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As Madrassas no Reino Unido: uma ponte para a juventude muçulmana?

Por Asim Siddiqui – Fonte: oumma (versão portuguesa de Al Furqán)

Segundo os especialistas, verifica-se, frequentemente, um fraco nível de escolaridade e uma falta de sucesso profissional entre os jovens muçulmanos britânicos.

Segundo a Josepf Rowntree Foundation, um organismo benévolo independente que se con-sagra ao desenvolvimento e à pesquisa social, o elevador social dos muçulmanos britânicos sobe mais lentamente do que o dos seus homólogos hindus, cristãos e judeus. Esta tendência verifica-se sistematicamente em toda a Europa, onde os Muçulmanos são três vezes mais ameaçados pelo desemprego de que os restantes.

Os muçulmanos são, na Europa, um dos grupos sociais mais retraídos e um dos mais desfa-vorecidos a nível económico. É, portanto, indispensável elevar as suas aspirações, aumentar as suas oportunidades de sucesso e fazer com que os jovens muçulmanos estejam envolvidos na sociedade. Neste sentido, as mesquitas e as madrassas podem revelar-se úteis.

O Reino Unido tem cerca de 1600 madrassas, sendo que estes centros de ensino religioso funcionam durante o fim-de-semana ou após a escola e que a maioria está associada a mesquitas. Nada menos do que 200.000 crianças muçulmanas de diversas etnias, com quatro a quinze anos de idade, as frequentam.

Estes estabelecimentos oferecem os dois extremos da pedagogia, desde a aprendizagem de cor dos textos religiosos até um ensinamento interactivo, onde as disciplinas islâmicas e as dis-ciplinas escolares habituais são ensinadas num ambiente onde se verifica diversão e criatividade.

As famílias muçulmanas britânicas apreciam estas madrassas associadas a uma mesquita por-que é o único lugar onde as crianças podem aceder a uma educação islâmica essencial e por-que, por outro lado, apresentam a vantagem de poder desenvolver, nesse reservatório muitas vezes inexplorado de jovens alunos, a ambição e o sucesso profissional.

Infelizmente, algumas madrassas estão desligadas do mundo real, o que impede que as crianças possam alcançar o seu pleno potencial. Um relatório do Open Society Institute, “Muslims in Europe: A Report on 11 EU Cities”, confirmava que os métodos de ensino utilizados em muitas madrassas, baseados na aprendizagem de cor e na disciplina severa, não estão em sintonia com o pensamento e a prática pedagógicos contemporâneos, e não conseguem desenvolver as competências essenciais para o sucesso na vida activa da época actual.

Outro relatório, publicado pelo Policy Resear-ch Centre da Islamic Foundation salienta a necessidade de uma melhor articulação entre as mensagens emitidas pelas madrassas e as da es-cola comum. É também indispensável favorecer uma aproximação entre as mesquitas e os sec-tores profissionais para criar confiança e alargar os horizontes dos muçulmanos no Reino Unido e em toda a Europa.

Assim, a CEDAR (www.thecedarnetwork.com), uma rede profissional Islâmica na Europa, lan-çou um programa nesse sentido. Associando-se numa parceria com a Young Enterprise, a prin-cipal organização benévola no âmbito da forma-ção profissional e empresarial, oferece, em colaboração com as mesquitas e no recinto destas últimas, cursos de orientação profissional. Esta abordagem inovadora valoriza as sinergias que os jovens muçulmanos mantêm frequentemente com as mesquitas do bairro e a grande experiência profissional dos orientadores da CEDAR. Cria-se, desta forma, uma experiência de aprendizagem na qual os jovens muçulmanos podem realmente participar.

O programa de orientação visa, não somente, engrandecer as ambições dos jovens, mas tam-bém criar vínculos com os profissionais muçulmanos, que podem, seguidamente, servir-lhes de exemplo e com os quais podem estabelecer contactos duradoiros.

Assim, durante um seminário organizado recentemente na mesquita Tawhid, em Londres, uma sessão interactiva apresentando um conjunto de experiências de aprendiagem reuniu os alunos da madrassa e outros jovens do bairro. A estes jovens foram apresentadas ferramentas e técnicas que lhes permitam construir o seu percurso de vida em consonância com as suas próprias expectativas, e com o desenvolvimento das suas competências. Um concurso destinado à apresentação do melhor business plan para uma empresa social, envolvendo a construção de um centro comunitário, incentivava os alunos a reflectir acerca das necessidades práticas da comunidade local, muçulmana e não muçulmana, além do seu próprio mundo confessional.

