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A hajj (peregrinação a Meca)

A Hajj é um faridah (dever obrigatório), um dos pilares do Islão. A prova (dalil) disto é o ayah em cima mencionado, havendo também provas na Sunnah, que indica a mesma coisa. Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as benções de Allah estejam com ele) disse: “O Islão assenta em cinco pilares: testemunhar que não há outra divindade senão Allah e que Muhamamad é o Mensageiro de Allah, praticar a oração regular, jejuar no mês do Ramadão, pagar a Zakah, e fazer a Hajj.” (Narrado por al-Bukhaari, 8; Muslim, 16).

Assim que houver possibilidades a Hajj deve ser feita imediatamente. A prova disto é o ayah em cima mencionado. Isto (fazer coisas imediatamente) é o princípio orientador respeitante às ordens da Chari’ah. A prova na Sunnah que isto indica é a que se segue:

Abu Hurayrah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Mensageiro de Allah (que a paz e as benções de Allah estejam com ele) proferiu um sermão (Khutbah) e disse: “Ó Povo, Allah ordenou-vos a Hajj, por isso, fazei a Hajj.” (Narrado por Muçlim, 1337).

Ibn ‘Abbaas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro de Allah (que a paz e as benções de Allah estejam com ele) disse”: “Quem quer que deseje fazer a Hajj, que se apresse a fazê-la, porque pode cair doente ou podem surgir alguns outros problemas.” (Narrado por Abu Dawood, 1732, sem a frase “porque pode…” também narrado por Ibn Maajah, 2883 e Ahmad, 1836).

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Aproximar-se de Allah durante o Ramadão

Por: M. Yiossuf Adamgy

Já conhecem a rotina. O nosso corpo sofre um choque no primeiro dia do Ramadão. De repente, numa manhã em que acordamos antes da hora de fazermos a oração de Fajr (salat-ul-Fajr), tomamos o Sehri praticamente até ao último segundo antes de chegar a hora da oração de Fajr, rezamos a oração de Fajr e depois, antes mesmo que alguém sequer seja capaz de pronunciar “Ramadhan Mubarak”, estamos de volta ao conforto dos nossos cobertores quentes e a sonhar com a iftar.

Quando mais tarde voltamos a acordar para começarmos o nosso dia, o nosso corpo fica em choque pois não consegue de todo perceber porque razão não saciamos a nossa sede ou porque não devoramos aquele determinada tablete de chocolate, aquele que sob a primeira camada de chocolate tem uma de caramelo, uma de amendoim, outra de chocolate e, algures, bolacha. Ficamos com água na boca, a salivar incontrolavelmente, apesar de sabermos que não os poderemos comer, pois é Ramadão e é tempo de jejuar!

é verdade, esquecemo-nos de avisar os nossos corpos de que durante um mês viveremos uma diferente rotina de preces, jejum e leituras do Alcorão, devendo ser mais generosos e praticar o auto-domínio.

Notícia de última hora: estamos quase no início do Ramadão e todos precisamos de nos começar a preparar!

Acreditamos que será positivo começar por recordar o significado do Ramadão tal como ele é expresso no próprio Alcorão. Allah Subhaanahu wa Ta’aala afirma no Alcorão: Foi no mês do Ramadão que foi revelado o Alcorão, que é um guia que a humanidade deve acatar e que nos dá provas concretas da orientação que devemos seguir, bem como do critério que devemos assumir para distinguir o certo do errado. Assim sendo, todo aquele que observar o quarto crescente da Lua durante o mês do Ramadão, deve jejuar durante todo esse mês.

Daí, podemos concluir:

  1. O Alcorão foi revelado durante o mês do Ramadão.
  2. O Alcorão é um guia para a humanidade.
  3. O Alcorão contém provas concretas da orientação que devemos seguir, bem como do critério que devemos assumir para distinguir o certo do errado.

