de saúde e bem-estar.

Preserva-nos, meu Senhor, de depender dos indignos…

Permite que o nosso carácter seja o de manter a ética do Alcorão e do Bem-Amado Todo-Misericordioso!

Aceita as nossas súplicas, unindo-as às efectuadas no Local de Repouso do nobre Mensageiro!

Ó Senhor, oriente a Humanidade para o caminho recto.

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Características dos Profetas de Allah

Coord. por M. Yiossuf Adamgy In revista Al Furqán, nº. 181, de Maio/Junho.201

A total dependência da Revelação e da submissão a Deus (ár. Allah):

Embora cada Profeta fosse um ser inteligente e dotado de um amplo entendimento e de uma alma pura, estas características não desempenham nenhum papel no que diz respeito à es-colha de um Profeta por Allah. A maior parte dos Profetas (paz esteja com eles), inclusive Muhammad (s.a.w.), eram iletrados (ou quase) e, por conseguinte, foram instruídos por Allah.

O Profeta Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos de Deus estejam com ele), apesar do seu analfabetismo, tinha conhecimento do passado e do futuro, e perspicácia em cada ramo do conhecimento. Não assistiu a nenhuma aula, nem teve nenhum professor humano, e até mesmos os seus inimigos admitiram – e, continuam, ainda a admiti-lo – que demonstrou aplicar uma justiça perfeita em assuntos familiares, ser perfeitamente competente na administração estatal e no comando dos exércitos.

Os Profetas foram criados por Allah. Para citar um exemplo, o último Profeta recordou o seguinte: ‘Durante a minha infância, pensei, em duas ocasiões, assistir a uma cerimónia de casamento. Em ambas as ocasiões, fui vencido pelo sono a meio do caminho – e, portanto, estava protegido contra qualquer pecado que eu mesmo proibiria mais tarde’. [1]; e ‘quando estávamos a reparar a Caaba, antes da minha Profecia, eu levava pedras. Como todos faziam, enrolei a parte de baixo da minha roupa sobre o ombro para evitar ferimentos. A minha coxa ficou destapada. De repente, o anjo que eu já tinha visto várias vezes na minha infância apareceu em toda a sua grandeza. Caí e desmaiei. Isto acontecera porque tinha destapado uma parte do corpo que Allah ordena que tapemos’. [2].
Os Profetas foram protegidos por Allah contra todos os erros, pois, foram criados com um propósito singular. Foram protegidos para não se desviarem da sua missão, pois, o menor desvio poderia causar a perdição de toda a humanidade.

A Profecia é dignificada pela Revelação Divina:

‘E também te inspiramos com um Espírito, por ordem nossa, antes do que não conhecias o que era o Livro, nem a fé; porém, fizemos dele uma Luz, mediante a qual guiamos quem Nos apraz dentre os Nossos servos. E tu, certamente, te orientas para uma senda recta’. (Alcorão, 42:52).

Por conseguinte, os Profetas nunca falaram pela sua própria iniciativa: ‘Nem fala por capricho. Isso não é senão a inspiração que lhe foi revelada’. (Alcorão, 53:3-4).

O Profeta Muhammad (s.a.w.), em particular quando lhe perguntavam coisas sobre os fundamentos da crença, aguardava a Revelação. Por vezes, os politeístas pediam-lhe que alterasse o Alcorão. Mas, como se trata de uma Escritura Divina, cuja expressão e significado pertencem por completo a Allah, o Profeta respondia como tinha sido instruído por Allah: ‘Mas, quando lhes são recitados os Nossos lúcidos versículos, aqueles que não esperam o comparecimento perante Nós, dizem: Apresenta-nos outro Alcorão que não seja este, ou, por outra, modificado! Dize: Não me incumbe modificá-lo por minha própria vontade; atenho-me somente ao que me tem sido revelado, porque temo o castigo do dia aziago, se desobedeço ao meu Senhor’. (Alcorão, 10:15).

