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Jejum: o melhor remédio

Coord. por Yiossuf Adamgy
in Revista Al Furqán, nº. 164, de Julho/agosto.2008

A natureza especial do jejum de Ramadão é a de gerar um autocontrolo e sacrifício.

Bismillahir Rahmanir Rahim = Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso!

‘Cada acto do filho de Adão é para ele mesmo,
Excepto o jejum, que é feito para mim;
E Eu próprio darei
A maior recompensa que Eu criei.
Allah, O Majestoso e Honorável.’ – (Hadice)

O jejum é a prática mais antiga de todas as formas de cura natural. Os métodos empregues vão desde suspender um único alimento durante um breve período até a abstinência total em todos os alimentos e líquidos, por longos períodos.

Para muitas pessoas que nunca jejuaram, a ideia parece estranha e alguns, inclusive, consideram a prática perigosa. Estas concepções não são completamente infundadas, uma vez que, quando in-correctamente aplicado, o jejum pode resultar em sérios transtornos do corpo e, inclusive, a morte.

Jejuar é realmente o epítome de um tipo de vida natural e os benefícios não terminam nas correcções feitas ao corpo e no restabelecimento da saú-de. Antes de iniciar qualquer tipo de jejum, é importante entender a razão do jejum. A maioria dos ocidentais que jejuam fazem-no para limpar o corpo e melhorar a saúde. Contudo, estas são as intenções incorrectas para iniciar o jejum.

Os Sufis têm, provavelmente, mais experiências que qualquer outro grupo de pessoas na realização de jejuns. São conhecidas legiões de Shaykhs Sufis e discípulos que enfrentam jejuns de várias durações, frequentemente com resultados milagrosos.

Como tem sido notado, os Sufis não têm em consideração nenhum procedimento físico relacio-nado de qualquer forma com a saúde, excepto obter o prazer de Deus, o Altíssimo. Deus já nos havia informado no Sagrado Alcorão:

‘Ó crentes!; Está-vos prescrito o jejum, tal co-mo foi prescrito aos vossos antepassados, para que temais a Deus.’ (2:183)

Toda a criação, excepto o homem, segue as ordens de Deus, derivadas das leis naturais. Os animais não devem ser limitados no excesso de comida e no abuso de dietas. Mas, para os homens, o amor para com a vida material e com as tentações dos desejos físicos são responsáveis pela grande maioria das doenças. Então, Deus, o Benevolente, previu um guia para controlar e anular estes desejos através do mecanismo do jejum.

O Alcorão declara que o homem não pode alcançar a salvação até que os seus desejos mais baixos sejam refreados.

‘Ao contrário, quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado a sua alma da luxúria, terá o Paraíso por abrigo.’ (79:40-41).

O exercício de se abster de coisas normalmente permitidas e legais na vida, apenas para agradar a Deus, fortalece a moralidade e o autocontrolo e aprofunda a consciência de Deus.

O primeiro jejum que se deve iniciar é aquele normalmente designado, no Islão, por Ramadão. O Ramadão é um dos meses do calendário Islâmico – o mês durante o qual o Alcorão, tal como a Tora, os Salmos de David e o Novo Testamento, foram enviados por Deus (ár. Allah S.T.). A excelência de jejuar é dada a conhecer através destas duas declarações do Profeta (Que a Paz e a Bênção de Deus estejam com ele):

‘Através daquele em cujas mãos está a minha vida, a fragrância da boca de um homem a jejuar é mais apreciada por Deus do que a fragrância do almíscar’.’O Paraíso tem uma porta chamada Rayyan. Ninguém, excepto quem tiver jejuado, en-trará por essa porta’.

Deus prometeu uma visão d’Ele próprio como recompensa pelo jejum. A palavra Ramadão não significa ‘jejum’. O termo técnico de jejum é siyam, cuja raiz significa ‘estar em descanso’. Através da abstinência da comida, bebida e relações sexuais, estas funções do corpo estão em descanso e isto será uma oportunidade de serem revigoradas.

O jejum geral durante o mês do Ramadão é desfrutado por toda a humanidade, ainda que os muçulmanos sejam aqueles a fazê-lo. Muitas pessoas que têm um contacto próximo com os Muçul-manos também se comprometeram a esta forma de jejum e recebem alguns dos seus benefícios. No entanto, existem muitas indicações que devem ser postas em prática para que um qualquer jejum seja considerado válido.

