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Abençoado Mês de Ramadão

A maior recompensa, o grau mais elevado neste nosso mundo inferior, é a fé à qual devemos a ajuda e o favor da bondade de Deus (ár. Allah). A nós, foi-nos dada a honra de termos sido feitos Seus servos e a Sua Comunidade bem-amada, e de termos recebido um lugar no Alcorão.

Temos agora mais uma bênção: Uma vez a cada ano, chega o mês do Ramadão, no qual “o começo é a misericórdia, o meio é o perdão, e o final é a salvação do Fogo“.

Sempre que o Ramadão chegar, na nossa vida, devemos apreciá-lo! Ele passa muito rapidamente. A própria vida passa num ápice, assim como acontece com o tempo da oração. Não devemos dizer: “O Ramadão voltará outra vez”, porque um Ramadão que tenha passado não voltará novamente. O próximo Ramadão, se voltar, será um Ramadão diferente. É possível que o Ramadão continue a chegar até à Ressurreição, mas este Ramadão pode ser, para alguns de nós, o último.

Não se deve dizer: “eu perdi esta oração, mas outra virá”. Quem sabe se esta oração não é a tua última.

Não se deve dizer: “Quando me aposentar e começar a ganhar a minha pensão, então me dedicarei à adoração!” Quem sabe se não farás a tua última viagem antes de chegar a receber a tua pensão… Vestir-te-ão uma mortalha, de modo a preparar-te para a acção ime-diata. Lamenta-te, copiosamente, pelos teus pecados. Mantém a vigilância pelo teu Senhor, recitando o Alcorão. Rindo, homenageia a Sua presença. Reflecte na tua própria natureza transitória, recordando que Ele é eterno… Reflecte nas tuas próprias debilidades, recordando-te que Ele é o Todo-Poderoso…

Que coisa bela encontrar o Senhor! Como poderei fazer chegar-te o Seu sabor? Pode falar-se aos cegos sobre a cor, aos surdos sobre a música, aos impotentes sobre o deleite da relação sexual, mas é possível realmente fazer com que eles compreendam essas experiências? Se o cego não pode ver, como pode ele descobrir a cor através das palavras? Como se pode mostrar a um olho que não vê as flores multicolores, as árvores, o sol, o céu, a dança dos peixes nos riachos? Ao que não tem o sentido do olfacto, como lhe poderemos descrever o cheiro da rosa, a fragrância do jacinto, ou o perfume do junquilho? Como poderemos contar ao surdo acerca do chilrear dos pássaros, do murmúrio do fluir das águas, ou das cadências do Nobre Alcorão e as da chamada à Oração?

Se passares algum tempo a sós com o Senhor, um dia levantar-se-á o véu dos teus olhos e verás as cores. Adquirirás o sentido do olfacto e detectarás a fragrância das rosas, dos jacintos, dos junquilhos e dos narcisos. A tua surdez irá desaparecer e ouvirás a constante lembrança de Deus. Os ouvidos do teu coração abrir-se-ão e deleitar-te-ás com a recitação do Alcorão. Sob os cantos dos rouxinóis e do murmúrio das águas, ouvirás o som da afirmação da Unidade Divina. São estas as dádivas que serás capaz de obter neste mundo e que um dia terminarão. Quanto às dádivas que obterás no Além, “in cha Allah”, não têm fim, são eternas…

Quando o Ramadão chega, não consegues ouvir aquela Voz chamando todas as noites: “Ninguém Nos quer, ninguém Nos ama? Nós os amaríamos tam-bém!“. Este apelo faz-se em todos os entardeceres e em todas as noites. Esta é outra dádiva divina característica do nobre mês do Ramadão.

Observa a conversa de que desfrutou o Profeta Moisés (a.s.). Moisés, “o Kalimullah”, aquele que falava com Allah, quando costumava ir ao Monte Sinai (tu tens o teu próprio “Monte Sinai” no momento de romper o jejum, quando podes suster mil e uma conversas). Quando Moisés dizia: “Ó meu Senhor, Tu falas comigo, Tu diriges-Te a mim. Não me mostrarás a beleza do Teu semblante? Deixa-me ver a Tua beleza!” Recebeu a resposta do Senhor: Lan taraani: “Não poderás ver-Me”. [Alcorão, 7:143].

