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Quando Abu Bakr e Umar (R.A.) quase iam perdendo tudo

Por: M. Yiossuf Adamgy (06/05/09 – in Revista Al Furqán, nº. 168, de Março/Abril.2009)

O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) estava certa vez sentado com os seus companheiros, quando foram abordados por alguns homens a cavalo, que eram delegados da tribo de Banu Tamim. Como com qualquer tribo que vinha para abraçar o Islão, o Profeta quis seleccionar-lhes um líder. Naturalmente, aconselhou-se junto dos seus companheiros mais chegados, Abu Bakr e Umar (que Allah esteja com eles agradado) sobre quem seria o ho- mem mais indicado para o cargo.

Abu Bakr (r.a.) recomendou que o Profeta (s.a.w.) nomeasse Al-Qa`qa` Bin Ma`bad (r.a.), membro da Banu Mujashi`, para o cargo. Umar (r.a.) discordou, sugerindo que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) escolhesse Al-Aqra` Bin Habis (r.a.). (Tafssir Ibn Kathir)

O desacordo entre eles transformou-se num debate, depois numa discussão e rapidamente os dois começaram a falar tão alto que as suas vozes se sobrepuseram à do Profeta (s.a.w.).

Foi nessa altura que Deus (ár. Allah) revelou o seguinte versículo ao Profeta (que a paz esteja com ele).

“Ó crentes! Não eleveisas vossas vozes acima da do Profeta, nem lhe faleis em voz alta, como fazeis entre vós, senão as vossas acções serão inúteis sem que disso se apercebam.” (Alcorão, 49:2)

Respeito pelo Profeta (s.a.w.)

Deus estava a dizer tanto a Abu Bakr (r.a.) como a Umar (r.a.) que aquilo que estavam a fazer era inoportuno. Quando se fala perto do Profeta (s.a.w.), não se pode falar mais alto do que ele, devido ao respeito e reverência pelo homem que é o Mensageiro do próprio Deus.

Esta ordem vai bem para além do que respeita ao volume. Quando surgem problemas nas questões da “Sunnah”, não nos podemos pronunciar sobre elas ou contra as mesmas. Tal como disse Ibn `Abbas (r.a.), tal significa não contradizer a “Sunnah” nas nossas acções, declarações ou até intenções.

A nossa atitude perante a “Sunnah” deve ser idêntica à do Imame Malik. Quando iam estudantes a sua casa, com o objectivo de aprender “Fiqh” ou “`Aqidah”, ele vinha para a rua para os ensinar. No entanto, se quisessem aprender “Hadith”, ele fazia a “Ghusl” antes de sair e recitava o versículo: “Ó crentes! Não eleveis as vossas vozes acima da do Profeta , nem lhe faleis em voz alta…” antes de iniciar as suas aulas, para recordar aos seus alunos e a si próprio que aquilo que estavam prestes a estudar devia ser tra- tado com todo o respeito.

A reacção de Umar (r.a.)

Depois da revelação deste versículo, conta-se que sempre que Umar (r.a.) se dirigia ao Profeta (s.a.w.), falava tão baixo que mal se conseguia ouvir o que dizia. Com efeito, Abdullah Bin Al-Zubair (r.a.) afirma que o Profeta (s.a.w.), por vezes, pedia a Umar (r.a.) que repetisse o que tinha dito, devido ao facto de ter falado tão baixo.

Com a vinda de uma ordem de Deus, Umar (r.a.) cumpriu-a de imediato e pô-la em prática na sua vida. Não a pôs em causa, não a tentou seguir apenas parcialmente, não adiou o seu cumprimento nem a seguiu apenas de forma temporária. Cumpriu-a de imediato de forma plena e permanente.

A abordagem de Thabit (r.a.)

Quando, Thabit Ibn Qays Al-Shammas (r.a.), um sahabi (companheiro) que costumava falar em voz alta devido ao facto de ouvir mal, ouviu este versículo, ficou inconsolável, uma vez que o versículo dizia que aqueles que falavam mais alto que o Profeta (s.a.w.) iriam perder todas as suas acções sem sequer disso se aperceberem. De imediato, Thabit foi para casa desesperado e não saiu até que o Profeta e os “sahabah” (companheiros) deram pela sua falta.

Quando o foram visitar e lhe perguntaram onde tinha estado, ele disse-lhes que tinha ficado aterrorizado com a ideia de perder as suas acções, na me- dida em que também ele falava mais alto que o Profeta, embora apenas falasse alto devido ao seu problema de audição. Mais tarde, o Profeta (s.a.w.) reconfortou-o, dizendo-lhe que ele pertencia ao povo que iria para o Paraíso.

A forma como Satanás se aproveita das discussões

Quando Abu Bakr e Umar (r.a.) discutiram, fizeram-no na pior das alturas e na pior das situações. À sua frente tinham o Profeta (s.a.w.) e estavam rodeados pelos delegados de uma nova tribo que queria abraçar o Islão. “Shaitan” (Satanás) iria fazer tudo o que fosse preciso para deitar por terra qualquer oportunidade de o Islão prosperar.

Nesta situação, fez com que dois irmãos muçulmanos se desentendessem ao ponto de um aspecto mais importante do que a escolha de um líder (isto é, o respeito pelo Profeta) ter sido ignorado.

Quando os humores se exaltam nas discussões com a família, amigos, ou no trabalho de “da`wah”, nunca deixem que “Shaitan” aproveite das vossas diferenças em seu benefício.