Os Profetas submeteram-se totalmente a Allah e cumpriram a sua missão apenas porque Allah lhes ordenou que assim o fizessem. Jamais transgrediram ou se desviaram do seu caminho para terem êxito. Quando se depararam com ameaças ou ofertas sedutoras, responderam com palavras similares àquelas do Profeta Muhammad (s.a.w.): ‘Juro por Allah que embora pusessem o sol na minha mão direita e a lua na minha mão esquerda para que abandonasse esta missão, eu não a abandonaria’. Ele sabia que o Alcorão é a Palavra de Allah e, assim, também suportou a dificuldade e a oposição. [3].

 

A fidelidade e a boa vontade:

Os Profetas eram completamente dignos de confiança e não pediram nenhum salário pelos seus serviços; esta característica tão importante é mencionada cinco vezes no capítulo dos Dourados. Todos os Profetas disseram o mesmo: ‘Na verdade, eu sou para vós um Mensageiro fidedigno. Por isso, temei a Allah e obedecei-me. Não vos exijo nenhuma remuneração por isso; a minha recompensa apenas virá do Senhor dos Mundos’. (Alcorão, 26:107-9, 125-127, 143-45, 162-64, 178-80).

No seio do seu próprio povo, o Profeta Muhammad (s.a.w.) era conhecido pela sua honestidade, mesmo antes da sua proclamação da Profecia. Era conhecido como ‘al-Amin, que diz a verdade’. Como os seus antepassados, não pediu nenhum salário por chamar as pessoas para Allah.

Os Profetas nunca pensaram na ganância material, na recompensa espiritual, nem no Paraíso; esforçaram-se apenas para agradar a Allah e ver a humanidade a dirigir-se em direcção à verdade. O Profeta Muhammad (s.a.w.) era, neste sentido, o mais importante. Assim, como dedicou a sua vida ao bem-estar da humanidade neste mundo, também o fará no lugar de reunião no Dia do Juízo Final. Enquanto todos os demais se preocuparão apenas com eles mesmos, ele prostrar-se-á perante Allah, suplicará pela salvação dos muçulmanos, e inter-cederá perante Allah a favor dos outros. [4].

Aqueles que pretendem difundir os valores eternos do Islão deveriam seguir estas práticas. Qualquer mensagem baseada numa intenção impura, independentemente da eloquência, não terá nenhum efeito sobre as pessoas. Este aspecto é frequentemente sublinhado no Alcorão: ‘Segui aqueles que não vos exigem recompensa alguma e são encaminhados’! (Alcorão, 36-:21).

O Imame Busiri expressa o altruísmo, a sinceridade e a paciência do Mensageiro de Allah: ‘As montanhas desejariam correr sobre as ladeiras de montes de ouro, mas ele recusou’. Aisha (r.a.) relatou que, às vezes, em sua casa, não preparava nenhuma refeição durante quatro dias consecutivos. [5] Abu Hurayra (r.a.) também relata o seguinte: ‘Uma vez, entrei no quarto do Profeta. Estava a fazer salat (oração) sentando e a chorar. Perguntei-lhe se estava doente. Respondeu-me que tinha muita fome para poder estar de pé. Comecei a soluçar amargamente mas detive-me, dizendo: ‘Não chores, aquele que suporta a fome neste mundo estará a salvo do castigo de Allah no outro mundo” [6].

Um dia, um anjo apareceu e perguntou ao Mensageiro de Allah: ‘Ó Mensageiro de Allah! Allah saúda-te e pergunta se gostarias de ser um rei-Profeta ou um escravo-Profeta!’. Gabriel recomendou-lhe humildade. O Profeta levantou a voz e respondeu: ‘Desejo ser um escravo-Profeta, que um dia suportará a forme com pa-ciência e um dia derramar-me-ei em elogios ao meu Senhor, adquirindo, assim, a recompensa da paciência e do louvor.’ [7].

O Mensageiro de Allah costumava comer na companhia de escravos e servos. Um dia, uma mulher viu-o a comer com eles e disse: ‘Come como se fosse um escravo’. O Mensageiro de Allah respondeu-lhe: ‘Haverá um escravo melhor que eu? Sou um servo de Allah’. [8].