“Moisés! Como poderás ver a Minha beleza, quando há setenta mil cortinas entre nós? Serias incapaz de Me ver. Mas na altura da Ressurreição dar-te-ei um mês, como um presente à Comunidade do meu bem-amado Muhammad. Esse mês chamar-se-á Ramadan. E a Comunidade de Muhammad deverá jejuar durante todo esse mês, e Eu Me manifestarei de forma tal na altura de romper o jejum, que não haverá absolutamente nenhum véu entre mim e a Comunidade de Muhammad, enquanto agora, entre Mim e tu, há setenta mil véus”.

Numa Tradição Sagrada, o Altíssimo disse: “O jejum é para Mim, e Eu sou quem o recompensa“.

A recompensa do jejum é a visão da Beleza Divina. O emblema do Ramadão é o perdão. O jejum deverá fazer-se com sinceridade e com afecto ardente. O nosso abençoado Mestre Muhammad (s.a.w.) disse: “Se a minha Comunidade soubesse que êxito e salvação residem no Ramadão, rogariam a Allah que lhes deixasse viver para sempre nesse mês!“.

Queira Allah possa conceder a Sua Misericórdia sobre os nossos corações e facilitar-nos o jejum. Ámen.

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Aproximar-se de Allah durante o Ramadão

Por: M. Yiossuf Adamgy

Já conhecem a rotina. O nosso corpo sofre um choque no primeiro dia do Ramadão. De repente, numa manhã em que acordamos antes da hora de fazermos a oração de Fajr (salat-ul-Fajr), tomamos o Sehri praticamente até ao último segundo antes de chegar a hora da oração de Fajr, rezamos a oração de Fajr e depois, antes mesmo que alguém sequer seja capaz de pronunciar “Ramadhan Mubarak”, estamos de volta ao conforto dos nossos cobertores quentes e a sonhar com a iftar.

Quando mais tarde voltamos a acordar para começarmos o nosso dia, o nosso corpo fica em choque pois não consegue de todo perceber porque razão não saciamos a nossa sede ou porque não devoramos aquele determinada tablete de chocolate, aquele que sob a primeira camada de chocolate tem uma de caramelo, uma de amendoim, outra de chocolate e, algures, bolacha. Ficamos com água na boca, a salivar incontrolavelmente, apesar de sabermos que não os poderemos comer, pois é Ramadão e é tempo de jejuar!

é verdade, esquecemo-nos de avisar os nossos corpos de que durante um mês viveremos uma diferente rotina de preces, jejum e leituras do Alcorão, devendo ser mais generosos e praticar o auto-domínio.

Notícia de última hora: estamos quase no início do Ramadão e todos precisamos de nos começar a preparar!

Acreditamos que será positivo começar por recordar o significado do Ramadão tal como ele é expresso no próprio Alcorão. Allah Subhaanahu wa Ta’aala afirma no Alcorão: Foi no mês do Ramadão que foi revelado o Alcorão, que é um guia que a humanidade deve acatar e que nos dá provas concretas da orientação que devemos seguir, bem como do critério que devemos assumir para distinguir o certo do errado. Assim sendo, todo aquele que observar o quarto crescente da Lua durante o mês do Ramadão, deve jejuar durante todo esse mês.

Daí, podemos concluir:

  1. O Alcorão foi revelado durante o mês do Ramadão.
  2. O Alcorão é um guia para a humanidade.
  3. O Alcorão contém provas concretas da orientação que devemos seguir, bem como do critério que devemos assumir para distinguir o certo do errado.

