Posted on

Jerusalém celeste não possui proprietário terreno

Por: Mohammed Jamouchi – Filósofo (especial para Al Furqán)

é intenção de Mohammed Jamouchi demonstrar, apresentar ao público Europeu (por conseguinte, sem fazer uma escolha política ou dar lições aos que vivem esta situação no seu país) um ponto de vista pouco conhecido, visto a significação religiosa deste lugar ser frequentemente ocultada e também por apoiar-se mais na metafísica do que na política.

Após inúmeras décadas, a situação degrada-se e complica-se apenas. Foram muitas as manifestações afectivas e sentimentais, muitos os discursos políticos e éticos, e muitos os movimentos de forças militares a que assistimos. Muitos foram os acordos e tratados internacionais ofendidos, muitos vetos foram aplicados, não obstante o facto de indivíduo algum ou Estado, inclusive, poder colocar-se acima das leis em vigor no quadro do Direito Internacional.

Desde há meio século que, aquilo que, pudicamente, apelidamos de “o problema Palestiniano”, acantonou-se, primeiro, num perímetro local, depois, regional, isto antes de assumir uma amplitude pan-Arábe e pan-Islâmica com as suas ramificações internacionais. Foi grande, a tentativa de querer abandonar os verdadeiros problemas que vive o povo Palestiniano e reduzi-los (como uma divagação num parêntesis) a um simples problema humanitário de refugiados, antes de tender timidamente para uma possibilidade de legitimação de uma autoridade em busca de reconhecimento.

O nó do problema Palestiniano é o cerne da questão de um projecto estadual, que está no centro de conflitos e negociações intermináveis, mantidos por uma situação de guerras e paz perpétua, que giram em torno de questões decisivas: quais são as condições de realização do Estado, com que atribuições, com que soberania e autonomia, em que território, e com que capital? Além disso, é necessária a reivindicação da cidade de Jerusalém, enquanto sede central de um ou dois Estados independentes ou, pelo contrário, há que tratar este local como a Jerusalém sagrada [Al-Quds ash-Sharif]? Tanto num caso, como no outro, encontramos ainda outras subopções. No primeiro caso, considerar-se-á a Jerusalém Árabe, a Jerusalém Este ou Oeste? No segundo caso, que retira a soberania política nacional para a confinar a uma dimensão religiosa, considerar-se-á a reabilitação de um local sagrado para as três religiões monoteístas, permitindo-se o acesso a este lugar, património da Humanidade e estipulando que Jerusalém é um todo indivisível, um espaço indivisível e separado [corpus separatum], sob a supervisão de “representantes da Humanidade”.

A terra dos Profetas não é uma terra que se encontra à venda, a comprar pelos mais ricos, ou a leiloar pela melhor oferta. São actos como estes que revelam a ignorância do significado da Jerusalém celeste.

Por conseguinte, magoar a Palestina é o mesmo que ofender um berço do monoteísmo. Antes de cobiçar uma terra que não se destina a ser conquistada, convém reflectir no significado de um lugar santo, mítico e simbólico para redescobrir e meditar. A Palestina não é um campo de batalha, mas sim um local de reconciliação das tradições Judaicas, Católicas, Ortodoxas, Sunitas e Xiitas.

O Homem foi consagrado pela sua dignidade, pelo que este deve ser preservado ou, como dizia Esra Pound num dos seus poemas [cantos], no seu tempo: “Ser Homem, não destruidor”.

Para a tradição Xiita Imamita, Al-Quds está associada ao imã da época [ımam zaman], mas é sobretudo o local de onde o selo dos Profetas realizou a sua viagem de ascensão para Deus, atingindo o limite do lótus. As duas tradições evocam uma experiência situada fora da temporalidade. Os filósofos Muçulmanos concentraram os seus esforços nos significados [ma`anı] Alcorânicos de Al-Quds e desenvolveram um sentido místico e metafísico. Antes de empreender qualquer acção, há que aprofundar o sentido e os significados de Al-Quds. De um modo geral, determinados conceitos Bíblicos podem ser revistos e reactivados a partir da tradição profética perpétua. Neste caso, o texto da Torá, o profeta Daniel e o apocalipse de João podem ser revistos à luz do Alcorão, na busca de uma estrutura profética e mítica. De facto, para além das ciências da tradição profética [hadıce], convém desenvolver uma gnose profética [`ilm an-nubuwwa].