O Mensageiro de Allah é, por esta virtude, o Seu servo, o nosso mestre e o da criação, como o disse, com eloquência, Ghalib Dada:

Um rei exaltado,
O Rei dos Mensageiros, o meu Mestre.
É uma fonte interminável de ajuda
Para o indefeso, meu Mestre.
Allah honrou-te jurando por tua vida
No Alcorão, meu Mestre.
Na Presença Divina,
És o maior, meu Mestre.
És o amado, o louvável,
O louvado de Allah, meu Mestre.
És o nosso Rei Eterno,
Enviado a nós por Allah, meu Mestre.

Sinceridade completa:

Outra característica indispensável é a sinceridade, que, neste contexto, significa ‘a pureza da intenção, fazer tudo apenas por Allah’. Pedem-nos que adoremos a Allah com sinceridade: “E lhes foi ordenado que adorassem sinceramente a Allah, fossem monoteístas [seguidores da religião da Tawhid – Unicidade – do Profeta Abraão (a.s.)], observassem a oração e pagassem zakat; esta é a verdadeira religião.” (Alcorão, 98:5).

Allah também menciona a sinceridade como o principal atributo dos Profetas e faz referência a Moisés (a.s.). ‘E menciona Moisés, no Livro, porque foi leal e foi um Mensageiro e um Profeta’. (Alcorão, 19:51). Adoramos a Allah apenas porque somos os Seus servos e Ele disse-nos que assim procedêssemos. Obedecer-lhe permite que asseguremos o Seu beneplácito e que sejamos recompensados no Além. Said Nursi, o grande pensador turco do século XX, disse: ‘Faz tudo o que fazes apenas por Allah, começa por Allah, trabalha por Allah, e actua procurando obter a Sua aprovação’. [9].

O Último Profeta de Allah adorou-O com tanta sinceridade que as pessoas podiam dizer: ‘Ninguém podia permanecer tão humilde como ele era no início da sua carreira, e continuar assim depois de alcançar o topo. Muhammad (s.a.w.) foi um homem excepcional’. Ele é tão grande e sublime que estaremos em pé, diante dele, mostrando-lhe respeito, embora ele costumasse advertir os seus Companheiros dizendo-lhes: ‘Quando eu chegar, não vos levanteis como o fazem os persas (relativamente às pessoas mais velhas)’. [10].

Embora os seus Companheiros o respeitassem de modo absoluto, este considerava ser um pobre servo de Allah. O mesmo se verificou no dia da conquista da Meca (ár. Makkah), quando iniciou a sua missão humildemente. No início da sua missão, sentava-se e comia com os pobres e com os escravos. Quando entrou triunfalmente em Meca, estava montado no dorso de uma mula com tamanha submissão e humildade profunda perante Allah que a sua face tocava a albarda. Prostrou-se perante Allah e refugiou-se n’Ele para não ser um conquistador tirânico e arrogante. O Mensageiro tinha apenas um objectivo: agradar a Allah e adorá-Lo com sinceridade. Fazia-lo conforme o mencionou num hadith famoso: ‘A virtude é adorar a Allah como se O visses, porque, certamente, embora não O vejas, Ele certamente te vê a ti’. [11].

Apelar as pessoas com sabedoria e amabilidade:

