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Características dos Profetas de Allah

Coord. por M. Yiossuf Adamgy In revista Al Furqán, nº. 181, de Maio/Junho.201

A total dependência da Revelação e da submissão a Deus (ár. Allah):

Embora cada Profeta fosse um ser inteligente e dotado de um amplo entendimento e de uma alma pura, estas características não desempenham nenhum papel no que diz respeito à es-colha de um Profeta por Allah. A maior parte dos Profetas (paz esteja com eles), inclusive Muhammad (s.a.w.), eram iletrados (ou quase) e, por conseguinte, foram instruídos por Allah.

O Profeta Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos de Deus estejam com ele), apesar do seu analfabetismo, tinha conhecimento do passado e do futuro, e perspicácia em cada ramo do conhecimento. Não assistiu a nenhuma aula, nem teve nenhum professor humano, e até mesmos os seus inimigos admitiram – e, continuam, ainda a admiti-lo – que demonstrou aplicar uma justiça perfeita em assuntos familiares, ser perfeitamente competente na administração estatal e no comando dos exércitos.

Os Profetas foram criados por Allah. Para citar um exemplo, o último Profeta recordou o seguinte: ‘Durante a minha infância, pensei, em duas ocasiões, assistir a uma cerimónia de casamento. Em ambas as ocasiões, fui vencido pelo sono a meio do caminho – e, portanto, estava protegido contra qualquer pecado que eu mesmo proibiria mais tarde’. [1]; e ‘quando estávamos a reparar a Caaba, antes da minha Profecia, eu levava pedras. Como todos faziam, enrolei a parte de baixo da minha roupa sobre o ombro para evitar ferimentos. A minha coxa ficou destapada. De repente, o anjo que eu já tinha visto várias vezes na minha infância apareceu em toda a sua grandeza. Caí e desmaiei. Isto acontecera porque tinha destapado uma parte do corpo que Allah ordena que tapemos’. [2].
Os Profetas foram protegidos por Allah contra todos os erros, pois, foram criados com um propósito singular. Foram protegidos para não se desviarem da sua missão, pois, o menor desvio poderia causar a perdição de toda a humanidade.

A Profecia é dignificada pela Revelação Divina:

‘E também te inspiramos com um Espírito, por ordem nossa, antes do que não conhecias o que era o Livro, nem a fé; porém, fizemos dele uma Luz, mediante a qual guiamos quem Nos apraz dentre os Nossos servos. E tu, certamente, te orientas para uma senda recta’. (Alcorão, 42:52).

Por conseguinte, os Profetas nunca falaram pela sua própria iniciativa: ‘Nem fala por capricho. Isso não é senão a inspiração que lhe foi revelada’. (Alcorão, 53:3-4).

O Profeta Muhammad (s.a.w.), em particular quando lhe perguntavam coisas sobre os fundamentos da crença, aguardava a Revelação. Por vezes, os politeístas pediam-lhe que alterasse o Alcorão. Mas, como se trata de uma Escritura Divina, cuja expressão e significado pertencem por completo a Allah, o Profeta respondia como tinha sido instruído por Allah: ‘Mas, quando lhes são recitados os Nossos lúcidos versículos, aqueles que não esperam o comparecimento perante Nós, dizem: Apresenta-nos outro Alcorão que não seja este, ou, por outra, modificado! Dize: Não me incumbe modificá-lo por minha própria vontade; atenho-me somente ao que me tem sido revelado, porque temo o castigo do dia aziago, se desobedeço ao meu Senhor’. (Alcorão, 10:15).

Os Profetas submeteram-se totalmente a Allah e cumpriram a sua missão apenas porque Allah lhes ordenou que assim o fizessem. Jamais transgrediram ou se desviaram do seu caminho para terem êxito. Quando se depararam com ameaças ou ofertas sedutoras, responderam com palavras similares àquelas do Profeta Muhammad (s.a.w.): ‘Juro por Allah que embora pusessem o sol na minha mão direita e a lua na minha mão esquerda para que abandonasse esta missão, eu não a abandonaria’. Ele sabia que o Alcorão é a Palavra de Allah e, assim, também suportou a dificuldade e a oposição. [3].

 

A fidelidade e a boa vontade:

Os Profetas eram completamente dignos de confiança e não pediram nenhum salário pelos seus serviços; esta característica tão importante é mencionada cinco vezes no capítulo dos Dourados. Todos os Profetas disseram o mesmo: ‘Na verdade, eu sou para vós um Mensageiro fidedigno. Por isso, temei a Allah e obedecei-me. Não vos exijo nenhuma remuneração por isso; a minha recompensa apenas virá do Senhor dos Mundos’. (Alcorão, 26:107-9, 125-127, 143-45, 162-64, 178-80).

No seio do seu próprio povo, o Profeta Muhammad (s.a.w.) era conhecido pela sua honestidade, mesmo antes da sua proclamação da Profecia. Era conhecido como ‘al-Amin, que diz a verdade’. Como os seus antepassados, não pediu nenhum salário por chamar as pessoas para Allah.

Os Profetas nunca pensaram na ganância material, na recompensa espiritual, nem no Paraíso; esforçaram-se apenas para agradar a Allah e ver a humanidade a dirigir-se em direcção à verdade. O Profeta Muhammad (s.a.w.) era, neste sentido, o mais importante. Assim, como dedicou a sua vida ao bem-estar da humanidade neste mundo, também o fará no lugar de reunião no Dia do Juízo Final. Enquanto todos os demais se preocuparão apenas com eles mesmos, ele prostrar-se-á perante Allah, suplicará pela salvação dos muçulmanos, e inter-cederá perante Allah a favor dos outros. [4].

Aqueles que pretendem difundir os valores eternos do Islão deveriam seguir estas práticas. Qualquer mensagem baseada numa intenção impura, independentemente da eloquência, não terá nenhum efeito sobre as pessoas. Este aspecto é frequentemente sublinhado no Alcorão: ‘Segui aqueles que não vos exigem recompensa alguma e são encaminhados’! (Alcorão, 36-:21).

O Imame Busiri expressa o altruísmo, a sinceridade e a paciência do Mensageiro de Allah: ‘As montanhas desejariam correr sobre as ladeiras de montes de ouro, mas ele recusou’. Aisha (r.a.) relatou que, às vezes, em sua casa, não preparava nenhuma refeição durante quatro dias consecutivos. [5] Abu Hurayra (r.a.) também relata o seguinte: ‘Uma vez, entrei no quarto do Profeta. Estava a fazer salat (oração) sentando e a chorar. Perguntei-lhe se estava doente. Respondeu-me que tinha muita fome para poder estar de pé. Comecei a soluçar amargamente mas detive-me, dizendo: ‘Não chores, aquele que suporta a fome neste mundo estará a salvo do castigo de Allah no outro mundo” [6].

Um dia, um anjo apareceu e perguntou ao Mensageiro de Allah: ‘Ó Mensageiro de Allah! Allah saúda-te e pergunta se gostarias de ser um rei-Profeta ou um escravo-Profeta!’. Gabriel recomendou-lhe humildade. O Profeta levantou a voz e respondeu: ‘Desejo ser um escravo-Profeta, que um dia suportará a forme com pa-ciência e um dia derramar-me-ei em elogios ao meu Senhor, adquirindo, assim, a recompensa da paciência e do louvor.’ [7].

O Mensageiro de Allah costumava comer na companhia de escravos e servos. Um dia, uma mulher viu-o a comer com eles e disse: ‘Come como se fosse um escravo’. O Mensageiro de Allah respondeu-lhe: ‘Haverá um escravo melhor que eu? Sou um servo de Allah’. [8].

O Mensageiro de Allah é, por esta virtude, o Seu servo, o nosso mestre e o da criação, como o disse, com eloquência, Ghalib Dada:

Um rei exaltado,
O Rei dos Mensageiros, o meu Mestre.
É uma fonte interminável de ajuda
Para o indefeso, meu Mestre.
Allah honrou-te jurando por tua vida
No Alcorão, meu Mestre.
Na Presença Divina,
És o maior, meu Mestre.
És o amado, o louvável,
O louvado de Allah, meu Mestre.
És o nosso Rei Eterno,
Enviado a nós por Allah, meu Mestre.