Posted on

O Islão não é a fonte do terrorismo, mas sim a sua solução

Por: M. Yiossuf Mohamed Adamgy

Artigo Publicado no Diário de Noticias em 3 partes.
Publicado no dia 10/10/2001

O Islão denuncia o terrorismo, pois o Alcorão é categórico a dizer: ” … Aqueles que causam corrupção na terra, sobre eles pesará a maldição e obterão a pior morada!” (Versículo Ar Ra’d, 13:25).

Durante as duas últimas décadas em particular, o conceito do “terror Islâmico” tem sido frequentemente discutido. Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, terroristas atacaram alvos em Nova Iorque e em Washington, o que provocou a morte de milhares de civis inocentes, e esse conceito, uma vez mais, regressou ao topo da agenda internacional.

Como Muçulmanos, condenamos completamente estes ataques bárbaros e oferecemos as nossas condolências ao povo Americano, curvando-nos com a mesma dor que sentimos diante de todos os povos injustiçados do mundo.

Neste apontamento, explicaremos que o Islão não é de forma alguma a fonte desta violência e que esta violência não tem qualquer lugar no Islão.

Condenamos fortemente os cruéis actos terroristas que atingiram o povo inocente dos Estados Unidos.

Um ponto a sublinhar logo no início é o de que as identidades dos perpetradores dos actos de terrorismo que atingiram os Estados Unidos, não foram ainda determinadas. Existe a possibilidade de que estes horríveis atacantes estejam ligados a centros muito diferentes. Pode bem ser uma organização que abriga raiva e ódio contra os valores Americanos, uma organização fascista que se opõe à administração federal ou uma facção secreta num outro estado. Mesmo que os piratas do ar possuam identidades Muçulmanas, as questões relativas a por quem e com que objectivos estas pessoas foram usadas, provavelmente permanecerão um mistério.

A realidade que permanece no entanto, é a de que, mesmo que os terroristas possuam identidades Muçulmanas, o terror por eles perpetrado não pode ser classificado de “terror Islâmico”, da mesma forma que não seria chamado de “terror Judaico” se os perpetradores fossem Judeus, ou de “terror Cristão” se fossem Cristãos.

Isto porque, como o verificaremos no seguimento deste apontamento, assassinar pessoas inocentes em nome da religião é inaceitável. Devemos ter em mente que, entre aqueles que foram mortos em Washington ou em Nova Iorque, havia pessoas que amavam Jesus (Cristãos), o Profeta Moisés (Judeus) e Muçulmanos (que amavam todos os Profetas, incluindo Moisés, Jesus e culminando em Muhammad (a paz esteja com todos eles). Segundo o Islão, assassinar pessoas inocentes é um grande pecado que, a menos que seja perdoado por DEUS, conduz ao tormento do Inferno.

Assim, uma pessoa religiosa que tenha receio a DEUS não pode nunca cometer um tal acto.

De facto, os agressores podem cometer uma tal violência apenas com a intenção de atacar a própria religião. Pode bem ser que tenham executado esta violência para apresentar a religião como maléfica aos olhos das pessoas, para divorciar as pessoas da religião e para originar ódio e reacção contra as pessoas piedosas. Consequentemente, cada ataque, ao ter uma fachada “religiosa” contra cidadãos Americanos ou contra outros povos inocentes é, na realidade, um ataque feito contra a religião.

Todas as três religiões monoteístas ordenam o amor, a misericórdia e a paz. O terror, por outro lado, é o oposto da religião; é cruel, impiedoso e exige o derramamento de sangue e a miséria. Sendo este o caso, enquanto se procuram os perpetradores de um acto terrorista, as suas origens devem ser procuradas na descrença em lugar de o serem na religião. Pessoas com uma concepção de vida racista ou materialista podem ser suspeitas como potenciais perpetradores. O nome ou a identidade do assassino não é importante. Se ele consegue matar pessoas inocentes sem pestanejar, qualquer que seja o seu rótulo, então, ele é um descrente, e não um crente, é um assassino sem receio a DEUS, cuja ambição principal é derramar sangue e causar o mal.

Por este motivo, “terror Islâmico” e “ameaça do Islão” é um conceito muito erróneo, o qual contradiz a mensagem do Islão. Isto deve-se ao facto de que, a religião do Islão, não pode, de forma alguma, concordar com o terror. Pelo contrário, os Muçulmanos são responsáveis por impe- dimento de actos terroristas e por trazerem a paz e a justiça ao mundo.

