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Muita confusão em torno de algo antigo

Uma nova onda de controvérsia e sediciosa violência está a devastar tanto a Europa como o mundo muçulmano. A causa de tudo isto é, uma vez mais, a publicação de “cartoons” alusivos à imagem do Profeta Muhammad (s.a.w.), considerados por uma grande parte da comunidade muçulmana como sendo uma blasfémia.

Nada disto é, obviamente, novidade. Já tínhamos sido confrontados com o mesmo, com as mesmas imagens inclusivamente, há dois anos. Mas este novo episódio de ofensa pela imagem surgiu com a revelação daquilo que tem sido considerado como ameaças feitas, presumivelmente, por extremistas islâmicos a um editor dinamarquês, em reacção ao episódio do primeiro “cartoon”.

Várias publicações europeias, inclusivamente um jornal evangélico cristão da Dinamarca, têm publicado a nova bomba visual contra o Islão, aparentemente em solidariedade com o editor e com aquilo que normalmente é considerado a liberdade de imprensa e o direito à liberdade de expressão.

Como retaliação, alguns jovens muçulmanos incendiaram carros e alguns bairros de Copenhaga e uma tempestade de protestos no mundo muçulmano apela a um novo boicote aos produtos dinamarqueses e à destituição do embaixador dinamarquês no Paquistão. E, de acordo com a informação disponível, tanto a Arábia Saudita como a Líbia destituíram os embaixadores da Dinamarca.

Vai recomeçar tudo outra vez.

Então que lições devemos (voltar) a retirar desta nova onda de publicações de “cartoons”?

Aqui fica a minha opinião:

A primeira lição é que, e de uma forma bastante literal, há muita gente que gosta de atirar pedras aos muçulmanos, sob o disfarce de uma errónea identificação dos mesmos com características de violência, traição e maldade, preconceitos que não irão desaparecer pelo simples facto de não os apreciarmos e de os contestarmos.

A segunda lição, e que acaba por ser uma consequência da primeira, é que ao deitarmos lenha para a fogueira, nós (muçulmanos) estamos apenas a conseguir queimar-nos a nós próprios, legitimando o conceito de que os muçulmanos são incapazes de responder à ofensa e crítica sem pegarem na espada da vingança.

(Aliás, este é, naturalmente, o efeito calculado da publicação destas provocações: criar uma imagem escandalosa do Profeta Muhammad, deixar que os muçulmanos se rebelem em resposta e deixar bem à vista de todos a incorrigível violência e radicalismo que caracterizam o mundo muçulmano).

A terceira lição é, no entanto, relativa à oportunidade de reagir a estes “cartoons” vista de uma maneira diferente, oportunidade que estamos a perder.

Com efeito, não precisamos de incendiar carros e bairros na Europa, ou de retaliar publicando as nossas próprias versões racistas de estereótipos com a intenção de ofender os europeus e, muitas vezes, os judeus. A nossa melhor resposta a este tipo de provocações é a cooperação entre muçulmanos e também com os numerosos aliados de outras fés para exigirmos o fim da publicação de todas as imagens religiosas depreciativas ou escandalosas, mas não enquanto privação da liberdade de imprensa, mas sim porque existe uma justificação moral para o fazer.

O Profeta Muhammad (s.a.w.) teve de lidar com escárnio e censura semelhantes durante a sua vida. Até mesmo a sua Mesquita foi profanada por alguém que nela resolveu urinar. No entanto, em vez de exigir que o pecador fosse castigado ou morto, Muhammad (s.a.w.) serviu-se do ocorrido para educá-lo sobre a natureza de uma melhor higiene e o respeito pela Casa de Deus.

Aqueles que nos difamam e odeiam são conduzidos por uma aversão irascível pelo Islão, aliada à profunda ignorância relativamente à diversidade da vida e cultura muçulmanas. Ora, não vai ser uma resposta violenta proveniente da comunidade muçulmana que os vai dissuadir de dizer, desenhar ou publicar o que entenderem.

