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Said ibn Aamir al-Jumahi (R.A.)

Said ibn Aamir al-Jumahi foi um dos milhares que partiu para a região de Tanim, nos arredores de Meca (ár. Makkah), convidado pelos dirigentes Coraixitas para assistir ao assassínio de Khubayb ibn Adiy, um dos companheiros de Muhammad (que Allah derrame bênçãos e paz sobre ele) que eles tinham capturado traiçoeiramente.

Com a sua exuberante juventude e vigor, Said empurrava procurando caminho através da multidão até alcançar os dirigentes Coraixitas, homens como Abu Sufyan ibn Harb e Safwan ibn Umayyah, que comandavam a procissão.

Agora ele podia ver o prisioneiro dos Coraixitas acorrentado, as mulheres e as crianças empurrando-o para o lugar preparado para a sua morte. A morte de Khubayb seria a vingança pelas perdas dos Coraixitas na batalha de Badr.

Quando a multidão chegou com o prisioneiro ao lugar marcado, Said ibn Aamir escolheu a sua posição num ponto elevado para observar Khubayb enquanto ele se aproximava da cruz de madeira. De lá, ele podia ouvir a voz firme, mas calma, de Khubayb, no meio dos gritos das mulheres e das crianças:

“Se puderem, deixem-me rezar dois rakaats antes de morrer”. Isto os Coraixitas permitiram.

Said olhou para Khubayb enquanto este voltava a face para a Caaba (ár. Kaabah) e rezava. Quão maravilhosos e tranquilizantes pareciam aqueles dois rakaats! Depois ele viu Khubayb voltando-se para os dirigentes Coraixitas: “Por Deus, se pensaram que eu pedi para rezar com medo da morte, vou pensar que a oração não valeu o trabalho”, disse ele.

Said viu depois o seu povo começar a desmembrar o corpo de Khubayb enquanto ele ainda estava vivo e a escarnecer dele.

“Gostarias que Muhammad estivesse no teu lugar enquanto tu ficavas em liberdade”?

Com o sangue escorrendo, ele respondeu: “Por Deus, eu não ia querer salvar-me e ficar em segurança com a minha família enquanto um espinho ferisse Muhammad”. O povo agitou os seus punhos no ar e gritando acrescentou: “Matem-no. Matem-no”!

Said viu Khubayb erguer os seus olhos para os céus por cima da cruz de madeira. “Conta-os todos, ó Senhor”, disse ele. “Destrói-os a todos e não deixes que escape algum”.

Depois disso, Said não conseguiu contar quantas lanças e espadas trespassaram o corpo de Khubayb.

Os Coraixitas voltaram para Meca e, nos dias cheios de acontecimentos que se seguiram, eles esqueceram Khubayb e a sua morte. Mas Khubayb nunca saiu do pensamento de Said, aproximando-se agora do espírito da natureza humana. Said via-o em sonhos enquanto dormia e visualizava Khubayb à sua frente rezando os seus dois “rakaats”, calmo e resignado, diante da cruz de madeira. E ele ouvia o eco da voz de Khubayb enquanto ele rezava para que os Coraixitas fossem punidos. Ele ficava com medo que um trovão que caísse do céu ou alguma calamidade o atingisse mortalmente.

Khubayb, com a sua morte, ensinara a Said aquilo que ele não tinha percebido anteriormente – a vida real era a fé e a convicção, e lutar no caminho da fé, mesmo até à morte. Também lhe ensinou que a fé que é profundamente tingida numa pessoa opera maravilhas e faz milagres. Ensinou-lhe ainda algo mais, que o homem que é amado por seus companheiros com um tal amor como o de Khubayb só podia ser um Profeta com apoio Divino.

Assim estava aberto o coração de Said para o Islão (ár. “Içlam”). Ele levantou-se na Assembleia dos Coraixitas e anunciou que era responsável pelos seus pecados e aflições. Ele renunciou aos seus ídolos e às suas superstições e proclamou a sua entrada na religião de Deus.

