Posted on

O que quer Israel?

Por Carlos Peixoto, jornalista e editor do “Tribuna do Norte “, jornal de Natal, Rio Grande do Norte

A mais recente agressão militar de Israel contra Gaza, desencadeada no dia 27 do mês passado, tão logo foi anunciado o acordo entre as lideranças das principais facções palestinas em torno do chamado ‘Plano dos Prisioneiros’ – que entre outras coisas leva ao reconhecimento do Estado judeu -, surpreende e estarrece apenas àqueles que esqueceram a história. As supostas ‘razões de segurança e autodefesa’, alegadas agora pelo primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, mostram que nada mudou nos objectivos e na acção política dos israelitas desde os tempos de Ben-Gurion.

O ponto central desses objectivos é a ideia por trás de todo o movimento sionista: a ocupação e manutenção do domínio de todas as terras entre a margem leste do Jordão e o Mediterrâneo, exclusivamente para os colonos judeus . A linha mestra da estratégia usada para alcançá-los foi fixada há mais de 70 anos, quando no final da década de 30 do século passado Ben-Gurion reflectia sobre as alternativas de expulsão de todos os árabes da Palestina e considerava que ‘aquilo que é inconcebível em tempos normais torna-se possível em períodos revolucionários; e se neste momento a oportunidade é perdida e o que é possível nestes momentos de exaltação não vem a ser concretizado, todo um mundo é perdido’ (Shabtai Teveth, Ben-Gurion and the Palestinian Arabs). O instrumento por excelência para o Estado judeu pôr em prática essas ideias sempre foi a força, reservando-se a atuação política apenas para justificar o uso e os resultados obtidos.

Um breve retrospecto de apenas três episódios, na história do conflito Israel/Palestina, são ilustrativos de como o sionismo soube adaptar essa orientação às várias circunstâncias político-militares que se apresentaram.

Um: em 1948, Israel aproveitou-se do ‘clima revolucionário’ da primeira guerra árabe-israelense e recorreu aos massacres em massa e à intimidação psicológica para expulsar populações inteiras de aldeias e cidades palestinas (Ein az Zeitun, Lydda, Deir Yassin, Haifa, Acre e outras), alegando que quebrar a resistência civil era uma necessidade de autodefesa essencial à sobrevivência do novo Estado.

Dois: o mesmo argumento foi reutilizado em 1967, quando Israel levou a contra-ofensiva para além das fronteiras judaicas estabelecidas pela ONU e expandiu o seu território até o litoral e sobre o Sinai.

E, três: em 1982, quando para sabotar os esforços de paz iniciados por Yasser Arafat e a OLP, invadiu o Líbano.

Analistas menos atentos à política de expansão e domínio israelita poderão conjecturar que os ‘acordos de paz’ de Oslo I (1993) e Oslo II (1995) constituem interrupções nesta seqüência e/ou mudanças na estratégia sionista. Mas essa é uma observação que pode ser tida como verdadeira apenas pela metade. Os acordos de Oslo, efectivamente, representam uma troca da opção sionista original – a ‘expulsão’ pura e simples dos árabes palestinos – pela ‘via do apartheid’. Como já foi descrito por inúmeros críticos de Oslo e constatado pela opinião pública internacional, os acordos não resultaram em nenhuma ‘autonomia real’ palestina nos ‘bolsões’ da Cisjordânia e de Gaza onde se instalaram os representantes da ANP criada por Arafat/Rabin. Nestes territórios, a Justiça, o abastecimento de água e de eletricidade, o recolhimento de impostos e o tráfego de mercadorias, veículos e pessoas continuam sob controle israelita. A segregação dos palestinos gerou uma situação de colapso económico, condições sanitárias precárias nas cidades, falhas nos serviços públicos e, por último, mas não com menor intensidade, de corrupção dos dirigentes e de revolta entre os jovens (as duas Intifadas foram expressões de tudo isso). O modelo preconizado por Oslo tem sua melhor representação histórica no antigo regime sul-africano, mas na prática foi muito além dele, uma vez que Israel não abriu mão do terrorismo estatal que viabiliza milhares de prisões arbitrárias e assassinatos de líderes palestinos. Em última circunstância, é melhor ser palestino em qualquer outra parte do mundo do que em Ramallah, o que na prática é uma ‘sugestão psicológica’ extremamente eficaz para se ir embora. Além disso, a troca de opção que esse modelo representou, por um breve período de tempo, parece estará chegar ao fim.

