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Choque ou coexistência pacífica?

Será que o Islão e o Ocidente estarão para se guerrearem? é possível para os habitantes da nossa aldeia global viverem pacificamente juntos e colherem os frutos da ciência e da tecnologia cujo estado de avanço está sempre a aumentar? Ou estarão as suas diferenças religiosas, culturais e civilizacionais predestinadas a criar conflitos e guerras entre eles? O assunto é tão importante que importa aos intelectuais e homens de estado, sobretudo Muçulmanos, prestarem-lhe uma séria atenção. Muitos intelectuais ocidentais estão muito preocupados com esta questão. Mas de forma nenhuma se encontram em acordo quanto à resposta.

Uma visão é a de que o choque entre a civilização ocidental e outras é inevitável, estando já em curso. Outra visão é a de que o verdadeiro choque encontra-se no seio da própria cultura ocidental. Uma terceira visão é a de que as pessoas de todo o mundo se direccionam para um libera- lismo político ocidental e para o capitalismo económico, e que estes sistemas constituem o ponto final da história em relação a estes assuntos.

Uma quarta visão é a de que a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes culturas e civilizações é possível desde que elas adoptem uma democracia pluralista secular.

Qual é a posição Islâmica sobre este assunto importante e urgente?

Trata-se de uma posição inequívoca a favor da coexistência pacífica. Mas para se viver pacíficamente com os ou- tros é por vezes necessário estar completamente preparado para a guerra com eles.

Vejamos, pois, quais as razões para a coexistência pacífica:

  1. Racionalismo é uma parte inseparável da religião Islâmica, e esse racionalismo inclui o ingrediente importante de julgar as acções pelas suas consequências. Mas é naturalmente um racionalismo guiado por outros valores islâmicos. A acção preferível é aquela que resulta no maior bem, ou a menos má. Os principais bens a ser alcançados no Islão por exemplo, são bens que seriam aceites, em geral, pela maior parte das pessoas. Estes são: bem estar Espiritual e mental, uma vida humana, riqueza humana e honra. Julgada por este padrão racional e esses valores, a coexistência pacífica e a cooperação é definitivamente preferível a guerras e a choques em circunstâncias normais.
  2. Enquanto algumas religiões, ideologias seculares e teorias psicológicas ensinam que o ser humano nasce maldoso; enquanto outras ensinam que nasceu neutral entre o bem e o mal e é a sociedade que o dirige para uma via ou para a outra; enquanto outras acreditam ainda que não existe tal coisa como a natureza humana; enquanto algumas são descaradamen- te racistas e outras discriminatórias em alguns pontos, a posição Islâmica, pelas palavras do Profeta Muhammad (s.a.w.), é a de que toda a criança nasce boa. Quaisquer que sejam as crenças presentes ou o meio cultural dele ou dela, qualquer ser humano é um Muçulmano potencial. Ao olhar para pessoas de outras crenças e culturas, os Muçulmanos não se devem esquecer de ver a natureza original que reside por detrás da fachada dessas culturas.
  3. Portanto, o melhor favor que um Muçulmano pode fazer a um não Muçulmano é ama- velmente convidá-lo para o Islão; é persuadi-lo a ele ou a ela a regressar à sua origem natural. Mas ao fazer tal é necessário que o Muçulmano tenha em mente certos factos, e atenda a certos princípios, entre os quais está o facto de que uma vez que a fé é um assunto do coração, ninguém pode ser forçado a aceitá-la. Isto é compreendido no versículo em que se lê, “convida para o caminho do teu Senhor com sabedoria, e boa apelação, e discute com eles na melhor das formas”. Como pode isto ser alcançado senão numa atmosfera pacífica?
  4. Deus diz ao seu Profeta que por muito motivado que esteja em que as pessoas aceitem a fé, a maior parte delas não o fará. Ao mesmo tempo, Ele diz ao Profeta que ele é enviado como uma misericórdia para elas, e que a sua maior tarefa é nunca se fartar de as convidar para a verdade.
  5. A coexistência pacífica entre pessoas pertencentes a diferentes religiões e civilizações facilita-lhes o intercâmbio de benefícios materiais e intelectuais. Ajuda-as também a cooperar na resolução de problemas que se lhes deparam como habitantes de uma aldeia global: a droga, as doenças, a poluição, etc. Mas este quadro ideal de coexistência pacífica e cooperação não se pode alcançar se o Ocidente viver no medo constante de que a sua hegemonia será perdida, e por isso fizer o possível por privar os outros de se desenvolverem.
  6. Nenhuma pessoa racional que tenha uma ideia da quantidade de armas disponíveis no mundo e da extensão dos estragos que elas podem causar hesitará em ser contra todos os tipos de guerras, locais ou à escala mundial. Para evitar as guerras devemos contudo tentar erradicar tantas das suas causas quantas pudermos. Temos, pois, de lutar pela justiça e contra todas as formas de tratamentos injustos e agressões.
  7. Os Muçulmanos deveriam ter um importante papel nisto porque estão qualificados para isso. O Islão é uma religião que não compromete valores morais como a verdade e a justiça. Os crentes no Islão são impelidos a ser aliados uns dos outros independentemente da raça ou tempo ou lugar.
  8. Os Muçulmanos, a meu ver, apostam especialmente na paz. Se a paz prevalecer, o Islão terá uma maior oportunidade para ser ouvido e aceite no Ocidente, e em todo o lado. Muita gente no Ocidente e noutras partes do mundo estão a voltar à religião de tal modo que o que se chama “fundamentalismo” tornou-se um fenómeno universal. As pessoas descobriram que a ciência, por muito respeitada e valorizada que seja, não pode substituir a religião.
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Jerusalém celeste não possui proprietário terreno