Mas se, contrariamente, a nossa resposta for organizada e não violenta poderemos muito bem conseguir provar que os muçulmanos, quando são orientados pelo Alcorão e pela Sunnah do Profeta Muhammad (s.a.w.), são capazes de evocar um padrão moral mais elevado, razoável e estrategicamente mais eficaz, que lhes permite em conjunto com as os nossos aliados de comunidades de outros credos, defender a integridade da nossa fé.

Que Deus nos conceda o Seu verdadeiro amor e o do Seu último Mensageiro, e que nos conceda a graça de, no Dia da Ressurreição, estarmos entre aqueles que obedeceram verdadeiramente ao seu nobre lema. Ámen.

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Muçulmanos portugueses respondem em livro a D. José Policarpo

A organização muçulmana portuguesa Al Furqán acaba de publicar um livro que pretende esclarecer as declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa sobre o casamento com muçulmanos, proferidas em Janeiro na Figueira da Foz.

“é um esclarecimento da comunidade muçulmana. é uma opinião para esclarecer e não para atacar o Cardeal”, disse à agência Lusa Yiossuf Adamgy, director da Al Furqán e autor do livro “Muçulmanos esclarecem o cardeal D. José Policarpo”.

“Acredito que vou receber uma nota do próprio cardeal a dizer-me que o esclarecimento foi útil”, referiu o autor, que enviou um exemplar a D. José Policarpo.

Numa tertúlia realizada a 13 de Janeiro na Figueira da Foz, o Cardeal Patriarca de Lisboa advertiu as jovens portuguesas que casar com muçulmanos acarreta um “monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam”.

A 18 de Fevereiro, o cardeal D. José Saraiva Martins voltou a falar no assunto, aconselhando “muita cautela e prudência às mulheres católicas que pensem casar com muçulmanos.

Ao optar por escrever um livro, o director da Al Furqán afirmou que foi de encontro “ao que o próprio Cardeal Patriarca disse, que os cristãos precisam de saber o bê-a-bá do Alcorão”.

Destinado a muçulmanos e não-muçulmanos, o livro coloca lado a lado o que dizem a Bíblia e o Corão sobre a natureza feminina, o papel da mulher, o casamento, o uso de véu, a poligamia e o incesto.

“As pessoas, crentes no Cristianismo ou no Islão, não têm oportunidade de ler devidamente o Alcorão e a Bíblia”, opinou o autor, que espera que o livro ajude à compreensão do que é o Islamismo.

“Cada um depois tira as ilações que quiser”, disse.

Reforçando a ideia de abertura e diálogo entre as duas religiões em Portugal, Yiossuf Adamgy escreve no livro que, de facto, o casamento pode vir a ser “um monte de sarilhos”, seja para católicos seja para muçulmanos, “sobretudo quando não há tolerância, paciência e bom senso”.

A Al Furqán é uma organização islâmica independente, fundada em 1981, que se dedica ao estudo e divulgação de estudos islâmicos em Portugal.

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Mensagem do Vaticano relativamente à ‘Id al-Fitr

Da autoria de Monsenhor Michael L. Fitzgerald
Pres. do Cons. Pontífice para o Diálogo Religioso
sexta-feira, 12/11/2004

Caros amigos Muçulmanos,

Agora que se preparam para festejar o fim do mês do Ramadão, com a celebração da ‘Id al- Fitr, uma vez mais, como faço anualmente, apresento-vos os melhores votos do Conselho Pontífice para o Diálogo Inter-Religioso, ministério de Sua Santidade, o Papa, para as relações com pessoas de outras religiões. Nas suas preces, muitos foram os Cristãos que pensaram em vós e vos acompanharam neste período de jejum, o qual ocupa uma posição tão importante na vida da vossa comunidade. Logo que possível, vós ensinais aos vossos filhos a respeitarem este mês de jejum, assim desenvolvendo neles o sentido de Deus, a submissão à religião e, ao mesmo tempo, a vontade e o domínio de si mesmo. Deste modo, a família constitui o lugar de excelência para a educação religiosa inicial dos vossos filhos.