Primeiro, deve-se expressar claramente a intenção de jejuar. Uma vez que Deus disse que uma pessoa será julgada de acordo com as suas intenções, ninguém poderá obter os benefícios das boas acções que apenas ocorrem de forma acidental. Por exemplo, se alguém se vê privado da comida por estar perdido na selva, isto não poderá constituir um jejum formal, porque esse alguém teria comido se a oportunidade tivesse surgido.

Esta declaração formal em realizar uma acção é chamada niyyat (intenção) É preferível declará-la em árabe, mas é considerada válida em qualquer idioma. Apenas deverá ser expresso: ‘Tenho a intenção de oferecer o jejum deste dia apenas para agradar a Deus.’

Tendo entrado neste voto formal com Deus, tendo esta promessa sido feita, se alguém rompe, de forma intencional, o jejum durante o período de proibição, poderá compensar o jejum ao realizar um ou mais dias do mesmo.

Geralmente, para realizar um dia de jejum, deverão estar reunidas as seguintes condições:

  1. O Niyyat, ou a intenção de jejuar, poderá ser feito em voz alta ou silenciosamente.
  2. O período de jejum deverá estender-se desde o momento que antecede o amanhecer (fajr) até apenas logo após o pôr de sol (maghrib).
  3. Durante o período de jejum, é necessária a abstinência de: comida, bebida (incluindo água), fumar ou do consumo de tabaco, relações sexuais e qualquer outra forma de negatividade, conversas desnecessárias, discussões, maledicências ou comportamentos afins.
  4. Não se deverá expelir sémen de forma deli-berada nem vomitar de forma deliberada.
  5. As mulheres grávidas ou em período de amamentação, os gravemente doentes, os idosos e os doentes mentais estão desobrigados de jejuar, mas em alguns casos poderão estar em posição de recuperar os dias perdidos. A mulher não jejua nos dias de menstruação, mas deverá recuperá-los. Quando terminar o seu período, deverá retomar o jejum. As crianças que não atingiram a idade de puberdade, estão, de forma geral, desobrigados de jejuar.
  6. O jejum é quebrado logo ao anoitecer com uma tâmara ou com um copo de água, seguido de uma refeição ligeira. Existem várias dezenas de casos especiais que se aplicam ao homem ou à mulher que jejuam e deverá ter, para tal, a orientação de um erudito muçulmano praticante para resolver qualquer questão.

A natureza específica do jejum é a geração de autocontrolo e de sacrifício. O jejum ocorre principalmente na mente e, por isso, está oculto da vis-ta dos homens, apenas é visível aos olhos de Deus; é uma acção oculta. Desde a meia-noite até o início do jejum, era costume do Profeta (p.e.c.e.) fazer uma refeição chamada suhur. Esta pode ser constituída por qualquer alimento permitido. O jejum rompe-se, habitualmente, com a ingestão de algumas tâmaras, seguidas de água, que deve ser ingerida antes de oferecer a oração do pôr de sol.

A acrescentar a todas estas indicações, a pessoa deverá comprometer-se o mais possível a ler ou recitar o Sagrado Alcorão, bem como a distribuir a maior caridade possível que cada pessoa possa.

Estas são as regras mínimas do jejum. O jejum das pessoas comuns faz-se com o objectivo do próprio se refrear de comer, beber e das paixões carnais. Uma forma mais elevada de jejuar consiste (em acréscimo com o anterior) em refrear-se das más acções das mãos, dos pés, dos olhos e de outros membros ou órgãos do corpo.

Os santos realizam o melhor tipo de jejum, o jejum da mente. Por outras palavras, estas pessoas não pensam noutra coisa a não ser em Deus. Consideram que a sua existência neste mundo é apenas uma semente que cresce para o outro mundo. Este jejum também inclui refrear os olhos de qualquer visão de maldade, colocar-se à parte de conversas banais, da falsidade, de calúnias, da obscenidade e da hipocrisia.

Em síntese, aquele que jejua mantém-se em silêncio e, quando fala, é apenas para recordar Deus. Este jejum é tão restrito que nem sequer se podem ouvir conversas proibidas que chegam dos outros. Deverá, tanto quanto possível, distanciar-se da presença da pessoa que viola estas proibições.

Que o Ramadan seja cheio de espiritualidade para todos.

Wassalam.

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