Outro atributo dos Profetas é apelar as pessoas, com sabedoria e boa exortação, para o caminho que conduz até Allah. Nunca recorreram à demagogia e à retórica, mas actuaram e falaram sabiamente. Allah ordenou ao Seu Maior e Último Mensageiro: ‘Chama para o caminho do teu Senhor através da sabedoria e da boa exortação, e convencendo-os da melhor forma’. (Alcorão,16:125). As pessoas são muito mais do que mente e coração. Somos seres complexos dotados de muitas faculdades, incluindo a mente, o intelecto, o coração e a alma. Todas as nossas faculdades, até as mais íntimas, requerem satisfação. Os Profetas dirigiram-se a todas elas. Aqueles que foram instruídos pelos Profetas adquiriram certeza e a sua perspectiva diferiu daqueles que tinham uma visão limitada do exterior e careciam de perspicácia e de perspectiva espiritual. A sua convicção nas verdades religiosas era inquebrantável e eram continuamente alimentados através da Revelação Divina. Associaram o discurso à acção, o conhecimento à prática, e a acção à contemplação. Ali ibn Abu Talib (r.a.), entre outros, disse: ‘Se se levantasse o véu do Invisível, a minha certeza não aumentaria’. [12]. Não havia mais nenhum grau de certeza que tivessem de alcançar. A instrução dada pelos Profetas aos seus discípulos, a função dos Profetas, é descrita com exactidão: ‘Assim também escolhemos, dentre vós, um Mensageiro de vossa raça para vos recitar Nossos versículos, purificar-vos, ensinar-vos o Livro e a sabedoria, bem como tudo quanto ignorais’. (Alcorão, 2:151).

Chamar a humanidade para a Unidade de Allah:

A pedra angular da missão profética é pregar a Unidade Divina. Todos os Profetas concentraram-se neste princípio básico: ‘Minha gente, adorai à Allah; não tenhais nenhum outro deus além d’Ele’ (Alcorão, 11:84) . Allah enviou pelo menos um Profeta a cada grupo humano. O facto de todos eles, ao longo do tempo, e para lá do lugar, concordarem com este princípio básico demonstra que não falaram nem actuaram sozinhos; tudo o que fizeram foi ensinar a Mensagem recebida de Allah. Os filósofos e os pensadores, não importa quão importantes possam ser, discordam entre eles porque dependem do seu próprio intelecto e conclusões. Muitas vezes, a mesma escola filosófica ou sociológica contem diferentes opiniões. Este fenómeno não se verifica entre os Profetas, o que prova que um Só, Eterno Mestre – Allah – os instruiu e que não foram dirigidos pelo raciocínio deficiente do ser humano. Esta unidade da crença é uma prova evidente da Unidade Divina, o princípio fundamental da sua missão, como foi declarada por Muhammad (s.a.w.): ‘A mais meritória das palavras ditas por mim e pelos Profetas antes de mim é: ‘Não há nenhuma divindade além de Allah, Ele é Uno, não tem nenhum companheiro”. [13]

NOTAS:

  1. Ibn Kaçir, Al-Bidaya, 2:350.
  2. Bukhari, “Hayy”, 42; Ibn Kaçir, Al-Bidaya, 2:350
  3. Ibn Hisham, “Sira”, 2:285.
  4. Bukhari, “Tauhid”, 36; Muslim, “Iman” 326.
  5. Bukhari, “Riqaq”, 17; Muslim, “Zuhd,” 28.
  6. Muttaqi al-Hindi, Kanz al-‘Ummal, 7:199.
  7. Ibn Hanbal, 2:231; Al-Hindi, 7:191; Hayzami, Mayma’al-Zawa’id, 9:18-19.
  8. Hayzami, 9:21.
  9. Bediüzzaman Said Nursi, Kalimat, 1:5.
  10. Abu David, “Adab”, 152; Ibn Hanbal, 5:253.
  11. Bukhari, “Iman”, 47; Muslim, “Iman,” 5:7.
  12. ‘Ali al-Qari, Al-Asrar al-Marfu’a, 286.
  13. Imam Malik, Muwatta, “Hayy”, 246; Hindi, Kanz al-‘Ummal, 5:73.
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Quem São os Muçulmanos?

Y. A., in Revista Al Furqán, nº. 180, de Março/Abril de 2011

O Islão foi sempre uma mensagem universal para todos os povos

A palavra árabe “muçlim” significa aquele que estiver em estado de Islão (quer dizer, com livre submissão e entrega à vontade de Deus – Allah em árabe -)”. A mensagem do islão é universal e qualquer um que o aceite converte-se em muçulmano. Algumas pessoas acreditam erradamente que o islão é uma religião só para os árabes. Mas nada está mais longe da verdade. De facto, mais de 80% dos muçulmanos do mundo não são árabes. Se bem que a maioria dos árabes são muçulmanos, há árabes cristãos e de outras religiões. Dando uma vista de olhos pelos diversos povos que vivem no mundo muçulmano, é muito fácil reparar que os muçulmanos pertencem a distintas raças, etnias, culturas e nacionalidades. O Islão foi sempre uma mensagem universal para todos os povos. Isso pode verificar-se no facto de que alguns dos primeiros companheiros do Profeta Muhammad (saw) não só serem árabes, mas também persas, africanos, romanos bizantinos e doutras raças.