A mesquita Tawhid, sobejamente conhecida pelo seu conservadorismo social, permitiu que um grupo de rapazes e raparigas trabalhassem em conjunto. Percebeu o valor de um programa que possibilita que crianças muçulmanas sejam produtivas num ambiente mais relacionado com o mundo real.

Bassim el-Sheikh, uma criança de 13 anos de idade, declarou no final do seminário: ‘Sou uma pessoa muito mais confiante, sei doravante trabalhar melhor em equipa; sei ouvir mais os outros e expressar-me.’

As mesquitas britânicas procuram, lentamente, aproximar-se dos jovens, das mulheres e dos não muçulmanos. As maiores, ultrapassando o seu papel estritamente cultural, pretendem transformar-se em centros holísticos, propondo aulas de inglês, um curso de iniciação à infor-mática, salas de desporto e eventos inter-confessionais regulares.

Se as mesquitas e as madrassas conseguirem ligar-se à sociedade comum, se desenvolverem as suas aspirações e as competências de vida dos jovens que as frequentam, será então possível evitar a “guetização” que assola algumas comunidades muçulmanas britânicas e europeias e favorecer a promoção educativa e profissional dos jovens muçulmanos.

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A islamofobia será da responsabilidade dos próprios muçulmanos se estes não actuarem

Fonte: Said López / Webislam – Acomodação/Versão Portuguesa: M. Yiossuf Adamgy / Al Furqán

Nós, muçulmanos, estamos a transformamo-nos em autênticos islamofóbicos

A islamofobia é o tema mais popular nos meios de comunicação. Não somente ouvimos falar nela, como a vivemos no nosso quotidiano. A Sra. Ndeye Andújar, no artigo que publicou, procura um medicamento contra esta epidemia. Nesse artigo, fala-nos de uma pessoa que considera aberta a outras culturas mas que teme não ser capaz de não se tornar numa pessoa islamofóbica devido a tudo o que a rodeia. Mas há uma realidade muito mais complexa. Não são apenas as pessoas que não são muçulmanas que sofrem este fenómeno próprio dos dias de hoje, designado por islamofobia, mas tam-bém nós, muçulmanos, estamos a transformarmo-nos em autênticos islamofóbicos. Como, perguntarei eu às minhas irmãs e irmãos muçulmanos? Quando entrais num lugar público, quer seja um supermercado, o metro ou o cinema, ou algo desse género, não tendes a sensação de que as pessoas que vos rodeiam pensam que sois uma pessoa introvertida, que odeia aqueles que não sejam muçulmanos, que sois ignorantes ou oprimidos e que não vos tenhais integrado na sociedade? E isto verifica-se sobretudo relativamente às mulheres muçulmanas cuja vestimenta reflecte, de imediato, a sua identidade religiosa. Caso a resposta seja afirmativa, então, digo-vos uma coisa, que talvez não quereis ouvir: Estais contagiados pela epidemia da islamofobia. Sois uns muçulmanos islamofóbicos. Isto significa que as pessoas mal-intencionadas venceram-nos, a nós, muçulmanos. Isto significa que, momentaneamente, aqueles que inventaram este fenómeno estão em vantagem em relação a nós. E o que podemos nós dizer de determinados meios de comunicação? Nada mais fazem do que divulgarem notícias que nos podem afectar negativamente. Não vereis nenhuma boa notícia na qual se falará bem dos muçulmanos.

O que vamos fazer? Darmo-nos por vencidos? Ou aguardarmos que alguém faça algo por nós? Ou esperar que desça um milagre do céu que proclame ao mundo inteiro que somos cidadãos normais e, até, exemplares?