Por: Mohammed Jamouchi – Filósofo (especial para Al Furqán)

é intenção de Mohammed Jamouchi demonstrar, apresentar ao público Europeu (por conseguinte, sem fazer uma escolha política ou dar lições aos que vivem esta situação no seu país) um ponto de vista pouco conhecido, visto a significação religiosa deste lugar ser frequentemente ocultada e também por apoiar-se mais na metafísica do que na política.

Após inúmeras décadas, a situação degrada-se e complica-se apenas. Foram muitas as manifestações afectivas e sentimentais, muitos os discursos políticos e éticos, e muitos os movimentos de forças militares a que assistimos. Muitos foram os acordos e tratados internacionais ofendidos, muitos vetos foram aplicados, não obstante o facto de indivíduo algum ou Estado, inclusive, poder colocar-se acima das leis em vigor no quadro do Direito Internacional.

Desde há meio século que, aquilo que, pudicamente, apelidamos de “o problema Palestiniano”, acantonou-se, primeiro, num perímetro local, depois, regional, isto antes de assumir uma amplitude pan-Arábe e pan-Islâmica com as suas ramificações internacionais. Foi grande, a tentativa de querer abandonar os verdadeiros problemas que vive o povo Palestiniano e reduzi-los (como uma divagação num parêntesis) a um simples problema humanitário de refugiados, antes de tender timidamente para uma possibilidade de legitimação de uma autoridade em busca de reconhecimento.

O nó do problema Palestiniano é o cerne da questão de um projecto estadual, que está no centro de conflitos e negociações intermináveis, mantidos por uma situação de guerras e paz perpétua, que giram em torno de questões decisivas: quais são as condições de realização do Estado, com que atribuições, com que soberania e autonomia, em que território, e com que capital? Além disso, é necessária a reivindicação da cidade de Jerusalém, enquanto sede central de um ou dois Estados independentes ou, pelo contrário, há que tratar este local como a Jerusalém sagrada [Al-Quds ash-Sharif]? Tanto num caso, como no outro, encontramos ainda outras subopções. No primeiro caso, considerar-se-á a Jerusalém Árabe, a Jerusalém Este ou Oeste? No segundo caso, que retira a soberania política nacional para a confinar a uma dimensão religiosa, considerar-se-á a reabilitação de um local sagrado para as três religiões monoteístas, permitindo-se o acesso a este lugar, património da Humanidade e estipulando que Jerusalém é um todo indivisível, um espaço indivisível e separado [corpus separatum], sob a supervisão de “representantes da Humanidade”.

A terra dos Profetas não é uma terra que se encontra à venda, a comprar pelos mais ricos, ou a leiloar pela melhor oferta. São actos como estes que revelam a ignorância do significado da Jerusalém celeste.

Por conseguinte, magoar a Palestina é o mesmo que ofender um berço do monoteísmo. Antes de cobiçar uma terra que não se destina a ser conquistada, convém reflectir no significado de um lugar santo, mítico e simbólico para redescobrir e meditar. A Palestina não é um campo de batalha, mas sim um local de reconciliação das tradições Judaicas, Católicas, Ortodoxas, Sunitas e Xiitas.

O Homem foi consagrado pela sua dignidade, pelo que este deve ser preservado ou, como dizia Esra Pound num dos seus poemas [cantos], no seu tempo: “Ser Homem, não destruidor”.