Assim que avistarmos o quarto crescente da Lua, devemos iniciar o jejum.
Entre as inúmeras bênçãos que estão associadas ao Ramadão, uma que não devemos descurar prende-se com o facto de ter sido no mês do Ramadão que o Alcorão foi revelado. Este maravilhoso Livro de orientação é nosso, por isso empenhemo-nos para nos aproximarmos de Allah no Ramadão que se inicia, lendo mais o Alcorão e fazendo mais preces voluntariamente. Com efeito, este é um mês abençoado, pois são incontáveis as oportunidades que temos de mencionar o nome de Allah Subhaanahu wa Ta’aala. O Profeta sall Allaahu ‘alayhi wa sallam afirmou: “É impossível que as pessoas se juntem numa casa que pertença a Allah para recitar o Livro d’Ele e para o estudarem entre si, a menos que a tranquilidade ascenda sobre elas, que a misericórdia as envolva, que os anjos as rodeiem e que Allah as refira àqueles que estão próximos d’Ele.” (Sahih Muslim).

A Leitura do Sagardo Alcorão

Recordemos o ano que passou, até ao último Ramadão. Que tipo de relação temos tido com o Alcorão? Com que frequência o lemos? Temo-nos esforçado para memorizar algumas das suas passagens? Que suras ou versículos tiveram sobre nós especial influência durante o ano que passou?

Dediquemos algum tempo à escrita da resposta a estas perguntas como forma de nos prepararmos para o Ramadão. Devemos ser francos connosco próprios, pois estas respostas serão um segredo que ficará apenas entre nós e Allah S. T.

Estas respostas devem servir igualmente para desencadear algum tipo de reflexão da nossa parte, para que as possamos comparar com o actual Ramadão. O Ramadão constitui para todos nós uma oportunidade de desenvolvermos as nossas rotinas pessoais em resultado dos esforços que empreendemos no sentido de optimizarmos o nosso auto-domínio e de aprofundarmos o nosso desenvolvimento pessoal.

Por que razão concreta é importante que dediquemos algum tempo à leitura do Alcorão?

Em primeiro lugar, porque o ambiente à nossa volta é propício à leitura e reflexão. Durante o ano, podemos lê-lo por nossa própria iniciativa, por vezes apressadamente, outras vezes descuidadamente. Durante o Ramadão, as pessoas tentam completar a sua leitura do Alcorão, tentando fazer a leitura integral do Livro num mês. Acrescente-se ainda que abstermo-nos da comida e bebida é algo que nos ajuda a reprimir os nossos instintos mais condenáveis e a buscar um plano superior a nível intelectual e espiritual que nos permitirá, com efeito, reflectir sobre o real significado dos versículos do Alcorão que estamos a ler. Essa reflexão tem como objectivo ajudar-nos a interiorizar a tal ponto os ensinamentos do Alcorão que todos os passos que dermos na nossa vida passem a estar em concordância com os seus ensinamentos.

Em segundo lugar, a leitura consistente do Alcorão vai ajudar-nos igualmente a estabelecer uma rotina de que poderemos tirar proveitos durante todo o ano e que terá consequências directas e práticas no nosso quotidiano. Tomemos como exemplo as actividades rotineiras como o comer e beber ou o falar e dormir. Não seria impossível que a fome e a sede levassem o indivíduo a ter um comportamento irascível e a tornar-se um pouco impaciente em relação aos outros. Mas a verdade é que tanto os ensinamentos do Alcorão como os do Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam nos incitam a concentrarmo-nos nos elevados benefícios do jejum.

Um dos benefícios associados ao jejum e que é referido no Alcorão é que o mesmo nos ajuda a fortalecer a nossa consciência relativamente a Allah Subhaanahu wa Ta’aala.

Mas a combinação do auto-domínio físico com a leitura e interiorização dos ensinamentos do Alcorão permite-nos alcançar um estado superior de consciência relativamente a Allah, o Maior. O nosso amado Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam ensinou-nos que: “jejuar não é apenas abstermo-nos de comer e beber. Pelo contrário, é abstermo-nos igualmente do discurso que é ignorante e impróprio. Assim sendo, se alguém tiver perante vós um comportamento ignorante ou impróprio, dizei-lhe: “Estou a jejuar, estou a jejuar.” (Sahih Ibn Khuzaymah and Al-Hakim).