Sinceridade completa:

Outra característica indispensável é a sinceridade, que, neste contexto, significa ‘a pureza da intenção, fazer tudo apenas por Allah’. Pedem-nos que adoremos a Allah com sinceridade: “E lhes foi ordenado que adorassem sinceramente a Allah, fossem monoteístas [seguidores da religião da Tawhid – Unicidade – do Profeta Abraão (a.s.)], observassem a oração e pagassem zakat; esta é a verdadeira religião.” (Alcorão, 98:5).

Allah também menciona a sinceridade como o principal atributo dos Profetas e faz referência a Moisés (a.s.). ‘E menciona Moisés, no Livro, porque foi leal e foi um Mensageiro e um Profeta’. (Alcorão, 19:51). Adoramos a Allah apenas porque somos os Seus servos e Ele disse-nos que assim procedêssemos. Obedecer-lhe permite que asseguremos o Seu beneplácito e que sejamos recompensados no Além. Said Nursi, o grande pensador turco do século XX, disse: ‘Faz tudo o que fazes apenas por Allah, começa por Allah, trabalha por Allah, e actua procurando obter a Sua aprovação’. [9].

O Último Profeta de Allah adorou-O com tanta sinceridade que as pessoas podiam dizer: ‘Ninguém podia permanecer tão humilde como ele era no início da sua carreira, e continuar assim depois de alcançar o topo. Muhammad (s.a.w.) foi um homem excepcional’. Ele é tão grande e sublime que estaremos em pé, diante dele, mostrando-lhe respeito, embora ele costumasse advertir os seus Companheiros dizendo-lhes: ‘Quando eu chegar, não vos levanteis como o fazem os persas (relativamente às pessoas mais velhas)’. [10].

Embora os seus Companheiros o respeitassem de modo absoluto, este considerava ser um pobre servo de Allah. O mesmo se verificou no dia da conquista da Meca (ár. Makkah), quando iniciou a sua missão humildemente. No início da sua missão, sentava-se e comia com os pobres e com os escravos. Quando entrou triunfalmente em Meca, estava montado no dorso de uma mula com tamanha submissão e humildade profunda perante Allah que a sua face tocava a albarda. Prostrou-se perante Allah e refugiou-se n’Ele para não ser um conquistador tirânico e arrogante. O Mensageiro tinha apenas um objectivo: agradar a Allah e adorá-Lo com sinceridade. Fazia-lo conforme o mencionou num hadith famoso: ‘A virtude é adorar a Allah como se O visses, porque, certamente, embora não O vejas, Ele certamente te vê a ti’. [11].

Apelar as pessoas com sabedoria e amabilidade:

Outro atributo dos Profetas é apelar as pessoas, com sabedoria e boa exortação, para o caminho que conduz até Allah. Nunca recorreram à demagogia e à retórica, mas actuaram e falaram sabiamente. Allah ordenou ao Seu Maior e Último Mensageiro: ‘Chama para o caminho do teu Senhor através da sabedoria e da boa exortação, e convencendo-os da melhor forma’. (Alcorão,16:125). As pessoas são muito mais do que mente e coração. Somos seres complexos dotados de muitas faculdades, incluindo a mente, o intelecto, o coração e a alma. Todas as nossas faculdades, até as mais íntimas, requerem satisfação. Os Profetas dirigiram-se a todas elas. Aqueles que foram instruídos pelos Profetas adquiriram certeza e a sua perspectiva diferiu daqueles que tinham uma visão limitada do exterior e careciam de perspicácia e de perspectiva espiritual. A sua convicção nas verdades religiosas era inquebrantável e eram continuamente alimentados através da Revelação Divina. Associaram o discurso à acção, o conhecimento à prática, e a acção à contemplação. Ali ibn Abu Talib (r.a.), entre outros, disse: ‘Se se levantasse o véu do Invisível, a minha certeza não aumentaria’. [12]. Não havia mais nenhum grau de certeza que tivessem de alcançar. A instrução dada pelos Profetas aos seus discípulos, a função dos Profetas, é descrita com exactidão: ‘Assim também escolhemos, dentre vós, um Mensageiro de vossa raça para vos recitar Nossos versículos, purificar-vos, ensinar-vos o Livro e a sabedoria, bem como tudo quanto ignorais’. (Alcorão, 2:151).

Chamar a humanidade para a Unidade de Allah:

A pedra angular da missão profética é pregar a Unidade Divina. Todos os Profetas concentraram-se neste princípio básico: ‘Minha gente, adorai à Allah; não tenhais nenhum outro deus além d’Ele’ (Alcorão, 11:84) . Allah enviou pelo menos um Profeta a cada grupo humano. O facto de todos eles, ao longo do tempo, e para lá do lugar, concordarem com este princípio básico demonstra que não falaram nem actuaram sozinhos; tudo o que fizeram foi ensinar a Mensagem recebida de Allah. Os filósofos e os pensadores, não importa quão importantes possam ser, discordam entre eles porque dependem do seu próprio intelecto e conclusões. Muitas vezes, a mesma escola filosófica ou sociológica contem diferentes opiniões. Este fenómeno não se verifica entre os Profetas, o que prova que um Só, Eterno Mestre – Allah – os instruiu e que não foram dirigidos pelo raciocínio deficiente do ser humano. Esta unidade da crença é uma prova evidente da Unidade Divina, o princípio fundamental da sua missão, como foi declarada por Muhammad (s.a.w.): ‘A mais meritória das palavras ditas por mim e pelos Profetas antes de mim é: ‘Não há nenhuma divindade além de Allah, Ele é Uno, não tem nenhum companheiro”. [13]

NOTAS:

  1. Ibn Kaçir, Al-Bidaya, 2:350.
  2. Bukhari, “Hayy”, 42; Ibn Kaçir, Al-Bidaya, 2:350
  3. Ibn Hisham, “Sira”, 2:285.
  4. Bukhari, “Tauhid”, 36; Muslim, “Iman” 326.
  5. Bukhari, “Riqaq”, 17; Muslim, “Zuhd,” 28.
  6. Muttaqi al-Hindi, Kanz al-‘Ummal, 7:199.
  7. Ibn Hanbal, 2:231; Al-Hindi, 7:191; Hayzami, Mayma’al-Zawa’id, 9:18-19.
  8. Hayzami, 9:21.
  9. Bediüzzaman Said Nursi, Kalimat, 1:5.
  10. Abu David, “Adab”, 152; Ibn Hanbal, 5:253.
  11. Bukhari, “Iman”, 47; Muslim, “Iman,” 5:7.
  12. ‘Ali al-Qari, Al-Asrar al-Marfu’a, 286.
  13. Imam Malik, Muwatta, “Hayy”, 246; Hindi, Kanz al-‘Ummal, 5:73.
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Quem São os Muçulmanos?

Y. A., in Revista Al Furqán, nº. 180, de Março/Abril de 2011

O Islão foi sempre uma mensagem universal para todos os povos

A palavra árabe “muçlim” significa aquele que estiver em estado de Islão (quer dizer, com livre submissão e entrega à vontade de Deus – Allah em árabe -)”. A mensagem do islão é universal e qualquer um que o aceite converte-se em muçulmano. Algumas pessoas acreditam erradamente que o islão é uma religião só para os árabes. Mas nada está mais longe da verdade. De facto, mais de 80% dos muçulmanos do mundo não são árabes. Se bem que a maioria dos árabes são muçulmanos, há árabes cristãos e de outras religiões. Dando uma vista de olhos pelos diversos povos que vivem no mundo muçulmano, é muito fácil reparar que os muçulmanos pertencem a distintas raças, etnias, culturas e nacionalidades. O Islão foi sempre uma mensagem universal para todos os povos. Isso pode verificar-se no facto de que alguns dos primeiros companheiros do Profeta Muhammad (saw) não só serem árabes, mas também persas, africanos, romanos bizantinos e doutras raças.