Said ibn Aamir migrou para Medina (ár. “Madinah”) e juntou-se ao Profeta Muhammad (que Allah derrame bênçãos e paz sobre ele). Ele tomou parte com o Profeta na batalha de Khaybar e noutras batalhas seguintes. Depois do Profeta ter falecido com a protecção do seu Senhor, Said continuou a fazer um serviço activo sob as ordens dos seus dois sucessores, Abu Bakr e Umar. Viveu uma vida única e exemplar do crente que consegue obter a Vida Futura com este mundo. Procurou a satisfação e bênçãos de Deus, acima dos desejos egoístas e prazeres corporais.

Abu Bakr e Umar conheciam bem Said pela sua honestidade e piedade. Eles ouviriam o que quer que ele tivesse para dizer e seguiriam o seu conselho. Uma vez, Said foi ter com Umar no início do seu Califado e disse:

“Aconselho-te a temer a Deus quando lidares com o povo e não temeres o povo na tua relação com Deus. Não deixes que as tuas acções se desviem das tuas palavras, pois o melhor dos discursos é aquele que é confirmado pelos actos. Considera aqueles que foram escolhidos para os assuntos dos Muçulmanos, em alto grau e como íntimos. Deseja para eles aquilo que gostas para ti próprio e para a tua família e não desejes para eles aquilo que desgostarias para ti próprio e para a tua família. Supera qualquer obstáculo para alcançar a verdade e não despedaces as críticas daqueles que criticam as matérias prescritas por Deus”.

“Quem pode avaliar isso (cabalmente), Said”? perguntou Umar. “Um homem como tu, de entre aqueles que Deus escolheu para os assuntos da Ummah (Povo, Comunidade) de Muhammad (s.a.w.) e que se sente responsável para com Deus só”, respondeu Said.

“Said”, disse ele, “eu nomeio-te para seres governador de Homs (na Síria)”. “Umar”, alegou Said, “eu suplico-te por Deus, não me obrigues a desviar-me do caminho preocupando-me com assuntos mundanos”.

Umar ficou aborrecido e disse:

“Colocaste em mim a responsabilidade do califado e agora abandonas-me.” “Por Deus, eu não te abandonarei”, respondeu Said rapidamente.

Umar nomeou-o governador de Homs e ofereceu-lhe uma gratificação. “O que devo fazer com isto, ó Amir al Muminin”? Perguntou Said. “O salário proveniente dos haveres do “al-mal” (tesouro) será mais que suficiente para as minhas necessidades”. Dizendo isto, ele prosseguiu para Homs.

Não muito tempo depois, uma delegação de Homs, composta por pessoas da confiança do Califa Umar (r.a.), veio visitá-lo a Madinah. Ele pediu-lhes que escrevessem os nomes dos pobres para que pudesse aliviar as suas necessidades. Prepararam-lhe uma lista onde o nome de Said ibn Aamir aparecia.

“Quem é este Said ibn Aamir”? Perguntou Umar.

“É o nosso amir (chefe – governador)”, responderam eles.

“O vosso amir é pobre”? indagou Umar, confuso.

“Sim”, afirmaram eles, “Por Deus, inúmeros dias se passam sem se acender o fogo na sua casa”.

Umar ficou muito comovido e choroso. Ele pegou em mil dinares, colocou-os numa carteira e disse:

“Levai-lhe os meus cumprimentos e dizei-lhe que o Amir al Muminin lhe mandou este dinheiro para o ajudar a cuidar das suas necessidades”.

A delegação foi ter com Said com a carteira. Quando ele descobriu que continha dinheiro, começou a repeli-lo, dizendo: “De Deus proviemos e a Ele certamente voltaremos”.

Disse-o de tal maneira que parecia que alguma desgraça tinha caído sobre ele. A sua esposa alarmada correu para ele e perguntou: “O que se passa, Said? Morreu o Califa (ár. Khalifah)”?

“É algo muito pior que isso”.

“Os Muçulmanos foram derrotados na batalha”?

“Algo muito pior que isso. O mundo veio a mim para corromper o meu dia de amanhã e criar a desordem na minha casa”.

“Então vê-te livre disso”, disse ela, não sabendo nada sobre os dinares.

“Queres ajudar-me nisso”? Perguntou ele.

Ela concordou. Ele pegou nos “dinares”, colocou-os em sacos e distribuiu-os pelos Muçulmanos pobres.

Não muito tempo depois, o Califa Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) foi à Síria para examinar as condições de lá. Quando chegou a Homs que era chamado “o pequeno Kufah”, porque, como Kufah, os seus habitantes se queixavam muito dos seus dirigentes, ele perguntou o que pensavam eles do seu Amir. Eles queixaram-se dele mencionando quatro das suas acções, cada uma mais séria que a outra.