É igualmente frequente a comunicação social ocidental falar, erradamente, em “Fundamentalismo Islâmico” para caracterizar a acção violenta dos grupos terroristas. Mais uma ilustração da confusão, quiçá premeditada, existente sobre o Islão… E dizemos premeditada, porque é raro falar-se de “Fundamentalismo Cristão” ou de “Fundamentalismo Judaico”, que, nessa ordem de ideias, também existe… . Sendo o Islão a Religião de paz (islam) proporcionada pela submissão a DEUS, é impensável que a violência constitua um traço característico da Dou- trina Islâmica. Todos sabemos que para manter a dignidade humana se torna por vezes imperioso combater ou- tros seres humanos. (Por exemplo, a guerra contra o nazis- mo, as guerras de libertação colonial, a guerra contra os criminosos sérvios nos Balcãs…). Por maioria de razão se justifica a guerra contra os que impedem os crentes de adorar DEUS e de alcançar, portanto, o mais alto grau de dignidade humana. Guerra defensiva, pois. O Islão não permite nunca guerras ofensivas.

A forma de conduzir a guerra DEFENSIVA no Islão está também regulamentada e os seus limites “fundamentais” não podem ser ultrapassados. Um dos aspectos essenciais da forma de conduzir a guerra no Islão, é a ilegitimidade de produzir danos em civis e destruir a natureza. São assim rejeitadas as guerras químicas ou bacteriológicas, a bomba atómica… supremas criações da tecnologia Ocidental…

Igualmente rejeitada é a utilização de bombas em cidades, desvios de aviões, etc.

Consequentemente, todos os grupos islâmicos que utilizam formas de luta proíbidas pelos princípios Islâmicos, colocam-se à margem do Islão e deverão ser chamados “marginais do Islão”, ou algo equivalente, mas nunca “fundamentalistas Islâmicos”.

Os Valores do Alcorão exigem, Bondade, Justiça e Paz.

O terror, no seu sentido mais amplo, é a violência cometida contra alvos não militares devido a fins políticos. Dizendo isto de outra forma, os alvos do terror são civis completamente inocentes, cujo único crime é, aos olhos dos terroristas, representarem “o outro”. Isto é um acto desprovido de qualquer justificação moral. Isso, como no caso dos crimes cometidos por Hitler ou Estaline, é um crime cometido contra a “humanidade”.

O Alcorão é um Livro revelado às pessoas como um guia para o verdadeiro caminho e nele, DEUS ordena ao homem que adopte bons princípios morais. Esta moralidade encontra-se baseada em conceitos como o amor, a compaixão, a tolerância e a misericórdia. DEUS chama todas as pessoas para os princípios morais Islâmicos, através dos quais a compaixão, a misericórdia, a paz e a tolerância podem ser sentidas em todo o mundo:

“Ó vós que credes! Abraçai a paz (Islão), integralmente. E não sigais os passos de Satanás. Pois ele é o vosso inimigo declarado”. (Versículo al-Baqara, 2:208).

Os valores do Alcorão tornam um Muçulmano responsável por tratar todas as pessoas, quer sejam ou não Muçulmanas, amavelmente e justamente, protegendo os necessitados e os inocentes e impedindo a “disseminação do mal “. O mal compreende todas as formas de anarquia e de terror que aniquilam a segurança, o conforto e a paz. Como DEUS diz num versículo:

“Deus não ama os que praticam o mal”. (Versículo al-Qassas, 28: 77).

Posted on

Islão e Ocidente deveriam aprender um com o outro

Por Fatema Hassan (in The Muslim News, U.K., nº. 120)
Tradução de: M. Yiossuf Adamgy

O Dr. Mustafa Ceric, Rais al-‘Ulama e Grande Mufti da Bósnia, foi convidado a orar na Conferência do Islão e do Ocidente que teve lugar na London School of Economics.

O Dr. Ceric abordou assuntos relacionados com os Muçulmanos que habitam no Ocidente. Ele afirmou ‘Actualmente, quando alguém fala em nome do Islão, é acusado de tentar converter ou avançar com uma justificação para o Islão. Não tenho poder para influenciar a conversão, nem tenho a intenção de justificar o meu Islão.’

Ele criticou o Ocidente por permitir o abuso dos direitos humanos dos Bósnios e dos Albaneses do Kosovo, tendo argumentado que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá sido esquecida no caso dos Bósnios e dos Albaneses.