Se esperarmos que aconteça algo deste género, então, tenho muita pena, mas não acontecerá nada do que estamos à espera. No Islão, não temos nenhuma instituição, à semelhança do Vaticano, que sirva de autoridade para todos os muçulmanos e que possa falar em nome de todos nós. Também não existe o conceito de missionários como se verifica no Cristianismo, pois, não existem conversões forçadas. A prova disso verifica-se na nossa terra, em Espanha: os califas e sultões da Andaluzia tiveram tempo suficiente (mais de setecentos anos) para converter ao Islão toda a Península Ibérica recorrendo ao poder absoluto. Mas tal não se verificou. Querem outro exemplo? Os países balcânicos: o governo Otomano governou durante mais de quinhentos anos nas terras que pertencem actualmente à Grécia, à Bulgária e à Roménia, mas ninguém forçou os povos que aí viviam a mudar de religião ou de língua. Então, como é que o Islão pôde exprimir-se nessas terras e expandir-se em tão pouco tempo? Embora as pessoas não tenham aceitado o Islão como modo de vida, como é que esta religião pôde governar em paz e com referências admiráveis durante tantas décadas? Se nós, muçulmanos, não temos uma instituição ou uma entidade, nem nenhum meio de comunicação aceitável em diversos sectores, quem nos representa em todo o mundo? Sobre quem recai esta responsabilidade?

Já não existem estados que ostentem a bandeira do califado sobre todos os muçulmanos. Então, por que razão não fazemos nós algo de forma individual? Hoje em dia, esta representação da forma correcta do Islão passou do Fard-al-Kifaya ao Fard-al-Ayn (da obrigação de toda a comunidade à obrigação de cada indivíduo). Todos os muçulmanos deveriam fixar-se neste ponto tão importante e actuarem de acordo com o que Allah, Subhana wa taala, diz a todos os muçulmanos: somos o Seu califa na terra. Individualmente, cada muçulmano é um represen-tante de Allah neste mundo.

Nos tempos actuais, em que muitos estão contra os muçulmanos e contra o Islão, enquanto representantes de Allah temos uma carga muito pesada sobre os nossos ombros: representar de forma conveniente o Islão em todos os seus aspectos. Esta é uma obrigação tão importante como a oração (salat) ou como o jejum, ou até é uma obrigação maior.

Os erros e pecados pessoais podem ser perdoados por Allah, mas as pessoas que nos rodeiam, aquando do Dia do Juízo Final, colocarão ambas as mãos no nosso regaço e perguntar-nos-ão: por que razão não fizeste nada em relação a isso? Se tivesses feito alguma coisa, eu teria alterado a minha maneira de pensar! Que diremos nós aos nossos filhos quando nos perguntarem por que razão os deixámos em apuros e não fizemos nada para mudar alguma coisa? Isto não significa que sejamos missionários, nada disso. Não estou a falar de tentarmos converter as pessoas ao Islão. É claro que acreditamos que o caminho correcto é aquele que o Criador dos céus e da terra nos enviou. Claro que gostaríamos que todas as pessoas que nos rodeiam, os nossos familiares, os nossos amigos, e todo o mundo inteiro, pudessem sentir o que sente um muçulmano no seu íntimo. Claro que pedimos para eles que Allah ilumine as suas almas, mas apenas Allah é o Muqallibal Qulub (quem muda os corações). Antes de mais, o nosso primeiro dever e obrigação consiste em quebrar os estereótipos e procurar sarar a imagem danificada do Islão.

Como podemos nós consegui-lo?

Temos muitas coisas para fazer. Por Allah. Ninguém nos pede que nos atiremos num campo de batalha. O Santo Profeta (a paz esteja com ele) disse, ao regressar da Batalha de Uhud onde muitos muçulmanos tinham sido martirizados: ‘Regressamos da jihad menor para a jihad maior’. Os companheiros do Profeta perguntaram-lhe ‘Há alguma jihad maior do que esta?’, ao que o Profeta (a paz esteja com ele) lhes respondeu: ‘A luta contra o nafs’ (contra o nosso ego).