Antes mesmo das eleições de Dezembro de 2005, quando o Hamas assumiu pelo voto a maioria no Parlamento palestino e nomeou Ismail Haniyeh primeiro-ministro, Israel já vinha sinalizando que preferia descartar a presença de uma ANP ‘autêntica’ nos territórios. A invasão da Cisjordânia em Março/Abril de 2002 e o cerco a Arafat em Ramallah, mantido até a sua morte em Novembro de 2004, foi um marco significativo. O nome militar com que a invasão foi batizada – ‘Operação Escudo de Defesa’ – escondia, na realidade, o objectivo político de sufocar a ANP e inviabilizar a construção de um Estado palestino independente. O desmantelamento de algumas colónias em Gaza e na Cisjordânia, tampouco significa devoluções reais de territórios. As áreas desocupadas – e ainda assim, interditadas aos palestinos – não dão a ANP em ‘autonomia política e auto-suficiência económica’ qualquer ganho real. O desmantelamento foi, apenas, mais uma ‘representação midiática’ montada pelos israelitas. Assim como, agora – reocupando Gaza, destruindo equipamentos de infra-estrutura, estações de fornecimento de energia elétrica e prendendo, sem amparo legal, dezenas de líderes palestinos eleitos pelo voto direto – Israel se furta a examinar e dar uma resposta, perante a opinião pública internacional, a mais significativa iniciativa de paz dos últimos anos para a Palestina.

O chamado ‘Plano dos Prisioneiros’, para o qual o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, conseguiu a aprovação do primeiro-ministro Ismail Haniyeh apenas 24 horas antes dos ataques israelitas, têm os seguintes pontos:

– o povo palestino trabalha para a libertação de sua terra e a realização de seus direitos à liberdade, ao retorno dos refugiados, à independência e à autodeterminação para a criação de seu Estado independente em todos os territórios ocupados em 1967, com Jerusalém como capital.

– a aceleração da aplicação de tudo o que foi assinado (durante o diálogo entre palestinos) no Cairo, em março de 2005, no que diz respeito à modernização e à reativação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a adesão do Hamas e da Jihad a esta organização como único representante legítimo do povo palestino.

– a fidelidade ao direito do povo palestino de resistir por todos os meios e a centralização da resistência em todos os territórios ocupados em 1967, enquanto as negociações e a acção política e diplomática continuam.

– a protecção e o fortalecimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), que é o núcleo do futuro Estado.

– a formação de um governo de união nacional sobre uma base que garanta a participação de todos os grupos parlamentares, sobretudo o Fatah e o Hamas.

– as negociações com Israel competem à OLP e ao presidente da ANP com a condição de que todo acordo crucial seja aprovado pelo Conselho Nacional Palestino (CNP, o Parlamento da OLP) ou submetido a referendo.

– rechaçar o lugar injusto imposto pelos Estados Unidos e Israel contra o nosso povo e convocar os povos e o governo árabe a apoiar o povo palestino, a OLP e a ANP.

– a recusa das divisões e das divergências, assim como da proscrição do uso das armas entre palestinos, independentemente da razão.

– a necessidade de reformar e modernizar o aparelho de segurança palestino para permitir-lhe defender a pátria e os cidadãos contra as agressões e a ocupação, garantir a segurança e a ordem e acabar com a anarquia em matéria de segurança.

O texto do plano foi elaborado por Marwan Barghuti, o chefe do Fatah na Cisjordânia, Abdeljaleq al Atche, um alto dirigente do Hamas, Abdelrahim Maluh, número dois da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Bassam al Aadi, um dirigente do grupo extremista Jihad Islâmico, e Mustafah Bardarneh, da Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP). Todos eles estão detidos em prisões israelitas.·

Que um grupo de prisioneiros palestinos tome tal iniciativa (a simples menção de Israel no documento implica, na prática, no reconhecimento legal do Estado judeu por todos os signatários) e que essa iniciativa seja obliterada, na política e na mídia, por uma acção violenta do governo que os mantêm presos, diz muito do que se pode esperar da ‘política de boa-vontade’ israelita em relação à paz.

Posted on

Agressão militar de Israel contra Gaza

A mais recente agressão militar de Israel contra Gaza, desencadeada no dia 27 do mês passado, tão logo foi anunciado o acordo entre as lideranças das principais facções palestinas em torno do chamado ‘Plano dos Prisioneiros’ – que entre outras coisas leva ao reconhecimento do Estado judeu -, surpreende e estarrece apenas àqueles que esqueceram a história. As supostas ‘razões de segurança e autodefesa’, alegadas agora pelo primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, mostram que nada mudou nos objectivos e na acção política dos israelitas desde os tempos de Ben-Gurion.