O Dr. Ceric disse ainda: ‘Para os meus companheiros Bósnios e para os meus companheiros Albaneses é de menos tarde demais. Parece que a Arca (comparando com a arca de Noé e a salvação de uma nação de gente do Dilúvio) da Declaração Universal dos Direitos Humanos não é espaçosa o suficiente para albergar certas espécies de humanidade. A sua planta foi desenhada no papel em Nova Iorque, mas não construída na montanha nos Balcãs ou na Europa.’

Seguidamente afirmou: ‘Imagens como a igualdade perante a lei, protecção de aprisionamentos arbitrários, o direito a um julgamento justo… são imagens deveras co

loridas mas pedaços de madeira demasiado corrompida para que a partir deles se possa construir a forte Arca universal para a salvação humana.’

Enfatizou, contudo, que nem ‘o Ocidente está contra o Islão nem o Islão contra o Ocidente’, unicamente aquilo a que o Islão se opõe é a jahiliyyah (ignorância), seja no Ocidente ou no Oriente.
Os Muçulmanos não devem encarar o Ocidente como uma ameaça: ‘Não pretendo dizer às gentes do Ocidente que continuem a encarar o Islão como uma ameaça ou o contrário. Têm o direito às suas próprias percepções e ilusões. Quero, sim, afirmar aos Muçulmanos que é um grande erro considerar o Ocidente como um mal e confrontá-lo com o Islão.’ Portanto, os Muçulmanos não deverão utilizar o Islão em sua defesa, antes defenderem-se a si próprios: ‘os Muçulmanos têm de ser honestos e reconhecer que necessitam que o Islão os defenda, mais do que o Islão necessita da sua defesa. O Islão precisa de uma compreensão genuína e sincera ao invés de um grito apologético.”

Por fim, terminou com uma análise à necessidade que os Muçulmanos e o Ocidente têm de viver juntos. Disse: ‘A ameaça não está no Islão, mas sim na nossa incapacidade espiritual de estar à altura dos valores morais universais; o mal não está no Ocidente, mas sim na nossa insegurança cultural. É chegada a altura do Islão ser visto como uma benção espiritual para o Ocidente e do Ocidente ser encarado como um apelo ao despertar intelectual para o Oriente Muçulmano.”

Posted on

Islão e o novo milénio

‘Quem não é grato pelas Graças Divinas, corre o risco de as perder;
E quem é grato, prende-as com as suas próprias cordas’ (Ibn Ata’illah, in Kitab al-Hikam)

 

O Islão e o Novo Milénio – um assunto grandioso para um editorial, e que, para os Muçulmanos, requer pelo menos dois requesitos antes de iniciarmos a questão:

 

  1. O Novo Milénio não é o nosso milénio. Lamentavelmente, a maioria dos Países Muçulmanos hoje em dia usa o Calendário Cristão inventado pelo Papa Gregório. Muitos confundem e pessoas muçulmanas secularizadas em países Muçulmanos já estão expressando bastante excitação. Esta semi-histeria deveria ser de pouco interesse para nós: como Muçulmanos temos o nosso próprio Calendário. O ano 2000 começará, de facto, durante o ano 1420 da Hégira (ár. Hijrah).
  2. mais imponderável diz respeito à nossa habilidade para falar confiantemente sobre o futuro, no fim de contas. Neste apontamento propõe-se especular sobre as direcções que o Islão pode tomar, seguindo o grande e muito exagerado aniversário. Mas a questão teológica é das pontuais: poderemos nós fazer isto de um modo halal (lícito)? O futuro está no Ghayb (Oculto); só é conhecido por Deus. E pode até acontecer que a raça humana não alcançe o ano 2000 … Deus põe e dispõe do mundo …