Devemos lutar contra o nosso conforto: quantos de nós podem dizer que conhecem o vizinho que mora em frente à nossa porta? E o que vive no andar de baixo, o que vive no andar de cima? E o que vive no último andar? Quantas vezes os convidámos para que jantassem connosco em nossa casa, para tomar um café, para que vejam que somos pessoas normais, como eles, que temos família, que temos um computador, que temos livros para ler, que também gostamos de petiscar, comendo azeitonas, que também gostamos de comer paella, que também ficamos contentes quando a selecção nacional ganha? Quantas vezes lhes oferecemos um doce do Ramadão ou meio quilo de carne aquando do Eid-al-adha, explicando-lhes que se trata de uma tradição abraâmica, o pai dos Profetas? Quantas vezes lhes comprámos uma prenda para o seu aniversário ou lhes demos os parabéns na ocasião das suas festividades como, por exemplo, no Natal, em que dizem que nasceu o Messias? Quantas vezes lhes disse-mos que nós também acreditamos neste milagroso nascimento, que não fazemos nenhuma distinção entre os enviados de Allah e que daríamos as nossas vidas por Jesus sem pensar-mos duas vezes?

Um dia, quando for necessário – Allah Sub-hana wa taala manifesta o Seu poder através das causas – as únicas pessoas que poderão pôr um término às críticas contra nós, muçulmanos, serão essas pessoas a quem, a um determinado momento, nos apresentamos e que nos conheceram, tal como somos, com total transparência.

Se os muçulmanos … tivessem dialogado mais com o ‘outro’, talvez tivéssemos podido evitar a catástrofe: ‘Esperai! Eu conheço o meu vizinho, é muçulmano, ajuda o seu vizinho, da sua palavra e da sua acção não tememos nenhuma maldade, temos muitas coisas em comum, não permitirei que lhes façais nenhum mal, nem a ele, nem à sua família!’.

Em primeiro lugar, para cumprir o Fard-al-Ayn, todos os muçulmanos devem fazer tudo o que podem para serem transparentes e amigáveis para com as pessoas que os rodeiam e, além disso, têm que se esforçar para conhecerem o maior número possível de pessoas oriundas de todas as classes: os estudantes relativamente aos seus professores, os trabalhadores relativamente aos seus superiores hierárquicos, as donas de casa relativamente ao seu cônjuge e aos seus vizinhos, etc.

Em segundo lugar, as entidades e organismos islâmicos, para que possam cumprir o Fard-al-Kifaya, devem organizar mais actos de apresentação: reuniões onde imperam o diálogo e a compreensão, nas quais não se mencionem as diferenças, mas apenas os pontos comuns, festivais de arte e todas as actividades originais que possam surgir. (1)

Se actuarmos desta forma, Allah pode transformar, mediante uma única ordem Sua, os Invernos em Primaveras. Caso contrário, não teremos sido capazes de erguermos a carga que Allah colocou nos nossos ombros e que é a única maneira de procurarmos agradecer-Lhe pelo tesouro mais valioso que possa existir no universo: o Islão.

(1) – N. Tradutor: Um destes actos foi, recentemente, por mim presenciado (11 de Dezembro) no Colégio Islâmico de Palmela: um convívio-diálogo-confraternização do Colégio com as autoridades autárquicas e vizinhos. Parabéns! Mas é preciso mais…

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Primavera árabe… o que pensam os árabes?

Palestine Chronicle

Desde a deposição do presidente da Tunísia Zinelabidine Bin Ali, em Janeiro passado, no primeiro movimento do que viria a ser conhecido como ‘Primavera Árabe’, o mundo árabe acompanha uma sequência de levantes e revoltas contra ditadores e tem produzido avaliações nem sempre concordantes do próprio contexto político. A Tunísia ainda vive sob o caos controlado que se seguiu ao colapso do antigo regime; o Egipto sofre crescente instabilidade, em função das agendas divergentes dos diferentes grupos políticos. Mas nem na Tunísia nem no Egipto assistiu-se à destruição massiva e o massacre de civis semelhantes aos que se vêem hoje na Líbia e na Síria.

Intelectuais, escritores e jornalistas árabes que apoiaram e saudaram com entusiasmo os levantes na Tunísia e no Egipto expõem agora posições mais complexas nos casos de Líbia e Síria. Os intelectuais públicos no mundo árabe estão divididos no que tenha a ver com os eventos na Síria e na Líbia, embora a opinião pública esteja claramente contra as ditaduras que sobrevivem no Iémen, na Síria e na Líbia.

Contudo, o envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e o apoio que deu aos chamados ‘rebeldes’ líbios comprometeram indelevelmente o carácter democrático do levante na Líbia, na opinião de vários intelectuais públicos do mundo árabe.