Para a tradição Xiita Imamita, Al-Quds está associada ao imã da época [ımam zaman], mas é sobretudo o local de onde o selo dos Profetas realizou a sua viagem de ascensão para Deus, atingindo o limite do lótus. As duas tradições evocam uma experiência situada fora da temporalidade. Os filósofos Muçulmanos concentraram os seus esforços nos significados [ma`anı] Alcorânicos de Al-Quds e desenvolveram um sentido místico e metafísico. Antes de empreender qualquer acção, há que aprofundar o sentido e os significados de Al-Quds. De um modo geral, determinados conceitos Bíblicos podem ser revistos e reactivados a partir da tradição profética perpétua. Neste caso, o texto da Torá, o profeta Daniel e o apocalipse de João podem ser revistos à luz do Alcorão, na busca de uma estrutura profética e mítica. De facto, para além das ciências da tradição profética [hadıce], convém desenvolver uma gnose profética [`ilm an-nubuwwa].

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Conferência de Teerão

Conferência de Teerão recomenda a Ummah Muçulmana a adoptar posição comum para a Palestina

No fim da Conferência Internacional sobre a Palestina, realizada em de Teerão de 4 a 5 de Março, os participantes emitiram uma declaração conjunta que recomenda, insistentemente, todos os países Islâmicos a adoptarem uma posição comum para a Palestina.

Parlamentares, pensadores, escritores, jornalistas e juristas de oitenta países assistiram à conferência internacional, a qual durou dois dias, intitulada: Palestina: Manifestação de Resistência, Gaza: Vítima de Crimes.

Em determinada parte da declaração é possível ler-se o seguinte: “Segundo a quarta convenção de Genebra, as agressões do regime Sionista contra a Faixa de Gaza são, devido ao uso de armas proibidas, uma manifestação de crimes de guerra e massacres”.

Durante os 22 dias de guerra contra Gaza, cerca de 1500 civis foram mortos, muitos dos quais mulheres e crianças, e cerca de 5500 foram feridos.

A declaração acrescenta o seguinte: “Visto todas as soluções internacionais e regionais de décadas anteriores terem fracassado, devido à recusa Sionista em reconhecer a principal causa do conflito, a ocupação da Palestina, frisamos a necessidade de conduzir um referendo entre todos os Palestinianos…incluindo Muçulmanos, Cristãos e Judeus, para que escolham a estrutura do seu governo”.

A declaração sublinha também que “o principal inimigo da Ummah Muçulmana é o regime Sionista” e convida os Estados Islâmicos a adoptarem uma posição comum contra Israel.

Pede também a comunidade internacional e organizações mundiais a cumprirem os seus deveres legais e a adoptarem medidas para perseguir os culpados de crimes contra a Humanidade na Palestina.

Numa outra parte, a declaração pede à Liga Árabe que implemente o seu acordo para levantar o cerco da Faixa de Gaza.

“Relativamente a isto, pedimos especialmente ao Egipto que abra completa e definitivamente a fronteira de Rafah… Caso contrário, toda a responsabilidade recairá sobre este país”.

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A jihad no Islão

Al Furqán

Carta que a Revista Al Furqán enviou ao Snr. Director da Revista Visão, a propósito de um artigo inserido nesta revista sobre “Jihad”. De registar que a Visão publicou um pequeno excerto da carta que se segue: 31 de Dezembro 1994

Exmº. Senhor Director da Revista “Visão”
Com os nossos cumprimentos, vimos pedir a sua atenção para o seguinte:

Publicou a revista “Visão” de 29. Dezembro.94, alguns versículos do Alcorão relacionados com a Jihad, encabeçados pelo título “A Jihad no Corão”, seguido do sub-título “Estes são os versículos das diferentes suras que exaltam a guerra santa, e que os fundamentalistas pregam nas mesquitas, recomendando aos fiéis que as sigam à letra”.

Na sua qualidade de organização vocacionada para a divulgação do Islão em Portugal, a revista “Al Furqán” entende ser seu dever comentar a forma incorrecta e parcial como foi apresentado o escrito intitulado “A Jihad no Corão”.