Por último, ler o Alcorão ajuda-nos a consolidar e a rever as passagens que já pudéssemos ter memorizado ou ainda as passagens que andamos a tentar memorizar. Está provado que durante cada Ramadão, o anjo Gabriel (Jibril a.s.) costumava rever o Alcorão com o Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam. E no último Ramadão que o Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam viveu, sabemos que o anjo Jibril reviu com ele o Alcorão duas vezes. É inequivocamente dada uma grande importância à repetição e revisão como forma de consolidar e memorizar o Alcorão. Devemos arranjar uma forma de gravar as passagens que andamos a ler, aquelas que andamos a rever e também as que andamos a memorizar. Incha’ Allah, quando chegarmos ao fim do Ramadão, teremos forma de avaliar o nosso estudo!

Fazer mais preces voluntariamente

O Profeta Muhammad sall Allaahu ‘alayhi wa sallam empreendia mais acções voluntariamente durante as semanas que precediam o Ramadão, tais como jejuar mais, rezar mais e doar mais para a caridade. Devemos ter em mente que o maratonista não começa a corrida só no momento em que se posiciona na linha de partida e ouve: “Às vossas posições, preparados, sigam!”. Pelo contrário, a corrida começa muitos dias, semanas e mesmo meses antes do momento em que verdadeiramente é dada a partida. A preparação exige esforço, mas permite que o atleta adquira a resistência necessária para que se possa concentrar na corrida e não se distrair pelo cansaço das pernas ou pela sensação de boca seca.

Da mesma forma, se começarmos o Ramadão apenas na sua primeira noite, no momento das Orações de Tarawih, estaremos a agir tal como o maratonista que não se prepara convenientemente. É por isso que é tão importante que comecemos a empreender desde já preces individuais e voluntárias.

Aprender a ler passagens extensas no Ramadão nos momentos da oração é algo que nos ajudará a desenvolver a nossa resistência, bem como nos ajudará a concentrarmo-nos naquilo que estamos a ler. Com efeito, Abu Hurayrah conta-nos que: “o Mensageiro de Allah, sall Allaahu ‘alayhi wa sallam, costumava incitar-nos a rezar nas noites do Ramadão, mas não fazendo dessas orações algo de obrigatório. E depois disse: “Todos aqueles que rezarem nas noites do Ramadão, movidos pela fé e pela esperança numa recompensa, verão todos os pecados cometidos no passado perdoados.” E quem entre nós não precisa de ver os seus pecados perdoados?” Ao rezarmos diariamente durante o período do Ramadão, acabamos por desenvolver a resistência que, incha’ Allah, nos permitirá chegar ao próximo Ramadão.

Uma das melhores formas de praticarmos a nossa récita é empreendermos orações voluntárias e recitarmos o Alcorão. Obviamente, é sempre recomendável que alguém verifique a nossa récita, mas se já tivermos conhecimentos suficientes de leitura em árabe, a leitura de passagens durante a oração ajudar-nos-á a melhorar a nossa récita. Embora a leitura individual seja permitida, é recomendável que o indivíduo se associe a uma congregação e seja orientado na sua oração por um Imame.

Se tivermos em mente que o nosso grande objectivo é agradar a Allah Subhaanahu wa Ta’aala para vermos os nossos pecados do passado perdoados, incha’ Allah, todos nós teremos forças para fazermos mais preces voluntárias.

Conclusões finais

Se ainda não perguntou a si próprio se está ou não preparado, uma vez que o Ramadão está prestes a começar, então comece hoje mesmo a pensar nisso e prepare-se para o receber. É essencial que se esforce ao máximo para preparar o acto do jejum, da oração, da leitura do Alcorão e da doação para a caridade. Dessa forma, incha’ Allah será capaz de se concentrar nas bênçãos desse mês e não se deixar distrair pela sua própria incapacidade de auto-domínio ou de permanecer, por exemplo, de pé durante longos períodos na salah, etc.

Treine o equilíbrio e lembre-se que está a tentar agradar a um Senhor que é misericordioso. Pratique uma veneração com fé e esforce-se incessantemente, esperando a recompensa de Allah Subhaanahu wa Ta’aala. Torne este Ramadão melhor que o anterior, incha’ Allah!