O ponto central desses objectivos é a ideia por trás de todo o movimento sionista: a ocupação e manutenção do domínio de todas as terras entre a margem leste do Jordão e o Mediterrâneo, exclusivamente para os colonos judeus . A linha mestra da estratégia usada para alcançá-los foi fixada há mais de 70 anos, quando no final da década de 30 do século passado Ben-Gurion reflectia sobre as alternativas de expulsão de todos os árabes da Palestina e considerava que ‘aquilo que é inconcebível em tempos normais torna-se possível em períodos revolucionários; e se neste momento a oportunidade é perdida e o que é possível nestes momentos de exaltação não vem a ser concretizado, todo um mundo é perdido’ (Shabtai Teveth, Ben-Gurion and the Palestinian Arabs). O instrumento por excelência para o Estado judeu pôr em prática essas ideias sempre foi a força, reservando-se a atuação política apenas para justificar o uso e os resultados obtidos.

Um breve retrospecto de apenas três episódios, na história do conflito Israel/Palestina, são ilustrativos de como o sionismo soube adaptar essa orientação às várias circunstâncias político-militares que se apresentaram.

Um: em 1948, Israel aproveitou-se do ‘clima revolucionário’ da primeira guerra árabe-israelense e recorreu aos massacres em massa e à intimidação psicológica para expulsar populações inteiras de aldeias e cidades palestinas (Ein az Zeitun, Lydda, Deir Yassin, Haifa, Acre e outras), alegando que quebrar a resistência civil era uma necessidade de autodefesa essencial à sobrevivência do novo Estado.

Dois: o mesmo argumento foi reutilizado em 1967, quando Israel levou a contra-ofensiva para além das fronteiras judaicas estabelecidas pela ONU e expandiu o seu território até o litoral e sobre o Sinai.

E, três: em 1982, quando para sabotar os esforços de paz iniciados por Yasser Arafat e a OLP, invadiu o Líbano.

Analistas menos atentos à política de expansão e domínio israelita poderão conjecturar que os ‘acordos de paz’ de Oslo I (1993) e Oslo II (1995) constituem interrupções nesta sequência e/ou mudanças na estratégia sionista. Mas essa é uma observação que pode ser tida como verdadeira apenas pela metade. Os acordos de Oslo, efectivamente, representam uma troca da opção sionista original – a ‘expulsão’ pura e simples dos árabes palestinos – pela ‘via do apartheid’. Como já foi descrito por inúmeros críticos de Oslo e constatado pela opinião pública internacional, os acordos não resultaram em nenhuma ‘autonomia real’ palestina nos ‘bolsões’ da Cisjordânia e de Gaza onde se instalaram os representantes da ANP criada por Arafat/Rabin. Nestes territórios, a Justiça, o abastecimento de água e de eletricidade, o recolhimento de impostos e o tráfego de mercadorias, veículos e pessoas continuam sob controle israelita. A segregação dos palestinos gerou uma situação de colapso económico, condições sanitárias precárias nas cidades, falhas nos serviços públicos e, por último, mas não com menor intensidade, de corrupção dos dirigentes e de revolta entre os jovens (as duas Intifadas foram expressões de tudo isso). O modelo preconizado por Oslo tem sua melhor representação histórica no antigo regime sul-africano, mas na prática foi muito além dele, uma vez que Israel não abriu mão do terrorismo estatal que viabiliza milhares de prisões arbitrárias e assassinatos de líderes palestinos. Em última circunstância, é melhor ser palestino em qualquer outra parte do mundo do que em Ramallah, o que na prática é uma ‘sugestão psicológica’ extremamente eficaz para se ir embora. Além disso, a troca de opção que esse modelo representou, por um breve período de tempo, parece estará chegar ao fim.