Assim que avistarmos o quarto crescente da Lua, devemos iniciar o jejum.
Entre as inúmeras bênçãos que estão associadas ao Ramadão, uma que não devemos descurar prende-se com o facto de ter sido no mês do Ramadão que o Alcorão foi revelado. Este maravilhoso Livro de orientação é nosso, por isso empenhemo-nos para nos aproximarmos de Allah no Ramadão que se inicia, lendo mais o Alcorão e fazendo mais preces voluntariamente. Com efeito, este é um mês abençoado, pois são incontáveis as oportunidades que temos de mencionar o nome de Allah Subhaanahu wa Ta’aala. O Profeta sall Allaahu ‘alayhi wa sallam afirmou: “É impossível que as pessoas se juntem numa casa que pertença a Allah para recitar o Livro d’Ele e para o estudarem entre si, a menos que a tranquilidade ascenda sobre elas, que a misericórdia as envolva, que os anjos as rodeiem e que Allah as refira àqueles que estão próximos d’Ele.” (Sahih Muslim).

A Leitura do Sagardo Alcorão

Recordemos o ano que passou, até ao último Ramadão. Que tipo de relação temos tido com o Alcorão? Com que frequência o lemos? Temo-nos esforçado para memorizar algumas das suas passagens? Que suras ou versículos tiveram sobre nós especial influência durante o ano que passou?

Dediquemos algum tempo à escrita da resposta a estas perguntas como forma de nos prepararmos para o Ramadão. Devemos ser francos connosco próprios, pois estas respostas serão um segredo que ficará apenas entre nós e Allah S. T.

Estas respostas devem servir igualmente para desencadear algum tipo de reflexão da nossa parte, para que as possamos comparar com o actual Ramadão. O Ramadão constitui para todos nós uma oportunidade de desenvolvermos as nossas rotinas pessoais em resultado dos esforços que empreendemos no sentido de optimizarmos o nosso auto-domínio e de aprofundarmos o nosso desenvolvimento pessoal.

Por que razão concreta é importante que dediquemos algum tempo à leitura do Alcorão?

Em primeiro lugar, porque o ambiente à nossa volta é propício à leitura e reflexão. Durante o ano, podemos lê-lo por nossa própria iniciativa, por vezes apressadamente, outras vezes descuidadamente. Durante o Ramadão, as pessoas tentam completar a sua leitura do Alcorão, tentando fazer a leitura integral do Livro num mês. Acrescente-se ainda que abstermo-nos da comida e bebida é algo que nos ajuda a reprimir os nossos instintos mais condenáveis e a buscar um plano superior a nível intelectual e espiritual que nos permitirá, com efeito, reflectir sobre o real significado dos versículos do Alcorão que estamos a ler. Essa reflexão tem como objectivo ajudar-nos a interiorizar a tal ponto os ensinamentos do Alcorão que todos os passos que dermos na nossa vida passem a estar em concordância com os seus ensinamentos.

Em segundo lugar, a leitura consistente do Alcorão vai ajudar-nos igualmente a estabelecer uma rotina de que poderemos tirar proveitos durante todo o ano e que terá consequências directas e práticas no nosso quotidiano. Tomemos como exemplo as actividades rotineiras como o comer e beber ou o falar e dormir. Não seria impossível que a fome e a sede levassem o indivíduo a ter um comportamento irascível e a tornar-se um pouco impaciente em relação aos outros. Mas a verdade é que tanto os ensinamentos do Alcorão como os do Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam nos incitam a concentrarmo-nos nos elevados benefícios do jejum.

Um dos benefícios associados ao jejum e que é referido no Alcorão é que o mesmo nos ajuda a fortalecer a nossa consciência relativamente a Allah Subhaanahu wa Ta’aala.

Mas a combinação do auto-domínio físico com a leitura e interiorização dos ensinamentos do Alcorão permite-nos alcançar um estado superior de consciência relativamente a Allah, o Maior. O nosso amado Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam ensinou-nos que: “jejuar não é apenas abstermo-nos de comer e beber. Pelo contrário, é abstermo-nos igualmente do discurso que é ignorante e impróprio. Assim sendo, se alguém tiver perante vós um comportamento ignorante ou impróprio, dizei-lhe: “Estou a jejuar, estou a jejuar.” (Sahih Ibn Khuzaymah and Al-Hakim).