A todos, um Ramadhan Mubarak! Com um pedido deste humilde servidor de Allah: que se lembrem de mim nas vossas preces. Jazak’Allah.

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Peregrinação a Meca

M. Yiossuf Mohamed Adamgy

A Peregrinação anual a Meca (Hajj) é uma obrigação somente para aqueles que são física e financeiramente capazes de empreendê-la. Apesar de Meca (ár. Makkah) estar sempre cheia de visitantes, a hajj anual começa no décimo segundo mês do calendário islâmico.

“… A Peregrinação à Casa é um dever para com Deus, por parte de todos os seres humanos, que estão em condições de empreendê-la; entretanto, quem se negar a isso saiba que Deus pode prescindir de toda a humanidade.” (Alcorão Sagrado 3:97)

A Peregrinação é uma obrigação somente para aquelas pessoas que atingiram a puberdade, são livres, mentalmente sãs, física e financeiramente capazes para empreender tal viagem. O peregrino deve empreender a Hajj com dinheiro lícito, após saldadas todas as suas dívidas e ter deixado o sustento suficiente para suprir a necessidade da sua família equivalente ao período para o qual irá ficar fora devido a Peregrinação.

A maioria dos rituais da Peregrinação baseiam-se em actos praticados pela família do Profeta Abraão (paz esteja com ele), quando foi incumbido por Deus de reconstruir a Caaba (ár. Kaabah) juntamente com o seu filho Ismael. Isto demonstra que o Islão é a religião de Deus e não uma religião feita pelo Profeta Muhammad (p.e.c.e.), pois os ritos e as normas da Peregrinação não foram estabelecidos pelo profeta Muhammad, mas sim por Deus, como também não está vinculada à pessoa do Profeta Muhammad (p.e.c.e.), nem à sua vida, mas sim a Abraão e ao seu filho Ismael, mostrando, dessa forma, a abrangência e o universalismo do Islão. Logo, a Peregrinação é um atendimento ao chamamento que o Profeta Abraão (paz esteja com ele) dirigiu a todos os seres humanos, obedecendo à ordem de Deus.

Os elementos principais da Peregrinação:

AL IHRAM: É a intenção de cumprir a peregrinação. A partir do momento em que o peregrino se propõe a iniciar os rituais da peregrinação, ele veste duas peças de tecido, de preferência branco, eliminando, dessa forma, as diferenças de cultura e de classes entre as pessoas, ficando todos iguais perante Deus.

AL TAWAF : Consiste em dar sete voltas em torno da Caaba, repetindo, com isso, o que foi feito pelo Profeta Abraão e seu filho Ismael (paz esteja com eles). É também como se fosse uma réplica, aqui na terra, do que os anjos fazem constantemente no céu, circundando o Trono de Deus, orando e adorando-O.

AL SAI : Consiste em percorrer a distância entre os montes de Al Safa e Al Marwa, sete vezes, repetindo com isso o que foi feito pela esposa do Profeta Abraão, Agar, quando procurava água para o seu filho Ismael.

JAMRAT : Que consiste em repetir o mesmo acto feito pelo Profeta Abraão, quando estava indo cumprir a ordem de Deus de sacrificar o seu filho Ismael.

A PARADA EM ARAFAT: Que consiste em ficar ali desde o entardecer do dia nove até o pôr do sol do mesmo dia. Arafat é o único local na realização da Peregrinação, em que todos os peregrinos ficam juntos num mesmo lugar.