Ser muçulmano implica uma aceitação total e uma obediência activa aos ensinamentos e leis revelados por Allah. O muçulmano é uma pessoa que aceita livremente basear as suas crenças, valores e fé, na vontade de Deus Todo-Poderoso. No passado (mesmo não se usando demasiado hoje em dia) usava-se a palavra “maometanos” para se referir aos muçulmanos. Esta palavra é errada e é o resultado de uma distorção deliberada ou de uma mera ignorância. Uma das razões deste erro conceptual é que, durante séculos, se ensinou aos europeus que os muçulmanos adoravam o Profeta Muhammad (saw), da mesma maneira que os cristãos adoram Jesus (a.s.). Isto é totalmente falso, pois não é considerado muçulmano quem adora, fora de Allah, uma deidade ou pessoa, seja quem for.

No Islão, apesar de a imprensa internacional (e certos meios nacionais) manterem uma desinformação orquestrada e apresentarem o Islão como uma religião totalmente diferente e violenta, a doutrina é basicamente paz, justiça, concórdia, amplitude e amor. E, fora disso, não discrimina os ensinamentos doutras religiões. Inclui pessoas de todas as raças, idades, sexos, condições económicas ou sociais, lugares de nascimento etc. E não faz nenhuma diferença nem discriminação entre eles.

A atitude do crente: Ser muçulmano significa “ser submisso a Allah” e crer na unicidade de Allah (que Ele é o Único Criador, Preservador, Sustentador, etc.). Esta crença – chamada ‘o monoteísmo no Senhorio e Domínio’ (Tawhid), por si só não é suficiente para se ser crente. Os idólatras contemporâneos do Profeta sabiam e acreditavam que só Allah podia fazer tudo isto, e, todavia, isso não os fazia muçulmanos. O monoteísmo do Senhorio e o Domínio vê-se complementado pelo monoteísmo na adoração, quer dizer, só Allah tem o direito legítimo de ser adorado. Quando a fé penetra no coração, a pessoa experimenta um sentimento de gratidão a Deus, que é a essência da adoração (Ibada). O sentido de gratidão é tão importante que quem não acredita em Deus é chamado kafir, que quer dizer “quem nega a verdade”, “aquele que é ingrato” e também “quem é rebelde contra Aquele que o criou”.

“Ele é Deus, não há outra divindade salvo Ele, Conhecedor do oculto e do manifesto. Ele é Todo-Misericordioso e Todo-Compassivo. Ele é Deus, não há outra divindade salvo Ele Soberano, Santíssimo, Pacificador, Doador de segurança, Criador, Poderoso, Justo e Majestoso. Glorificado seja Allah, Ele está por cima do que lhe é atribuído. Ele é Allah, Criador, Iniciador, Informador. Seus são os nomes (e atributos) mais sublimes. Tudo quanto existe nos Céus e na Terra glorifica-O. Ele é Todo-Poderoso e totalmente sábio.’ (Alcorão 59:22-24).

Numa forma que resume o comportamento dos muçulmanos, o Profeta Muhammad (saw) disse: ‘O meu Senhor (Allah) deu-me nove indicações: permanecer devoto a Allah tanto em privado como em público; falar com justiça, quando estiver irritado e quando estiver contente; mostrar moderação, quer na pobreza, quer na riqueza; voltar a es-tabelecer amizade com aqueles que a tiverem rompido connosco, perdoar aquele que nos rejeita, e dispor o que for correcto”.