    1. A “Visão” transcreveu alguns versículos do Alcorão, sem indicar o autor da Tradução, nem a Editora.
    2. 2. Para se fazer uma justa e correcta tradução do Alcorão, o seu autor deverá, como muito bem escreveu o Prof. Dr. Maurice Bucaille, no seu livro A Bíblia, o Alcorão e a Ciência”, na pág. 11, “ter conhecimentos científicos multidisciplinares, o que nem sempre se verifica com os Islamólogos Ocidentais (não islâmicos) que possuem formação literária predominante”. 3. Muitas palavras arábicas significam, num contexto, uma coisa, e noutro, outra coisa. Por conseguinte, uma palavra pode abrigar diversos significados. Por isso, sempre prevaleceu no Ocidente um grande mal entendido , e continua a prevalecer, em relação ao conceito de “Jihad” no Islão, considerando-o apenas sinónimo de “guerra santa, empreendida para a expansão imposta do Islão”. é realmente chocante verificar que, além dos jornalistas, até certas figuras chamadas eruditas, estudiosas e investigadoras, hoje em dia, não têm o cuidado sequer de consultar um dicionário da língua arábica, ou procurar uma tradução correcta e adequada do Alcorão, para, em relação à palavra “Jihad”, conseguirem descobrir, imparcialmente, o seu verdadeiro sentido e significado na respectiva conjuntura. 4. A palavra “Jihad” não é usada, exclusivamente para lutar. E mesmo lutar, nem sempre significa “fazer guerra”. O seu significado mais geral é: “esforço feito no caminho de Deus”. Por exemplo, “Hajj” (Peregrinação a Meca) é considerada, no Islão, como “Jihad”. O Profeta disse:

“A Hajj é a mais excelente das “Jihad”” (Bukhari, XXV:4)

      . Um simples convite para o Islão é considerado como “Jihad” :

“Devem os Muçulmanos orientar os seguidores do Livro para um caminho recto …” (Bukhari, LVI:99)

      . Fazer um esforço para adquirir conhecimento e transmiti-lo a outrem é, também, “Jihad”. Portanto, “Jihad” inclui o serviço prestado ao Islão de várias formas através de palavras expressas pela boca, ou pela pena, ou, em último caso, pela espada, se para tal se é obrigado. A propagação do Islão é, sem dúvida, um dever religioso de todo o verdadeiro Muçulmano, que deve seguir o exemplo do Profeta Muhammad (Maomé), que a paz esteja com ele, para pregar a religião e estabelecer a Palavra de Deus na Terra. Mas “a expansão do Islão pela força” é facto que não está consoante a teoria e a prática do Islão, porque o Alcorão esclarece, textualmente, o seguinte:

“Não há compulsão no Islão” (2:256)

    . E os povos de outras fés não podem ser convertidos ao Islão pela força, mas, a força pode e deve ser usada para banir a hostilidade, a agressão que são o “estai do mastro principal” da perseguição, da opressão e da intolerância. Abul A´la Maududi, um conceituado pensador Islâmico, afirma o seguinte no seu erudito estudo intitulado “Al Jihad-fi al-Islam”:

“A “espada do Islão” é somente aguçada contra aqueles que são agressores, contra aqueles que desejam subjugar o Islão e os Muçulmanos, ou para aqueles que criam rotura neste mundo e empregam a opressão e a perseguição; mas aqueles que não são opressores, ou agressores, ou perseguidores, que não estão para eliminar o Islão, e aqueles que não destroem a paz e a tranquilidade da sociedade humana decididamente a “espada do Islão” não tem nada a fazer contra eles. Eles podem pertencer a outra fé, obsequiar e acarinhar qualquer crença, mesmo errada e anti-islâmica que seja, o Islão não os perturba, as suas vidas e propriedades são intocáveis, e a “espada do Islão” está impotente contra eles”. Aliás, este é um facto reconhecido, também, por Ocidentais não Muçulmanos; citaremos apenas a opinião de Lacy O’Leary, in Islam at the Crossroads, London, 1923, p. 8:

” A História esclarece que a lenda dos Muçulmanos fanáticos varrendo o mundo e forçando o Islão na ponta da espada sobre raças conquistadas, é um dos mais fantásticos e absurdos mitos que os historiadores, alguma vez, mencionaram”.