“Vou reunir-vos com ele”, prometeu Umar.

“E vou rezar a Deus para que a minha opinião sobre ele não fique danificada. Eu costumava confiar muito nele”.

Quando o encontro foi convocado, o Califa Umar (r.a.) perguntou quais eram as queixas que eles tinham.

“Ele só sai para vir ter connosco quando o sol já vai alto”, disseram eles.

“O que tens a dizer a respeito disto, Said”? Perguntou Umar.

Said ficou silencioso por um momento, depois disse: “Por Deus, eu realmente não queria dizer isto mas parece que não há outra saída. A minha família não tem quem ajude em casa, por isso eu tenho que me levantar todas as manhãs e preparar a massa de farinha para o pão. Espero um pouco até que suba e fique o pão cozido no forno, para eles. Depois faço wudu e vou ter com o povo”.

“Qual é a vossa outra queixa “? Perguntou Umar.

“Ele não responde a ninguém à noite”, disseram eles.

Sobre isto Said disse relutantemente: “Por Deus, eu gostaria de não ter que revelar isto também, mas eu tenho deixado o dia para eles e a noite para Deus – Grande e Sublime Ele é”.

“Então qual é a vossa outra queixa dele”? Perguntou Umar.

“Ele não passa connosco um dia em cada mês”, disseram eles.

Sobre isto Said replicou: “Eu não tenho quem ajude em casa, ó Amir al-Muminin, e não tenho mais roupa alguma a não ser esta que trago comigo. Esta, eu lavo-a uma vez por mês e espero que ela seque. Depois saio quando o dia está a acabar”.

“Mais alguma queixa dele”? Perguntou Umar.

“De tempos a tempos ele desmaia nas reuniões”, disseram eles.

A isto Said respondeu: “Eu testemunhei a morte de Khubay Adiy quando eu era um mushrik (politeísta). Eu vi os Coraixitas trespassando-o e dizendo: `Gostarias que Muhammad estivesse no teu lugar?` ao que Khubayb respondeu: `Eu não ia querer salvar-me e ficar em segurança com a minha família enquanto um espinho ferisse Muhammad`. Por Deus, sempre que me lembro disso e da maneira como falhei quando lhe ia prestar auxílio, eu apenas penso que Deus não me perdoará e eu desmaio”.

Em consequência disto, Umar disse: “Louvado seja Deus. A minha impressão sobre ele não foi manchada”.

Mais tarde ele enviou mil dinares a Said para o ajudar. Quando a sua esposa viu a quantia disse: “Louvado seja Deus que nos enriqueceu por seu serviço. Compra-nos alguns mantimentos e procura quem nos ajude em casa”.

“Não há uma forma de o gastar melhor”? Perguntou Said. “Vamos gastá-lo em quem vier recorrer a nós e faremos melhor assim dedicando isto a Deus”. “Isso será melhor”, concordou ela.

Ele colocou os “dinares” em pequenos sacos e disse a um membro de sua família: “Leva isto à viúva deste e daquele, e aos órfãos de tal pessoa, para os pobres daquela família e para os indigentes da família daquela pessoa”.

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Quando Abu Bakr e Umar (R.A.) quase iam perdendo tudo

Por: M. Yiossuf Adamgy (06/05/09 – in Revista Al Furqán, nº. 168, de Março/Abril.2009)

O Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) estava certa vez sentado com os seus companheiros, quando foram abordados por alguns homens a cavalo, que eram delegados da tribo de Banu Tamim. Como com qualquer tribo que vinha para abraçar o Islão, o Profeta quis seleccionar-lhes um líder. Naturalmente, aconselhou-se junto dos seus companheiros mais chegados, Abu Bakr e Umar (que Allah esteja com eles agradado) sobre quem seria o ho- mem mais indicado para o cargo.

Abu Bakr (r.a.) recomendou que o Profeta (s.a.w.) nomeasse Al-Qa`qa` Bin Ma`bad (r.a.), membro da Banu Mujashi`, para o cargo. Umar (r.a.) discordou, sugerindo que o Mensageiro de Allah (s.a.w.) escolhesse Al-Aqra` Bin Habis (r.a.). (Tafssir Ibn Kathir)

O desacordo entre eles transformou-se num debate, depois numa discussão e rapidamente os dois começaram a falar tão alto que as suas vozes se sobrepuseram à do Profeta (s.a.w.).