Antes mesmo das eleições de Dezembro de 2005, quando o Hamas assumiu pelo voto a maioria no Parlamento palestino e nomeou Ismail Haniyeh primeiro-ministro, Israel já vinha sinalizando que preferia descartar a presença de uma ANP ‘autêntica’ nos territórios. A invasão da Cisjordânia em Março/Abril de 2002 e o cerco a Arafat em Ramallah, mantido até a sua morte em Novembro de 2004, foi um marco significativo. O nome militar com que a invasão foi batizada – ‘Operação Escudo de Defesa’ – escondia, na realidade, o objectivo político de sufocar a ANP e inviabilizar a construção de um Estado palestino independente. O desmantelamento de algumas colónias em Gaza e na Cisjordânia, tampouco significa devoluções reais de territórios. As áreas desocupadas – e ainda assim, interditadas aos palestinos – não dão a ANP em ‘autonomia política e auto-suficiência económica’ qualquer ganho real. O desmantelamento foi, apenas, mais uma ‘representação midiática’ montada pelos israelitas. Assim como, agora – reocupando Gaza, destruindo equipamentos de infra-estrutura, estações de fornecimento de energia elétrica e prendendo, sem amparo legal, dezenas de líderes palestinos eleitos pelo voto direto – Israel se furta a examinar e dar uma resposta, perante a opinião pública internacional, a mais significativa iniciativa de paz dos últimos anos para a Palestina.

O chamado ‘Plano dos Prisioneiros’, para o qual o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, conseguiu a aprovação do primeiro-ministro Ismail Haniyeh apenas 24 horas antes dos ataques israelitas, têm os seguintes pontos:

– o povo palestino trabalha para a libertação de sua terra e a realização de seus direitos à liberdade, ao retorno dos refugiados, à independência e à autodeterminação para a criação de seu Estado independente em todos os territórios ocupados em 1967, com Jerusalém como capital.

– a aceleração da aplicação de tudo o que foi assinado (durante o diálogo entre palestinos) no Cairo, em março de 2005, no que diz respeito à modernização e à reativação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a adesão do Hamas e da Jihad a esta organização como único representante legítimo do povo palestino.

– a fidelidade ao direito do povo palestino de resistir por todos os meios e a centralização da resistência em todos os territórios ocupados em 1967, enquanto as negociações e a acção política e diplomática continuam.

– a protecção e o fortalecimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), que é o núcleo do futuro Estado.

– a formação de um governo de união nacional sobre uma base que garanta a participação de todos os grupos parlamentares, sobretudo o Fatah e o Hamas.

– as negociações com Israel competem à OLP e ao presidente da ANP com a condição de que todo acordo crucial seja aprovado pelo Conselho Nacional Palestino (CNP, o Parlamento da OLP) ou submetido a referendo.

– rechaçar o lugar injusto imposto pelos Estados Unidos e Israel contra o nosso povo e convocar os povos e o governo árabe a apoiar o povo palestino, a OLP e a ANP.

– a recusa das divisões e das divergências, assim como da proscrição do uso das armas entre palestinos, independentemente da razão.

– a necessidade de reformar e modernizar o aparelho de segurança palestino para permitir-lhe defender a pátria e os cidadãos contra as agressões e a ocupação, garantir a segurança e a ordem e acabar com a anarquia em matéria de segurança.

O texto do plano foi elaborado por Marwan Barghuti, o chefe do Fatah na Cisjordânia, Abdeljaleq al Atche, um alto dirigente do Hamas, Abdelrahim Maluh, número dois da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Bassam al Aadi, um dirigente do grupo extremista Jihad Islâmico, e Mustafah Bardarneh, da Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP). Todos eles estão detidos em prisões israelitas.·

Que um grupo de prisioneiros palestinos tome tal iniciativa (a simples menção de Israel no documento implica, na prática, no reconhecimento legal do Estado judeu por todos os signatários) e que essa iniciativa seja obliterada, na política e na mídia, por uma acção violenta do governo que os mantêm presos, diz muito do que se pode esperar da ‘política de boa-vontade’ israelita em relação à paz.

Posted on

Reformas islâmicas – diferentes abordagens

Coord. por: M. Yiossuf Mohamed Adamgy
In Revista Al Furqán, nº. 161, de Janº./Fevº. 2008

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

DEFINIçãO DE REFORMA:

Através da reforma devemos conseguir interpretar quer um texto, quer um manifesto de carácter ideológico, para que estes permaneçam relevantes para o público e adequados ao momento presente, que se insere num determinado contexto histórico.

O Islão não é excepção ao que atrás foi dito, sendo uma religião que tem os seus fundamentos num texto delineado por um Mensageiro de Deus há 1400 anos, texto que pretende ser pertinente nas diversas eras da sua história, onde vai ocorrendo um processo de adaptação contínua.