Corrigir-nos a nós próprios

Os “sahabah” não eram super-homens, livres de cometer qualquer erro. O que os tornou extraordinários e em modelos para nós, foi antes a forma como corrigiam os seus erros.

Imagine que descobria que você e a sua família tinham perdido tudo que tinham e que estavam na bancarrota. Deixaram de ter bens, casa ou carros e não tinham dinheiro.

Agora imagine que perdia todas as suas boas acções. Qual das perdas o deixaria mais devastado?

Os “sahabah” consideravam que perder as boas acções era das piores coisas que lhes podia acontecer.

Da próxima vez que discutirmos com os nossos irmãos ou irmãs muçulmanos, devemos lembrar-nos da forma como agiram e reagiram Abu Bakr e Umar (r.a.) e assegurar o respeito pelo Profeta (que a paz esteja com ele) e pela sua Sunnah, sem nos deixarmos afectar pelas circunstâncias em que nos encontramos.

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Carta aberta e fraterna ao irmão Papa Bento XVI

Coord. por Yiossuf Adamgy

 

Em nome de Deus, Clemente e Misericordioso

 

– “Ó humanidade! Na verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em tribos e nações, para que se conheçam uns aos outros” (Alcorão, Sura 49 vers.13), na base da justiça, que é uma boa e frutífera palavra: “Como a árvore nobre, cuja raiz está profundamente firme, e cujos ramos se elevam até ao céu.” (Alcorão, Sura 14 vers. 24).

 

– “Deixemos que a divisa do diálogo civilizacional seja o vers. 83 do Cap 2 do Alcorão que diz: “Falai com brandura a todas as pessoas”, e deixemos que a finalidade do diálogo seja a de adquirir a liberdade tão vasta como o universo.

 

“Diz: Todos agem de acordo com a sua própria disposição. Mas o teu Senhor sabe melhor quem é e está Melhor guiado no caminho.” (Sura 17 vers. 4).

 

“Diz: … O teu dever é proclamar a Mensagem.” (Sura 3 vers. 20).”

 

“Para Nós será o regresso deles. Então caberá a Nós chamá-los para as contas.” (Sura 88 vers. 26).

 

“Não há compulsão na religião.” (Sura 2 vers. 256).

 

Com a nossa saudação fraternal, maior respeito e consideração.

 

Querido irmão Bento:

 

Permita-me que o trate assim, como um irmão mais velho. Esta liberdade de escolha é, creio eu, facultada dentro do quadro de dois piedosos princípios: primeiro, há o facto de todos nós sermos membros da raça humana, em todos os continentes e em todas as épocas, no tempo. Descendemos de Adão que foi criado da lama; assim, todos são irmãos e irmãs e o homem é irmão do homem, quer queira quer não. Em segundo lugar, o reconhecimento mútuo e a amizade (não a matança mútua, o ódio e a vingança) são os termos Islâmicos para o diálogo intercivilizacional e intercultural:

 

Dizia eu, então, querido irmão Bento. Indubitavelmente que sabes que, enquanto Muçulmanos, a nossa ascendência na Fé remonta ao nosso pai comum, o Profeta Abraão, pai de Ismael e de Isaac (a paz esteja com eles), e que fazemos parte desse mesmo universo luminoso de crentes que Deus lhe prometeu como descendência.Então, levou-o para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se é que as consegues contar’. E disse-lhe: ‘Assim será a tua descendência’ (Génesis, 15, 5). Irmão, nós, os Muçulmanos, assim como toda a Humanidade, esperamos muito de ti. Esperamos a tua contribuição clara, decidida e decisiva, para a neutralização da infinidade de bombas de ódio, prontas a serem activadas nos arsenais mentais das pessoas mais afastadas da espiritualidade e da transcendência, tanto a Oriente como a Ocidente.

 

É pela posição que ocupas e responsabilidade que tens perante o ser humano, e especialmente perante o universo de crentes prometido a Abraão, que verificámos que a tua lição de Teologia do outro dia, proferida na Universidade de Ratisbona – Alemanha, não foi uma das mais bem sucedidas e nem correctas.

 

Tratou-se de uma apresentação académica, visto que, acima de mais, és um erudito em teologia. Se era tua a intenção de desafiar os sábios Muçulmanos para uma discussão acerca dos méritos e desméritos de ambas as religiões em termos de fé e de razão, qualquer erudito Muçulmano de terceiro nível estaria disposto a aceitá-lo. Contudo, e em primeiro lugar, terias que abdicar do seu posto e voltar a ser um académico. Na História contemporânea, nunca os Papas cederam às discussões inter-religiosas. Pelo menos, os três últimos Papas tinham consciência do Mundo e ordenavam o respeito para com as religiões.

 

Foi uma lição maculada pela irresponsabilidade e pela indolência, que fomenta uma visão trivial e frívola do Islão, que favorece o confronto entre crentes e que se submete servilmente ao jogo dos terroristas e dos poderes, ditos democráticos, que não hesitam em assassinar milhares de inocentes, violar todo um conjunto de resoluções, invadir impunemente os países ou desalojar milhões de pessoas, deixando-as sem casa e sem história, em nome de uma ideia de Deus, liberdade ou Democracia, que não correspondem e não se harmonizam com os valores que emanam de um Deus Misericordioso e Compassivo. Democracia, que hoje está em conflito com as democracias reais, só o será, como definiu Rousseau, “quando, numa sociedade, ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”.