Foi nessa altura que Deus (ár. Allah) revelou o seguinte versículo ao Profeta (que a paz esteja com ele).

“Ó crentes! Não eleveisas vossas vozes acima da do Profeta, nem lhe faleis em voz alta, como fazeis entre vós, senão as vossas acções serão inúteis sem que disso se apercebam.” (Alcorão, 49:2)

Respeito pelo Profeta (s.a.w.)

Deus estava a dizer tanto a Abu Bakr (r.a.) como a Umar (r.a.) que aquilo que estavam a fazer era inoportuno. Quando se fala perto do Profeta (s.a.w.), não se pode falar mais alto do que ele, devido ao respeito e reverência pelo homem que é o Mensageiro do próprio Deus.

Esta ordem vai bem para além do que respeita ao volume. Quando surgem problemas nas questões da “Sunnah”, não nos podemos pronunciar sobre elas ou contra as mesmas. Tal como disse Ibn `Abbas (r.a.), tal significa não contradizer a “Sunnah” nas nossas acções, declarações ou até intenções.

A nossa atitude perante a “Sunnah” deve ser idêntica à do Imame Malik. Quando iam estudantes a sua casa, com o objectivo de aprender “Fiqh” ou “`Aqidah”, ele vinha para a rua para os ensinar. No entanto, se quisessem aprender “Hadith”, ele fazia a “Ghusl” antes de sair e recitava o versículo: “Ó crentes! Não eleveis as vossas vozes acima da do Profeta , nem lhe faleis em voz alta…” antes de iniciar as suas aulas, para recordar aos seus alunos e a si próprio que aquilo que estavam prestes a estudar devia ser tra- tado com todo o respeito.

A reacção de Umar (r.a.)

Depois da revelação deste versículo, conta-se que sempre que Umar (r.a.) se dirigia ao Profeta (s.a.w.), falava tão baixo que mal se conseguia ouvir o que dizia. Com efeito, Abdullah Bin Al-Zubair (r.a.) afirma que o Profeta (s.a.w.), por vezes, pedia a Umar (r.a.) que repetisse o que tinha dito, devido ao facto de ter falado tão baixo.

Com a vinda de uma ordem de Deus, Umar (r.a.) cumpriu-a de imediato e pô-la em prática na sua vida. Não a pôs em causa, não a tentou seguir apenas parcialmente, não adiou o seu cumprimento nem a seguiu apenas de forma temporária. Cumpriu-a de imediato de forma plena e permanente.

A abordagem de Thabit (r.a.)

Quando, Thabit Ibn Qays Al-Shammas (r.a.), um sahabi (companheiro) que costumava falar em voz alta devido ao facto de ouvir mal, ouviu este versículo, ficou inconsolável, uma vez que o versículo dizia que aqueles que falavam mais alto que o Profeta (s.a.w.) iriam perder todas as suas acções sem sequer disso se aperceberem. De imediato, Thabit foi para casa desesperado e não saiu até que o Profeta e os “sahabah” (companheiros) deram pela sua falta.

Quando o foram visitar e lhe perguntaram onde tinha estado, ele disse-lhes que tinha ficado aterrorizado com a ideia de perder as suas acções, na me- dida em que também ele falava mais alto que o Profeta, embora apenas falasse alto devido ao seu problema de audição. Mais tarde, o Profeta (s.a.w.) reconfortou-o, dizendo-lhe que ele pertencia ao povo que iria para o Paraíso.

A forma como Satanás se aproveita das discussões

Quando Abu Bakr e Umar (r.a.) discutiram, fizeram-no na pior das alturas e na pior das situações. À sua frente tinham o Profeta (s.a.w.) e estavam rodeados pelos delegados de uma nova tribo que queria abraçar o Islão. “Shaitan” (Satanás) iria fazer tudo o que fosse preciso para deitar por terra qualquer oportunidade de o Islão prosperar.

Nesta situação, fez com que dois irmãos muçulmanos se desentendessem ao ponto de um aspecto mais importante do que a escolha de um líder (isto é, o respeito pelo Profeta) ter sido ignorado.