Ser muçulmano implica uma aceitação total e uma obediência activa aos ensinamentos e leis revelados por Allah. O muçulmano é uma pessoa que aceita livremente basear as suas crenças, valores e fé, na vontade de Deus Todo-Poderoso. No passado (mesmo não se usando demasiado hoje em dia) usava-se a palavra “maometanos” para se referir aos muçulmanos. Esta palavra é errada e é o resultado de uma distorção deliberada ou de uma mera ignorância. Uma das razões deste erro conceptual é que, durante séculos, se ensinou aos europeus que os muçulmanos adoravam o Profeta Muhammad (saw), da mesma maneira que os cristãos adoram Jesus (a.s.). Isto é totalmente falso, pois não é considerado muçulmano quem adora, fora de Allah, uma deidade ou pessoa, seja quem for.

No Islão, apesar de a imprensa internacional (e certos meios nacionais) manterem uma desinformação orquestrada e apresentarem o Islão como uma religião totalmente diferente e violenta, a doutrina é basicamente paz, justiça, concórdia, amplitude e amor. E, fora disso, não discrimina os ensinamentos doutras religiões. Inclui pessoas de todas as raças, idades, sexos, condições económicas ou sociais, lugares de nascimento etc. E não faz nenhuma diferença nem discriminação entre eles.

A atitude do crente: Ser muçulmano significa “ser submisso a Allah” e crer na unicidade de Allah (que Ele é o Único Criador, Preservador, Sustentador, etc.). Esta crença – chamada ‘o monoteísmo no Senhorio e Domínio’ (Tawhid), por si só não é suficiente para se ser crente. Os idólatras contemporâneos do Profeta sabiam e acreditavam que só Allah podia fazer tudo isto, e, todavia, isso não os fazia muçulmanos. O monoteísmo do Senhorio e o Domínio vê-se complementado pelo monoteísmo na adoração, quer dizer, só Allah tem o direito legítimo de ser adorado. Quando a fé penetra no coração, a pessoa experimenta um sentimento de gratidão a Deus, que é a essência da adoração (Ibada). O sentido de gratidão é tão importante que quem não acredita em Deus é chamado kafir, que quer dizer “quem nega a verdade”, “aquele que é ingrato” e também “quem é rebelde contra Aquele que o criou”.

“Ele é Deus, não há outra divindade salvo Ele, Conhecedor do oculto e do manifesto. Ele é Todo-Misericordioso e Todo-Compassivo. Ele é Deus, não há outra divindade salvo Ele Soberano, Santíssimo, Pacificador, Doador de segurança, Criador, Poderoso, Justo e Majestoso. Glorificado seja Allah, Ele está por cima do que lhe é atribuído. Ele é Allah, Criador, Iniciador, Informador. Seus são os nomes (e atributos) mais sublimes. Tudo quanto existe nos Céus e na Terra glorifica-O. Ele é Todo-Poderoso e totalmente sábio.’ (Alcorão 59:22-24).

Numa forma que resume o comportamento dos muçulmanos, o Profeta Muhammad (saw) disse: ‘O meu Senhor (Allah) deu-me nove indicações: permanecer devoto a Allah tanto em privado como em público; falar com justiça, quando estiver irritado e quando estiver contente; mostrar moderação, quer na pobreza, quer na riqueza; voltar a es-tabelecer amizade com aqueles que a tiverem rompido connosco, perdoar aquele que nos rejeita, e dispor o que for correcto”.

O Próximo: O Profeta disse: “Não é crente aquele que come até se saciar, enquanto o seu próximo tem fome”. “Não é crente aquele cujo próximo não estiver a salvo da sua mão e da sua língua”. E “não é crente aquele que não desejar para o seu irmão o que desejar para si próprio”.

De facto, de acordo com o Sagrado Alcorão e com as Tradições proféticas, o muçulmano deve cumprir com a sua responsabilidade moral, não só com os seus pais, parentes e vizinhos, mas com toda a Humanidade, com os animais, inclusive com todo o ecossistema. Por exemplo, não é permitido caçar pássaros nem outros animais pelo mero prazer de caçar, ou fazê-los sofrer por diversão, como as corridas de touros.

Da mesma forma, é proibido cortar árvores e plantas de fruto, a menos que exista para isso uma necessidade imperiosa.

Deste modo e baseando-se nestas características, o Islão cria um sistema moral elevado, graças ao qual a Humanidade poderá atingir todo o seu potencial. O islão purifica a alma do egoísmo individualista, da tirania, da vaidade e da indisciplina. Cria homens e mulheres piedosos e devotos a Deus, leais aos seus ideais, cultos, cheios de bondade, generosidade e disciplina e que não se comprometem nem com a falsidade nem com a corrupção.

O ser humano em geral e, por conseguinte, o muçulmano, não é perfeito nem infalível, e por isso comete enganos e pecados; mas, apesar disso, o muçulmano deve combater o seu ego para se afastar de todo o mau. Quando é vencido pelos desejos e comete um pecado, não deve perder a esperança na misericórdia de Deus, mas, pelo contrário, deve voltar-se para Deus arrependido; deve culpar-se pela desobediência que cometeu e purificar a sua alma, para não cair no pecado novamente.

O arrependimento sincero tem três características:

  1. Fugir do pecado. Lamentar-se de o ter cometido. Ter a firme determinação de não voltar a cometê-lo no futuro.
  2. Quando um muçulmano se arrepende sinceramente, Deus aceita o seu arrependimento e perdoa o seu pecado. Diz o Alcorão: ‘Crentes! Voltem-se para Allah com sincero arrependimento! Talvez o vosso Senhor apague as vossas más obras e vos introduza em jardins por cujo solo fluem regatos’. (66:8).

No Ocidente, insiste-se que a mulher muçulmana é uma escrava do marido. Nada mais afastado da realidade. O homem muçulmano deve proteger, manter, amar, respeitar, comprazer, cuidar, etc., a mulher e os filhos, e depois, uma vez que o muçulmano cumpre com os seus deveres, tem o direito de pedir à esposa que o sirva, atenda e respeite. Como diz uma canção brasileira, ‘Todo homem que sabe o que quer / sabe dar e querer da mulher’.

Quanto ao terrorismo, a sua definição é clara: ataque violento e desenfreado contra civis inocentes, desarmados e que não participam da guerra, com o objectivo de lhes causar dano e de infundir o terror na população. O Islão condena isto energicamente. O Sagrado Alcorão é claro ao afirmar: “Quem assassinar um inocente é como se assassinasse toda a Humanidade e quem salvar um inocente é como se salvasse toda a Humanidade”.

O Islão é tolerância, paz e amor e proíbe a agressão, mas permite que nos defendamos. Os terroristas no Islão são uma pequena fracção da amostra, menos do 0,1%, se bem que constituem uma minoria ruidosa que recebe maior cobertura mediática.

Isto é assim porque no Ocidente também há pessoas que procuram a confrontação, incluindo políticos, líderes religiosos, donos de meios publicitários, etc., que são também fanáticos por natureza, embora se definam como antifanáticos. Todos complementam-se para potenciar o choque de civilizações. remodelação apartamento

Como a matéria e a antimatéria, ou como uma mão com a outra mão para aplaudir, têm que existir ambas; os fanáticos do Oriente e do Ocidente precisam uns dos outros para sobreviver.

O Islão verdadeiro, ao qual pertencem 99,9% dos muçulmanos, almeja a paz e a tolerância, ainda que algumas mentes fanáticas e anquilosadas do Ocidente não o compreendam ou não queiram entende-lo.