Por último, ler o Alcorão ajuda-nos a consolidar e a rever as passagens que já pudéssemos ter memorizado ou ainda as passagens que andamos a tentar memorizar. Está provado que durante cada Ramadão, o anjo Gabriel (Jibril a.s.) costumava rever o Alcorão com o Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam. E no último Ramadão que o Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam viveu, sabemos que o anjo Jibril reviu com ele o Alcorão duas vezes. É inequivocamente dada uma grande importância à repetição e revisão como forma de consolidar e memorizar o Alcorão. Devemos arranjar uma forma de gravar as passagens que andamos a ler, aquelas que andamos a rever e também as que andamos a memorizar. Incha’ Allah, quando chegarmos ao fim do Ramadão, teremos forma de avaliar o nosso estudo!

Fazer mais preces voluntariamente

O Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam empreendia mais acções voluntariamente durante as semanas que precediam o Ramadão, tais como jejuar mais, rezar mais e doar mais para a caridade. Devemos ter em mente que o maratonista não começa a corrida só no momento em que se posiciona na linha de partida e ouve: “Às vossas posições, preparados, sigam!”. Pelo contrário, a corrida começa muitos dias, semanas e mesmo meses antes do momento em que verdadeiramente é dada a partida. A preparação exige esforço, mas permite que o atleta adquira a resistência necessária para que se possa concentrar na corrida e não se distrair pelo cansaço das pernas ou pela sensação de boca seca.

Da mesma forma, se começarmos o Ramadão apenas na sua primeira noite, no momento das Orações de Tarawih, estaremos a agir tal como o maratonista que não se prepara convenientemente. É por isso que é tão importante que comecemos a empreender desde já preces individuais e voluntárias.

Aprender a ler passagens extensas no Ramadão nos momentos da oração é algo que nos ajudará a desenvolver a nossa resistência, bem como nos ajudará a concentrarmo-nos naquilo que estamos a ler. Com efeito, Abu Hurayrah conta-nos que: “o Mensageiro de Allah, sall Allaahu ‘alayhi wa sallam, costumava incitar-nos a rezar nas noites do Ramadão, mas não fazendo dessas orações algo de obrigatório. E depois disse: “Todos aqueles que rezarem nas noites do Ramadão, movidos pela fé e pela esperança numa recompensa, verão todos os pecados cometidos no passado perdoados.” E quem entre nós não precisa de ver os seus pecados perdoados?” Ao rezarmos diariamente durante o período do Ramadão, acabamos por desenvolver a resistência que, incha’ Allah, nos permitirá chegar ao próximo Ramadão.

Uma das melhores formas de praticarmos a nossa récita é empreendermos orações voluntárias e recitarmos o Alcorão. Obviamente, é sempre recomendável que alguém verifique a nossa récita, mas se já tivermos conhecimentos suficientes de leitura em árabe, a leitura de passagens durante a oração ajudar-nos-á a melhorar a nossa récita. Embora a leitura individual seja permitida, é recomendável que o indivíduo se associe a uma congregação e seja orientado na sua oração por um Imame.

Se tivermos em mente que o nosso grande objectivo é agradar a Allah Subhaanahu wa Ta’aala para vermos os nossos pecados do passado perdoados, incha’ Allah, todos nós teremos forças para fazermos mais preces voluntárias.

Conclusões finais

Se ainda não perguntou a si próprio se está ou não preparado, uma vez que o Ramadão está prestes a começar, então comece hoje mesmo a pensar nisso e prepare-se para o receber. É essencial que se esforce ao máximo para preparar o acto do jejum, da oração, da leitura do Alcorão e da doação para a caridade. Dessa forma, incha’ Allah será capaz de se concentrar nas bênçãos desse mês e não se deixar distrair pela sua própria incapacidade de auto-domínio ou de permanecer, por exemplo, de pé durante longos períodos na salah, etc.

Treine o equilíbrio e lembre-se que está a tentar agradar a um Senhor que é misericordioso. Pratique uma veneração com fé e esforce-se incessantemente, esperando a recompensa de Allah Subhaanahu wa Ta’aala. Torne este Ramadão melhor que o anterior, incha’ Allah!

A todos, um Ramadhan Mubarak! Com um pedido deste humilde servidor de Allah: que se lembrem de mim nas vossas preces. Jazak’Allah.