Quando os humores se exaltam nas discussões com a família, amigos, ou no trabalho de “da`wah”, nunca deixem que “Shaitan” aproveite das vossas diferenças em seu benefício.

Corrigir-nos a nós próprios

Os “sahabah” não eram super-homens, livres de cometer qualquer erro. O que os tornou extraordinários e em modelos para nós, foi antes a forma como corrigiam os seus erros.

Imagine que descobria que você e a sua família tinham perdido tudo que tinham e que estavam na bancarrota. Deixaram de ter bens, casa ou carros e não tinham dinheiro.

Agora imagine que perdia todas as suas boas acções. Qual das perdas o deixaria mais devastado?

Os “sahabah” consideravam que perder as boas acções era das piores coisas que lhes podia acontecer.

Da próxima vez que discutirmos com os nossos irmãos ou irmãs muçulmanos, devemos lembrar-nos da forma como agiram e reagiram Abu Bakr e Umar (r.a.) e assegurar o respeito pelo Profeta (que a paz esteja com ele) e pela sua Sunnah, sem nos deixarmos afectar pelas circunstâncias em que nos encontramos.

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Abu Bakr (r.a.) – O Primeiro Califa [632-634]

“Se eu tivesse que escolher um amigo que não o meu Senhor, teria preferido Abu Bakr” – Um dito do Profeta Muhammad (s.a.w.).

O companheiro mais chegado do Profeta, Abu Bakr (r.a.), não se encontrava presente quando o Profeta Muhammad (s.a.w.) agonizava no lar da sua esposa Aicha (r.a.), filha de Abu Bakr. Quando tomou conhecimento do falecimento do Profeta, Abu Bakr apressou-se a caminho da casa onde se encontrava o corpo do Profeta (s.a.w.).

“Quão abençoada foi a tua vida, e quão beautificada é a tua morte”, murmurou ao beijar a face do seu amigo e mestre, que já não o era mais.

Quando Abu Bakr saíu do lar do Profeta, encontrou a Comunidade dos Muçulmanos em Medina reagindo com incredulidade e consternação. Muhammad (s.a.w.) tinha sido o chefe, o guia e o portador da Revelação Divina, atra- vés da qual eles tinham passado da idolatria e barbárie para o caminho de Deus. Como é que ele podia morrer? Até Umar (r.a.), um dos mais bravos e fortes dos companheiros do Profeta, perdeu a sua compostura, levantou a sua espada e ameaçou matar qualquer um que afirmasse estar o Profeta morto. Abu Bakr, com cuidado, puxou-o de lado. Subiu os degraus do púlpito na Mesquita e dirigiu-se ao povo dizendo:

“Ó povo! Se de entre vós há alguém que adorava Muhammad, sabei que ele está morto. Todavia, se era a Deus que adoráveis, sabei que Ele vive eternamente”.

E depois concluíu com um versículo do Alcorão:

“E Muhammad não é mais do que um Mensageiro; muitos foram os Mensageiros que vieram antes dele. Se ele, porventura, morresse ou fosse morto, vós voltaríeis atrás (à incredulidade)?” (3:144).

Ao ouvir estas palavras o povo ficou consolado. O desânimo deu lugar à confiança e tranquilidade. O momento crítico já tinha passado. Mas, agora, a Comunidade Muçulmana estava perante um problema extremamente sério: o da escolha do chefe. Após alguma discussão entre os companheiros do Profeta, que se tinham reunido para seleccionar um chefe, tornou-se cla- ro que era Abu Bakr (r.a.) quem, melhor que ninguém, detinha requisitos para tal responsabilidade.

A Vida de Abu Bakr

Abu Bakr (“O Pai dos Camelos”) não era o seu verdadeiro nome. Ele obteve este nome mais tarde, devido ao seu grande interesse na criação de camelos. O seu verdadeiro nome era Abdul Ka’aba (“Servo da Ka’aba”), nome esse que Muhammad (s.a.w.), mais tarde, mudou para Abdullah (“Servo de Allah”). O Profeta (s.a.w.) conferiu-lhe, igualmente, o título de “Siddiq” (A Testemunha para a Verdade).