 

No momento em que redigimos esta carta, é-nos possível ler títulos onde a tua própria segurança é já posta em causa. Sentimos que foste induzido pelos obscuros poderes dominantes do Mundo a trespassar esta linha vermelha que, do nosso ponto de vista, não devias nunca ter passado, e receamos que a utilização da tua elevada pessoa e posição sejam mesmo manipuladas ao mais dramático extremo. Um sangrento ataque contra a Igreja representaria uma excelente desculpa e um perfeito álibi para legitimar, sem necessidade de mais nada, o progressivo e definitivo extermínio da fé unitária.

 

Tu, irmão Bento, precisas sinceramente reflectir se, com tal declaração, estás a ser um nobre defensor da Verdade, se estás a ser o favorecedor evidente da Paz que todos esperamos que sejas, e para o qual também nós, fiéis Muçulmanos, dirigimos o nosso olhar.

 

Tens que ter consciência que já recentemente se fez uso do Islão para um confronto entre os crentes. E há que recordar o martírio dos irmãos cistercienses de Tibhirine. Assassinato este, no qual existem suspeitas da autoria real dever-se aos serviços secretos de um país Europeu de marcada tradição colonialista na zona.

 

Voltamo-nos também para ti, porque acreditamos na bondade da mensagem de nosso Jesus (a paz esteja com ele). Não te admires por nos referirmos a ele com tais palavras, pois é assim que as mães Muçulmanas ensinam os seus filhos a chamar a Jesus: “Este é Jesus, filho de Maria, é a pura verdade, da qual duvidam” (Alcorão 19, 34).

 

Como vês, para nós, Jesus também é ‘palavra’, é a pronunciação viva da Verdade. É ele quem na Revelação contribui com o conceito da Ternura de Deus. Jesus é ‘al Ruh al Qudus’, o Espírito da Santidade…Jesus é tão vosso como nosso, é ele quem nos une, se é que aquilo que verdadeiramente queremos é a união e a Paz.

 

Quanto à tua suposição de que o Cristianismo é o produto da síntese entre a fé do Velho Testamento e a filosofia Grega da razão, estás a separar o Cristianismo da sua origem Hebraica, ocidentalizando-o e revelando, uma vez mais, o teu sectarismo Europeu. Surpreende-nos que, em lugar de dares valor à razão, queiras roubar o significado que tem o semitismo da pessoa de Jesus. Jesus era Aramaico, o Aramaico é a língua materna de Jesus e com o esquema mental que forma a língua materna semítica é que se dirige e relaciona com Deus. O próprio Paulo o recorda na sua carta aos Romanos, quando refere que ‘…recebestes um espírito de adopção pelo qual chamamos:’Abba, Pai!” (Romanos, 8: 15).

 

Acreditamos sinceramente que devolver o Novo Testamento ao estudo pré-grego acentuaria as extraordinárias semelhanças existentes entre a mensagem de Jesus e o Islão. Evitar isso seria o mesmo que dissimular a natureza semítica de Jesus, um acto que não apenas serve para aprofundar a distância entre os crentes, mas também que acabará por supor que o Cristianismo perde não apenas a Deus (Pai), com O Qual encerrou já o acesso devido às desnecessárias intermediações impostas pelo Cristianismo, mas que a perda será ainda mais terrível, ou seja, é o verdadeiro Jesus quem acabará desprovido da transcendência e, portanto, da Revelação, acabando transformado num ‘ídolo da razão’, o que converterá definitivamente a vossa crença numa religião materialista. A nossa proposta é a de que vos volteis para a oração de Jesus: ‘Pai Nosso…’, ‘Abbá…’ Que grave perda foi para o Cristianismo cimentar a teologia à margem da oração de Jesus e viver em permanente contradição!

 

Qual é o conflito entre a razão e a transcendência? Acreditamos que a tua aula apresenta algum desacordo relativamente a este tema, apesar do mestre de Tomás de Aquino ter sido um Muçulmano Hispânico, Averróes.

 

Baseias toda a Dogmática no ‘mistério’. A transubstanciação é um mistério, todos os sacramentos são um mistério, a Virgindade de Maria é um mistério, a concepção de Maria é um mistério, a humanidade e a divindade de Jesus, perfeitamente equilibradas, são um mistério, a Trindade…é um mistério. Nós partilhamos convosco alguns desses mistérios, especialmente no que se refere a Maria; contudo, como nos explicareis a Trindade com a razão? Como se pode explicar o mistério do amor de Deus tendo a razão como única arma? Como podeis explicar todos os mistérios da fé católica, a não ser recorrendo a um Deus transcendente? É possível medir Deus? Nem mesmo o rosto humano de Deus poderia ter explicação, se é que a tem, sem um Deus transcendente.

 

Por último, dizes ‘que o Islão se propagou pela espada’.