O facto de o ocidente e a OTAN terem-se envolvido tão profundamente nesses e noutros levantes árabes criou um dilema para muitos pensadores e militantes democráticos árabes. Intelectuais que dedicaram a vida e a carreira a escrever contra qualquer intervenção do Ocidente na política árabe, vêem-se agora perple-xos ante a extensão do envolvimento e do apoio material e moral que o Ocidente tem garantido a alguns daqueles levantes, embora não a todos.

Abdel Bari Atwan, editor do jornal panárabe Al Quds Al Arabi escreveu no editorial, mês passado, declarando-se contra os ataques aéreos da OTAN na Líbia; para ele, além do inaceitável número de civis mortos, a OTAN está destruindo cidades, estradas, infra estrutura em geral. Atwan não esconde a sua oposição aos chamados ‘rebeldes’ líbios e suas lideranças políticas, que acusa de serem financiados pela OTAN e pela União Europeia. Atwan oferece a hipótese de que aqueles ‘líderes’ que lá estão só assumiram o comando dos ‘rebeldes’ depois de o filósofo e jornalista francês Bernard-Henri Levy ter manifestado publicamente o seu apoio a eles, quando visitava Benghazi como enviado especial do presidente Sarkozy da França.

Levy é nome conhecido na Região pelo apoio irrestrito que sempre deu às políticas de Israel; é citado como autor da frase ‘o exército de Israel é o mais democrático do mundo’. Levy também já exigiu intervenção militar na Síria, para depor o governo de Bashaar Al Assad. O ativismo de Levy parece ter complicado ainda mais as coisas. Atwan diz que Levy é uma das razões pelas quais, embora não apoie o governo de Kaddafi, absolutamente não apoia os planos políticos dos ‘rebeldes’ de Benghazi.

Atwan não está sozinho nessa posição, de desejar apoiar os direitos democráticos das sociedades árabes, sua luta por mais liberdade e por direitos civis respeitados para todos, mas, simultaneamente, rejeitar qualquer tipo de inter-venção dos EUA e do Ocidente na política da Região.

Lina Abubaker, romancista, poeta e colunista que vive em Londres e também escreve no jornal de Atwan publicou uma nota pelo Facebook no início do mês, alertando para a existência de um ‘novo mapa do caminho’ que visaria a dividir ainda mais os árabes. Para ela, os levantes árabes seriam efeito de uma espécie de conspira-ção que visaria a ‘decapitar os governos e manter intactos os corpos’. Para ela, haveria aí uma muito ampla conspiração, pensada pelos EUA para dominar o mundo árabe, servindo-se do que ela chama de ‘terrorismo dos EUA contra os árabes’. ‘Os levantes populares são o novo terrorismo norte-americano. Será que vocês nunca aprendem?!’ – Perguntou ela, em referência à ocupação norte-americana no Iraque.

Duas outras linhas de ideias estão alimentando as percepções sobre a Primavera Árabe dentro do mundo árabe. Uma delas entende que os levantes sejam movimentos de libertação nacional indígenas que, eventualmente, levarão a governos democráticos. A outra entende que os levantes são, sim, plano inspirado pelo ocidente para fragmentar definitivamente os estados árabes – o que favoreceria as ambições de EUA e Israel para a região.

Mohammad Dalbah, jornalista árabe-norte-americano que vive em Washington entrevistou intelectuais árabes, aos quais perguntou por que havia entre eles opiniões tão fortemente polarizadas sobre os levantes populares de 2011, e definiu dois grupos. No primeiro grupo Dalbah reuniu os intelectuais que classificou como ‘nacionalistas e patriotas árabes’ – que interpretam os eventos na Região de um ponto de vista estratégico, assumindo, como critério para apoiar ou não cada levante, caso a caso, o conflito entre israelitas e árabes. No segundo grupo estão os ‘árabes liberais’ – que pregam o fim de todas as ditaduras e a constituição de governos democráticos e não vêem qualquer inconveniente em qualquer tipo de intervenção do Ocidente para alcançar esses objectivos (por exemplo, no caso da Líbia). Falta, de facto, um terceiro grupo, no qual se reuniriam os que apoiam o fim das ditaduras mediante luta popular, sem qualquer tipo de intervenção de forças ocidentais.