Por exemplo, há vinte anos ninguém pensaria que os muçulmanos voltassem ao seu Texto, QUESTIONANDO-SE SOBRE O TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS, tendo tal só acontecido nessa altura, porque antes esses transplantes não existiam. Aqueles que defendem que a religião islâmica proíbe o transplante de órgãos citam Iman Shafi que afirmou: “é haram (ilícito) deformar o corpo humano”. Mas poderemos considerar o transplante de órgãos uma deformação do corpo humano? A resposta é: não.

A reforma é isto mesmo. A palavra “reforma” choca alguns muçulmanos que consideram que o seu objectivo é alterar a religião, mas ela é necessária e indispensável ao Islão, visto que O ISLÃO FOI A ÚLTIMA MENSAGEM ENVIADA POR DEUS E DEVE ADAPTAR-SE À CERTA MUDANÇA ATÉ QUE CHEGUE O DIA DO JULGAMENTO. A Religião Islâmica foi criada para retirar da escuridão e trazer à luz a Humanidade.

“ALIF, LAM, RA. UM LIVRO QUE TE TEMOS REVELADO PARA QUE RETIRES A HUMANIDADE DAS TREVAS (E OS CONDUZAS) PARA A LUZ, COM A ANUêNCIA DE SEU SENHOR, E OS ENCAMINHES ATÉ À SENDA DO PODEROSO E DIGNO DE TODOS OS LOUVORES.” – (Alcorão 14:1).

“… QUANTO À ESPUMA ELA DESAPARECE COMO A ESCÓRIA DOS METAIS NA AREIA, ENQUANTO QUE ISSO, QUE É ÚTIL PARA OS HOMENS, PERMANECE NA TERRA. E ASSIM ALLAH EXEMPLIFICA AS SUAS PARÁBOLAS”. – (Alcorão 13:17).

Neste mundo, há coisas que são passageiras, outras que perduram e outras que ficam, sendo as últimas as que são boas para a humanidade. “SOIS A MELHOR COMUNIDADE QUE SURGIU NA HUMANIDADE, PORQUE RECOMENDAIS O BEM, PROIBIS O ILÍCITO E CREDES EM DEUS” – (Alcorão 3:110).

Não obstante ser uma tradição profética, usar ou não barba NÃO é uma questão do interesse da humanidade, pois não é um assunto que diga respeito à humanidade em geral, não é algo que vá alterar o modo de vida das pessoas. A não existir reforma, cairemos nas profundezas da irrelevância e o Islão será mais uma religião da antiguidade.

O Islão passaria à história se não interagisse com as próprias células da vida de forma a intervir nela.

A PERGUNTA É: COMO DEVE SER FEITA A REFORMA?

Deus ao revelar o Islão integrou nele um instrumento ou mecanismo capaz de fazer a reforma sem quebrar a sua estrutura. NÃO É NECESSÁRIO SAIRMOS DA RELIGIÃO ISLÂMICA PARA A FAZERMOS. A reforma tem por base o Alcorão, os Ahadice e a história.

A REFORMA É MENCIONADA NO ALCORÃO:

“Ó CRENTES! TEMEI A DEUS E QUE CADA ALMA CONSIDERE O QUE TIVER OFERECIDO, PARA O DIA DE AMANHÃ; TEMEI, POIS, A DEUS, POIS ELE ESTÁ INTEIRADO DE TUDO QUANTO FAZEIS” – (Alcorão, 59:18).

O dia de amanhã é o futuro que separa o dia de hoje do Dia do Julgamento. O Alcorão diz-nos para nos prepararmos para o futuro nesta vida e para o que virá depois.

A REFORMA É MENCIONADA NO HADICE:

A reforma tal como é referida no hadice do Profeta (s.a.w.) permitia ao povo interpretar as coisas que consideravam serem boas. Numa determinada ocasião, havia um homem que tinha de tomar um banho purificante (ghusl), mas que preferia fazer uma limpeza simbólica através do pó (Taymmum) porque a água estava muito fria. Houve um membro do grupo que argumentou que o homem não podia fazer Taymmum quando ali existia água e, assim sendo, o homem tomou um ghusl e morreu em consequência dele. O Profeta Muhammad (paz esteja com ele) repreendeu o grupo quando soube do sucedido. Uma hadith com as mesmas consequências é relatada por Abu Daud e Ibn Majah.