Os peregrinos passam esses momentos em oração, pedindo perdão a Deus. Podemos ter nesse momento uma ideia, uma visão de como será o Dia do Juízo Final, onde todos os seres humanos, após serem ressuscitados, estarão juntos esperando pelo julgamento. A Peregrinação a Makkah, é a maior convenção anual de fé, o maior congresso mundial, realizado anualmente por muçulmanos de diferentes nacionalidades, línguas e cores. O Islão, desde há 1400 anos, realiza tais congressos que foram instituídos por Deus, durante os quais os muçulmanos se encontram, se conhecem, examinam os assuntos comuns relativos ao Islão e aos muçulmanos e através da troca de experiências dos peregrinos, ao retornarem aos seus países de origem passam aos demais os resultados dessa troca de experiências. Como é a maior conferência de paz regular que a história da humanidade jamais conheceu, durante a peregrinação podemos observar inúmeros benefícios tanto individuais como colectivos. Sendo uma manifestação, na prática, dos verdadeiros traços da universalidade do Islão, da fraternidade e da igualdade entre os muçulmanos, a realização da Hajj transcende os limites de lugar, idioma e cor, igualando todos, governantes e governados, ricos e pobres, aonde todos são iguais sendo o melhor ante Deus o mais temente. Logo podemos observar todos com um mesmo objectivo, adorar a Deus da maneira que melhor O agrada. E durante a Peregrinação nós nos familiarizamos com o ambiente espiritual e histórico no qual viveu o profeta Muhammad (paz esteja com ele).

AL Masjid AL Haram (A mesquita sagrada): A mesquita sagrada, desde o tempo em que Abraão e seu filho Ismael reconstruíram a Caaba, sempre foi um pátio ao redor da Caaba, sem casas construídas por perto, nem paredes cercando-a. Com o passar do tempo, construiu-se uma Mesquita que veio a sofrer várias ampliações, sendo que hoje a sua área corresponde a 160.000 metros quadrados.

O Id-AL-Adha (A festa do sacrifício): É a segunda festa do Islão, sendo a primeira a festa do desjejum. O Id-Al-Adha é uma recordação da história do que foi o sacrifício do Profeta Ismael, quando o seu pai, o Profeta Abraão, seguindo sem hesitação a ordem de Deus, iria sacrificar seu filho.

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O Alcorão não é “letra tornada morta pela evolução da humanidade”

Por: Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy

In CARTA DIRIGIDA AO DIRECTOR DO JORNAL “PÚBLICO”

Stº. Antº. dos Cavaleiros, 31 de Março de 2004.

Exmº. Senhor Director do Jornal “Público”

Com os meus cordiais cumprimentos, venho pedir a sua atenção para o seguinte:

Publicou a jornal “Público” de 19. Março.04, um belíssimo artigo encabeçado pelo título “Islão, Terror e Mentiras”, subscrito pelo vosso conceituado colaborador e analista Dr. Miguel Sousa Tavares.

Na sua qualidade de organização vocacionada para estudo e divulgação do Islão em Portugal, a revista “Al Furqán” entende ser seu dever comentar e esclarecer, sob o ponto de vista Islâmico, a forma pouco correcta e parcial como foi apresentado o seguinte parágrafo escrito no final da rubrica 1., no intitulado artigo “Islão, Terror e Mentiras”, que passo a citar:

“Onde estão as vozes dos imãs, dos muftis, dos teólogos do Corão, para virem explicar aos seus seguidores que metade do que lá está escrito é letra tornada morta pela evolução da humanidade, e a outra metade jamais poderá ser aceite como mandamentos de um Deus que exige, perdoa e garante a vida eterna a quem deixa umas mochilas carregadas de dinamite nuns comboios para deixar no chão um mar de corpos e vidas esventradas, mulhers, crianças, cristãos e muçulmanos, despedaçados num horror que insulta a condição humana?”.

1) – Se “o Corão é letra tornada morta pela evolução da humanidade”, também, por essa ordem de ideias, seria letra tornada morta o Evangelho e a Tora (Bíblia, com Velho e Novo Testamento).

2) – Nenhuma das “vozes dos imãs, dos muftis, dos teólogos do Corão, jamais virão explicar aos seus seguidores que metade do que lá está escrito é letra tornada morta pela evolução da humanidade”, visto que eles, assim como 1,3 bilião de pessoas no mundo, acreditam piamente que o Alcorão é a palavra de Deus.