Explicando a ausência desse terceiro grupo, Dalbah, que é jornalista veterano do mundo árabe, argumenta que o regime sírio, por exemplo, não exige necessariamente o fim da longa ocupação de territórios palestinos pelos israelitas, como tampouco exige o fim da ocupação, pelos israelitas, sequer, das planícies sírias do Golan. ‘O que distingue o regime sírio, dentre os demais estados árabes, é a recusa a seguir os planos dos EUA para a Região’, diz ele. Mas essa recusa não é feita por princípios e explica-se porque o governo sírio, de facto, aspira a ‘ter papel central na Região, em troca de promover qualquer acordo que ponha fim ao conflito entre árabes e israelitas’ – acrescenta Dalbah.

Em outras palavras, a posição dos sírios na questão do conflito entre israelitas e palestinos e a ‘resistência’ contra EUA e Israel seriam decisões tácticas, não estratégicas. Além do mais, os que apoiam o regime sírio apoiam-no porque os sírios recusam-se a render-se à hegemonia dos EUA na Região, a qual, por extensão, se-gundo esse ponto de vista, implicaria completa rendição a Israel.

Mwaffaq Mahadin, escritor e colunista jordaniano, cujas posições o inserem no grupo dos ‘nacionalistas árabes’ de Dalbah, manifestou-se, em coluna recentemente publicada no diário jordaniano Al Arab Al Yawm, contra qualquer tipo de apoio ao levante contra Bashar. Mahadin argumenta que o pensamento que anima os levantes da Primavera Árabe é um combinado de magnatas das finanças ocidentais (como George Soros) e de cientistas políticos norte-americanos (como Gene Sharp), que pregam a resistência não violenta à opressão.

Em sua mais recente coluna, Mahadin argumenta que Israel, ajudada pelos EUA, trabalha para fragmentar e dividir os países árabes, para continuar a controlá-los. Para chegar a isso, Israel e seus aliados ocidentais recorrem hoje a uma ‘fragmentação soft’ mascarada de ‘reformismo’ e de ‘democracia’.

Isso não implica dizer que intelectuais como Mahadin sejam contrários às reformas ou à democracia; mas, para eles, nem reformas nem democracia são questões prioritárias nesse momento; a prioridade, agora, para eles, é resistir à ocupação israelita e à dominação do mundo árabe pelos EUA.

Outro grupo que já apoia a derrubada do governo Baath da Síria e quer mais democracia, mesmo que ao custo de intervenção estrangeira, são os signatários da ‘Declaração de Damasco’ – assinada em 2005 por 250 nomes da oposição síria, que advoga transição e reformas graduais na política da Síria. Dalbah argumenta que figuras importantes desse grupo, como o escritor Michel Kilo, já estão bem próximas de aceitar e passar a apoiar a ideia de uma interven-ção militar em seu país, se esse for o meio mais eficaz para arrancar o governo Assad do poder.

Têm havido manifestações diárias anti-Assad em Amman, Beirute, Kuwait, Manama e em várias outras cidades, todas exigindo o fim do governo de Assad e família; mas nenhuma manifestação, até agora, em lugar algum, deu sinal de apoiar, ainda que longinquamente, qualquer tipo de intervenção militar ocidental na Síria.

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Lauren Booth: Agora sou muçulmana. Porquê tanto rebuliço?

Opinião – 20/11/2010 – Autora: Lauren Booth (cunhada de Tony Blair) – Fonte: The Guardian Versão Portuguesa: M. Yiossuf Adamgy – in revista islâmica portuguesa Al Furqán, nº. 178, de Novº./Dezº. 201

Finalmente, senti o que os muçulmanos sentem quando estão na verdadeira oração: um raio de doce harmonia.

Passaram cinco anos desde a minha primeira visita à Palestina. E quando cheguei à região para trabalhar junto de organizações de solidariedade em Gaza e na Cisjordânia, levei comigo a arrogância e a condescendência que todas as mulheres brancas de classe média (em segredo ou abertamente) mantêm para as pobres mulheres muçulmanas, mulheres que presumi que seriam pouco mais que manchas vestidas de negro, silenciosas na minha visão periférica. Como mulher ocidental com todas as minhas liberdades, esperava tratar apenas com homens no plano profissional. Afinal de contas, assim é o Islão, não é?