O Próximo: O Profeta disse: “Não é crente aquele que come até se saciar, enquanto o seu próximo tem fome”. “Não é crente aquele cujo próximo não estiver a salvo da sua mão e da sua língua”. E “não é crente aquele que não desejar para o seu irmão o que desejar para si próprio”.

De facto, de acordo com o Sagrado Alcorão e com as Tradições proféticas, o muçulmano deve cumprir com a sua responsabilidade moral, não só com os seus pais, parentes e vizinhos, mas com toda a Humanidade, com os animais, inclusive com todo o ecossistema. Por exemplo, não é permitido caçar pássaros nem outros animais pelo mero prazer de caçar, ou fazê-los sofrer por diversão, como as corridas de touros.

Da mesma forma, é proibido cortar árvores e plantas de fruto, a menos que exista para isso uma necessidade imperiosa.

Deste modo e baseando-se nestas características, o Islão cria um sistema moral elevado, graças ao qual a Humanidade poderá atingir todo o seu potencial. O islão purifica a alma do egoísmo individualista, da tirania, da vaidade e da indisciplina. Cria homens e mulheres piedosos e devotos a Deus, leais aos seus ideais, cultos, cheios de bondade, generosidade e disciplina e que não se comprometem nem com a falsidade nem com a corrupção.

O ser humano em geral e, por conseguinte, o muçulmano, não é perfeito nem infalível, e por isso comete enganos e pecados; mas, apesar disso, o muçulmano deve combater o seu ego para se afastar de todo o mau. Quando é vencido pelos desejos e comete um pecado, não deve perder a esperança na misericórdia de Deus, mas, pelo contrário, deve voltar-se para Deus arrependido; deve culpar-se pela desobediência que cometeu e purificar a sua alma, para não cair no pecado novamente.

O arrependimento sincero tem três características:

  1. Fugir do pecado. Lamentar-se de o ter cometido. Ter a firme determinação de não voltar a cometê-lo no futuro.
  2. Quando um muçulmano se arrepende sinceramente, Deus aceita o seu arrependimento e perdoa o seu pecado. Diz o Alcorão: ‘Crentes! Voltem-se para Allah com sincero arrependimento! Talvez o vosso Senhor apague as vossas más obras e vos introduza em jardins por cujo solo fluem regatos’. (66:8).

No Ocidente, insiste-se que a mulher muçulmana é uma escrava do marido. Nada mais afastado da realidade. O homem muçulmano deve proteger, manter, amar, respeitar, comprazer, cuidar, etc., a mulher e os filhos, e depois, uma vez que o muçulmano cumpre com os seus deveres, tem o direito de pedir à esposa que o sirva, atenda e respeite. Como diz uma canção brasileira, ‘Todo homem que sabe o que quer / sabe dar e querer da mulher’.

Quanto ao terrorismo, a sua definição é clara: ataque violento e desenfreado contra civis inocentes, desarmados e que não participam da guerra, com o objectivo de lhes causar dano e de infundir o terror na população. O Islão condena isto energicamente. O Sagrado Alcorão é claro ao afirmar: “Quem assassinar um inocente é como se assassinasse toda a Humanidade e quem salvar um inocente é como se salvasse toda a Humanidade”.

O Islão é tolerância, paz e amor e proíbe a agressão, mas permite que nos defendamos. Os terroristas no Islão são uma pequena fracção da amostra, menos do 0,1%, se bem que constituem uma minoria ruidosa que recebe maior cobertura mediática.

Isto é assim porque no Ocidente também há pessoas que procuram a confrontação, incluindo políticos, líderes religiosos, donos de meios publicitários, etc., que são também fanáticos por natureza, embora se definam como antifanáticos. Todos complementam-se para potenciar o choque de civilizações. remodelação apartamento

Como a matéria e a antimatéria, ou como uma mão com a outra mão para aplaudir, têm que existir ambas; os fanáticos do Oriente e do Ocidente precisam uns dos outros para sobreviver.

O Islão verdadeiro, ao qual pertencem 99,9% dos muçulmanos, almeja a paz e a tolerância, ainda que algumas mentes fanáticas e anquilosadas do Ocidente não o compreendam ou não queiram entende-lo.