3) – No que respeita “a outra metade”, que presume-se estar referido ao actos de jihad, terror, martírio e suicídio, feitos por alguns islâmicos, gostaria de esclarecer o seguinte:

“Se há qualquer martírio nestes actos terroristas (como por exemplo nos atentados de 11 de Março em Madrid) foi certamente o dos bravos bombeiros, polícias e outros que actuaram para salvar vidas humanas e sacrificaram as suas próprias vidas neste processo”, conforme disse recentemente o Sheik Hamza Yusuf. Segundo este estudioso Islâmico de nacionalidade americana, cujos artigos sobre o Islão são difundidos internacionalmente, “os terroristas são assassinos em massa e não mártires”. E se eles são islâmicos, então são “inimigos do Islão.”
Fanáticos religiosos de qualquer credo são pessoas frustadas, que acabam por manifestar o seu desespero, fazendo frequentemente coisas horríveis. Se estes homens realmente são árabes, muçulmanos, trata-se obviamente de pessoas muito doentes, e por conseguinte, nem sequer se deve olhar estes factos como uma questão religiosa. é política. Política trágica. Não há nenhuma justificação Islâmica para isso. é a mesma coisa que ocorria quando algum extremista irlandês usava o Catolicismo como desculpa para matar ingleses. Não são mártires.
é de recear alguma histeria que estes acontecimentos trágicos possam provocar na Europa e é importante o papel que os muçulmanos e não-muçulmanos têm que assumir, em oposição a toda esta espécie de violência. Não se pode matar pessoas inocentes. No Islão, as únicas guerras que são permitidas são entre exércitos que se devem empenhar nos campos de batalha e de uma forma nobre. O Profeta Muhammad (s.a.w.) disse: “Não deveis matar mulheres ou crianças ou não-combatentes e nem deveis matar pessoas velhas ou pessoas religiosas”. E ele mencionou, textualmente, os padres, freiras e rabinos. E disse: “Não deveis destruir árvores de fruto e nem envenenar os poços dos vossos inimigos.”
A verdade é que há alguns muçulmanos – não importa quão insignificante seja o seu número – que consideram que estes actos são actos religiosos e de auto-sacrifício. E isso está errado. Não é Alcorânico. Deturpa o Islão nos corações e nas mentes de milhões.

Quando perguntaram ao Sheikh Yusuf porque é que algumas pessoas consideram os terroristas ou sequestradores como mártires, ele respondeu que “isso é uma abominação.” Eles “são assassinos em massa, pura e sinplesmente”. São “como aqueles cristãos que, em alguns países ocidentais, atacam clínicas de aborto ou matam médicos que o praticam. Não acho que mais ninguém na Comunidade Cristã, para além de uma pequena minoria de extremistas, ataque clínicas de aborto ou médicos que o praticam.”

Perguntar-se-á então: porque há um apoio tão forte àqueles ataques terroristas em algumas partes do mundo? A resposta será porque nós estamos a viver uma época de ignorância e de perda de valores de ordem social. As pessoas estão muito confusas e espiritualmente empobrecidas. O que os americanos e os euopeus sentem agora, vem sendo sentido há muito por árabes, libaneses, palestinianos, bósnios, etc. Os Judeus também o sentiram. E ainda há muitos Judeus vivos que se lembram com medo e terror do que aconteceu na Europa durante o nazismo.

O ponto fundamental da questão é que os ciclos de violência têm que parar. é uma loucura, especialmente quando vivemos num mundo que já tem armas nucleares. As pessoas dizem que este foi um ataque contra a civilização humana. E isso é exatamente o que ocorreu. Acho que todos nós temos que nos perguntar se a vingança indiscriminada vai ajudar a preservar essa civilização. O Sagrado Alcorão diz aos muçulmanos para não deixar que o ódio de algumas pessoas os impeçam de serem justos. Ser justo é uma exigência do crente Islâmico. Do crente Alcorânico.