Esta semana, os gritos de falso horror dos companheiros colunistas, ao saberem da minha conversão ao Islão demonstram que a visão estereotipada prevalece sobre os quinhentos milhões de mulheres que actualmente praticam o Islão. Na minha primeira viagem a Ramalá, e em muitas visitas posteriores à Palestina, ao Egipto, à Jordânia e ao Líbano, efectivamente tratei com homens de poder. E, querido leitor, algum deles até tinha aquelas barbas que metem medo e que vemos nas notícias sobre lugares longínquos que nós bombardeamos até despedaçar. Surpreendentemente (para mim) também comecei a tratar com grande quantidade de mulheres de todas as idades, com todo tipo de lenços na cabeça, que também ocupavam cargos de poder. Acreditem ou não, as mulheres muçulmanas podem ter uma educação, trabalhar com o mesmo horário enfadonho com que nós trabalhamos, e até dar ordens aos maridos diante dos amigos, até que os primeiros abandonam a sala amuados para ir acabar de fazer o jantar.

Parece suficientemente condescendente?

Espero que sim, porque a minha conversão ao Islão foi a desculpa para que os comentaristas sarcásticos dirigissem todos esses pontos de vista paternalistas sobre as mulheres muçulmanas de todas as partes. Tanto é assim que, a caminho de uma reunião sobre a islamofobia, nos meios de comunicação, esta semana, considerei gravemente a compra de um gancho e fazer-me passar por Abu Hamza. Afinal de contas, a julgar pela reacção de muitas mulheres colunistas, agora sou para direitos das mulheres o que aquele do gancho é para a venda de facas e garfos.

Portanto, respiremos todos profundamente e deixá-los-ei ver o outro Islão no século XXI. Com certeza, não se pode passar por alto a maneira atroz como as mulheres são maltratadas pelos homens em muitas cidades e culturas, quer tenham, quer não, uma população islâmica. As mulheres que estão a ser maltratadas por parentes masculinos estão a ser maltratadas pelos homens, não por Deus. Grande parte das práticas e das leis de países “islâmicos” desviaram-se (ou não têm nada a ver) das origens do Islão. No seu lugar, basearam-se em práticas culturais ou costumes tradicionais (e, sim, machistas) que foram injectadas nessas sociedades. Por exemplo, na Arábia Saudita, as mulheres não podem conduzir por lei. Esta regra é um invento da monarquia saudita, estreita aliada do nosso governo [o britânico] no comércio de armas e petróleo. Tristemente, a luta pelos direitos das mulheres deve-se ajustar às necessidades do nosso próprio governo.

O meu próprio caminho para o Islão começou quando reparei na diferença entre o que se me subministrara, gota a gota, sobre a vida muçulmana e a realidade.

Comecei a perguntar-me acerca da tranquilidade que transmitem tantas “irmãs” e “irmãos”. Não todos, porque estamos a falar de seres humanos. Mas muitos. E na minha visita ao Irão no passado mês de Setembro, a lavagem, o ficar de joelhos e as recitações das orações nas mesquitas que visitei lembraram-me o ponto de vista ocidental de uma religião totalmente diferente, uma que é conhecida por evitar a violência e abraçar a paz e o amor através da meditação silenciosa. Uma religião de moda entre as estrelas de cinema, como Richard Gere, e que teria sido muito mais fácil admitir em público que se é adepto: o budismo. De facto, a prostração, o ajoelhar-se e a submissão das orações muçulmanas ressoam com palavras de paz e satisfação. Cada um começa assim: “Bismillahir Rah-manir Rahim” (“Em nome de Deus, o Beneficente, o Misericordioso”), e termina com a frase “Assalamu Alaikhum wa rahmatullahi wa bara-katuh” (‘A paz esteja contigo e a misericórdia e a bênção de Deus’).

Quase sem dar por isso, ao orar durante o último ano, mais ou menos, estive a dizer “Querido Allah” em lugar de “Querido Deus”. Ambos significam o mesmo, com certeza, mas para os conversos ao Islão a natureza estranha da língua das orações sagradas e do livro sagrado pode ser um obstáculo. Eu saltara esse obstáculo sem dar por isso. Depois veio a atracção: uma espécie de ir e vir emocional que responde à companhia de outros muçulmanos, com um elevado sentimento de franqueza e cordialidade. Bem, pelo menos assim foi para mim.