Em Resumo: Os versículos transcritos pela “Visão”, que falam em combate, referem-se à autorização de auto-defesa dada por Deus, no Alcorão, ao povo sobre o qual a guerra foi imposta pelos seus inimigos. Não é uma autorização para empreender uma guerra contra todos os povos não-Muçulmanos em geral mas, apenas, contra o povo que empreendeu guerra contra os Muçulmanos, ou que recorreu a perseguição e agressão contra o povo mais fraco e estabeleceu regimes tirânicos que suprimiram a sua liberdade. E isto é comprovado através de versículos do Alcorão, que a “Visão” omitiu (ou não descobriu?) pura e simplesmente:

“E combatei no caminho de Deus contra aqueles que vos combatem; porém, não provoqueis as hostilidades, porque Deus não ama os agressores”. (2:190)

E se eles se inclinarem para a paz, inclina-te tu, também, a ela e confia em Deus. Ele é Quem escuta e sabe. E se eles te enganarem, fica sabendo que Deus te é Suficiente. Ele é Quem ampara com a Sua ajuda e com a dos crentes”. (8:61-62)

A guerra é tolerável em legítima defesa e sob limites bem definidos. Quando empreendida, deve ser levada a cabo com vigor (mas não implacavelmente), e somente com a finalidade de restaurar a paz e a liberdade para prestar, livremente, culto a Deus, ou repôr a justiça. Em qualquer dos casos, os limites estrictos não devem ser transgredidos: mulheres, crianças, idosos e enfermos não devem ser molestados (ao contrário do que se passou e passa na Bósnia, actualmente um genocídio à luz do dia, em plena Europa! e ao contrário do que a própria Bíblia prescreve em passagens como:

“vai, pois, agora, fere Amalec e vota ao anátema tudo o que lhe pertence, sem nada poupar. Matarás homens e mulheres, crianças e meninos de peito, bois e ovelhas, camelos e asnos” I Samuel, 15:3;

“Quanto a esses meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os cá e degolai-os na minha presença” Lucas, 19:27;

“nem as árvores cortadas, nem as colheitas destruídas, nem a paz recusada, quando o inimigo chega a um acordo”Nota nº. 204 ao vers. 2:190 da Tradução Portuguesa do Alcorão Edição de Al Furqán.

A recomendação da guerra, nos versículos do Alcorão transcritos pela revista “Visão” refere-se a um contexto histórico circunstancial. A esse tempo “os Muçulmanos estavam exilados de Meca, onde os Pagãos que tinham instaurado uma autocracia intolerante, perseguiam os Muçulmanos, impedindo-os de visitar os seus lares, e até de realizar a Peregrinação, mediante força, durante aquele período, universalmente reconhecido, de tréguas. Tudo isso representava a intolerância, a opressão e a autocracia no seu último estado, bem como o limite da boa vontade por parte dos Muçulmanos para fazer valer os seus direitos, como cidadãos árabes, expresso num acordo fielmente cumprido pelos Muçulmanos, sem qualquer derramamento de sangue. No entanto, os pagãos de Meca não tiveram quaisquer escrúpulos em quebrarem tal acordo, revelando-se desnecessário descrever, aqui, os acontecimentos subsequentes” Nota nº. 205 ao vers. 2:191 da Tradução Portuguesa do Alcorão Edição de Al Furqán.

Terminamos este rápido esclarecimento, solicitando à Direcção da Revista “Visão” que do mesmo seja dado conhecimento aos leitores que, desta forma, ficarão em melhores condições para tirar as conclusões que se impuserem às suas consciências. Os Muçulmanos de Portugal agradecem e esperam, democraticamente, ver publicado o seu ponto de vista, que se fundamenta em princípios históricos e doutrinais, que devem ser postos ao alcance de quem busca, sinceramente, a Verdade.

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11 de Setembro – cinco anos depois

Coord. por Yiossuf Adamgy

Trabalhar para o Caminho do Encontro

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

Cinco anos se passaram desde os atentados de Nova Iorque, o 11 de Setembro.

Os acontecimentos deram-se da maneira prevista. As invasões de países organizados muito antes dos atentados encontraram uma justificação aos olhos do público, insensibilizado peran- te a dor alheia. Leis anti-terroristas impróprias de um estado de direito foram promulgadas pelos defensores da liberdade. A guerra é a paz e o terror a democracia. Violações de mulheres iraquianas, assassinatos de civis sem motivo, talvez pelo prazer de ver como a vida se esvai. Prisões secretas onde se tortura meros suspeitos, detidos sem necessidade de provas, testemunhas, tribunais ou advogados. Campo de concentração onde o poder afoga toda a dissidência enquanto proclamam a liberdade de expressão como um valor inalienável. Falsas operações anti-terroristas onde se detêm muçulmanos pelo simples facto de o serem, para manter viva entre a opinião pública a ameaça que justifica o massacre de novos inocentes. A chamada “luta contra o terrorismo” está a semear a destruição e o ódio, dando azo a que outros justifiquem os seus ataques perante outro público também anestesiado perante a dor alheia. Os atentados de Londres e de Atocha são a prova disso. A violência gera a violência. Há interesse em que tudo continue na mesma, como estava previsto desde há muito tempo.