Hoje, gostaria de chamar a atenção para as crianças em geral e para o acolhimento que estas deverão receber, nas diversas etapas da sua vida, por parte dos seus pais, da sua família e de toda a sociedade. A criança tem o direito imprescindível à vida e, dentro do possível, de ser acolhida por uma família natural e estável. Do mesmo modo, tem o direito de ser alimentada, vestida e protegida. Além disso, tem o direito de ser educada, de modo a que todas as suas capacidades se desenvolvam e, mais tarde, ela própria proceda a esse mesmo desenvolvimento. Nesta perspectiva, a criança tem o direito a receber tratamento, caso adoeça ou seja vítima de algum acidente. A vida da criança, assim como a vida de qualquer outro ser humano, é sagrada.

Vós entendeis as crianças como uma benção de Deus, especialmente para os pais das mesmas. Nós, Cristãos, partilhamos desta mesma perspectiva religiosa. Mas, a nossa fé Cristã, ensina-nos também a descobrir na criança um modelo para as nossas relações para com Deus. Jesus indicou-nos, como exemplo, a simplicidade da criança, a sua confiança, a sua docilidade, a sua alegria de viver, dizendo-nos, assim, que devemos viver numa submissão confiante em relação a Deus, vendo n’Ele um Pai.

Nos últimos anos, e em diversas ocasiões, encontrámo-nos lado a lado em várias instâncias internacionais, onde confirmámos ou defendemos os valores humanos e religiosos fundamentais. Muitas vezes, o que estava em causa era a defesa dos direitos dos mais fracos, especialmente os da criança, desde o momento em que esta é concebida, até ao momento em que nasce.

Se pelo em diversas partes do Mundo, e relativamente a determinados aspectos, a criança beneficiou do respeito para com os Direitos do Homem, ela continua, todavia, a ser vítima de diversos males. Muitas são as crianças ainda sujeitas a trabalhos penosos, os quais comprometem o seu desenvolvimento físico e psicológico, impedindo-as de frequentar a escola e receberem a instrução a que têm direito. Muitas outras são recrutadas e envolvidas em guerras e conflitos. E foi nelas que o aumento dos abusos sexuais e da prostituição, verificados nos últimos anos, encontrou as suas principais vítimas. A criança tornou-se, principalmente, a nova vítima de determinadas mutações verificadas nas nossas sociedades. De facto, quando a família se separa, é a criança a primeira a sofrer. O desenvolvimento do tráfico e o consumo de droga, especialmente em países pobres, faz-se, muitas vezes, às suas custas. O ignóbil tráfico de órgãos humanos atinge particularmente as crianças. Frequentemente, a tragédia da Sida faz delas pequenos seres contaminados assim que nascem.

Face a todos estes males que atingem as nossas crianças, prezados amigos Muçulmanos, devemos unir esforços, recordando a dignidade de todo o ser humano, cuja existência é da vontade do próprio Deus, denunciando ininterruptamente tudo aquilo que degrade a criança e lutando, com todas as nossas forças, contra estas “estruturas de pecado”, citando, aqui, uma expressão utilizada pelo Papa João Paulo II. Temos perfeita consciência de que o futuro de toda a Humanidade depende do futuro das crianças. Assim sendo, espero que a nossa cooperação ao serviço das crianças continue e, inclusive, se desenvolva, proporcionando, assim, à Humanidade de hoje, uma das provas do carácter benéfico da religião para toda a comunidade humana.