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A Palavra Fiqh

Coord. Por: M. Yiossuf Adamgy, in revista islâmica portuguesa Al Furqán, nº. 178, de Novº./Dezº. 201

A palavra Fiqh significa, no Alcorão, “conhecimento profundo”, mas com o tempo adquiriu outro matiz, o de “conhecimento ordenado do Islão”.

Nem o Alcorão nem a Sunnah (conjunto de Ahadith ou tradições proféticas: ditos, actos e atitudes atribuídos ao Rassulullah [Mensageiro de Deus] (s.a.w.), que são tanto dados biográficos como “comentário” e “matização” do Alcorão, porque Muhammad [Maomé] (s.a.w.) era, como afirmava Aicha (r.a.): “o Alcorão caminhante”); não corpora jurídicos ou legislativos; é impossível, a partir do Alcorão e da Sunnah, regulamentar, definitivamente, a vida da comunidade. É preciso aplicar-lhes um método conforme o ensino de Muhammad (s.a.s.), que insistia na necessidade do Ijtihad ou sentido crítico, racional, que os faça válidos em cada circunstância de tempo e lugar. Isto permite à comunidade muçulmana uma grande agilidade e centrar os debates não em questões abstractas, mas na realidade da convivência necessária.

Isto gera no Islão o nascimento de muitas escolas ou correntes de Fiqh (às quais é dado o nome de “madzâhib”, plural de “madzhab”, caminho ou método, via pelo qual vamos), bem como grandes individualidades e atitudes pessoais independentes de qualquer escola. Esta diversidade de opiniões não vai em detrimento da unidade do Islão, mas, pelo contrário, é uma das suas características essenciais e um dos fundamentos que o definem. No Islão não existe nem pode existir uma “ortodoxia”; todas e cada uma dessas escolas são “opiniões”, e o muçulmano é convidado a aderir a alguma delas ou a subtrair-se, sempre a usar o Ijtihad e com uma atitude séria.

O Fiqh analisa a “exterioridade” do Islão, quer dizer, aborda o muçulmano segundo se relaciona “formalmente” com Allah (Deus), consigo próprio e com os outros. O versado em Fiqh (alfaqih) responde ao ‘como?’ do Islão. Ao ‘porquê?’ contesta outra arte ou ciência (o Sufismo ou Tassawuf), de que resultam também inumeráveis escolas, correntes e mestres. Fiqh e Sufismo não são antagónicos, como muitas vezes se quis ver, mas complementares.

O Fiqh é, portanto, um importante aspecto do Islão; o Fiqh permite a prática do Islão e a sua concretização como realidade comunitária. Podemos esquematizar e afirmar que dois são os seus temas fundamentais: a forma da transcendência (‘ibada) e a transacção (mu’amala).

Quanto ao primeiro, tem uma única fonte: a revelação. O Alcorão e a Sunnah detalham os pormenores, não havendo nestas questões praticamente divergências entre os muçulmanos. Isto é importante porque é a base da sua coesão.

Nos aspectos que concernem à vida quotidiana, às relações entre os homens e as comunidades, a fonte é essencialmente a mesma, mas, na sua concretização, a atitude do Mensageiro de Deus (s.a.w.) era diferente. Nestas questões é fundamental a consulta e a assembleia (Shura). E assim sabemos que, quando os companheiros do Mensageiro de Deus (s.a.w.) não concordavam com algumas opiniões, ele (s.a.w.) submetia-se à decisão da maioria, como aconteceu em Badr e Uhud. Quer dizer, nestes assuntos, o Alcorão é, na maioria das vezes, genérico, ensinando a necessidade da justiça, a solidariedade, a tolerância, etc., e propondo alguns modelos. A primeira comunidade muçulmana tornou real essas necessidades de uma determinada maneira (Sunnah ou tradição que deve ser respeitada). O Alcorão e o exemplo dessa comunidade servem de inspiração ao resto dos muçulmanos.

Existe, entre os alfaquis, consenso sobre alguns pontos necessários para tornar ágil e positivo o Fiqh; são os seguintes:

  1. Realismo, não procurar soluções a problemas não colocados. Diz o Alcorão: ” Ó vós que credes! Não pergunteis acerca de coisas que, se vos forem dadas a conhecer, perturbar-vos-iam’ (5:101). Sabemos que o Alcorão era revelado sempre que uma situação exigia uma resposta, e não ao contrário. Também sabemos, por Ahadith, que Muhammad (s.a.w.) não gostava de perder tempo discutindo sobre soluções a problemas inexistentes.
  2. Agilidade, reprovando o peso na argumentação. Segundo um hadith, o Mensageiro de Deus (s.a.w.) disse: “Allah detesta tanto dizer e dizer, e perguntar em demasia, e mal gastar os bens”. E também disse noutro hadith: “Allah estabeleceu para vós obrigações, não as deveis desatender; pôs-vos limites, não os deveis transgredir; vedou-vos coisas, não as deveis violentar; e calou quanto a certos assuntos por Misericórdia a vós e por tolerância, e não por esquecimento; não deveis perguntar por elas”.
  3. Evitar, no possível, a discrepância e sobretudo a que pode motivar a ruptura na comunidade. Diz o Alcorão: “E esta é a vossa comunidade, uma comunidade” (23:52), “Preservai-vos, unindo-vos com o laço de Allah, todos vós, e não vos dividais” (8:46). “Com os que dividem o dîn e criam grupos antagónicos… com esses nada tens a ver” (6:159). “Não sejais como os que se dividiram e disputaram entre eles depois de ter-lhes sido mostradas as provas certas; a esses corresponde um imenso castigo” (3:105).
  4. A referência sempre é a revelação (o Alcorão e a Sunnah). Diz o Alcorão: “Se divergis em algo, recorrei a Allah e ao Seu Mensageiro” (4:59), “Que Allah decida sobre o que não concordais” (42:10).
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Mulheres por trás do véu

Publicado na Revista Única de 19 de Junho de 2010

Azul. Profundamente azul. Daquele que voa. Rosa. Femininamente rosa. Daquele que choca. Negro. Lusitanamente negro. Daquele que oculta. Creme. Serenamente creme. Daquele que ora. São as cores dos véus das portuguesas que se tapam pelo Islão.

Convertidas ou já nascidas no seio desta religião, elas decidiram a certa altura que só mostrariam os seus corpos a quem quisessem. Acusadas pela sociedade ocidental de se terem convertido em símbolos da submissão, batalham diariamente para professar a sua fé. Escondem-se nos quartos, enfiam os lenços para o fundo das malas. Ousam-se nos transportes públicos. Sem um fio de cabelo à mostra. Mas dando a cara pela fé que abraçaram.

Karimah, a generosa

Se olhar pela janela, vejo o cemitério do Alto de São João. Mas se olhar para dentro daquela casa em Lisboa, descubro o sol de Marrocos. As paredes estão pintadas com cores quentes, o chão coberto com pequenos tapetes também coloridos. Lá reina a suave Karimah, que atende por Vera Soares quando quem chama são não-islâmicos.

O véu de Karimah é azul, fino e transparente. Por baixo, tem uma fita que disciplina qualquer fio de cabelo mais impertinente. No quarto, ao lado da cama e em baixo do espelho, tem um cesto de vime, cheio de véus e lenços, de várias cores. Compra-os em lojas de pronto-a-vestir, são feitos por uma amiga da mãe, são comprados às “irmãs” ou oferecidos e, neste caso, vieram de Marrocos, do Dubai e da Tunísia.

Varia tons e texturas. Só não prescinde daquilo que já não é um adereço, é parte dela. “O lenço é a minha roupa. Sem ele, sinto-me despida! Em relação à minha personalidade, fico mais confiante e, em relação ao meu comportamento, com maior responsabilidade. Porque, ao sair de lenço, não estou a dar a cara só por mim, mas por uma comunidade. Sei que tudo o que faço é controlado e, à pequena falha, as pessoas aproveitam logo. Não vão apontar o dedo e dizer ‘aquela mulher, isso ou aquilo’, mas sim ‘aquela gente, assim ou assado’…”, afirma.