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A dimensão espiritual do mês do Ramadão

Por M. Yiossuf Adamgy

O jejum vivido durante este mês não é uma adoração pontual que exige obediência e rigor aquando da prática de determinados rituais mas, findos os quais, permite retornar às ocupações mais contingentes, mais imediatas. O papel por ele desempenhado não termina mal estão cumpridas as estritas condições do jejum diurno, de modo a que, chegada a noite, e após a privação a que estivemos sujeitos, nos permitamos submeter aos excessos, à negligência após o esforço empreendido, ao esquecimento após a recordação. Não! O verdadeiro sentido do jejum consiste em reprimir os nossos impulsos negativos, em levar o nosso Eu a romper com os seus hábitos, a atenuar o ardor dos nossos desejos, de modo a que nos preparemos para aquilo que nos trará sorte e conduzirá à felicidade e nos faça aceitar aquilo que nos ajudará a purificar o nosso coração.

De facto, o jejum representa toda a lógica da aproximação a Deus. O jejum é uma realidade da qual todos têm conhecimento, embora tenha tendência a ocultar os hábitos de cada um. Esta realidade tem lugar na presença de uma ligação directa entre a condição do corpo e a essência do coração. O primeiro factor, a condição do corpo, resume-se ao aspecto material do ser humano, à sua morte, enquanto que o outro, a essência do coração, o devolve à sua origem espiritual, eleva-o por intermédio do sopro Primordial.

A Infinita Sabedoria de Deus desejou que o ser humano fosse resultado da conjugação entre espírito e matéria. é impossível separar um do outro. Contudo, a busca pelo equilíbrio entre as duas vertentes não é fácil, atendendo à não existência de uma simetria na gestão destas duas entidades. De facto, vivemos plenamente num universo sensorial, o qual nos é imposto e do qual não nos podemos livrar, enquanto que a vida espiritual requer um acto voluntário, uma exigência, uma austeridade da nossa parte. Ela funciona em função da nossa capacidade de educarmos o nosso coração. Uma educação que nos acompanha ao longo de todo a nossa vida terrestre. Uma vida situada e datada, que se inscreve no Tempo.

A gestão do Tempo é determinante para o encaminhamento em direcção a Deus, se bem que a duração de uma vida seja insuficiente para adorar a Deus como deveríamos adorar Sua Majestade. Assim sendo, dedicamos-Lhe momentos excepcionais, os quais têm como missão apressar a nossa caminhada em direcção a Ele. O Profeta (s.a.w.) disse: “Existem, ao longo da vossa vida, exalações benéficas (nafahâte) em nome do vosso Senhor. Preocupai-vos por responder-lhes”. Estas deliberações que nos são impostas e às quais não podemos faltar, proporcionam-nos privilégios preciosos e salutares perante Deus. Preciosos, porque nos informam que nem todos os momentos têm o mesmo valor! Consequentemente, há que conceder às ocasiões excepcionais toda a importância que lhes é devida. E salutares, porque oferecem uma oportunidade àqueles que têm consciência de que o tempo não lhes é suficiente para terminarem de se purificar, embora nos possamos purificar por intermédio dos nossos actos ou porque a purificação tem um fim.

O Ramadão possui a virtude de englobar todos estes momentos. Este mês ocupa um lugar especial, dada a multiplicidade de oportunidades benditas que oferece, como é o caso da Noite do Destino, os últimos dez dias, o fim do jejum … .

O mês do Ramadão constitui, pois, uma ocasião a não olvidar. Trata-se de uma estação de recursos que assenta em duas dimensões. A primeira, é a ordem da vida material, atenuando a influência desta sobre as percepções sensíveis. A segunda provém do mundo do imperceptível, representando um momento adequado à elevação espiritual, especialmente devido ao aprisionamento dos demónios.

Trata-se de uma ascese em que, durante um mês, a pessoa se vê obrigada a habituar todos os seus membros a romper com os seus antigos costumes. Evidentemente, a sua barriga é a primeira a ser atingida. Mas também o são a sua língua e os seus o- lhos. Todo o corpo é instigado ao jejum e, cada órgão, possui uma forma de abstinência que o caracteriza.