O Hadice de Gabriel (Jibrail a.s.) descreve como o anjo veio ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) perguntando-lhe quando seria o Dia de Julgamento; e ele só respondeu: “a respeito disso, o questionado não sabe mais do que o questionador”. Mas, segundo o Sagrado Alcorão, pode ser bem amanhã. Expectativas apocalípticas não são novas na história Islâmica: por exemplo, eles também surgiram em conexão com o milênio Islâmico. Imame al-Suyuti, o maior estudioso do Egipto Medieval, preocupara-se pelas expectativas nervosas que muitos muçulmanos tiveram a respeito do ano 1000 da Hégira. Anunciaria isso o fim do mundo, como muitos pensaram? Imame al-Suyuti acalmou estes receios ao examinar todos os Ahadice que ele conseguiu encontrar a respeito do tempo de vida desta Ummah. Ele escreveu um livro pequeno intitulado “Al-Kashf an mujawazat hadhihi al-umma al-Alf” (Prova de que esta Ummah sobreviverá o milénio). Nele, concluiu que não havia nenhuma evidência que o primeiro milénio do Islão terminaria a história humana. Mas, para à nossa geração, muito serenamente ele considera que os Ahadice que se encontram à sua disposição indicam que os sinais que precederão o retorno de Jesus (Issa a.s.), e o anti-Cristo (al-Massih al-Dajjal), são propensos a aparecerem no décimo quinto século Islâmico; por outras palavras, no nosso próprio século decorrente. Mas todas estas considerações, que estavam submissas à profunda consciência Islâmica do Imame al-Suyuti, queriam dizer que o conhecimento do Futuro está com Deus; e só Profetas podem profetizar. O que eu estarei a fazer nas páginas que seguem, então, não é nenhuma previsão, mas extrapolação. Allah ta’ala (Deus) é capaz de mudar o curso de história totalmente, por algum desastre natural, ou uma série de guerras desastrosas. Ele pode terminar a história até mesmo para o bem. Se isso acontecer a um passo do milénio, então as minhas previsões serão inúteis. Tudo o que eu estou a fazer é, de certo modo, falar sobre o presente, visto que as tendências presentes, ininterrompidas através de catástrofes, parecem determinadas a continuar nos próximos anos e décadas. Por que é útil reflectir sobre estas tendências? Porque eu penso que todos nós reconhecemos que o Muçulmanos, infelizmente, responderam em grande parte mal aos desafios do século XX; nomeadamente dos últimos três séculos. Por exemplo, no princípio do século XIX o império Otomano perdeu uma série de guerras desastrosas contra a Rússia. A razão principal foi a disciplina e o equipamento superior mantido por exércitos europeus modernos. Mas os Ulamas e o exército turco resistiram a qualquer mudança. Eles acreditavam que batalhas foram ganhas por fé, e aquelas armas de fogo e praças de armas diminuíam a virtude do código pessoal do guerreiro muçulmano. Atirar a um inimigo de uma grande distância, em lugar de olhar para ele no olho e lutar com uma espada, foi visto como uma forma de covardia. Consequentemente, o exército Otomano continuou a sofrer derrota atrás de derrota às mãos de seus inimigos Cristãos, bem-equipados. Outro caso intricado era a controvérsia sobre a impressão. Até ao século XVIII (e não só), uma maioria dos Ulamas (eruditos religiosos Islâmicos) acreditou que a impressão era haram (ilícita). Um texto, particularmente ligado com a religião, era algo sagrado, para ser criado pelas artes tradicionais de caligrafia e encadernação. Uma disponibilidade fácil de livros idênticos – pensavam os eruditos – baixaria o preço de aprendizagem Islâmica, e também tornariam preguiçosos os estudantes no que respeita a decorar ideias e textos. Mais adiante, foi pensado que o processo de estampar e apertar páginas eram desrespeitosos para os textos que podiam conter o nome da Fonte de todo o ser. Foi um húngaro convertido ao Islão, Ibrahim Muteferrika, que conseguiu mudar tudo isso. Muteferrika obteve a permissão do Califa Otomano para imprimir livros seculares e científicos e, em 1720, ele fundou a primeira imprensa Islâmica em Istanbul. Muteferrika foi um sincero convertido e explicou profundamente as suas convicções religiosas num livro que ele intitulou Rissale-yi Islamiye. Também se preocupou deveras com o atraso técnico e administrativo do Império Otomano. Por isso, igualmente escreveu um livro intitulado Ussul al-Hikam fi Nizam al-Umam e publicou-o em 1731. Neste livro descreve os governos e sistemas de exército que prevaleciam na Europa, e disse à elite Otomana que os estados Muçulmanos independentes só poderiam sobreviver se eles obtivessem emprestado não só a tecnologia militar, mas também optar por estilos de admi- nistração e conhecimento científico Europeu. As advertências de Ibrahim Muteferrika sobre a contorversa questão do Estado Otomano se modernizar foram lentamente consideradas, tentando no entanto preservar o que era essencial para sua identidade Islâmica. A história de Muteferrika faz-nos relembrar o seguinte: se os muçulmanos não tiverem consciência das tendências globais da sua era, eles continuarão a ser os perdedores.
Esta ignorância, às vezes, pode ser espantosa. É que conhecem-se alguns dirigentes Islâmicos, chefes de facções activistas, líderes de grupos religiosos que nos deixam chocados pela sua constante falta de conhecimento e diplomacia. Quantos podem sequer nomear os sistemas intelectuais principais de nosso tempo? Pós-modernismo, realismo, filosofia analítica, teoria crítica, e tudo o resto que são livros fechados para eles. Ao invés, eles divagam sobre “a Conspiração Internacional Sionista”, ou “Baha’ismo”, ou “Nova Invasão dos Cruzados”, ou fantasmas semelhantes. Se nós quisermos entender por que tantos movimentos Islâmicos falham, deveríamos talvez começar por reconhecer que os seus líderes simplesmente não têm o poder de compreensão intelectual do mundo moderno, que é um requisito prévio para superar os obstáculos, com bom êxito.
Um activista Muçulmano que não entende as ideologias do modernismo sadio dificilmente poderá superar os obstáculos da vida actual.