 

Na realidade, acreditamos que o fazes para esconder a tua profunda admiração para com a nossa fé, para com a nossa adoração perseverante e intensa. Uma fé inquebrável, que faz com te perguntes, sem encontrar respostas convincentes, porque são tão poucos os Muçulmanos que se convertem ao Cristianismo, e tantos e tantos aqueles que, depois de terem sido Cristãos praticantes, reconhecem no Islão a nossa própria constituição enquanto seres humanos, o nosso lugar no Cosmos. A verdade é que custa, quando se é Cristão, ver como as Mesquitas estão cheias todas as sextas-feiras, de homens e de mulheres de todas as idades, com as frontes junto ao solo, prostradas na mais sincera atitude de aceitação da vontade de Deus. O que chama especialmente a atenção é que estes participantes são sobretudo homens, sendo que a sua grande maioria é composta por jovens. E as Igrejas encontram-se vazias, apenas as mulheres, especialmente as já de idade, poucas ainda com um véu ou lenço na cabeça, rezam, espalhadas pelos bancos solitários. É duro. Sabem-no muito bem, aqueles que entre nós, que já foram Católicos e que durante muitos anos serviram à Igreja. É lamentável, inclusive, que os dois únicos jejuns obrigatórios da Igreja (a pão e água) sejam cumpridos por tão poucos paroquianos, enquanto que mais de 1500 milhões de pessoas fazem um jejum total, de sol a sol, durante os abençoados trinta dias do Ramadão, mês mais sagrado do Islão, que irá entrar dentro de três dias. A pergunta que possivelmente deverias fazer é a seguinte: o que há no interior dos corações desses crentes? Fanatismo…ou a pura e simples experiência de Deus?

 

É possível que, 1400 anos depois das supostas conquistas Islâmicas, quem tenha professado a fé pela espada, continue hoje a fazê-lo com este imenso fervor? O único lugar do mundo Islâmico onde não foi possível prosseguir com estas impressionantes demonstrações de amor a Deus, foi na Espanha Andaluza, pois aí teve lugar um genocídio religioso brutal, cometido por Católicos contra Muçulmanos e Judeus por meio da espada, muito mais forte, violento e sanguinário. Uma espada que se ergue de novo, e cuja sombra não deveria confundir-se com a cruz de Nosso amado Jesus, filho de Maria.

 

Diz-se e lê-se por aí que o “Papa sabe que uma guerra religiosa é uma maneira excelente de recuperar o Cristianismo. O Islão radical está a dar-lhe uma oportunidade. As desculpas são apenas poeira para os olhos. E preciso reunir os rebanhos quando os lobos andam por perto, e o pastor sabe disso…”. Espero e apelo que não deixes que, isso que se diz e se lê, se torne verdade verdadeira.

 

Irmão Bento, não receies o Deus transcendente que adoramos. Não receies o abismo. Se de facto a tua fé é um acto de confiança plena, saltarás, sem duvidar, no vazio do Deus Único. Reflecte e medita se talvez a vossa fé não é uma fé presente e tomada, em que, por um impulso da natural debilidade humana permanecereis na borda do precipício, refugiados na imagem humana de Deus, da qual conseguis a segurança que vos falta para que vos entregueis plenamente a Ele.

 

A nossa fé, salvaguardadas pequenas diferenças, assemelha-se à de Francisco de Assis, João da Cruz ou Teresa de Ávila, todos eles justos e conhecedores da tradição espiritual Islâmica chamada sufismo, praticantes de uma fé despojada, numa fé que se eleva no bonito salto no vazio da imensidão de Deus para conhecer por fim que apenas Deus basta, que apenas Deus existe, que apenas Allah existe…

 

Porque recear então?

 

Allah ama-te, irmão Bento.

Que a Sua Misericórdia derrame abundantemente sobre ti e sobre a Igreja. E, da nossa parte, Paz.

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Said ibn Aamir al-Jumahi (R.A.)

Said ibn Aamir al-Jumahi foi um dos milhares que partiu para a região de Tanim, nos arredores de Meca (ár. Makkah), convidado pelos dirigentes Coraixitas para assistir ao assassínio de Khubayb ibn Adiy, um dos companheiros de Muhammad (que Allah derrame bênçãos e paz sobre ele) que eles tinham capturado traiçoeiramente.

Com a sua exuberante juventude e vigor, Said empurrava procurando caminho através da multidão até alcançar os dirigentes Coraixitas, homens como Abu Sufyan ibn Harb e Safwan ibn Umayyah, que comandavam a procissão.

Agora ele podia ver o prisioneiro dos Coraixitas acorrentado, as mulheres e as crianças empurrando-o para o lugar preparado para a sua morte. A morte de Khubayb seria a vingança pelas perdas dos Coraixitas na batalha de Badr.

Quando a multidão chegou com o prisioneiro ao lugar marcado, Said ibn Aamir escolheu a sua posição num ponto elevado para observar Khubayb enquanto ele se aproximava da cruz de madeira. De lá, ele podia ouvir a voz firme, mas calma, de Khubayb, no meio dos gritos das mulheres e das crianças:

“Se puderem, deixem-me rezar dois rakaats antes de morrer”. Isto os Coraixitas permitiram.

Said olhou para Khubayb enquanto este voltava a face para a Caaba (ár. Kaabah) e rezava. Quão maravilhosos e tranquilizantes pareciam aqueles dois rakaats! Depois ele viu Khubayb voltando-se para os dirigentes Coraixitas: “Por Deus, se pensaram que eu pedi para rezar com medo da morte, vou pensar que a oração não valeu o trabalho”, disse ele.

Said viu depois o seu povo começar a desmembrar o corpo de Khubayb enquanto ele ainda estava vivo e a escarnecer dele.

“Gostarias que Muhammad estivesse no teu lugar enquanto tu ficavas em liberdade”?

Com o sangue escorrendo, ele respondeu: “Por Deus, eu não ia querer salvar-me e ficar em segurança com a minha família enquanto um espinho ferisse Muhammad”. O povo agitou os seus punhos no ar e gritando acrescentou: “Matem-no. Matem-no”!

Said viu Khubayb erguer os seus olhos para os céus por cima da cruz de madeira. “Conta-os todos, ó Senhor”, disse ele. “Destrói-os a todos e não deixes que escape algum”.