A REFORMA É MENCIONADA NO CONTEXTO HISTÓRICO:

No contexto histórico, por exemplo a reforma do Califa Umar (r.a.) consistiu em grandes adaptações para que houvesse uma adequação à realidade. O castigo por roubo era adiado se a sua causa fosse a pobreza. O saque proveniente da guerra costumava ser dividido pelos soldados, mas quando estes tomaram o Iraque, as terras do país não foram divididas com base nessa regra existente porque a mesma iria criar um sistema feudal e Umar interpretou o seguinte versículo: “A riqueza não deve circular apenas entre os abastados.” (Alcorão 59:7).

Imame Shafii concebeu duas correntes ou teorias válidas durante a sua vida. A Antiga e a Nova. Ele próprio aconselhou o abandono da Antiga e a aprendizagem da Nova. Ele terá escrito a Antiga no Iraque e, mais tarde, quando voltou a ser colocado no Egipto, escreveu a Nova e alterou toda a teoria, afirmando que a Antiga era boa para aquelas pessoas naquele lugar, mas que esta era desadequada a quem estava no Egipto.

Ainda hoje alguns dos seus seguidores se opõem a qualquer espécie de reforma.

AS DIFERENTES CORRENTES DE PROPOSTAS DE REFORMA:

  1. A Reforma da Hegemonia Ocidental:
    Pede-se um esforço no sentido de haver uma maior aceitação da parte do Islão de determinadas normas e práticas que são impostas pela hegemonia ocidental. Esta é a reforma para a exploração das massas. Se alguém nos pedir para, por exemplo, analisar se o Islão é compatível com a democracia, não há qualquer problema nisso, mas se, por outro lado, nos disserem: “Desejamos um Islão que não se oponha à forma como a riqueza é distribuída no nosso país”, aí sim, já haveria um problema. É problemático quando afirmam: “Desejamos um Islão que não se oponha às políticas estrangeiras que beneficiam a opressão.”
  2. Definições:
    O debate sobre a definição de reforma é para se tornar moderado, sendo que o conceito de moderação não é definido por nós, mas definido por outros, para nós. Um muçulmano moderado é, por exemplo, “aquele que bebe álcool com moderação”, mas “um muçulmano moderado pode ser também aquele que apoia as medidas do governo de Israel”. Eles pretendem que a palavra “Jihad” seja apagada do texto. Mas para os muçulmanos, a “Jihad” é um todo que inclui a purificação espiritual, gastar dinheiro na prática do bem e ter o direito de defesa se formos atacados. Isto é algo que não é aceite no Ocidente. Basta definirmos o conceito de “Jihad” e somos considerados extremistas.

Um muçulmano não praticante é considerado Muçulmano progressista, enquanto que a pessoa que reza cinco vezes por dia e não tem relações extra-matrimoniais é rotulada como inflexível e fundamentalista.

3- Os falsos Profetas da Reforma: São os muçulmanos que rejeitam o Islão e que conseguem reconhecimento e riqueza denunciando outros muçulmanos, são aqueles que ofendem o Islão e que são considerados muçulmanos reformistas. Essas pessoas sentem algum ressentimento, pois nem são considerados muçulmanos, nem têm a credibilidade para liderar uma mudança.

A Reforma de que estamos a falar É A REFORMA QUE EMANA DA ESTRUTURA DO PRÓPRIO ISLÃO.

  1. A natureza do Alcorão fala-nos do espírito, de comportamento, mas, proporcionalmente, fala-nos de regras, recomendando normalmente bases de regras. Por exemplo: “… ELES DEVEM RESOLVER OS SEUS ASSUNTOS, CONSULTANDO-SE UNS AOS OUTROS” – (Alcorão, 42:38). Esta regra significa a INEXISTêNCIA DE UMA DITADURA, que as pessoas devem ter o direito de intervir (democracia) e que a forma deve ser ajustada à especificidade de cada contexto. De acordo com esta perspectiva defende-se a existência de um parlamento, congresso ou qualquer instituição adequada em termos temporais e de localização. Ora este é um esforço humano e não divino, seremos assim flexíveis sem quebrarmos as estruturas do Islão.
  2. Os objectivos/finalidades finais da Charia (para a compreensão dos cinco objectivos finais):
    • a preservação da vida;
    • a liberdade religiosa;
    • o direito de ter uma estrutura familiar;
    • o direito à propriedade;
    • o direito a manter impoluta a mente e o espírito.