Que neste mês do Ramadão, possam as vossas crianças sair fortalecidas com o cumprimento de obras be- néficas! Que elas aprendam, também, a resistir às felicidades ilusórias e aos prazeres efémeros, de modo a conquistarem uma liberdade interior e a melhor se submeterem a Deus! Que elas concedam, assim, um testemu- nho da importância dos valores religiosos! Uma vez mais, afirmo a minha oração a Deus Todo-Poderoso e Misericordioso, por vós e pelas vossas crianças em particular. Que Ele derrame sobre vós as Suas benções, fortifique as vossas famílias e as torne magnânimas e que Ele conceda, a cada um de vós, a Sua paz!

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Legítima defesa ou crime?

Por Salem H. Nasser, professor de Direito Internacional, Direito GV (Edesp-FGV)

Talvez uma das frases mais significativas, de tudo aquilo que tem sido dito desde que eclodiu a última crise envolvendo o Líbano, o Hezbollah e Israel, é aquela do presidente americano, George Bush: “Israel tem o direito de se defender”. Então é isso: a posição oficial do governo da maior potência mundial, detentora de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, onde acaba, por sinal, de usar seu poder de veto contra uma resolução condenando os ataques israelitas contra civis em Gaza, é a de considerar que os ataques de Israel à população civil do Líbano e à sua infra-estrutura constituem actos de legítima defesa. Bush pede, é verdade, que o exercício desse direito de defesa seja comedido, cuidadoso. Mas o cuidado necessário nada tem a ver com a protecção de civis inocentes diante da violência indiscriminada ou com evitar que a população seja colectivamente punida e encarcerada em um acto de vingança. O cuidado a ser tomado é o de não fazer nada que derrube o governo libanês. É a expressão, portanto, de uma conveniência política e não de uma preocupação humanitária ou legal.

Comecemos lembrando o óbvio. Líbano e Israel não são países amigos. Além de ter sofrido por mais de 20 anos com a ocupação israelita e ser ainda hoje vitimado constantemente por violações de seu território, o Líbano reclama de Israel a devolução de uma parte do que considera ser seu território, a libertação e devolução de libaneses presos em Israel e a entrega dos mapas das minas terrestres plantadas no sul do Líbano e que lá permanecem. Israel, por sua vez, vê o Líbano como país que oferece grande risco à segurança de sua fronteira ao norte e reclama dos ataques a suas cidades a partir do território libanês. O Hezbollah e Israel são inimigos declarados. Eles têm protagonizado um face a face violento desde que o primeiro foi criado, em 1982, para resistir à ocupação israelita. Já os EUA são o maior e mais decisivo aliado de Israel, em favor de quem tentam fazer pender a balança de poder na região. Para isso, tentam enfraquecer a posição relativa do Líbano enquanto adversário de Israel e, para tanto, eliminar o Hezbollah. Nestas circunstâncias, é normal e é compreensível que os lados opostos por uma contenda olhem para os factos a partir de perspectivas diversas e interpretem e justifiquem a realidade de modos conflitantes.

O Hezbollah, desde sua perspectiva, apresenta a seguinte interpretação para o ataque aos soldados israelitas e a captura de dois deles: trata-se de uma operação militar, dirigida contra soldados de um país inimigo. Os objectivos declarados da operação são, por um lado, garantir os meios de negociar a libertação de prisioneiros libaneses e outros das prisões israelitas e, por outro lado, desferir um golpe que poderia ser útil na luta pela desocupação de uma parte do território libanês. A justificativa apresentada combina justamente a continuidade das detenções de libaneses, sem acusação nem julgamento, e a permanência da ocupação israelita nas fazendas de Chebaa. A justificação se estende para além disso: o Hezbollah se considera parte integrante da luta contra a ocupação por Israel dos territórios palestinos e responsável também pelo destino de milhares de presos palestinos que enchem há décadas, também sem acusação nem julgamento, as prisões israelitas. A justificação abarcará ainda a solidariedade com a população de Gaza, onde civis têm morrido às dezenas nos últimos dias.