Depois disso, Said não conseguiu contar quantas lanças e espadas trespassaram o corpo de Khubayb.

Os Coraixitas voltaram para Meca e, nos dias cheios de acontecimentos que se seguiram, eles esqueceram Khubayb e a sua morte. Mas Khubayb nunca saiu do pensamento de Said, aproximando-se agora do espírito da natureza humana. Said via-o em sonhos enquanto dormia e visualizava Khubayb à sua frente rezando os seus dois “rakaats”, calmo e resignado, diante da cruz de madeira. E ele ouvia o eco da voz de Khubayb enquanto ele rezava para que os Coraixitas fossem punidos. Ele ficava com medo que um trovão que caísse do céu ou alguma calamidade o atingisse mortalmente.

Khubayb, com a sua morte, ensinara a Said aquilo que ele não tinha percebido anteriormente – a vida real era a fé e a convicção, e lutar no caminho da fé, mesmo até à morte. Também lhe ensinou que a fé que é profundamente tingida numa pessoa opera maravilhas e faz milagres. Ensinou-lhe ainda algo mais, que o homem que é amado por seus companheiros com um tal amor como o de Khubayb só podia ser um Profeta com apoio Divino.

Assim estava aberto o coração de Said para o Islão (ár. “Içlam”). Ele levantou-se na Assembleia dos Coraixitas e anunciou que era responsável pelos seus pecados e aflições. Ele renunciou aos seus ídolos e às suas superstições e proclamou a sua entrada na religião de Deus.

Said ibn Aamir migrou para Medina (ár. “Madinah”) e juntou-se ao Profeta Muhammad (que Allah derrame bênçãos e paz sobre ele). Ele tomou parte com o Profeta na batalha de Khaybar e noutras batalhas seguintes. Depois do Profeta ter falecido com a protecção do seu Senhor, Said continuou a fazer um serviço activo sob as ordens dos seus dois sucessores, Abu Bakr e Umar. Viveu uma vida única e exemplar do crente que consegue obter a Vida Futura com este mundo. Procurou a satisfação e bênçãos de Deus, acima dos desejos egoístas e prazeres corporais.

Abu Bakr e Umar conheciam bem Said pela sua honestidade e piedade. Eles ouviriam o que quer que ele tivesse para dizer e seguiriam o seu conselho. Uma vez, Said foi ter com Umar no início do seu Califado e disse:

“Aconselho-te a temer a Deus quando lidares com o povo e não temeres o povo na tua relação com Deus. Não deixes que as tuas acções se desviem das tuas palavras, pois o melhor dos discursos é aquele que é confirmado pelos actos. Considera aqueles que foram escolhidos para os assuntos dos Muçulmanos, em alto grau e como íntimos. Deseja para eles aquilo que gostas para ti próprio e para a tua família e não desejes para eles aquilo que desgostarias para ti próprio e para a tua família. Supera qualquer obstáculo para alcançar a verdade e não despedaces as críticas daqueles que criticam as matérias prescritas por Deus”.

“Quem pode avaliar isso (cabalmente), Said”? perguntou Umar. “Um homem como tu, de entre aqueles que Deus escolheu para os assuntos da Ummah (Povo, Comunidade) de Muhammad (s.a.w.) e que se sente responsável para com Deus só”, respondeu Said.

“Said”, disse ele, “eu nomeio-te para seres governador de Homs (na Síria)”. “Umar”, alegou Said, “eu suplico-te por Deus, não me obrigues a desviar-me do caminho preocupando-me com assuntos mundanos”.

Umar ficou aborrecido e disse:

“Colocaste em mim a responsabilidade do califado e agora abandonas-me.” “Por Deus, eu não te abandonarei”, respondeu Said rapidamente.

Umar nomeou-o governador de Homs e ofereceu-lhe uma gratificação. “O que devo fazer com isto, ó Amir al Muminin”? Perguntou Said. “O salário proveniente dos haveres do “al-mal” (tesouro) será mais que suficiente para as minhas necessidades”. Dizendo isto, ele prosseguiu para Homs.

Não muito tempo depois, uma delegação de Homs, composta por pessoas da confiança do Califa Umar (r.a.), veio visitá-lo a Madinah. Ele pediu-lhes que escrevessem os nomes dos pobres para que pudesse aliviar as suas necessidades. Prepararam-lhe uma lista onde o nome de Said ibn Aamir aparecia.

“Quem é este Said ibn Aamir”? Perguntou Umar.

“É o nosso amir (chefe – governador)”, responderam eles.

“O vosso amir é pobre”? indagou Umar, confuso.

“Sim”, afirmaram eles, “Por Deus, inúmeros dias se passam sem se acender o fogo na sua casa”.

Umar ficou muito comovido e choroso. Ele pegou em mil dinares, colocou-os numa carteira e disse:

“Levai-lhe os meus cumprimentos e dizei-lhe que o Amir al Muminin lhe mandou este dinheiro para o ajudar a cuidar das suas necessidades”.

A delegação foi ter com Said com a carteira. Quando ele descobriu que continha dinheiro, começou a repeli-lo, dizendo: “De Deus proviemos e a Ele certamente voltaremos”.

Disse-o de tal maneira que parecia que alguma desgraça tinha caído sobre ele. A sua esposa alarmada correu para ele e perguntou: “O que se passa, Said? Morreu o Califa (ár. Khalifah)”?

“É algo muito pior que isso”.