A cidadania no Ocidente debate-se entre a aceitação e a impotência. O pensamento crítico, que no século passado pertenceu a alguns dos maiores pensadores da era moderna, está em franca retirada. Assistimos à difusão crescente de um pensamento único, que se acredita superior e destinado a impôr-se ao conjunto dos povos. Assistimos à consolidação de uma corrente de opinião auto complacente com “os enganos do ocidente” que descarta toda a crítica como uma traição.

A política deixou de ser o reino do possível. Os verdadeiros problemas estruturais das nossas sociedades não fazem parte da agenda política, nem aparecem nos meios de informação. A democracia deixou de ser um meio para ser um fim em si mesma, desvinculado da ânsia de justiça que a viu nascer. O poder aquisitivo da maioria baixa abruptamente, de forma imparável, enquanto alguns, acumulam imensas fortunas à custa do trabalho da cidadania. Aproximamo-nos de uma situação de paralisia institucional, do beco sem saída da economia de mercado, do poder sem limite dos especuladores. A maioria dos meios de comunicação estão cheios de analistas ao serviço das multinacionais que lutam pela hegemonia, relegando para segundo plano os verdadeiros intelectuais.

E nada é o que parece, entramos numa espiral onde a representação que o poder faz de si mesmo passa por ser a própria Realidade, zelando por todo o bem e beleza contidos na Criação, cegando os corações e enchendo as nossas mentes de lixo. Ruído mediático que deverá desvanecer-se um dia, incha’Allâh.

Apesar do tempo passado, os acontecimentos sucederam-se desde o 11 de Setembro sem nos dar tempo a assimilá-los, levando-nos a um estado onde a visão interior fica turva. Alguns permanecem presos às emoções do primeiro momento, convenientemente recordadas em cada nova cena. Para outros, a impotência perante a fome e o massacre dos afegãos, dos iraquianos, dos palestinianos, dos libaneses e de tantos outros povos, confundem-se com o sentimento de libertação que experimentaram ao ver cair as Torres. Libertação de uma raiva largamente contida, de um desalento perante a impunidade com a qual o terror se impõe nas nossas vidas, em nome da civilização e democracia. Mas a manipulação desvanece-se. Muito depressa a falsa euforia de se ter “ferido o império” se dissipou na imensa maioria da , que se apercebia perfeitamente que nos mentiam e que se estavam a utilizar dos atentados para promover a destruição do mundo islâmico e a apoderar-se do petróleo afegão e iraquiano. Também nos demos conta de que o sucedido era o assassinato cruel de milhares de pessoas em nome de não se sabe o quê, sem que chegássemos a conhecer reivindicação alguma.

As imagens das Torres Gémeas desvanecendo-se converteram-se já num ícone do século XXI, através do qual as emoções mais primárias saem a jorros, para serem apanhadas e postas ao serviço de interesses obscuros. Mas não devemos deixar que essas imagens nos condicionem, não devemos ficar num estado meramente emocional e devemos avançar em direcção a uma consciência mais profunda. Esses interesses obscuros conduzem-nos ao desespero e logo nos oferecem o anzol, a “salvação” que criaram como desculpa para nos massacrar. A promoção mediática da figura de Bin Laden como um “ídolo” para as massas muçulmanas fracassou estrondosamente. A imensa maioria dos muçulmanos considera-o um agente da CIA. Eles tratam de nos manipular, mas a verdade é Deus quem nos põe à prova.

Passados cinco anos temos uma perspectiva muito precisa da situação e podemos a partir dela interrogarmo-nos: Qual foi o efeito real do atentado? Quem beneficiou desde o primeiro momento? As companhias petrolíferas lançaram-se na exploração dos recursos naturais do Iraque e do Afeganistão. O poderoso lobby do armamento conseguiu definir um “inimigo invisível” que pode servir-lhes de desculpas para múltiplos negócios. Os sionistas legitimam o seu direito aos assassinatos selectivos e às matanças de civis, assimilando a resistência à Shoá do povo palestino à nebulosa do “terrorismo islâmico”. A ultra direita evangélica anglo saxónica aplaude as invasões como um passo para a destruição do Islão … Em qualquer caso, o 11 de Setembro significou um retrocesso importante para a justiça em todo o mundo, piorando a situação dos mais desfavorecidos, jogando a favor daqueles que se apresentaram (cinicamente) como vítimas.”