A perspectiva israelita é diferente. Para Israel, o ataque do Hezbollah foi o acto criminoso de uma organização que considera terrorista. Criminoso porque operado sem provocação e com o desrespeito à linha azul separando os dois países. Os objectivos declarados de sua operação de guerra contra o Líbano são a recuperação dos soldados e a destruição da capacidade de acção do Hezbollah. Esses mesmos objectivos justificam, segundo Israel, o modo como tem atacado o Líbano e a escolha dos alvos. Os EUA partilham, de modo geral, dessa mesma visão das coisas.

Dentro do Líbano e no mundo árabe em geral é possível encontrar aqueles que criticam a acção do Hezbollah sem, evidentemente, concordar com a resposta israelita. Consideram alguns que, apesar de legítima, a acção contra soldados israelitas veio no momento errado, dando aos israelitas a oportunidade de reagir violentamente e fazendo com que a população inteira pague preço caro.

Existem diversas perspectivas e muitas dessas coisas, a justiça de cada causa, a oportunidade e a legitimidade de cada acção, podem ser de facto debatidas. Mas algumas coisas, vistas através de não importa qual lente, são o que são e devem ser chamadas pelo seu nome. A humanidade sempre conheceu a guerra e nosso senso de humanidade estabeleceu regras e nos ensinou o que era inadmissível. O direito, essa outra produção humana, define como crimes alguma acções.

Os ataques indiscriminados contra as populações civis são crimes. A punição colectiva dessas populações é crime. Se a consulta ao direito internacional for enfadonha, basta ao homem consultar a sua consciência e o seu bom senso. Se para recuperar dois soldados capturados é lícito despejar as bombas sobre as casas das famílias, matando-as inteiras, talvez não seja crime explodir a si próprio num supermercado cheio de civis inocentes para lutar contra a prisão arbitrária e por tempo indeterminado de milhares de homens, mulheres e crianças, ou lutar contra a ocupação de sua terra, ou insurgir-se contra a opressão permanente a todo um povo, sobretudo quando, para se explodir, podem combinar o desespero e a falta de outros meios.

Mas não, nem toda violência é legítima, ainda que seja justa a causa, e um crime não pode ser travestido de legítima defesa. As nossas consciências podem estar adormecidas e, talvez, aceitem que a etiqueta “danos colaterais” seja colada às crianças, às mulheres, aos inocentes. Elas podem estar hipnotizadas pela “versão oficial”, segundo a qual tudo começou com o seqüestro criminoso de soldados israelitas e deixa a impressão de que antes disso ninguém morria em Gaza e ninguém sofria sob Israel. Mas é sempre tempo de acordar.

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A jihad no Islão

Al Furqán

Carta que a Revista Al Furqán enviou ao Snr. Director da Revista Visão, a propósito de um artigo inserido nesta revista sobre “Jihad”. De registar que a Visão publicou um pequeno excerto da carta que se segue: 31 de Dezembro 1994

Exmº. Senhor Director da Revista “Visão”
Com os nossos cumprimentos, vimos pedir a sua atenção para o seguinte:

Publicou a revista “Visão” de 29. Dezembro.94, alguns versículos do Alcorão relacionados com a Jihad, encabeçados pelo título “A Jihad no Corão”, seguido do sub-título “Estes são os versículos das diferentes suras que exaltam a guerra santa, e que os fundamentalistas pregam nas mesquitas, recomendando aos fiéis que as sigam à letra”.

Na sua qualidade de organização vocacionada para a divulgação do Islão em Portugal, a revista “Al Furqán” entende ser seu dever comentar a forma incorrecta e parcial como foi apresentado o escrito intitulado “A Jihad no Corão”.