Que duros e cruéis começaram a parecer-me os meus amigos não muçulmanos e os meus colegas! Porque não podemos chorar em público, abraçar-nos mais uns aos outros, dizer “Amo-te” a um novo amigo, sem nos expor à suspeita ou ao ridículo? Via as emoções que se partilham nos lares junto das bandejas de doces com mel e perguntava: se a lei de Allah se baseia simplesmente no medo, por que não viram os amigos que amei e respeitei as costas às suas práticas e começam a beber, a “se divertir realmente” como fazemos no Ocidente? É isso que fazemos, não é?

Afinal senti o que os muçulmanos sentem quando estão na verdadeira oração: um raio de doce harmonia, um estremecimento de alegria em que me sentia agradecida por tudo o que tenho (pelos meus filhos) e segura na certeza de que não necessito de mais nada (junto com a oração) para estar totalmente satisfeita. Eu orava no oratório de Mesumeh, no Irão, depois da lavagem ritual dos antebraços, da cara, da cabeça e dos pés com água. E nada poderá ser o mesmo depois. É tão simples como isso.

O Xeique que no final me converteu, numa Mesquita, em Londres, há umas semanas, disse-me: “Não tenhas pressa, Lauren. Vai com calma. Deus está à tua espera. Não faças caso dos que te dizerem: ‘Deves fazer isto, vestir aquilo, levar o cabelo assim’. Segue os teus instintos, segue o Alcorão e que Deus te guie”. Portanto, agora vivo numa realidade não muito diferente da personagem de Jim Carrey no Show de Truman. Vi a grande mentira que é a fachada da nossa vida moderna; o materialismo, o consumismo, o sexo e as drogas dar-nos-ão uma felicidade duradoura. Mas também olhei mais além e vi uma encantadora e enriquecida existência de amor, paz e esperança. Enquanto isso, continuo com a vida diária, a fazer o jantar, os programas de televisão sobre a Palestina e, sim, a rezar cerca de meia hora por dia.

Agora, a minha manhã começa com a oração do amanhecer pelas 6h00 da manhã, rezo novamente às 13h30 e … finalmente às 22:30. O meu contínuo progresso com o Alcorão foi objecto de burla nalguns sectores (para que conste, estou na página 200). Estive à procura do aconselhamento de ayatolas, imames e xeiques, e todos disseram que cada pessoa tem a sua própria viagem ao Islão. Alguns decoram alguns textos antes da conversão; para mim, a leitura do livro sagrado levar-se-á a cabo lentamente e ao meu próprio ritmo. No passado, as tentativas para deixar o álcool não chegaram a nada; desde a conversão, nem sequer posso imaginar beber de novo. Não tenho nenhuma dúvida de que isto é para toda a vida: há tanto no Islão para aprender, desfrutar e admirar! Estou espantada com a sua maravilha. Nos últimos dias soube doutras mulheres que se converteram e disseram-me que isto é só o início, que continuam a amá-lo após 10 ou 20 anos.

Como nota final, gostaria de oferecer uma tradução rápida entre a cultura muçulmana e a cultura dos meios de comunicação, que pode ajudar a tirar a espinha da minha mudança de vida para alguns de vocês. Quando aparecem muçulmanos nas notícias da BBC a gritar “Alahu Akbar!” para o céu limpo do Médio Oriente, nós, os ocidentais, fomos treinados para ouvir: “Odiamos a todos vocês, sentados nas vossas salas britânicas, e estamos a ponto de nos explodir no Lidl enquanto fazem as compras semanais”. Pelo contrário, o que estamos a dizer é: “Deus é Grande!”, “e estamos a tirar forças da fraqueza depois das nações não muçulmanas atacarem os nossos povos”. Normalmente, esta frase proclama o nosso desejo de viver em paz com os nossos vizinhos, com o nosso Deus, com o nosso próximo, muçulmano ou não muçulmano. Ou, se não puder ser e no clima actual, simplesmente que nos deixem viver em paz; só isso já estaria bem.