O combate contra esta manipulação é hoje uma tarefa iniludível. Devemos ser capazes de dar a volta à situação, pegar nas imagens e oferecer outra leitura. Ao apontar o Islão como ‘inimigo do ocidente ‘, manifesta-se a pretensão do terrorismo neoliberal se apresentar como único ‘representante do ocidente’. Mas na verdade o Islão faz parte do ocidente e eles apenas representam a barbárie. Entre estas linhas do discurso dominante vemos aparecer uma verdade mais certa, que se refere à força do Islão como algo capaz de opor-se ao capitalismo selvagem que nos querem impor como único modelo (pensamento único, monoteísmo de mercado) sem ter em conta que os privilégios que gozam as classes altas da metrópole não chegam à maior parte dos habitantes da terra, de que para a maioria a globalização neo liberal significa escravidão e desenraizamento, militarismo e agiotagem, fome e sofrimento para centenas de milhares de pessoas.

Já não é possível aguentar mais a maquinaria de morte que se espalha sobre o mundo. Uma grande parte do planeta vive no limite do humanamente suportável e parece evidente que se algo não acontecer urgentemente vamos ver como tudo explode. Quando vemos a crueldade sem limites do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das grandes multinacionais e o descaramento absoluto dos Estados Unidos para massacrar povos inteiros perante a opinião pública, estremecemos. Que se esconde por trás de tudo isto? Trata-se do sonho de domínio de um povo eleito ou de uma raça superior? Ou ainda do sonho de um império universal que tem acompanhado a humanidade desde os seus pri- mórdios? Não conseguimos sabê-lo, mas em todo o caso é importante não nos deixarmos arrastar por umas dicotomias que apenas a eles interessam, não cair no jogo da morte.

Perante esta situação, torna-se imprescindível pensar no nosso Jihad (Esforço), aqui e agora. O Islão, ainda que sendo altamente combativo, não é violento. Não pode ser violento. Não pode ser manipulado para a violência. Existe uma delicadeza no tratamento que é inseparável do Islão, isso a que chamamos adab e que nos impede a violência sem fazermos cair na afectação. Basta dizer que o Profeta Muhammad [Maomé] (s.a.w.) tratava até mesmo as coisas com delicadeza. Não gostava que se batesse nem numa mesa ou que se tratasse mal a roupa. Punha nomes às suas capas e acariciava as montanhas. É, no sentido literal do termo, um homem do Jardim.

Não se trata de repetir que o Islão e o terrorismo são contrários para satisfazer a opinião pública, nem para sair desse estado de suspeita em que continuamente nos colocam. Trata-se da nossa obrigação de desenvolver meios islâmicos (lícitos) para travar a destruição do mundo, na medida das nossas possibilidades. O certo é que o verdadeiro muçulmano tem um sentido implícito de justiça, do equilíbrio interno das coisas, que o torna incompatível com qualquer forma de destruição generalizada. Existem numerosas prescrições relativas ao modo islâmico de combater, tiradas a partir das palavras do Profeta. Todas elas demonstram um respeito pela vida que vai muito além do aparente. Muhammad (s.a.w.) diz-nos que não devemos destruir uma árvore ou envenenar um poço para vencer uma batalha e muito menos matar um inocente. Não há vitória que justifique a injustiça. No Islão, o fim não justifica os meios, pois essa é uma ideia puramente utilitarista, que nada tem a ver com a ikhlas, a pureza de intenção que Deus nos prescreveu.

Se somos capazes de aprofundar o impacto de todos estes conhecimentos e ao mesmo tempo livrarmo-nos das imagens e das fantasias mentais suscitadas, se somos capazes de ir mais além da aparência, de superar o estado de ilusão a que nos conduziram e nos apercebemos da estratégia do império, teremos já alguma coisa valiosa com que nos opormos a eles e a sua estratégia terá dado um fruto inesperado. É assim que se torna realidade o versículo do Alcorão que, ao longo destes anos, tem estado presente entre nós: “Deixa que eles tramem, pois Deus está atento às suas maquinações”.

Eles não sabem o que fazem, não sabem quais as forças que estão a contribuir para o despertar em todo o mundo. Colocando o Islão em ponto de mira do terrorismo neo liberal estão a despertar uma curiosidade e um interesse em relação ao Islão que os irá (já está a) surpreender. Desde o 11 de Setembro que o Islão cresce no Ocidente. Cada dia que passa são mais os cidadãos europeus e norte americanos que encontram no Islão um caminho que os tira da banalidade e da mentira e os devolve à Realidade, à vasta terra de Deus, a uma Criação que se renova a cada instante.