“Os Muçulmanos foram derrotados na batalha”?

“Algo muito pior que isso. O mundo veio a mim para corromper o meu dia de amanhã e criar a desordem na minha casa”.

“Então vê-te livre disso”, disse ela, não sabendo nada sobre os dinares.

“Queres ajudar-me nisso”? Perguntou ele.

Ela concordou. Ele pegou nos “dinares”, colocou-os em sacos e distribuiu-os pelos Muçulmanos pobres.

Não muito tempo depois, o Califa Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) foi à Síria para examinar as condições de lá. Quando chegou a Homs que era chamado “o pequeno Kufah”, porque, como Kufah, os seus habitantes se queixavam muito dos seus dirigentes, ele perguntou o que pensavam eles do seu Amir. Eles queixaram-se dele mencionando quatro das suas acções, cada uma mais séria que a outra.

“Vou reunir-vos com ele”, prometeu Umar.

“E vou rezar a Deus para que a minha opinião sobre ele não fique danificada. Eu costumava confiar muito nele”.

Quando o encontro foi convocado, o Califa Umar (r.a.) perguntou quais eram as queixas que eles tinham.

“Ele só sai para vir ter connosco quando o sol já vai alto”, disseram eles.

“O que tens a dizer a respeito disto, Said”? Perguntou Umar.

Said ficou silencioso por um momento, depois disse: “Por Deus, eu realmente não queria dizer isto mas parece que não há outra saída. A minha família não tem quem ajude em casa, por isso eu tenho que me levantar todas as manhãs e preparar a massa de farinha para o pão. Espero um pouco até que suba e fique o pão cozido no forno, para eles. Depois faço wudu e vou ter com o povo”.

“Qual é a vossa outra queixa “? Perguntou Umar.

“Ele não responde a ninguém à noite”, disseram eles.

Sobre isto Said disse relutantemente: “Por Deus, eu gostaria de não ter que revelar isto também, mas eu tenho deixado o dia para eles e a noite para Deus – Grande e Sublime Ele é”.

“Então qual é a vossa outra queixa dele”? Perguntou Umar.

“Ele não passa connosco um dia em cada mês”, disseram eles.

Sobre isto Said replicou: “Eu não tenho quem ajude em casa, ó Amir al-Muminin, e não tenho mais roupa alguma a não ser esta que trago comigo. Esta, eu lavo-a uma vez por mês e espero que ela seque. Depois saio quando o dia está a acabar”.

“Mais alguma queixa dele”? Perguntou Umar.

“De tempos a tempos ele desmaia nas reuniões”, disseram eles.

A isto Said respondeu: “Eu testemunhei a morte de Khubay Adiy quando eu era um mushrik (politeísta). Eu vi os Coraixitas trespassando-o e dizendo: `Gostarias que Muhammad estivesse no teu lugar?` ao que Khubayb respondeu: `Eu não ia querer salvar-me e ficar em segurança com a minha família enquanto um espinho ferisse Muhammad`. Por Deus, sempre que me lembro disso e da maneira como falhei quando lhe ia prestar auxílio, eu apenas penso que Deus não me perdoará e eu desmaio”.

Em consequência disto, Umar disse: “Louvado seja Deus. A minha impressão sobre ele não foi manchada”.

Mais tarde ele enviou mil dinares a Said para o ajudar. Quando a sua esposa viu a quantia disse: “Louvado seja Deus que nos enriqueceu por seu serviço. Compra-nos alguns mantimentos e procura quem nos ajude em casa”.

“Não há uma forma de o gastar melhor”? Perguntou Said. “Vamos gastá-lo em quem vier recorrer a nós e faremos melhor assim dedicando isto a Deus”. “Isso será melhor”, concordou ela.

Ele colocou os “dinares” em pequenos sacos e disse a um membro de sua família: “Leva isto à viúva deste e daquele, e aos órfãos de tal pessoa, para os pobres daquela família e para os indigentes da família daquela pessoa”.

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Carta de Jean-Moise Braitberg

Jean-Moise Braitberg

Escritor judeu, ao presidente de Israel
Apaguem o nome do meu avô em Yad Vashem

Nesta carta ao presidente de Israel, Jean-Moise Braitberg, escritor judeu, a quem foi assassinado o avô em Treblinka, deportado com outros familiares em campos de concentração pede ao presidente de Israel que retire o nome dos seus familiares do Memorial em Israel, dedicado à memória das vítimas judias do nazismo.

Senhor Presidente do Estado de Israel

Escrevo-lhe pedindo-lhe que intervenha junto de quem de direito, para que seja retirado do Memorial de Yad Vashem, dedicado à memória das vítimas judias do nazismo, o nome do meu avô, Moshe Brajtberg, gaseado em Treblinka em 1943, assim como os dos outros membros da minha família mortos na deportação em diferentes campos nazis durante a II Guerra Mundial. Peço-lhe que atenda o meu pedido, senhor presidente, porque o que se passou em Gaza e dum modo geral, a sorte reservada ao povo árabe da Palestina desde há sessenta anos, a meu ver, desqualifica Israel como centro da memória do mal feito aos judeus, e portanto, a toda a Humanidade.

Veja, vivi desde a minha infância rodeado de sobreviventes dos campos da morte. Vi os números tatuados nos braços, ouvi os relatos das torturas; conheci os lutos impossíveis e partilhei os seus pesadelos.