Abu Bakr era um comerciante bastante rico, e antes de abraçar ao Islão, ele já era um res- peitado cidadão de Meca (ár. Makkah). Era três anos mais novo que Muhammad (s.a.w.) e uma certa afinidade natural aproximou-os desde tenra idade. Permaneceu como companheiro mais íntimo de Muhammad (s.a.w.), durante toda a vida do Profeta. Quando este convidou, a princípio, os seus amigos e parentes mais chegados a adoptarem o Islão, Abu Bakr (r.a.) contava-se entre os que primeiro o fizeram. Ele conseguiu, igualmente, persuadir Uthman e Bilal a aceitarem o Islão. Nos primeiros tempos da missão do Profeta, quando um punhado de muçulmanos foi submetido à perseguição e tortura impiedosas, Abu Bakr (r.a.) demonstrou-lhe toda a sua solidariedade, em relação a tal injustiça. Finalmente, quando chegou a permissão de Deus para emigrar de Meca, ele foi o escolhido pelo Profeta para o acompanhar na perigosa viagem até a Medina. Nas numerosas batalhas que tiveram lugar durante a vida do Profeta (s.a.w.), Abu Bakr (r.a.) esteve sempre ao seu lado. Uma vez, ele trouxe todos os seus haveres até ao Profeta, que estava a juntar dinheiro para a defesa de Medina. O Profeta perguntou: “Abu Bakr, o que é que deixaste à tua família?” E ele respondeu: “Deus e o seu Profeta”.

Mesmo antes do Islão, Abu Bakr era conhecido como sendo um homem de carácter recto, de natureza misericordiosa e amável. Durante toda a sua vida, ele foi sensível ao sofrimento humano; foi amável e prestativo para com os pobres. Se bem que rico, ele vivia de uma forma simples, gastando o seu dinheiro na caridade, na libertação de escravos e pela causa do Islão; passava, frequentemente, grande parte da noite em suplicações e orações, e compartilhava com a sua família uma vida alegre e afável.

O Califado de Abu Bakr

Tal era o homem sobre o qual recaíu o pesado fardo da liderança, no período mais difícil da História dos Muçulmanos.

Assim que a notícia sobre a morte do Profeta se espalhou, um certo número de tribos rebelou-se e recusou-se a pagar a Zakat (taxa fixada, devida sobre os valores dos bens, que é paga, obrigatoriamente, pelos abastados para distribuir pelos pobres), justificando essa atitude dizendo que tal obrigação era somente de- vida ao Profeta (que a paz esteja com ele). Ao mesmo tempo, um determinado número de impostores pretendeu ter-lhes sido transmitido o capelo de Profeta após o desaparecimento de Muhammad (s.a.w.), e desenvolveram o protótipo da revolta. A juntar a tudo isto, dois poderosos impérios, o Romano Oriental e o Persa, ameaçavam igualmente o recém-nascido Estado Islâmico, em Medina (ár. Madinah). Dentro destas circunstâncias, muitos dos Companheiros do Profeta, incluíndo Umar (r.a.), aconselharam Abu Bakr (r.a.) a fazer concessões aos que se recusavam a pagar a Zakat, pelo menos durante algum tempo. O Califa Abu Bakr (r.a.) discordou. Insistiu que a Lei Divina não deve ser dividida, que não existe distinção entre a obrigação da Zakat e a da Salat (oração), e que qualquer tipo de compromisso com as injunções de Deus deveriam, eventualmente, corroer os fundamentos do Islão. Rapidamente Umar e os outros aperceberam-se do seu erro de juízo. As tribos revoltosas atacaram Medina, mas os Muçulmanos estavam preparados para tal. O próprio Abu Bakr (r.a.) dirigiu a defesa, forçando-os a recuar. Então, resolveu levar a cabo uma guerra implacável com os falsos pretendentes do capelo do Profeta. Muitos destes submeterem-se, e mais uma vez professaram o Islão. Na realidade a ameaça proveniente do Império Romano surgiu muito antes, durante a vida do Profeta Muhammad (s.a.w.). Este organizara um exército sob o comando de Usa- ma, filho de um escravo libertado. O exército não tinha ido muito longe quando o Profeta adoeceu e, por isso, resolveram parar. Após a morte do Profeta (s.a.w.), a questão relacionou-se com o facto de se dever enviar o exército novamente, ou se este deveria permanecer para a defesa de Medina. Uma vez mais, Abu Bakr (r.a.) demonstrou firme determinação, ao afirmar:

“Enviarei o exército de Usama como ordenou o Profeta, mesmo que eu fique sózinho”.