O Ramadão representa um momento de exaltação, um mês que permite encarar o resto do ano. Trata-se de um mês de esforço durante o qual se pretende reencontrar o significado de esforço. É um mês de meditação estanque em que pretendemos elevar a perspectiva da nossa aspiração para além do seu horizonte limitado. Trata-se de um mês de solidariedade e de partilha, por Deus e para com os Homens.

Os méritos deste mês e do que se lhe refere são profusos. O hadice seguinte é suficiente para apoiar tudo o que até aqui foi dito.

“Ó gente! Aproxima-se um grande e abençoado mês, um mês que compreende uma noite superior a mil noites. É obrigatório jejuar durante o dia, e recomenda-se que se vele durante a noite. Os actos não obrigatórios realizados durante este mês terão o mesmo valor que os actos obrigatórios realizados durante os outros meses do ano, e os actos obrigatórios realizados terão o mesmo valor de setenta actos. Trata-se de um mês de resignação, e a recompensa para a resignação não é outra que não o Paraíso. Trata-se de um mês de solidariedade. Trata-se, também, de um mês durante o qual Deus abençoa o ser humano e aumenta a recompensa que já lhe havia sido destinada. Todo aquele que oferecer a refeição do fim do jejum obterá o perdão pelos seus pecados, uma protecção contra o Inferno e receberá a mesma recompensa do que jejuou, sem que este veja diminuída a recompensa que lhe está destinada”. Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Deus, nem todos nós podemos oferecer essa refeição ao que jejuou”, ao que ele respondeu: “Deus concede a mesma recompensa àquele que oferece uma simples tâmara aquando do fim do jejum, um pouco de água ou um pouco de leite. Trata-se de um mês durante o qual a refeição é a misericórdia, o melhor do perdão e o fim libertador do Inferno. Todo aquele que, durante este mês, aliviar o fardo dos seus subordinados, será perdoado por Deus e liberto do Inferno. Durante este mês, multipliquem quatro virtudes: duas, para satisfazerem o vosso Senhor, e duas das quais não podem abster-se. As duas primeiras são: a citação da “Lâ ilâha ilallâh” e a solicitação do perdão de Deus. As duas últimas são: implorar a Deus pelo Seu Paraíso e pedir-Lhe protecção contra o Inferno. Àquele que der de beber a quem jejua, Deus dar-lhe-á a beber da minha bandeja um gole de água que lhe matará a sede até ao momento em que este entrar no Paraíso”. (Citado por Khouzaïmah no seu Sahih)

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Jejum: o melhor remédio

Coord. por Yiossuf Adamgy
in Revista Al Furqán, nº. 164, de Julho/agosto.2008

A natureza especial do jejum de Ramadão é a de gerar um autocontrolo e sacrifício.

Bismillahir Rahmanir Rahim = Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso!

‘Cada acto do filho de Adão é para ele mesmo,
Excepto o jejum, que é feito para mim;
E Eu próprio darei
A maior recompensa que Eu criei.
Allah, O Majestoso e Honorável.’ – (Hadice)

O jejum é a prática mais antiga de todas as formas de cura natural. Os métodos empregues vão desde suspender um único alimento durante um breve período até a abstinência total em todos os alimentos e líquidos, por longos períodos.

Para muitas pessoas que nunca jejuaram, a ideia parece estranha e alguns, inclusive, consideram a prática perigosa. Estas concepções não são completamente infundadas, uma vez que, quando in-correctamente aplicado, o jejum pode resultar em sérios transtornos do corpo e, inclusive, a morte.

Jejuar é realmente o epítome de um tipo de vida natural e os benefícios não terminam nas correcções feitas ao corpo e no restabelecimento da saú-de. Antes de iniciar qualquer tipo de jejum, é importante entender a razão do jejum. A maioria dos ocidentais que jejuam fazem-no para limpar o corpo e melhorar a saúde. Contudo, estas são as intenções incorrectas para iniciar o jejum.

Os Sufis têm, provavelmente, mais experiências que qualquer outro grupo de pessoas na realização de jejuns. São conhecidas legiões de Shaykhs Sufis e discípulos que enfrentam jejuns de várias durações, frequentemente com resultados milagrosos.