Artista plástica, é ela que decora os cantinhos daquele ninho. Aos 30 anos, as mãos redondinhas afagam repetidamente a barriga de cinco meses de gravidez. Quando o bebé nascer, Karimah descobrirá o sexo da criança. Não tem pressa nem curiosidade. Deus já sabe, e é quanto basta. Mais importante será soprar-lhe a oração corânica, ainda na sala de partos. Assim manda a tradição de uma religião que permite o aborto até que a gravidez complete 120 dias. Depois não, que a alma já foi soprada para aquele novo corpo. Mas esta questão não se coloca para Karimah. O bebé é desejado por ela e pelo marido, um músico marroquino.

Naquele dia, em que conta baixinho a sua história, temperada pela timidez de quem se abre, Karimah explica que nasceu numa família católica não praticante. Foi baptizada e fez a primeira comunhão. Mas foi perdendo o gosto pelas idas à igreja, porque se cansou de ouvir “as conversas maledicentes” dos crentes da Foz do Arelho, onde vivia na altura. A sua ligação à transcendência passava por outros caminhos. “Tinha muito preconceito em usar a palavra Deus”, explica. Gostava de olhar o céu, ouvir os pássaros. Não precisava de um templo.

Passou por uma adolescência difícil, desintegrada. Preferia ficar em casa. “Sempre achei muito bonito o papel da mulher como alicerce da família”, sussurra, enquanto lembra um tempo em que era “completamente ignorante do Islão”. Veio para Lisboa com a ideia de abrir uma loja de artesanato. Não era fácil e, para juntar dinheiro, começou a trabalhar numa cooperativa cultural. Lavava a loiça, apanhava os copos sobre a mesa.

O lugar era frequentado por alguns muçulmanos que tocavam num grupo musical marroquino. Fez um amigo que lhe foi explicando os nós que compõem o tecido da fé islâmica. Dali foi um passo até começar a ter aulas de árabe na mesquita central de Lisboa. Deram-lhe um Alcorão em português. Foi-se deixando fascinar e começou a estudar: “Percebi que aquela religião ia ao encontro do que eu sou. Lia o Livro Sagrado e chorava, sem saber porquê.”

Este amigo disse-lhe, e ela nunca esqueceu: “Segue o Islão, não os muçulmanos.” Assim tem sido e há-de ser. Tanto que, depois de convertida, se casou com um dos músicos marroquinos. Não aquele que a apresentou ao Islão. “Sempre tive muita vontade de ir a Marrocos. Nunca fui até lá, mas Marrocos veio até mim, mas de maneira nenhuma me converti por causa dele!”, garante.

A conversão de Karimah aconteceu em Julho de 2008. O casamento veio mais tarde. “Pedi ao xeque: quero ser muçulmana! Arrepia-me ver a fé daquelas pessoas. Que força as move a rezar?”, pergunta, como quem ainda constrói a sua própria identidade religiosa. “Dias antes da conversão, já saía de véu e ia toda feliz pela rua”, diz Karimah, ainda a sorrir. Mas não foi fácil. Como no dia em que um homem entra no metro e, ao vê-la toda coberta, beija ostensivamente uma medalha de Fátima, a mãe do Deus cristão, que tem o mesmo nome da filha do Profeta. Ou como no dia em que, também no metro, uma mulher, já com alguma idade, lhe pergunta: “É católica?” Perante a resposta afirmativa de Karimah, explode em resposta: “Então, há-de morrer católica!”

“As mulheres não-muçulmanas são piores para as convertidas que se cobrem com o véu. Nós fazemos-lhes muita comichão. Acham que somos submissas, não conseguem compreender que optámos”, ri-se Karimah, com o à-vontade de quem já não se deixa magoar.

Hanifa, a monoteísta mais jovem

Não pode usar o seu nome cristão porque ainda não se assumiu perante a família. Aqui será apenas Hanifa Ruqayya, a monoteísta, filha do Profeta. Uma talibã para o xeque Munir, imã da mesquita central de Lisboa, que assim a trata num encontro de corredor. Perante o frisson que causa a palavra maldita entre os presentes, o xeque explica e tranquiliza: “Talibã é apenas estudante.” E ela é uma estudiosa.

Converteu-se em Dezembro de 2009. Cresceu Testemunha de Jeová, mas aos 18 anos começou a ser assaltada por dúvidas. “Sentia que havia incoerência entre as normas e os comportamentos dos crentes”, explica. A insatisfação cresceu: “Sentia que não podia pensar pela minha cabeça.” Foi o início de um processo solitário. Hanifa deixou de acreditar em religiões, embora “sempre tenha acreditado em Deus”. Começou a estudar todas as crenças. Foram três anos de duro questionamento. E então chegou ao Islão.

A certa altura, saiu de Portugal para se aperfeiçoar profissionalmente e, num país europeu que pede para não identificar, para que não a possam reconhecer, encontra uma vasta comunidade muçulmana. “Fui bem acolhida e fiquei muito impressionada com a modéstia das mulheres e com a religiosidade dos homens. Senti paz, nunca submissão, e aquela era uma imagem desejável para mim”, explica.

O YouTube abriu-lhe a porta do Islão. Entrou para um fórum da comunidade islâmica na Internet, contou a sua história e recebeu um convite para assistir às aulas do xeque Zabir. Um fórum de discussão do Islão, aberto a quem quiser participar, aos sábados à tarde, na mesquita central da capital.

Hanifa não se assume porque diz que, se o fizesse, “sofreria represálias”. Mas nada a impede de orar, à porta fechada, no quarto da casa dos pais, onde ainda vive aos 22 anos. O véu traz-lhe “segurança”. Sem ele, sente “falta de poder, vergonha”. “Sou eu que quero decidir que exposição dou à minha imagem”, explica. Afinal, a falta do véu é “um incómodo”, conclui. Na mesquita, sente-se em casa. Usa o véu. E questiona: “Uma freira usa o véu por opção religiosa, porque é que com as muçulmanas não pode ser o mesmo?”

“Ao usar o véu tenho descoberto que sou muito mais forte do que pensava ser. O conceito de hijab é mais do que um lenço na cabeça, é uma atitude. É um lembrete físico e uma grande ajuda para cultivar a modéstia e a paciência”, afirma. Os seus véus são escolhidos “de acordo com necessidades práticas de cada estação, de tecidos respiráveis, confortáveis”. Prefere as cores neutras, “como creme, preto ou branco, conjugados com toucas e fitas de cores diferentes”.

E Hanifa levanta a ponta da tradição que abraçou: “O hijab esconde a awrah feminina, sendo este termo o conceito islâmico de áreas privadas a serem protegidas dos olhares dos homens que não são da família e que compreendem todo o corpo, excepto mãos, cara e porventura pés.” Esta regra deve ser seguida – “sem imposição, porque na fé islâmica não há compulsão” – a partir da puberdade. “Ao não mostrar os seus atributos físicos em público e deixar à mostra apenas o necessário para actividades práticas, a mulher evidencia a sua recusa em obter reconhecimento através do seu sex-appeal, deixa mais explicitamente à vista os seus tributos pessoais, ideias e capacidades, porque o véu tapa o cabelo, mas não o cérebro”, defende.

Quando pensa no futuro, explica que gostava de ir viver para Inglaterra, país onde, afirma, não se sentem os olhares “de pena, gozo, curiosidade, raiva, medo ou crítica”, que, diz, ainda se sentem em Portugal. “O meu maior desejo é ter liberdade para praticar a minha religião”, afirma, convicta.

Maryam, apenas Maria

Nasceu em Vila Real, mas foi em Lisboa que se fez muçulmana. Aos 26 anos, a Maria ex-cristã, ex-surfista, licenciada em Engenharia do Ambiente, com os pés tatuados com algo que não me revela, escolheu seguir o Alcorão e tapar-se por ele. Abandonou o mar, adoptou o jejum de alimentos sólidos e líquidos durante o Ramadão. Estudou e vai partir em Agosto, por sete ou oito meses, para a Indonésia, onde pretende estudar a religião que abraçou e o idioma do país. Uma mulher de fé.