As instruções finais que deu a Usama prescrevem um código de conduta na guerra, que continuou actual até aos nossos dias. Uma parte das suas instruções dirigidas aos Muçulmanos era:

“Não sejam desertores, nem acusados de desobediência. Não matem um idoso, uma mulher ou uma criança. Não derrubem palmeiras, nem árvores de fruto. Não abatam carneiros, vacas ou camelos se não for para comer. Encontrareis pessoas que passam as suas vidas em mosteiros; deixem-nas em paz e não as molestem”.

Khalid bin Walid fora escolhido pelo Profeta (que a paz esteja com ele) para comandar os Muçulmanos em muitas ocasiões. Homem de suprema coragem e um comandante nato, o seu génio militar floresceu durante o Califado de Abu Bakr, período em que dirigiu as suas tropas de uma vitória para outra, contra os ataques dos Romanos.

Uma outra das contribuições do Califa Abu Bakr (r.a.) diz respeito à recolha e compilação dos versículos do Alcorão.

Abu Bakr morreu no dia 21 de Jamad’al A-khir, do ano 13 da Hégira (23 de Agosto de 634), com a idade de 63 anos, sendo enterrado ao lado do Profeta (s.a.w.). O seu Califado teve uma duração de apenas 27 meses. No entanto, durante este curto tempo, Abu Bakr esforçou-se, com a Graça de Deus, por fortalecer e consolidar a sua Comunidade e o Estado, assim como proteger os Muçulmanos contra os perigos que ameaçaram a sua existência.

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Companheiros do Profeta – Sahaba (R.A.)

Por: Yiossuf Adamgy

NA

Prezados Irmãos,Assalamu Alaikum:

“Companheiros do Profeta (S)” trata da história da vida dos Companheiros do Profeta Muhammad [Maomé] (sallallahu ‘alaihi wa sallam = que Allah derrame bençãos e paz sobre ele).

Esclarece-se que um Companheiro (ár. sahabi) é aquele que viu o Profeta Muhammad (s.a.w.) em estado perfeitamente desperto, ou tendo estado na sua sagrada companhia, como Muçulmano e tendo morrido como Muçulmano (aquele que se submete à Vontade de Deus). Os Companheiros (ár. sahabah) foram os pioneiros do trabalho do Islão e sacrificaram-se à sua causa. Toda a Comunidade Muçulmana permanecerá em dívida para com eles até ao Último Dia.

O Sagrado Alcorão fala-nos, em diversos versículos, sobre eles. Aqui, apenas transcrevemos o seguinte:

“Os mais antigos (na fé), os primeiros dos “Muhajirines” e dos “Ançares”, e aqueles que os seguiram com simpatia, deram satisfação a Allah; e eles ficaram satisfeitos com Allah. O Senhor preparou, para eles, Jardins sob cujas ramadas correm rios onde habitarão para sempre. Este é o triunfo supremo” (9 [Al Tau- bah]:100).

Na verdade, os Companheiros foram um povo cuja alma é testemunho para a Unidade de Allah e profecia de Muhammad (s.a.w.). Fé e crença entraram no mais profundo dos seus corações, e eles deixaram todos os seus confortos, prazeres, gostos e até as suas terras natais pela causa de Allah, somente com o objectivo de enaltecer a Palavra de Deus e difundir as Tradições do sagrado Profeta que era, para eles, mais querido que os seus parentes e as suas vidas. Nenhum período da História da Humanidade, e nenhuma época da Civilização Humana foi testemunha de um povo que tivesse sido mais obediente a Deus, mais devotado na adoração ao seu Criador, mais crente, mais civilizado e culto, mais versado nas revelações de Deus e Tradições dos Seus Mensageiros, mais dedicados à causa de Deus, e mais empenhados no Seu Caminho, que os Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), que Deus esteja satisfeito com eles. Costumavam esforçar-se no caminho de Deus durante o dia e adorá-Lo durante a noite. Devotaram toda a sua vida à causa de Allah sem pedirem nenhuma recompensa para eles neste mundo. Foram, em suma, os verdadeiros seguidores do Profeta Muhammad (s.a.w.).