Como tem sido notado, os Sufis não têm em consideração nenhum procedimento físico relacio-nado de qualquer forma com a saúde, excepto obter o prazer de Deus, o Altíssimo. Deus já nos havia informado no Sagrado Alcorão:

‘Ó crentes!; Está-vos prescrito o jejum, tal co-mo foi prescrito aos vossos antepassados, para que temais a Deus.’ (2:183)

Toda a criação, excepto o homem, segue as ordens de Deus, derivadas das leis naturais. Os animais não devem ser limitados no excesso de comida e no abuso de dietas. Mas, para os homens, o amor para com a vida material e com as tentações dos desejos físicos são responsáveis pela grande maioria das doenças. Então, Deus, o Benevolente, previu um guia para controlar e anular estes desejos através do mecanismo do jejum.

O Alcorão declara que o homem não pode alcançar a salvação até que os seus desejos mais baixos sejam refreados.

‘Ao contrário, quem tiver temido o comparecimento ante o seu Senhor e se tiver refreado a sua alma da luxúria, terá o Paraíso por abrigo.’ (79:40-41).

O exercício de se abster de coisas normalmente permitidas e legais na vida, apenas para agradar a Deus, fortalece a moralidade e o autocontrolo e aprofunda a consciência de Deus.

O primeiro jejum que se deve iniciar é aquele normalmente designado, no Islão, por Ramadão. O Ramadão é um dos meses do calendário Islâmico – o mês durante o qual o Alcorão, tal como a Tora, os Salmos de David e o Novo Testamento, foram enviados por Deus (ár. Allah S.T.). A excelência de jejuar é dada a conhecer através destas duas declarações do Profeta (Que a Paz e a Bênção de Deus estejam com ele):

‘Através daquele em cujas mãos está a minha vida, a fragrância da boca de um homem a jejuar é mais apreciada por Deus do que a fragrância do almíscar’.’O Paraíso tem uma porta chamada Rayyan. Ninguém, excepto quem tiver jejuado, en-trará por essa porta’.

Deus prometeu uma visão d’Ele próprio como recompensa pelo jejum. A palavra Ramadão não significa ‘jejum’. O termo técnico de jejum é siyam, cuja raiz significa ‘estar em descanso’. Através da abstinência da comida, bebida e relações sexuais, estas funções do corpo estão em descanso e isto será uma oportunidade de serem revigoradas.

O jejum geral durante o mês do Ramadão é desfrutado por toda a humanidade, ainda que os muçulmanos sejam aqueles a fazê-lo. Muitas pessoas que têm um contacto próximo com os Muçul-manos também se comprometeram a esta forma de jejum e recebem alguns dos seus benefícios. No entanto, existem muitas indicações que devem ser postas em prática para que um qualquer jejum seja considerado válido.

Primeiro, deve-se expressar claramente a intenção de jejuar. Uma vez que Deus disse que uma pessoa será julgada de acordo com as suas intenções, ninguém poderá obter os benefícios das boas acções que apenas ocorrem de forma acidental. Por exemplo, se alguém se vê privado da comida por estar perdido na selva, isto não poderá constituir um jejum formal, porque esse alguém teria comido se a oportunidade tivesse surgido.

Esta declaração formal em realizar uma acção é chamada niyyat (intenção) É preferível declará-la em árabe, mas é considerada válida em qualquer idioma. Apenas deverá ser expresso: ‘Tenho a intenção de oferecer o jejum deste dia apenas para agradar a Deus.’

Tendo entrado neste voto formal com Deus, tendo esta promessa sido feita, se alguém rompe, de forma intencional, o jejum durante o período de proibição, poderá compensar o jejum ao realizar um ou mais dias do mesmo.