Ensinaram-me que é necessário que estes crimes jamais se repitam; que jamais um homem, sentindo-se superior pela sua pertença a uma etnia ou a uma religião, despreze outro, o ultraje nos seus direitos mais elementares, que são uma vida digna em segurança, a ausência de entraves, e a esperança, por mais longínqua que seja, dum futuro de serenidade e de prosperidade.

Ora, senhor presidente, observo que, apesar das muitas dezenas de resoluções decididas pela comunidade internacional, apesar da gritante evidência da injustiça cometida contra o povo palestiniano desde 1948, apesar das esperanças nascidas em Oslo e apesar do reconhecimento do direito dos judeus israelitas a viver em paz e segurança, muitas vezes reafirmado pela Autoridade palestiniana, as únicas respostas dos sucessivos governos do seu país têm sido a violência, o sangue derramado, o encarceramento, os controlos incessantes, a colonização, as espoliações.

Dir-me-á, senhor presidente, que é legítimo, ao seu país, defender-se contra os que lançam roquetes sobre Israel, ou contra os kamikazes que arrastam consigo nu

merosas vidas israelitas inocentes. A isto responder-lhe-ei que o meu sentimento de humanidade não varia conforme a nacionalidade das vítimas.

Pelo contrário, senhor presidente, o senhor dirige os destinos de um país que pretende, não só representar todos os judeus, mas também a memória dos que foram vítimas do nazismo. Isso é que me diz respeito e que me é insuportável. Mantendo no Memorial de Yad Vashem, no coração do Estado judeu, o nome dos meus próximos, o seu Estado retém a minha memória familiar prisioneira detrás do arame farpado do sionismo, para a tornar refém de uma pretensa autoridade moral que comete todos os dias a abominação que é a negação de justiça [1]

Assim sendo, faça o favor de retirar o nome do meu avô do santuário dedicado à crueldade feita aos judeus, de modo que não sirva para continuar a justificar a que é feita aos palestinianos.

Queira aceitar, senhor presidente, a minha respeitosa consideração.

Notas:

[1] No original “déni de justice”, que na língua francesa tem o significado de recusa, pelo Juiz ou pelo Tribunal, de realizar o acto de justiça, que é parte integrante da sua função (N.T.)

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Aamir ibn Abdullh ibn al-Jarrah (r.a.) – conhecido como Abu Ubaydah

Traduzido e adaptado por: M. Yiossuf Adamgy

A sua aparência era impressionante. Era magro e alto. Tinha a face luminosa e uma barba dispersa. Era agradável olhar para ele e vivificante conhecê-lo. Extremamente cortês e humilde, e um pouco tímido. Todavia, numa situação dura, tornava-se tremendamente sério e alerta, parecendo a lâmina cintilante duma espada com a sua severidade e agudeza.

Ele era descrito como o Amin ou Guarda da Comunidade de Muhammad (s.a.w. = paz e bênçãos de Deus estejam com ele). De seu nome completo Aamir ibn Abdullh ibn al-Jarrah (r.a.), era conhecido como Abu Ubaydah. A seu respeito disse Abdullah ibn Umar (r.a.), um dos companheiros do Profeta (s.a.w.):

“Não encontrarás povo algum que creia em Deus e no Dia do Juízo Final, que tenha relações com aqueles que contrariam Deus e o seu Mensageiro, ainda que sejam seus pais ou seus filhos, seus irmãos ou parentes. Para aqueles, Deus lhes firmou a fé nos corações e os confortou com o Seu Espírito, e os introduzirá em jardins, sob os quais correm os rios, onde habitarão eternamente. Deus está bem contente com eles, e eles estão bem contentes com Ele. Eles são o partido de Deus. Não é o partido de Deus que prospera?” (58:22).

A resposta de Abu Ubaydah em Badr quando confrontado por seu pai não foi inesperada. Ele tinha obtido uma força de fé em Deus, devoção à sua religião e um nível de interesse pela ummah de Muhammad (s.a.w.) que eram aspirados por muitos.
É relatado por Muhammad ibn Jafar (r.a.), um companheiro do Profeta (s.a.w.), que uma delegação Cristã veio ter com o Profeta e disse:

“Ó Abu-l Qassim, manda um dos teus companheiros connosco, um em quem tu estejas bem satisfeito, para julgar entre nós sobre questões peculiares com as quais discordamos. Temos uma elevada consideração pelo povo Muçulmano”.
“Vinde ter comigo esta noite”, respondeu o Profeta, “e eu vos mandarei um que é forte e merecedor de confiança”.

Umar ibn al-Khattab (r.a.) ouviu o Profeta dizer isto e mais tarde disse: “Eu fui cedo ao Zuhr (Oração do Meio-Dia) esperando desde logo ser aquele que corresponderia à descrição do Profeta. Quando o Profeta terminou a Oração, ele começou a olhar para a direita e para a esquerda, e eu levantei-me para que ele me pudesse ver. Mas ele continuou olhando entre nós até parar em Abu Ubaydah ibn al-Jarrah (r.a.). Ele chamou-o e disse: `Vai com eles e julga entre eles com verdade sobre aquilo em que estão em desacordo’. E assim Abu Ubaydah conseguiu a nomeação”.

Abu Ubaydah não era apenas merecedor de confiança. Ele manifestava muito empenho no cumprimento do seu cargo. Este empenho foi demonstrado em várias ocasiões.