Quanto ao conceito, muitas vezes errado de Jihad, devo aqui vincar que Jihad quer dizer “esforço”, “luta”. O Profeta Muhammad (s.w.a) disse que “a maior jihad é a luta de um homem contra as más influências que actuam sobre ele.” Também se refere ao que os cristãos chamam de “Guerra Justa”, que é travada contra a tirania ou opressão – mas debaixo de uma autoridade estatal legítima.
Quanto ao conceito de mártir (em árabe, “Shahid”), traduzido à letra significa testemunha. O mártir é aquele que testemunha a verdade e, em prol dela, sacrifica a própria vida. Há pessoas como, por exemplo, Martin Luther King, que seriam consideradas mártires das suas causas. Também se a casa, a família, a propriedade, a terra ou a religião de uma pessoa for ameaçada, então ela pode, com justiça, defender tudo isso com a sua vida. Se perecer, essa pessoa é um mártir.

E o maior mártir perante Deus é aquele se levanta na presença de um tirano, fala a verdade e é morto por isto. Ele é martirizado. E o Profeta disse que um mártir não terá que prestar contas no Dia do Juízo. é um acto através do qual ele será perdoado. Mas o Profeta também disse que há pessoas que matam em nome do Islão ou da Verdade e irão para o Inferno. E isso “porque eles não lutavam verdadeiramente pela causa de Deus (ou da Verdade)”

Quanto ao suicídio, é um acto “haram” (ilícito) no Islão. é proibido, como um pecado mortal. Um assassinato é igualmente “haram”. E matar civis é um assassinato.

Termino este esclarecimento, solicitando à V. Exª. , como ilustre Director do Jornal “Público”, que do mesmo seja dado conhecimento aos leitores que, desta forma, ficarão em melhores condições para tirar as conclusões que se impuserem às suas consciências. Os Muçulmanos de Portugal agradecem e esperam, democraticamente, ver publicado o seu ponto de vista, que se fundamenta em princípios históricos e doutrinais, que devem ser postos ao alcance de quem busca, sinceramente, a Verdade.

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Aborto, e se for violação ou incesto?

O Islão valoriza a vida humana. Isto é expresso claramente no Sagrado Alcorão quando nos diz que aos olhos de Deus matar um ser humano é um assunto muito sério (5:32).

O Alcorão ensina que no Dia do Juízo os pais que mataram os seus filhos serão julgados por esse crime, e os seus filhos serão as suas testemunhas de acusação (81:8-9).

As pessoas temem frequentemente que ter mais filhos os torne mais pobres. Respondendo a isso, o Alcorão diz: “Não mateis os vossos filhos por medo da pobreza. Nós providenciaremos para vós e para eles” (17:31). Mesmo no caso em que já se é pobre, o Alcorão insiste que Deus fornecerá sustento para nós e para os nossos filhos, tanto mais que Deus tornou a vida humana sagrada (6:151).

O direito à vida é uma dádiva de Deus. Nenhum ser humano deve tirar esse direito. A regra geral, por isso, é que o aborto não é permitido no Islão.

No entanto, o Islão é uma religião muito prática. Inclui princípios para lidar com casos excepcionais. Um desses princípios é que, quando a gravidez ameaça a vida da mãe, pode-se realizar o aborto. Embora as vidas da mãe e da criança sejam ambas sagradas, neste caso é melhor salvar a vida principal, a vida da mãe. Mesmo neste caso, será melhor se o aborto for feito antes do feto ter 120 dias, pois é quando a alma entra no feto.

O Islão não permite o aborto em outros casos. Mulheres que foram vítimas de violação ou incesto naturalmente que merecem simpatia e ajuda. Mas uma criança concebida desta maneira infeliz tem direito a viver. Claro que isto coloca um fardo indesejável na mãe, mas matar a criança não é a solução certa. Para entender melhor este ponto, suponham que alguém vê as camadas mais pobres da sociedade como um fardo indesejável para os ricos. Seria então correcto matar todos os pobres? Claro que não. Então porque é que alguém pode decidir que uma pessoa seja morta só porque é um fardo indesejável? A sociedade como um todo deve ajudar a mãe e aliviá-la o mais possível. Mas a criança não deve ser morta. Mais ainda, o facto de que tais casos acontecem é uma indicação de que as pessoas necessitam desesperadamente de alimento espiritual. Elas necessitam dos ensinamentos puros que as ajudarão a afastar a sua mente do adultério, violação e incesto. As pessoas necessitam de Deus. Podereis ajudar alguém a voltar-se para Deus?