Por exemplo, se a lei da família no Paquistão não se adequa ao reconhecimento do direito à justiça da mulher, então que a mesma seja alterada. Essa lei não é sagrada. A jurisprudência deve procurar o bem das pessoas.

Assim, tendo em conta os objectivos e finalidades do Islão, podemos, com efeito, devemos, desenvolver um movimento de reforma, que parta de dentro do Islão e que tenha por base a sua estrutura e espírito.

E Deus é Quem sabe melhor.

Posted on

Reuniões da UME de Berlim foram bem-sucedidas

Trad. de: M. Yiossuf Adamgy

Publicado: 13-06-2008 – in emunion.org

De acordo com estrutura do corpo intelectual da UME (União dos Muçulmanos da Europa), a conferência deste ano foi dedicada ao tema do Significado do Auqaf na Europa.

Mediante o convite da UME, o Prof. Dr. Abdulhaq [Auqaf, Marrocos] e o Prof. Dr. Sherif [Auqaf, Kuwait] deram ambos palestras especiais acerca deste tema.

Para além de organizar mercados e festivais culturais e da promoção de uma cooperação de sucesso com os municípios europeus, a UME considera que os investimentos e fundações podem constituir uma importante contribuição suplementar, tanto no plano cívico como social, em nome da causa dos Muçulmanos na Europa.

Durante a conferência, membros e convidados tiveram a oportunidade de apresentar os seus próprios projectos e de descreverem a situação das suas comunidades na Europa.

O Dr. Xhabir Hamiti, Conselheiro da UME para o Kosovo, fez um pequeno discurso introdutório sobre a situação do país após a declaração de independência. O delegado da OSCE, o Dr. Soykun, deu informações aos participantes da conferência sobre o programa da OSCE contra a Islamofobia.

Os participantes discutiram possibilidades de cooperação numa atmosfera de grande harmonia, principalmente nos campos dos media e da educação, bem como no que respeita ao intercâmbio de jovens. Mehmet Yalcintas apresentou em Istambul o programa anual da UME para a juventude.

Os participantes muçulmanos, homens e mulheres, tiveram a oportunidade de se conhecer melhor através de um churrasco e, posteriormente, durante as duas refeições que decorreram durante a conferência.

No final da reunião da comissão da UME que teve lugar a 9 de Junho, a UME anunciou a fundação de um Conselho das Mesquitas Europeias. Este Conselho deve apoiar o papel positivo que as mesquitas têm por toda a Europa. A UME desenvolveu igualmente o conceito de um programa de televisão por Internet para os muçulmanos europeus.

A UME está a planear a realização de outras conferências regionais na Europa durante o ano de 2008.

Posted on

Rumo à escalada do conflito no Oriente Médio

Por: André Gattaz

Historiador e autor de “A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada” e “Do Líbano ao Brasil: história oral de imigrantes

A nova onda de violência que atingiu o Líbano não é um problema localizado, mas parte de um conflito muito mais amplo, em que Israel e o Hizbollah não são mais do que protagonistas menores. Os ataques do grupo radical libanês, assim como a desproporcional reação israelita, inserem-se nos movimentos mais amplos da geopolítica mundial – mais especificamente, a oposição entre Estados Unidos e Irão, que parece estar prestes a se tornar um conflito real e não apenas retórico. Examinemos os interesses de ambos para avaliar o verdadeiro perigo de escalada do confronto.

Da parte do Irão, percebe-se que o presidente Mahmoud Ahmadinejad vê o momento actual como propício para se desafiar a grande potência ocidental, pois os Estados Unidos não teriam capacidade de se envolver numa terceira frente de combate. De facto, nota-se que as forças armadas dos Estados Unidos têm quase a totalidade de suas tropas disponíveis envolvidas na ocupação do Afeganistão e do Iraque, e vêm encontrando dificuldades para completar o requerimento anual de novos soldados; além disso, o país está prestes a enfrentar uma grave crise económica devido aos altos ‘déficits gêmeos’ – provocados, em grande medida, por estas mesmas guerras (note-se especialmente, além do custo militar da guerra, a escalada dos preços do petróleo, produto vital à economia norte-americana).