Foi há quatro anos que contactou com o Islão, através de um amigo que a apresentou à religião “de forma inspiradora”. Cozinhou aquela fé durante dois anos. Depois foi para Inglaterra e lá os horizontes abriram-se de forma irreversível. “Conheci uma comunidade com práticas estabelecidas, e o Islão surgiu-me como uma resposta”, explica. Não desembarcou em Lisboa usando o hijab, mas, antes do Ramadão de 2007, já o usava. “Quando se aceita uma religião, aceita-se as suas práticas”, prostra-se. Mas a adaptação vai sendo gradual. Todos os dias, são mais uns minutos que se vai cobrindo: “É um processo contínuo, que não acaba.”

A mãe era catequista. Custou-lhe ver a filha partir para outra doutrina. Mas soube aceitar. “Tenho a sorte de ter bons pais, nunca tive de esconder a minha fé da família”, afirma Maria, tranquila, como só ela parece conseguir ser. Já saiu de véu, acompanhada pelos pais. Diz que não se sente nem discriminada nem objecto de atenção especial. No início, os olhares incomodavam-na mais. O certo é que “cada vez faz mais sentido usar o véu”. Diz ainda que “as pessoas têm de ser educadas. Esta nunca será uma situação normal, porque não somos tantas, mas há que banalizar o uso do hijab”.

Para Maryam, o véu é sinónimo de modéstia e da necessidade de dizer: “Sou muçulmana e este é o sinal.” Diz que sempre lhe fez confusão “como alguém se sente na liberdade de invadir a liberdade dos outros com o olhar.” Rejeita qualquer sugestão de que o uso do lenço implique alguma submissão da sua parte: “Vejo a religião de forma libertadora e, se a mulher é obrigada e não se sente bem, mais vale não usar.” Sabe que essa é uma “jihad pessoal”, a sua luta interna: “Está sempre presente.”

Não se maquilha, não usa verniz – cria uma capa sobre as unhas, o que impediria a sua limpeza total, obrigatória para as orações diárias e para poder tocar no Livro Sagrado -, procura a modéstia e a discrição. Só tem três ou quatro véus. Não os muda todos os dias, trouxe-os todos de Inglaterra. “Para quem crê, o véu é a nossa casa. Somos o Islão”, resume. E não aceita proibições: “Estamos a falar de liberdade religiosa, algo tão básico como os direitos humanos.”

Aminah, a confiável e segura

Magra e muito alta, inquieta, será apenas Aminah, mais uma das que não se sente ainda confortável para assumir a sua conversão perante a família. Foi sozinha à mesquita pela primeira vez há três anos. Ninguém a levou. Nenhum marido impositor, nenhum familiar opressor. Foi em busca da libertação de uma fé protestante que não a preenchia.

“Queria algo que realmente me levasse à salvação”, afirma, com as mãos inquietas no colo. Toda coberta de negro, com o véu muito bem atado sob o queixo. Diz que sempre foi recatada, não se revia nos comportamentos dos jovens com a sua idade, 23 anos. Começou por fazer amizade com muçulmanos na Internet, através das redes sociais: “Sempre achei que havia algo de especial no Islão.”

Os conceitos de decência e modéstia atraíam-na, porque, acredita, “para adorar Deus, a pessoa deve estar despojada de vaidade”. E o véu foi a “parte fácil” da conversão. Mais difícil foi separar-se dos amigos da sua crença anterior: “Éramos como uma família.”

Aminah só usa o hijab na mesquita. “Não estou preparada para ter mais conflitos”, afirma. Afectuosa, abraça e beija as “irmãs” carinhosamente quando as encontra. E diz que, quando se cobre, sente-se “protegida, em paz”. Porque, garante, “ama o Islão de todo o coração”.

Gostava de casar com um convertido e sonha ir viver para Inglaterra. É que, embora saiba que “não é por usar o véu que uma pessoa deixa de ser ocidental”, gostaria de viver num país que não se assustasse tanto com a comunidade muçulmana. “A Europa é tão democrática que devia aceitar o Islão como uma religião – e não como uma cultura invasora”, defende. Talvez por isso seja contra o uso da burqua ou do niqab nos países ocidentais: “Tem de haver equilíbrio, e o isolamento excessivo dá má imagem da religião. Não posso falar à sociedade de dentro de uma caixa.”

Hanifa, a monoteísta mais velha

Não acredita no acaso. Para tudo haverá uma razão de ser, mesmo que incompreensível à partida. Tem 43 anos e sente que descobriu o seu caminho. Esta Hanifa é Cristina Almeida de baptismo. Solteira, mãe de uma rapariga de 21 anos que, uma vez por outra, já a acompanha à mesquita. Nasceu católica e foi Testemunha de Jeová. Hoje abraçou a fé islâmica e diz que já não muda.

As viagens a Marrocos e ao Egipto fazem parte deste percurso de revelação. A chamada para a oração marcou-a. “Mudou algo quando ouvi aquele som”, afirma. Sente o véu como uma escolha íntima da mulher. Explica que “ser muçulmano significa submeter-se à vontade de Deus, aceitar o Bem e o Mal que Ele determina e saber que Ele quer o Bem, mesmo que na altura pareça ser o Mal”. Começou a estudar o Islão durante o Ramadão de 2009. Achou o Alcorão “complicado” e começou a estudar a língua árabe. A 30 de Outubro do ano passado tinha-se convertido. “Fiz a minha escolha”, afirma.

Só usa o véu para ir à mesquita: “Na nossa cultura, é complicado.” Está desempregada. É técnica de cartografia e sabe que “usar o hijab era meio caminho para um despedimento”. Por isso, aguarda. Mas diz que tem “muita vontade de usar o lenço na rua”. A família sabe da sua conversão, mas tem a “certeza de que, se usasse o véu com eles, eles se ririam”. E conclui de forma simples: “Não tenho estofo para usar o véu a tempo inteiro.”

Reconhece que a sua vontade acaba por resultar numa contradição. Quer usar o véu para ser discreta, mas ao fazê-lo num país ocidental sabe que chama ainda mais atenção sobre si. Nunca se sentiu feia com o hijab, mas diz que os homens ocidentais não olham para uma mulher coberta. Isso, garante, não a incomoda. Dividida entre a sua vontade e a sua circunstância, Hanifa chora quando confrontada com a possibilidade de um dia ver o uso do véu proibido. “Se tal acontecesse, sairia de Portugal. Estariam a privar-me da minha liberdade.” Isto porque diz ter chegado ao seu “porto de abrigo”. “E daqui já não saio”, conclui.

Bibi Fátima, a que se abstém do mal

Serena e determinada, não fala à toa. Tem os seus limites. Evita os excessos de linguagem e de revelações. É especial: foi a única muçulmana de nascença que aceitou falar sobre o uso do hijab. Especial será também, em breve, a primeira licenciada portuguesa que usa o véu em permanência. Não abre mão do que a identifica, mas recusa a exposição excessiva. É Bibi, nome que sinaliza a sua origem indiana, mas é, sobretudo, Fátima, a que leva o nome da filha de Maomé.

Nasceu em Moçambique há 27 anos e foi há dez que decidiu cobrir os cabelos. A mãe, também muçulmana, não o faz como ela. Cumpre apenas a tradição nas cerimónias, nos locais sagrados e durante as orações. Mas não usa o véu diariamente. Este é o caminho de Bibi Fátima.

“Comecei a sentir que fazia sentido. Comecei a usá-lo no Ramadão e, depois, já não o consegui tirar”, recorda. Diz que esta decisão faz parte da liberdade individual. E afirma, olhar certeiro no interlocutor: “Sou a prova de que não somos oprimidas.” Quer ser conhecida pelas suas “capacidades intelectuais, pela moralidade e não pelo aspecto físico”. Ela que provavelmente não teria qualquer problema em ser aceite pela parte estética de uma mulher. Tem olhos tão especiais quanto a sua história, que vai contando de forma parcimoniosa. Há pormenores que prefere deixar para trás.