Geralmente, para realizar um dia de jejum, deverão estar reunidas as seguintes condições:

  1. O Niyyat, ou a intenção de jejuar, poderá ser feito em voz alta ou silenciosamente.
  2. O período de jejum deverá estender-se desde o momento que antecede o amanhecer (fajr) até apenas logo após o pôr de sol (maghrib).
  3. Durante o período de jejum, é necessária a abstinência de: comida, bebida (incluindo água), fumar ou do consumo de tabaco, relações sexuais e qualquer outra forma de negatividade, conversas desnecessárias, discussões, maledicências ou comportamentos afins.
  4. Não se deverá expelir sémen de forma deli-berada nem vomitar de forma deliberada.
  5. As mulheres grávidas ou em período de amamentação, os gravemente doentes, os idosos e os doentes mentais estão desobrigados de jejuar, mas em alguns casos poderão estar em posição de recuperar os dias perdidos. A mulher não jejua nos dias de menstruação, mas deverá recuperá-los. Quando terminar o seu período, deverá retomar o jejum. As crianças que não atingiram a idade de puberdade, estão, de forma geral, desobrigados de jejuar.
  6. O jejum é quebrado logo ao anoitecer com uma tâmara ou com um copo de água, seguido de uma refeição ligeira. Existem várias dezenas de casos especiais que se aplicam ao homem ou à mulher que jejuam e deverá ter, para tal, a orientação de um erudito muçulmano praticante para resolver qualquer questão.

A natureza específica do jejum é a geração de autocontrolo e de sacrifício. O jejum ocorre principalmente na mente e, por isso, está oculto da vis-ta dos homens, apenas é visível aos olhos de Deus; é uma acção oculta. Desde a meia-noite até o início do jejum, era costume do Profeta (p.e.c.e.) fazer uma refeição chamada suhur. Esta pode ser constituída por qualquer alimento permitido. O jejum rompe-se, habitualmente, com a ingestão de algumas tâmaras, seguidas de água, que deve ser ingerida antes de oferecer a oração do pôr de sol.

A acrescentar a todas estas indicações, a pessoa deverá comprometer-se o mais possível a ler ou recitar o Sagrado Alcorão, bem como a distribuir a maior caridade possível que cada pessoa possa.

Estas são as regras mínimas do jejum. O jejum das pessoas comuns faz-se com o objectivo do próprio se refrear de comer, beber e das paixões carnais. Uma forma mais elevada de jejuar consiste (em acréscimo com o anterior) em refrear-se das más acções das mãos, dos pés, dos olhos e de outros membros ou órgãos do corpo.

Os santos realizam o melhor tipo de jejum, o jejum da mente. Por outras palavras, estas pessoas não pensam noutra coisa a não ser em Deus. Consideram que a sua existência neste mundo é apenas uma semente que cresce para o outro mundo. Este jejum também inclui refrear os olhos de qualquer visão de maldade, colocar-se à parte de conversas banais, da falsidade, de calúnias, da obscenidade e da hipocrisia.

Em síntese, aquele que jejua mantém-se em silêncio e, quando fala, é apenas para recordar Deus. Este jejum é tão restrito que nem sequer se podem ouvir conversas proibidas que chegam dos outros. Deverá, tanto quanto possível, distanciar-se da presença da pessoa que viola estas proibições.

Que o Ramadan seja cheio de espiritualidade para todos.

Wassalam.

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Mais um Ramadão nas nossas vidas

Prezados Irmãos: Assalamu Alaikum.

Mais um Ramadão (ár. Ramadan) entrando nas nossas vidas, inch’Allah; Ramadan, o mês das bênçãos, da misericórdia e de perdão. “O mês que – como afirmou o nosso amado Profeta Muhammad (que a paz e bênção de Deus estejam com ele) – é para Deus o melhor dos meses; os seus dias, os melhores dias; as suas noites, as melhores noites; e as suas horas, as melhores horas”.

Mais uma vez, como “horas de ouro nas asas de um anjo”, os seus momentos descem sobre nós.

A Al Furqán, órgão para a divulgação do Islão em Portugal, deseja a todos os muçulmanos, que este mês seja especialmente dedicado à recordação de Allah S.T., Senhor de todos os Mundos.

E roga a Deus que purifique os nossos corações, que nos ajude a controlar as nossas línguas, a desviar os nossos olhos daquilo que não nos está permitido ver, a desviar os nossos ouvidos daquilo que não nos está permitido ouvir, a mostrar compaixão em relação aos pobres, oprimidos e necessitados.

E que Allah perdoe as nossas faltas por acção ou omissão, concedendo-nos a Sua Orientação para percorrer a senda recta. Ámen.

Wassalam.