Um dia o Profeta enviou um grupo de seus Sahabah (Companheiros) para encontrar a caravana dos Coraixitas. Ele nomeou Abu Ubaydah como amir (líder) do grupo e deu-lhes um saco de tâmaras e nada mais como provisão. Abu Ubaydah deu a cada homem sob seu comando apenas uma tâmara por dia: chuparia essa tâmara como uma criança chupa no peito de sua mãe. Beberia depois alguma água e isso seria suficiente durante todo o dia.

No dia de Uhud, quando os Muçulmanos estavam a ser derrotados, um dos muchrikin começou a gritar: “Mostrem-me Muhammad, mostrem-me Muhammad”. Abu Ubaydah foi um dos dez Muçulmanos que cercara o Profeta para o proteger das lanças dos muchrikin. Quando a batalha terminou, descobriu-se que um dos dentes molares do Profeta estava partido, a sua testa tinha levado pancadas e dois dos discos do seu escudo tinham penetrado nas suas faces. Abu Bakr correu apressadamente com a intenção de extrair os discos mas Abu Ubaydah disse:

“Por favor, deixa isso comigo”.

Abu Ubaydah tinha medo que ele pudesse causar dor ao Profeta se retirasse os discos com a sua mão. Ele puxou fortemente com os dentes um dos discos, que conseguiu extrair, mas um dos seus dentes incisivos caiu ao chão durante o processo. Com o outro incisivo, extraiu o outro disco mas perdeu também esse dente. Abu Bakr fez a seguinte observação: “Abu Ubaydah é o melhor dos homens a partir dentes incisivos”.

Abu Ubaydah continuou a envolver-se completamente em todos os importantes acontecimentos durante a vida do Profeta. Depois do amado Profeta ter falecido, os companheiros reuniram-se para escolher um sucessor no Saqifah, ou ponto de encontro de Banu Saadah. O dia é conhecido na história como o Dia de Saqifah. Neste dia, Abu Bakr as-Siddiq (r.a.) disse a Abu Ubaydah (r.a.):

“Estende-me a tua mão e eu juro fidelidade a ti, pois eu ouvi o Profeta, que a paz esteja com ele, dizer: “Toda a ummah tem um guarda e tu és o guarda desta ummah”.

“Eu não vou”, declarou Abu Ubaydah, “pôr-me em evidência na presença de um homem, a quem o Profeta, que a paz esteja com ele, ordenou que nos dirigisse na Oração e que nos dirigiu mesmo até à morte do Profeta”.

Ele fez então o juramento de fidelidade a Abu Bakr as-Siddiq. Continuou a ser um conselheiro íntimo de Abu Bakr e seu forte apoiante na causa da verdade e da virtude. Depois surgiu o Califado de Umar, e Abu Ubaydah deu-lhe igualmente o seu apoio e obediência. Não lhe desobedeceu em nenhum assunto, excepto num.

O incidente aconteceu quando Abu Ubaydah se encontrava na Síria liderando as forças Muçulmanas duma vitória a outra até a totalidade da Síria se encontrar sob o controlo Muçulmano. O rio Eufrates dispunha-se à sua direita e a Ásia Menor à sua esquerda. Foi então que uma praga atacou a terra de Síria, como nunca ninguém tinha visto antes. Devastou a população. O Califa Umar enviou um mensageiro para Abu Ubaydah com uma carta que dizia: “Preciso de ti urgentemente. Se a minha carta chegar a ti de noite, solicito-te veementemente para que partas antes da madrugada. Se esta carta chegar a ti durante o dia, solicito-te veementemente para que partas antes do anoitecer e venhas ter comigo depressa”.

Quando Abu Ubaydah recebeu a carta do Califa Umar (r.a.), ele disse: “Sei porque o Amir al-Muminin precisa de mim. Ele quer preservar a sobrevivência daquele que, contudo, não é eterno”.Então ele escreveu a Umar:

“Eu sei que precisas de mim. Mas eu estou num exército de Muçulmanos e não desejo salvar-me daquilo que os aflige. Não me quero separar deles até à vontade de Deus. Por isso, quando esta carta chegar a ti, liberta-me da tua ordem e dá-me permissão para aqui ficar”.

Quando Umar leu esta carta os seus olhos encheram-se de lágrimas e aqueles que estavam com ele perguntaram: “Abu Ubaydah morreu, ó Amir al-Muminin?”

“Não”, disse ele. “Mas a morte anda perto dele”.

A intuição de Umar não estava errada. Em pouco tempo, Abu Ubaydah foi afectado pela praga. Enquanto a morte o rodeava ele falou ao seu exército:

“Deixem-me dar-vos alguns conselhos que vos conduzirão sempre pelo caminho da bondade. Estabelecei a Oração. Jejuai no mês de Ramadan. Dai Sadaqah. Fazei Hajj e Umrah. Permanecei unidos e apoiei-vos uns aos outros. Sejais sinceros com vossos chefes e não escondei nada deles. Não deixeis o mundo destruir-vos pois mesmo que o homem vivesse mil anos ele acabaria sempre neste estado que vedes em mim. Que a paz e a misericórdia de Deus estejam convosco”.

Abu Ubaydah virou-se então para Muadh ibn Jabal e disse: “Ó Muadh, faz a Oração com o povo (sê o seu líder)”. Aí, a sua pura alma partiu. Muadh levantou-se e disse:

“Ó Povo! Vós estais impressionados com a morte de um homem. Por Deus, eu não sei se alguma vez terei visto um homem com um coração mais justo, que estivesse além de todo o mal e que fosse mais sincero para o povo que ele. Pedí a Deus que derrame a Sua misericórdia sobre ele e Deus será misericordioso convosco”.