Gosta de cores escuras, véus opacos. Prefere os negros, azuis-escuros, castanhos ou grenás. Com uma fita grossa por baixo. Esconde os cabelos longos. Quem já viu diz que são bonitos os cabelos de Bibi Fátima. Estuda no Instituto Superior de Educação e Ciências, onde diz que nunca foi discriminada. Nem por colegas nem por professores. Nem pelas crianças do primeiro ano no estágio, que frequenta actualmente no Colégio Paula Frassinetti. Também já estagiou, com crianças dos 6 aos 10 anos, no ensino público e, garante, nunca foi molestada. E, avisa, não irá trabalhar para um local onde não possa usar o seu lenço: “Vai contra os meus princípios.”

“Sou muçulmana e sou portuguesa e estou apenas a exteriorizar a minha devoção”, afirma. Bibi Fátima não acredita na separação entre vida pessoal e profissional. É por isso que se realiza a dar aulas, mas não abre mão de querer constituir a sua família, seguindo os preceitos do Islão. Às sete da manhã, quando esta futura professora do Ensino Básico sai de casa, cobre os cabelos e só voltará a soltá-los à noite, quando voltar.

São as mulheres do Islão que falam português e vivem em Portugal. São jovens, estudam, trabalham. São devotas e fizeram a sua opção. Tapam-se e é assim que gostam de viver, garantem. Antes de se deitarem, rezam: “Deus! Não há mais divindade além d’Ele, Vivente, Subsistente, a Quem jamais alcança a inactividade ou o sono; d’Ele é quanto existe nos céus e na terra. Quem poderá interceder junto d’Ele, sem a Sua anuência? Ele conhece tanto o passado como o futuro. E eles (humanos) nada conhecem da Sua ciência senão o que Ele permite. O seu trono abrange os céus e a terra, cuja preservação não O abate, porque é o Ingente, o Altíssimo” (Alcorão, 2:255).

Publicado em

Novo Ano Hegiriano 1432

Al Furqán

A Hégira (ár. hijra). É a Emigração do Profeta Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos estejam com ele) do território de Meca (ár. Makkah) para a cidade de Yatribe, que, mais tarde, veio a chamar-se Medina (ár. Madinah)

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

A Hégira (ár. hijra). É a Emigração do Profeta Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos estejam com ele) do território de Meca (ár. Makkah) para a cidade de Yatribe, que, mais tarde, veio a chamar-se Medina (ár. Madinah)

Neste capítulo, relataremos as condições que levaram o Profeta a abandonar a Meca e a emigrar para Medina, um prelúdio ao triunfo do Islão em toda a Península Arábica.

Os muçulmanos foram perseguidos pelos pagãos coraixitas que atacaram, mais concretamente, as pessoas humildes, aquelas que não estavam abrangidas por nenhuma protecção por parte de um clã. A vida tornou-se cada vez mais difícil para todos os crentes que, por ordem do Profeta, tinham emigrado para Medina, cujo nome era, nessa época, Yathrib. É o ponto de partida da cronologia dos Muçulmanos, fundada na emigração de Muhammad (s.a.w.), de Meca a Medina, no ano de 622, da era Cristã.

Os muçulmanos abandonaram clandestinamente a Meca e fizeram- -no, em pequenos grupos, para passarem despercebidos e escaparem à vigilância dos pagãos que não hesitaram em recorrer a métodos ignominiosos para desencorajar os partidários do êxodo; foi o que sucedeu, entre outros, a Hachim-ibn-As: ‘Ao saberem que era muçulmano e que pretendia exilar-se, os Coraixitas prenderam-no’.

Em Meca não havia nenhuma prisão. A primeira prisão árabe foi construída em Kufah muito anos após a morte do Profeta Muhammad (s.a.w.), pelo seu genro ‘Ali. Nessa época, aqueles que eram presos, eram – como o abissínio Bilal – agrilhoados e abandonados, nus, na areia, ou então crucificados sobre um camelo e atados a uma caravana, ou então atirados para o fundo de um poço.

‘Hachim é despojado das suas vestes, acorrentado e trancado numa casa sem telhado para que a espada do sol o queime e golpeie a sua carne até aos ossos’.

No espírito dos Coraixitas germinou a ideia de que o único método de aniquilar o Islão consistiria em organizar o assassinato do Profeta. Para esse efeito, os chefes das dez famílias mais importantes que representavam a Meca, reuniram-se para elaborar um plano.

Foram consideradas três opções: a detenção, a expulsão da cidade e o assassinato. ‘E quando os incrédulos se valem de estratagemas contra ti, para te subjugar, para te matar ou para te expulsar. E se recorrem a estratagemas, Deus também usa estratagemas e Deus é o mais forte no que diz respeito a estratagemas’ (Alcorão, 8:30).

As duas primeiras soluções foram rejeitadas. No primeiro caso, os defensores do Profeta seriam capazes de fazer uso da força para o libertarem. O segundo caso apresentava um grave perigo para a segurança dos pagãos porque, longe da Meca, o Profeta poderia erguer um exército e atacá-los. Foi por estas razões que o projecto do assassinato foi o seleccionado.

‘Para a sociedade coraixita, o assassinato em si não era, de modo algum, um acto grave, do ponto de vista moral, religioso ou humano. A vida de um ser humano era exclusivamente um bem material. Se um ser humano fosse suprimido, podia ser substituído por outro, ou por camelos, por ovelhas, por dinheiro. O pecado do assassinato ainda não era conhecido. Neste sentido, o plano do assassinato de Muhammad (s.a.w.) não apresentava nenhuma desvantagem. A sua vida pertencia ao clã Abd-al-Mouttalib.

‘O chefe desse clã era Abu-Lahab. Excluiu Muhammad do clã devido a uma falta grave contra os antepassados. Por conseguinte, Abu-Lahab não iria pedir nenhuma indemnização aos assassinos pela vida de Muhammad. Pelo contrário, iria participar no assassinato do sobrinho.

Vendo o problema sob este prisma, a morte de Muhammad (s.a.w.) não representaria ne-nhum inconveniente. Se a família não pedir nenhuma indemnização em caso de assassinato, é porque a vida de Muhammad não tem nenhum valor. Não custa nada’.

Mas os Coraixitas eram pessoas prudentes. Visto que Abu-Lahab não era eterno, um outro chefe do clã poderia, mais tarde, decidir vingar a afronta. ‘Para fugir de uma eventual contestação futura, uma contestação que poderia surgir daí a dez anos, daí a cinquenta anos, e que poderia suscitar dissabores para os descendentes dos assassinos, decidiu-se que a equipa de assassinos seria composta por representantes de todas as famílias coraixitas, bem como por representantes das tribos associadas e de todas as categorias de clientes e de aliados.

Desta forma, o número de assassinos, que deveriam, eventualmente, justificar-se, seria bastante elevado para desencorajar qualquer reclamação. Era preciso que o assassinato de Muhammad fosse, de certa forma, anónimo. Este assassinato devia ser levado a cabo como um linchamento.

Tabari fornece-nos um relato bastante deta-lhado da reunião do conselho que decidiu a eliminação física do Profeta: ‘Walîd, filho de Moghaira; Sofyân, filho de Omayya; Abou-Djahl, filho de Hischâm, e Abou-Sofyân, filho de ‘Harb, reuniram-se em segredo para deliberar de que maneira levariam Muhammad à morte, o qual, diziam eles, insulta-nos, a nós e aos nossos convidados, e pretende impedir-nos que adoremos os ídolos.