Os Muçulmanos e Não-Muçulmanos são convidados a lerem e a familiarizarem-se com a biografia destes eminentes Muçulmanos, Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), cujas vidas a morte não apagou e jamais apagará até à eternidade.

Espero que este esforço possa transmitir à nossa geração, e à vindoura, o exemplo dos “sahabah”, à memória dos quais dedico a singela edição desta significativa obra da História do Islão.

“Inch’Allah”, periodicamente, será colocado, aqui, biografia de um dos Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), a respeito dos quais ele disse:

– “A presença dos meus Companheiros (Sahabah) é como a das estrelas (guias). Qualquer que sigas, serás por ele guiado (no caminho certo)”.

– “A forma dos meus Companheiros no seio da Humanidade é como a do sal na comida. Não existe paladar na comida sem sal”.

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Companheiros do Profeta – Sahaba (R.A.)

Por: Yiossuf Adamgy

Prezados Irmãos,Assalamu Alaikum:

“Companheiros do Profeta (S)” trata da história da vida dos Companheiros do Profeta Muhammad [Maomé] (sallallahu ‘alaihi wa sallam = que Allah derrame bençãos e paz sobre ele).

Esclarece-se que um Companheiro (ár. sahabi) é aquele que viu o Profeta Muhammad (s.a.w.) em estado perfeitamente desperto, ou tendo estado na sua sagrada companhia, como Muçulmano e tendo morrido como Muçulmano (aquele que se submete à Vontade de Deus). Os Companheiros (ár. sahabah) foram os pioneiros do trabalho do Islão e sacrificaram-se à sua causa. Toda a Comunidade Muçulmana permanecerá em dívida para com eles até ao Último Dia.

O Sagrado Alcorão fala-nos, em diversos versículos, sobre eles. Aqui, apenas transcrevemos o seguinte:

“Os mais antigos (na fé), os primeiros dos “Muhajirines” e dos “Ançares”, e aqueles que os seguiram com simpatia, deram satisfação a Allah; e eles ficaram satisfeitos com Allah. O Senhor preparou, para eles, Jardins sob cujas ramadas correm rios onde habitarão para sempre. Este é o triunfo supremo” (9 [Al Tau- bah]:100).

Na verdade, os Companheiros foram um povo cuja alma é testemunho para a Unidade de Allah e profecia de Muhammad (s.a.w.). Fé e crença entraram no mais profundo dos seus corações, e eles deixaram todos os seus confortos, prazeres, gostos e até as suas terras natais pela causa de Allah, somente com o objectivo de enaltecer a Palavra de Deus e difundir as Tradições do sagrado Profeta que era, para eles, mais querido que os seus parentes e as suas vidas. Nenhum período da História da Humanidade, e nenhuma época da Civilização Humana foi testemunha de um povo que tivesse sido mais obediente a Deus, mais devotado na adoração ao seu Criador, mais crente, mais civilizado e culto, mais versado nas revelações de Deus e Tradições dos Seus Mensageiros, mais dedicados à causa de Deus, e mais empenhados no Seu Caminho, que os Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), que Deus esteja satisfeito com eles. Costumavam esforçar-se no caminho de Deus durante o dia e adorá-Lo durante a noite. Devotaram toda a sua vida à causa de Allah sem pedirem nenhuma recompensa para eles neste mundo. Foram, em suma, os verdadeiros seguidores do Profeta Muhammad (s.a.w.).

Os Muçulmanos e Não-Muçulmanos são convidados a lerem e a familiarizarem-se com a biografia destes eminentes Muçulmanos, Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), cujas vidas a morte não apagou e jamais apagará até à eternidade.

Espero que este esforço possa transmitir à nossa geração, e à vindoura, o exemplo dos “sahabah”, à memória dos quais dedico a singela edição desta significativa obra da História do Islão.

“Inch’Allah”, periodicamente, será colocado, aqui, biografia de um dos Companheiros do Profeta Muhammad (s.a.w.), a respeito dos quais ele disse:

– “A presença dos meus Companheiros (Sahabah) é como a das estrelas (guias). Qualquer que sigas, serás por ele guiado (no caminho certo)”.

– “A forma dos meus Companheiros no seio da Humanidade é como a do sal na comida. Não existe paladar na comida sem sal”.

Para Breve