Posted on

Iraque – a política dos E.U.A. é baseada na ganância

In The Mercury, (África do Sul) de 20/02/98
Artigo enviado por Faruk Tarmamade (África do Sul) – Tradução de Yiossuf Adamgy

A preocupação àcerca das “armas para destruição em massa” de Saddam não é mais do que um desviar de atenção, argumenta Dumisani Makhaye, da ANC KwaZulu Natal (Membro de Parlamento Sul Afriacano)

Quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma. Com o fim da guerra fria, houve um suspiro de alívio que tivesse sido por fim encontrada uma solução permanente para os conflitos internacionais e regionais. Acreditou-se que os conflitos armados como uma solução para os conflitos regionais e internacionais seriam substituídos por soluções pacíficas e diplomáticas. A história está a provar que o optimismo foi ingénuo. No início da semana passada eu estava a sintonizar a rádio BBC. Desde esse dia a principal história em África é o derrube da Junta Militar da Serra Leoa. As forças nigerianas tomaram finalmente Freetown e estão a ser levadas a cabo operações de limpeza pelo país. O crime do antigo chefe da camarilha militar da Serra Leoa, Major John Koroma, é que ele destituiu um governo eleito democraticamente. Como é que a Nigéria, ela própria governada por um ditador militar, Gen. Sani Abacha, se atreve a intervir na Serra Leoa para destituir outro militar forte? O mundo ficou calado. O mal triunfa onde bons homens e mulheres ficam calados.

A outra notícia é a crise do Golfo. A crise não é nova. A última crise culminou uma década de guerra entre o Iraque e as forças internacionais lideradas e dominadas pelos Estados Unidos. De acordo com a propaganda dos Estados Unidos, a defesa de Saddam Hussein tinha sido finalmente quebrada. Generais foram condecorados e os soldados americanos voltaram para casa vitoriosos. Mas à medida que os anos passaram, tornou-se claro que nem tudo o que foi divulgado pela propaganda americana era verdade. A guerra do Golfo começou com a invasão e ocupação do Kuwait pelo Iraque. Anteriormente, houve uma guerra sem sentido durante seis anos entre o Irão do Ayatollah Khomeini e o Iraque. O revolucionário Irão, que derrubou o regime pro-Estados Unidos do Shah do Irão, era considerado pela América como um inimigo. Houve a crise dos reféns americanos no Irão. Na guerra Irão-Iraque, os Estados Unidos defenderam o Iraque e ajudaram a armá-lo. Mesmo nessa altura, o Iraque usou armas de destruição em massa mas os Estados Unidos aquiesceram (e a Europa assistiu “num silêncio dos calados” …).

Depois desta guerra, o Iraque ficou fortalecido militarmente. Viu-se a ele próprio como um polícia regional e um protector dos interesses árabes na região contra Israel. Foi então necessário um aumento no preço do petróleo para levantar a sua economia que estava devastada pela guerra. Os países árabes acederam a esta exigência, mas mais tarde o Kuwait negou e baixou os seus preços do petróleo. Então o Iraque invadiu o Kuwait. Os EUA tomam o partido de Kuwait porque têm um estratégico interesse em que baixem os preços do petróleo. Os EUA são o maior consumidor de petróleo do mundo.