Walîd, filho de Moghaira, disse: Fechemo-lo numa casa e deixemo-lo morrer de forme e de sede. Abou-Djahl disse: Isso não é uma boa decisão, porque Muhammad tem familiares em Meca que partirão à sua procura e que, se o encontrarem, suspeitar-nos-ão; então, haverá sangue derramado entre nós e os Banî-Hâschim. Abou-Sofyân, filho de ‘Harb, disse: Temos de o colocar sobre uma camela, amarrar com força mãos e pés, e deixar essa camela correr pelo deserto, pois esta levá-lo-á até uma tribo estrangeira, onde terá os mesmos discursos, e estes matá-lo-ão.

Wâlid, filho de Moghaira, tomou a palavra e disse: Essa decisão não é conveniente, porque Muhammad é um homem cuja palavra é persuasiva, afável e agradável; se se deparar com as tribos árabes, seduzirá as pessoas, as quais concertar-se-ão e virão atacar-nos. Isso não seria prudente. Seguidamente, foi solicitada a opinião de Abou-Djhal. Este disse: Penso que devemos escolher quarenta homens, oriundos de todas as tribos, homens valentes, de trinta a quarenta anos, que deveremos enviar até a porta de Muhammad. Vigiá-lo-ão e, quando sair, à noite, para rezar e para fazer as suas rondas ao redor do templo, saltarão para cima dele com as suas espadas e matá-lo-ão. Quando os Bani-Hâs-chim ficarem a saber da sua morte, diremos que, como foi assassinado por quarenta homens e que não podemos matar quarenta pessoas devido apenas a uma, consentiremos a pagar o preço do sangue, tal como estes o determinarão. Seguidamente, dividiremos essa quantia por nós todos, a qual pagaremos. Desta forma, ficaremos livres de qualquer dificuldade devido a seu assassinato.

O Profeta (s.a.w.) foi informado do conluio pelo anjo Gabriel. Dirigiu-se imediatamente até a casa de Abu-Bakr (r.a.) e informou-o que um grupo de assassinos estava a preparar-se para atentar contra a sua vida ao nascer do sol.

O dinâmico Abu-Bakr (r.a.) não perdeu tempo. Organizou rapidamente a sua partida para Medina. Para esse efeito, comprou duas camelas que escondeu fora da cidade, prontas a lançar-se para o deserto no momento certo. Levou então o Profeta até uma gruta do monte de Thaur, localizada a cerca de uma hora, a pé, da Meca.

Entretanto, solicitou-se a ‘Ali (r.a.) que se instalasse na casa do Profeta (s.a.w.) e que se mantivesse de costas para a janela para que o inimigo acreditasse que o Enviado de Deus ainda se encontrava aí. ‘Ali foi também instruído no sentido de dormir na cama do Profeta ao anoitecer.

‘A noite já ia avançada quando, diz Tabari, os quarenta homens vieram colocar-se nas imediações da casa do Profeta, cada um num recanto, com a intenção de matar Muhammad (s.a.w.), quando este saísse, de manhã, para a oração. Mas, por volta da meia-noite, disseram entre eles: vá, vamos entrar na casa dele para o matar porque é possível que, já de dia, os Bani-Hâschim tenham sido informados e que, ao verem-nos, percebam que pretendemos matar Muhammad. Precipitaram-se então, todos juntos, na casa do Profeta. Ao depararem-se apenas com ‘Ali, que estava deitado, ficaram desapontados’.

Ao amanhecer, quando os Coraixitas perceberam que tinham sido iludidos, lançaram- -se atrás do Profeta e de Abu-Bakr na esperança de os capturar. Durante a busca, que durou três dias consecutivos, os dois fugitivos permaneceram escondidos no seu refúgio.

Na verdade, os Coraixitas, não têm qualquer hipótese de encontrar o Profeta, como veremos.

Mobilizaram centenas de homens e centenas de camelos velozes para explorar os caminhos do deserto, as grutas e os desfiladeiros, confiando apenas no facto de serem numerosos, na sua força e na sua habilidade. Ignoraram que tinham, também, de lutar contra Deus. Não crêem em Deus. Mas Deus – mais uma vez – salvou o Profeta (s.a.w.).

Quando a primeira equipa de perseguidores chegou à gruta, o Senhor enviou algumas aranhas que teceram, à pressa, uma teia à entrada. Ao verem a teia de aranha intacta, os homens que procuravam o Profeta continuaram o seu caminho, persuadidos que há já muito tempo que ninguém entrava naquela gruta.

A segunda equipa a chegar pretendia entrar na caverna, mas o Senhor enviou um pássaro que fez o seu ninho e pôs ovos mesmo à entrada. E, mais uma vez, os perseguidores prosseguem o seu caminho. À terceira vez, são pedras que rolam e tapam a entrada.

Quando acorda, Abu Bakr (r.a.) está deprimido. O cansaço, a fuga, a mordida da cobra, a fome, tudo pesava. Muhammad (s.a.w.) encoraja o seu companheiro. Diz-lhe para não ficar deprimido. ‘Não são dois, são três, visto que Deus está com eles’. O Alcorão diz: ‘Se não o socorrerdes (o Profeta), Deus o socorrerá, como fez quando os incrédulos o desterraram. Quando estava na caverna com um companheiro, disse-lhe: Não te aflijas, porque Deus está connosco! Deus infundiu nele o Seu sossego, confortou-o com tropas celestiais que não poderíeis ver, rebaixando ao mínimo a palavra dos incrédulos, enaltecendo ao máximo a palavra de Deus, porque Deus é Poderoso, Prudente’. (9:40).

Confiantes que a vigilância dos pagãos tinha afrouxado, o Profeta e Abu-Bar abandonaram a gruta e dirigiram-se para Medina, não sem passarem por imensas dificuldades e terem escapado a alguns seguidores atraídos pela recompensa avultada, em troca da sua captura, prometida pelos Coraixitas.

A chegada a Medina, após uma dezena de dias a caminharem penosamente sob um calor tórrido, ocorreu no dia 24 de Setembro de 622. É a partir desta data que começa o calendário muçulmano. ‘Poderíamos, à primeira vista, ficar surpreendidos com esta escolha mas, porém, nenhum outro acontecimento, na existência do Profeta, teve uma influência tão decisiva para o sucesso mundial da sua obra.

‘Se tivesse permanecido em Meca, mesmo admitindo o seu triunfo definitivo, o Islão teria ficado por aqui com ele. Os Árabes de toda a Arábia, temendo o poder que o Islão teria dado aos Coraixitas apenas, ter-se-iam aliado para impedi-lo de sair da Cidade Sagrada. Ao passo que, tendo em primeiro lugar, apesar de todos os rancores, estabelecido firmemente as raízes da sua religião na sua cidade natal, foi fácil o Profeta entrar aí após ter levado os outros Árabes a aderirem à sua causa’, escreve Étienne Dinet.

Medina foi o ponto de partida para uma nova era para o Islão. ‘Uma nova era acabara, de facto, por iniciar-se’, diz Emile Dermenghen. Uma nova comunidade, além das organizações tribais tradicionais da Arábia, acabara de nascer.

A Hégira é percebida por vários ocidentais como uma fuga. Não é o caso. Trata-se, melhor dizendo, de um ‘exílio voluntário’. Se Deus o quisesse, teria ordenado ao Profeta e aos seus companheiros que permanecessem em Meca e tê-los-ia fortificado para superar a hostilidade, as violências e as afrontas do inimigo e teria feito com que o Islão triunfasse noutras condições.

Deus decidiu que as coisas ocorressem de forma diferente e a Hégira adquire um signi-ficado completamente distinto. E, o Alcorão é claro: ‘a Hégira é um acto do Islão, ou seja, de abandono em Deus, de confiança n’Ele’. Assim, a ordem de expatriação veio de Deus como o demonstra, de facto, este relato de Aisha (r.a.), esposa do Profeta (s.a.w.): ‘O Profeta chegou à nossa casa a uma hora tardia. (Meu pai) Abu Bakr percebeu que a razão desta visita se prendia com um assunto sério. O Profeta (s.a.w.), após ter-se sentado, disse então: Deus autoriza-me a abandonar a Meca e a emigrar também’.