    1. A “Visão” transcreveu alguns versículos do Alcorão, sem indicar o autor da Tradução, nem a Editora.
    2. 2. Para se fazer uma justa e correcta tradução do Alcorão, o seu autor deverá, como muito bem escreveu o Prof. Dr. Maurice Bucaille, no seu livro A Bíblia, o Alcorão e a Ciência”, na pág. 11, “ter conhecimentos científicos multidisciplinares, o que nem sempre se verifica com os Islamólogos Ocidentais (não islâmicos) que possuem formação literária predominante”. 3. Muitas palavras arábicas significam, num contexto, uma coisa, e noutro, outra coisa. Por conseguinte, uma palavra pode abrigar diversos significados. Por isso, sempre prevaleceu no Ocidente um grande mal entendido , e continua a prevalecer, em relação ao conceito de “Jihad” no Islão, considerando-o apenas sinónimo de “guerra santa, empreendida para a expansão imposta do Islão”. é realmente chocante verificar que, além dos jornalistas, até certas figuras chamadas eruditas, estudiosas e investigadoras, hoje em dia, não têm o cuidado sequer de consultar um dicionário da língua arábica, ou procurar uma tradução correcta e adequada do Alcorão, para, em relação à palavra “Jihad”, conseguirem descobrir, imparcialmente, o seu verdadeiro sentido e significado na respectiva conjuntura. 4. A palavra “Jihad” não é usada, exclusivamente para lutar. E mesmo lutar, nem sempre significa “fazer guerra”. O seu significado mais geral é: “esforço feito no caminho de Deus”. Por exemplo, “Hajj” (Peregrinação a Meca) é considerada, no Islão, como “Jihad”. O Profeta disse:

“A Hajj é a mais excelente das “Jihad”” (Bukhari, XXV:4)

      . Um simples convite para o Islão é considerado como “Jihad” :

“Devem os Muçulmanos orientar os seguidores do Livro para um caminho recto …” (Bukhari, LVI:99)

      . Fazer um esforço para adquirir conhecimento e transmiti-lo a outrem é, também, “Jihad”. Portanto, “Jihad” inclui o serviço prestado ao Islão de várias formas através de palavras expressas pela boca, ou pela pena, ou, em último caso, pela espada, se para tal se é obrigado. A propagação do Islão é, sem dúvida, um dever religioso de todo o verdadeiro Muçulmano, que deve seguir o exemplo do Profeta Muhammad (Maomé), que a paz esteja com ele, para pregar a religião e estabelecer a Palavra de Deus na Terra. Mas “a expansão do Islão pela força” é facto que não está consoante a teoria e a prática do Islão, porque o Alcorão esclarece, textualmente, o seguinte:

“Não há compulsão no Islão” (2:256)

    . E os povos de outras fés não podem ser convertidos ao Islão pela força, mas, a força pode e deve ser usada para banir a hostilidade, a agressão que são o “estai do mastro principal” da perseguição, da opressão e da intolerância. Abul A´la Maududi, um conceituado pensador Islâmico, afirma o seguinte no seu erudito estudo intitulado “Al Jihad-fi al-Islam”:

“A “espada do Islão” é somente aguçada contra aqueles que são agressores, contra aqueles que desejam subjugar o Islão e os Muçulmanos, ou para aqueles que criam rotura neste mundo e empregam a opressão e a perseguição; mas aqueles que não são opressores, ou agressores, ou perseguidores, que não estão para eliminar o Islão, e aqueles que não destroem a paz e a tranquilidade da sociedade humana decididamente a “espada do Islão” não tem nada a fazer contra eles. Eles podem pertencer a outra fé, obsequiar e acarinhar qualquer crença, mesmo errada e anti-islâmica que seja, o Islão não os perturba, as suas vidas e propriedades são intocáveis, e a “espada do Islão” está impotente contra eles”. Aliás, este é um facto reconhecido, também, por Ocidentais não Muçulmanos; citaremos apenas a opinião de Lacy O’Leary, in Islam at the Crossroads, London, 1923, p. 8:

” A História esclarece que a lenda dos Muçulmanos fanáticos varrendo o mundo e forçando o Islão na ponta da espada sobre raças conquistadas, é um dos mais fantásticos e absurdos mitos que os historiadores, alguma vez, mencionaram”.