Isto conduziu à acção militar contra o antigo aliado da América, o Iraque. Claro, a América não tem amigos permanentes mas sim interesses permanentes. A actual crise no Golfo, disseram-nos, é por causa da inspecção das armas de destruição em massa no Iraque. O problema do Iraque é o facto da equipa de inspecção das Nações Unidas ser dominada e conduzida pelos EUA. O Iraque acusa os inspectores americanos de serem espiões. Os inspectores dos EUA pedem autorização para inspeccionar os palácios presidenciais. O Iraque, correctamente, vê isto como uma tentativa para humilhar o Iraque e espiar o Presidente Saddam Hussein para futuros ataques.

Terão os EUA um direito moral de proceder assim? O que leva os EUA a proceder como um fanfarrão, mesmo com o risco de condenação internacional? Os seus parceiros no Conselho de Segurança das Nações Unidas França, China e Rússia não concordam com a resolução dos EUA de atacar o Iraque militarmente. Mesmo a Turquia disse que não ofereceria as suas bases para o ataque contra o Iraque, e outros importantes países árabes discordaram dos Estados Unidos da América. Quando se torna claro que o Iraque não tem mesmo armas de destruição em massa, os EUA dizem-nos que o Iraque já exportou essas armas para os países Árabes como o Sudão e a Líbia. É claro que os Estados Unidos não querem uma solução pacífica. É o desejo ardente pela guerra.

É estranho que os EUA estejam tão preocupados àcerca das armas para destruição em massa possivelmente em poder do Iraque, quando os próprios EUA dispõem de de toneladas e toneladas de armas para destruição em massa, incluindo armas nucleares, não só no solo dos EUA mas também no dos países estrangeiros. Os EUA foram o único país que já usou bombas atómicas na História em Hiroshima e Nagasaki. Na década de 60 os EUA invadiram literalmente Congo Brazaville de Patrice Lumumba, usandomercenários. A Coreia, Vietname e Cuba foram vítimas da intervenção militar americana. A pequena ilha de Grenada foi invadida pelos Estados Unidos há menos de duas décadas. A desestabilização do governo Sandinista na Nicarágua pelo apoio militar aos contra-revolucionários foi da responsabilidade dos EUA. Há pouco mais de cinco anos, os EUA atacaram o Panamá e rigorosamente raptaram o seu chefe, General Noriega que, presentemente está a cumprir uma longa pena numa prisão dos Estados Unidos. Onde está a moral deste país?

Vejamos agora o comportamento do mais próximo aliado dos EUA no Médio Oriente, Israel, e a sua reacção em relação a este comportamento. Israel ocupa parte de países Árabes, incluindo a Palestina, pela força das armas. Israel tornou-se a origem de todo o terrorismo no Médio Oriente. Uma grande faixa de terra do Líbano está ocupada por Israel e é considerada como uma zona de segurança Israelita.

Mesmo a Jordânia, aliada dos Estados Unidos, não está imune ao terrorismo Israelita. Em vez de actuar contra Israel, os Estados Unidos de América dão cada vez mais apoio a Israel, incluindo sofisticadas armas de destruição em massa, tal como a capacidade nuclear israelita, e apoio financeiro e diplomático. Os EUA vetaram todas as acções do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra Israel.

As razões do interesse americano na acção militar contra o Iraque são outras. Com o fim da Guerra Fria, os interesses económicos do complexo militar-industrial dos Estados Unidos estavam ameaçados. Já não havia mercado florescente para estas forças. Para justificar o gasto massivo em armamento sofisticado tornou-se importante criar pontos de conflito armado. Algumas das armas de destruição em massa dos Estados Unidos não foram testadas. O Iraque pode ser o local de teste dessas armas.

O Presidente Bill Clinton recentemente revelou um segredo quando declarou que não poderia haver paz enquanto Saddam Hussein fosse o presidente do Iraque. Assim, o problema não são as armas de destruição em massa que o Iraque possui, mas Saddam Hussein. Isto foi seguido por um elaborado exercício de controle de custos. A guerra pode também ajudar a desviar a atenção dos problemas pessoais de Bill Clinton.

É apropriado que os países no Golfo assumam a liderança do processo de resolução da crise do Golfo. Infelizmente, o comportamento de Saddam Hussein às vezes cai directamente nas mãos das forças reaccionárias nos Estados Unidos de América.