Segundo o raciocínio do presidente iraniano, ademais, faltam na região líderes dispostos a enfrentar cara-a-cara o ‘grande Satã’ do Ocidente – foi-se o tempo de Naser, Al-Asad e Hussein, e mesmo o ex-inimigo Kadafi domesticou-se e passou a ser mais um cliente dos Estados Unidos; nos demais países do Oriente Médio, monarquias corruptas têm na exportação do petróleo aos Estados Unidos e a Europa a garantia de sua manutenção no poder; e os palestinos encontram-se desunidos e na busca de uma liderança que conduza a sua luta contra a ocupação sionista. Para Ahmadinejad, a escalada do confronto, com a inevitável e desproporcional reacção israelita, poderia ser um grande pretexto para unir sob sua liderança as populações árabes e islâmicas do Médio Oriente que se opõem aos Estados Unidos e a Israel.

Da parte do governo de George W. Bush, o momento também é adequado para ‘acertar contas’ com os seus velhos antagonistas – Síria e Irão. Os ataques do Hizbollah a Israel, realizados com mísseis iranianos transportados através da Síria, seriam a justificativa perfeita para colocar em prática o plano há muitos meses projectado pelos ideólogos dos EUA, visando o derrube dos regimes sírio e iraniano. Dessa forma, se completaria o controle dos Estados Unidos sobre todo o Médio Oriente – ou seja: o controle das duas maiores reservas energéticas do mundo: o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico.

É evidente, porém, que da teoria à realidade há uma grande distância, sobretudo se a teoria não é baseada no senso comum e na racionalidade, mas em crenças fundamentalistas e antagonismos emocionais. O raciocínio de Ahmadinejad esbarra na realidade que seu governo, ao entrar em guerra aberta com os Estados Unidos, terá os dias contados. A capacidade destrutiva destes, por meio de seus mísseis e bombardeios aéreos, é suficiente para fazer o Irão voltar 30 anos no tempo, destruindo imediatamente todos os seus centros de poder, assim como foi feito com o Iraque. Isso não significa dizer que os norte-americanos venceriam mais esta guerra – apenas que destruiriam a infra-estrutura e as instituições políticas iranianas, causando o caos em mais um país da região. Dessa forma, não seria muito vantajoso ser o ‘herói’ dos muçulmanos e árabes descontentes com o ‘ocidente satânico’.

O raciocínio de George W. Bush, por outro lado, é igualmente perigoso, pois ataques aéreos ao Irão e à Síria não colocariam a população destes países contra os seus governos, como supõem exercícios elaborados pelo Pentágono, porém desencadeariam justamente o efeito contrário, provocando a aliança dos sectores moderados e radicais da população iraniana e síria contra a agressão dos EUA. Além disso, mal se pode dizer que os Estados Unidos obtiveram o controle do Afeganistão e do Iraque. O primeiro, após quase cinco anos de ocupação, permanece em constante situação de insegurança; o ópio voltou a ser o principal produto de exportação do país; a milícia Talebã volta a actuar e controla partes do sul do país; e a cada mês uma quantidade maior de soldados dos ‘aliados’ é morta ou ferida nos combates com os ‘terroristas’.

Já no Iraque, apesar da presença de cerca de 130.000 soldados dos EUA (e 30.000 de outras nacionalidades), e do aparente funcionamento do sistema ‘democrático’ implantado pelos EUA, a situação de insegurança agrava-se a cada dia; a infra-estrutura do país encontra-se totalmente destruída, faltam energia e água para a população; as facções políticas e religiosas encontram-se em guerra civil; e nem mesmo o petróleo, principal objetivo da Doutrina Bush, vem sendo regularmente exportado devido aos freqüentes ataques às instalações petrolíferas. Além disso, no Iraque se formou uma verdadeira ‘escola de terroristas’ dispostos a agir contra os ‘assassinos infiéis’: ali, as perdas humanas chegam a mais de 60.000, após três anos de guerra.

Não bastassem os problemas para assegurar o controle nas duas principais frentes de combate, a crise social e económica nos Estados Unidos avizinha-se, e a abertura de uma terceira frente – contra um inimigo bem mais forte do que foram Afeganistão ou Iraque – poderia ser a gota d’água para o colapso.

Pensadores políticos dotados de pragmatismo não deveriam levar a sério as ameaças dos dois líderes fundamentalistas, pois a concretização dessas ameaças equivaleria a um suicídio mútuo – lembre-se que foi a consciência desta possibilidade que manteve a paz entre EUA e URSS ao longo dos anos da Guerra Fria. As atitudes já tomadas por Mahmoud Ahmadinejad e por George W. Bush, porém, nos levam a ter calafrios supondo o desenrolar do conflito, pois o que menos faltou na política destes líderes, nos últimos anos, foi o bom-senso.