Em Resumo: Os versículos transcritos pela “Visão”, que falam em combate, referem-se à autorização de auto-defesa dada por Deus, no Alcorão, ao povo sobre o qual a guerra foi imposta pelos seus inimigos. Não é uma autorização para empreender uma guerra contra todos os povos não-Muçulmanos em geral mas, apenas, contra o povo que empreendeu guerra contra os Muçulmanos, ou que recorreu a perseguição e agressão contra o povo mais fraco e estabeleceu regimes tirânicos que suprimiram a sua liberdade. E isto é comprovado através de versículos do Alcorão, que a “Visão” omitiu (ou não descobriu?) pura e simplesmente:

“E combatei no caminho de Deus contra aqueles que vos combatem; porém, não provoqueis as hostilidades, porque Deus não ama os agressores”. (2:190)

E se eles se inclinarem para a paz, inclina-te tu, também, a ela e confia em Deus. Ele é Quem escuta e sabe. E se eles te enganarem, fica sabendo que Deus te é Suficiente. Ele é Quem ampara com a Sua ajuda e com a dos crentes”. (8:61-62)

A guerra é tolerável em legítima defesa e sob limites bem definidos. Quando empreendida, deve ser levada a cabo com vigor (mas não implacavelmente), e somente com a finalidade de restaurar a paz e a liberdade para prestar, livremente, culto a Deus, ou repôr a justiça. Em qualquer dos casos, os limites estrictos não devem ser transgredidos: mulheres, crianças, idosos e enfermos não devem ser molestados (ao contrário do que se passou e passa na Bósnia, actualmente um genocídio à luz do dia, em plena Europa! e ao contrário do que a própria Bíblia prescreve em passagens como:

“vai, pois, agora, fere Amalec e vota ao anátema tudo o que lhe pertence, sem nada poupar. Matarás homens e mulheres, crianças e meninos de peito, bois e ovelhas, camelos e asnos” I Samuel, 15:3;

“Quanto a esses meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os cá e degolai-os na minha presença” Lucas, 19:27;

“nem as árvores cortadas, nem as colheitas destruídas, nem a paz recusada, quando o inimigo chega a um acordo”Nota nº. 204 ao vers. 2:190 da Tradução Portuguesa do Alcorão Edição de Al Furqán.

A recomendação da guerra, nos versículos do Alcorão transcritos pela revista “Visão” refere-se a um contexto histórico circunstancial. A esse tempo “os Muçulmanos estavam exilados de Meca, onde os Pagãos que tinham instaurado uma autocracia intolerante, perseguiam os Muçulmanos, impedindo-os de visitar os seus lares, e até de realizar a Peregrinação, mediante força, durante aquele período, universalmente reconhecido, de tréguas. Tudo isso representava a intolerância, a opressão e a autocracia no seu último estado, bem como o limite da boa vontade por parte dos Muçulmanos para fazer valer os seus direitos, como cidadãos árabes, expresso num acordo fielmente cumprido pelos Muçulmanos, sem qualquer derramamento de sangue. No entanto, os pagãos de Meca não tiveram quaisquer escrúpulos em quebrarem tal acordo, revelando-se desnecessário descrever, aqui, os acontecimentos subsequentes” Nota nº. 205 ao vers. 2:191 da Tradução Portuguesa do Alcorão Edição de Al Furqán.

Terminamos este rápido esclarecimento, solicitando à Direcção da Revista “Visão” que do mesmo seja dado conhecimento aos leitores que, desta forma, ficarão em melhores condições para tirar as conclusões que se impuserem às suas consciências. Os Muçulmanos de Portugal agradecem e esperam, democraticamente, ver publicado o seu ponto de vista, que se fundamenta em princípios históricos e doutrinais, que devem ser postos ao alcance de quem busca, sinceramente, a Verdade.