Conheço poucas pessoas que se tenham interressadas, sinceramente, pelo Islão e não tenham acabado reconhecendo-o como algo próprio, pois o Islão não é senão a recuperação do que chamamos de fitrat, da natureza primitiva de cada ser humano.

O modo como a maioria dos muçulmanos do mundo vive o seu Islão pouco tem a ver com todas as imagens que os meios de comunicação difundem. Há que ver os homens de luz reunidos à volta de uma chávena de chá para entender porque é que o Islão provoca o desespero e a recusa do sistema. Os povos reúnem-se à volta do mais simples, formam comunidades de um modo natural, não têm pressa e sabem olhar nos olhos a partir da sua humanidade, a partir do seu coração de criatura. Um homem enraizado, que recusa as ficções, não pode reduzir-se à imagem do produtor-consumidor que nos querem impor como modelo, tem que recusar quase todas essas coisas que nos querem presentear como necessidades, pois na verdade não passam de lixo. Essa é a tarefa do Islão aqui e agora, como o foi nos tempos do Profeta: reestabelecer os valores de uma cosmo-visão aberta, de uma comunidade não depredadora, que nos permite agarrar-se à terra e manter-se fiel à beleza e ao bem que emanam da Criação.

Necessitamos urgentemente de reflectir sobre um esforço de superação e de oposição ao terror que tem acompanhado os homens de bem desde o principio dos tempos. O chamamento de Jihâd realizado pelos tiranos e fanáticos de turno não é mais do que um engano. Cada vez que sai um vídeo onde um sósia de Bin Laden apela à “jihad contra os infiéis” a Bolsa em Nova Iorque sobe. Mas isso não quer dizer que o jihad (esforço, empenho) não seja uma peça do Islão, completamente imprescindível no momento em que a barbárie avança a passo firme: Como ultrapassar o nosso estado de dispersão sem o esforço do encontro? Como escapar a esse confronto que quer levar milhões de pessoas à morte sem um esforço lúcido de nos livrarmos de toda a idolatria? Os ídolos agora não são umas estatuetas de barro, mas sim a pornografia, a ideologia do consumo, a justificação da guerra e da euforia competitiva, todas as grandes mentiras que se institucionalizaram. Não há nada mais destrutivo que esse culto acenntuado do dinheiro que domina as nossas sociedades. Sobre isto o Alcorão tem um versículo clarificador: “Quando queremos destruir uma cidade…fazemos aos ricos detentores do poder” (XVII, 16), algo que se torne evidente tanto na América dos Bush e dos Cheney como na Arábia dos Banu Saud (Sauditas).

É necessário pensarmos na jihad (esforço) deste nosso compromisso com a Realidade, a partir da nossa entrega a Deus.

A nossa capacidade de resistência à alienação torna-se firme a partir do momento em que sentimos Deus como mais imediato. O Alcorão diz-nos que “Deus está mais perto do homem que a sua veia jugular”, que “Olhes para onde olhares está a Face de Deus”. Nada está mais distante disso que o ‘deus’ distante dos clérigos reaccionários, esse senhor severo sentado num trono de pedra, ou senhor cruxificado e sangran- do que nos enche de tristeza. Para o Muçulmano essas imagens não são mais que véus, pois ele sabe que o único real é o imediato, que a Realidade não pode ser quantificada, segregada a uma imagem.

Deus não só vê através das coisas e dos acontecimentos, em todos os momentos e olhares, no amor da mãe pelo filho, ou mesmo entre as ruínas de um incêndio.

A porta do Islão é o assombro, a capacidade que temos de nos maravilharmos perante um gesto de nobreza e isso é o que não devemos deixar que nos tirem, substituindo a beleza primária da terra por umas imagens de conforto ou de violência que eles espalham à sua volta. A Beleza e a Majestade da Criação são o nosso único horizonte, esse lugar comum de todos os encontros, à volta do qual os homens se reúnem tranquilamente. Esse é o mundo que as bombas nos escondem, e do qual, muitas vezes, as estratégias dos meios de comunicação tratam de nos desenraizar. Nós somos representantes de Deus e temos uma responsabilidade enorme: o cuidado do mundo. Devemos contribuir para recriar um mundo de luz paralelo ao mundo das guerras e das ideologias e a esse mundo torná-lo cada vez mais amplo, mais habitável e partilhável e convidar todos os nossos irmãos, sejam ateus, cristãos, judeus ou budistas, membros de qualquer religião ou de qualquer raça. Numa só frase: Trabalhar para o caminho do encontro.