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A minha Economia

CONVERSA EDITADA POR LÚCIA CRESPO
In Jornal de Negócios | Sexta-Feira, 2 de Setembro de 2011 | Weekend, págs. 20 | 21

Ainda não é uma da tarde, sexta-feira, 26 de Agosto. Mulheres negras com vestes coloridas, guineenses, sobretudo guineenses. Homens de túnicas compridas, brancas, beges. Às duas da tarde há oração na Mesquita de Lisboa, uma das cinco preces diárias por altura do Ramadão, este ano em Agosto. O calendário lunar assim o ditou. Está sol e quando está sol e muita gente, o solo da oração estende-se até ao pátio interno da Mesquita. M. Yiossuf Mohamed Adamgy está lá. Veio de Moçambique há 35 anos e, desde então, já escreveu 200 livros e livrinhos sobre o véu, a mulher no Islão, a carne de porco, o terrorismo, a liberdade religiosa. “Sobre a usura” – a usura na Bíblia e no Alcorão é o título do seu último livro. Algumas das suas obras estiveram expostas na feira do livro islâmica em Portugal, que terminou na semana passada

O Ramadão é o mês em que nós carregamos as nossas baterias espirituais para o resto do ano. Acordo a um quarto para as cinco, faço a minha refeição de alvorada, antes do nascer do sol. Não podemos comer nada até ao pôr-do-sol, nem sequer beber água. Nada. Não é fácil, mas olhe que o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível. Pior é para os indivíduos que trabalham nas obras, transpiram, devem ter uma dificuldade tremenda. Há pessoas que até tiram férias nesta altura para se dedicar às orações e às recitações. Mas nos países islâmicos ninguém deixa de trabalhar, o jejum tem de ser feito normalmente, e isso, sim, é que é o sacrifício, o sentir a fome daqueles que não têm casa ou pousio.

Neste mês, as pessoas são muito caridosas, distribuem a esmola, o ‘zakat’. Cada um faz as contas ao dinheiro que lhes sobrou. Sobre essa quantia há uma taxa de 2,5%. É a própria pessoa que, de acordo com a sua consciência, retira esse montante para dar a quem necessita. Aqui, na Mesquita, há uma comissão que recebe a quantia ou o rancho, um cabaz com alimentos. Mas há esmolas durante todo ano. Temos viúvas, doentes, enfim, pessoas que não têm rendimentos, que até recebem uma mensalidade. Este ano, as pessoas deram menos dinheiro, mas há mais gente a pedir, inclusivamente pessoas não muçulmanas. Nós damos. Na ruptura do jejum, durante o pôr-do-sol, aparecem 30 a 40 pessoas para comer. Esperam que as orações acabem e acompanham-nos até ao refeitório. Também aparecem indivíduos da classe média a pedir, mas a comissão sonda a capacidade económica para não ser enganada, porque já vieram pessoas com carros que não parecem ser de alguém necessitado.

A sociedade portuguesa é caridosa. Ainda há valores, um pingo de consciência, as pessoas dão o que podem, isso é humanismo. É bom, pois a sociedade, sobretudo no Ocidente, está a tornar-se muito materialista. A Europa já perdeu os valores todos. Morais, sociais. E agora chega a parte económica. Eu sou do tempo em que, quando estudava no liceu, era obrigado a ir às aulas de Religião e Moral. Aprendi o Pai Nosso e a Avé Maria e não me fez mal. Eu tinha a minha religião, mas não me sentia revoltado. Soube filtrar. Vim de Moçambique há 35 anos e as minhas filhas já nasceram cá. Quando estavam no liceu, trouxeram-me um papel para assinar a isenção das aulas da Religião e Moral. Não assinei. ‘Mas nem eles, que são cristãos, vão…’, protestaram. Enquanto estiveram sob a minha alçada foram. As aulas de moral davam ao aluno um certo valor para ter escrúpulos, para respeitar os pais, os professores, para ajudar uma velha que vai na rua. Hoje não há isso. É importante ensinar as bases morais do ser humano, sem impingir esta ou aquela religião, sem a Avé Maria, mas ensinar o mútuo respeito, a coexistência entre as várias culturas.

A religião tem vindo, pouco a pouco, a perder-se. No Ocidente perdeu-se mais depressa, embora haja muita gente na Europa a abraçar o Islão, especialmente depois do 11 de Setembro, o que é curioso. E falo da classe intelectual, jornalistas, médicos…Talvez as pessoas estejam à procura de alguma coisa, têm uma espécie de fome espiritual. Aqui, em Portugal, também há pessoas que se convertem, mas menos que em Espanha e França. Somos um país mais pequeno…A verdade é que a comunidade islâmica está a diminuir em Portugal – seremos cerca de 40 mil, chegámos a ser quase 60 mil há sete anos – muita gente tirou bilhete daqui, não há trabalho. Voltaram para Moçambique ou preferem Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, embora a crise seja geral. Até há pessoas a irem para Angola. Vão para onde conseguem fazer a vida.

Hoje as cúpulas das religiões tentam compreender-se mutuamente, dialogar, sobretudo depois do 11 de Setembro. Tirando a tragédia, condenável, que muito me chocou, acho que, de alguma forma, os acontecimentos serviram para os muçulmanos reflectirem melhor sobre a sua própria religião, pois também eram ignorantes ou tinham tradições um pouco deturpadas, como a defesa de que a mulher não podia trabalhar. O Alcorão dá toda a liberdade, ao homem e à mulher. E, por outro lado, os não-muçulmanos começaram a estudar que bicho era o Islão. Ao longo destes 10 anos, publiquei grandes e pequenos livrinhos sobre o véu, a mulher no Islão, a carne de porco, o terrorismo, a liberdade religiosa. Isto porque, após os atentados, parecia que o terrorismo estava ligado ao Islão, infelizmente…

Acabei de publicar um livro sobre a usura, os juros sobre juros. Todas as religiões condenam a usura. A própria Bíblia também a proíbe, no entanto o Vaticano foi muito benevolente nesse tema, deixou passar. Hoje em dia há muita usura, isso que o FMI está a fazer é um crime, que culpa tem o povo de o Estado ter gasto mal o dinheiro? Nós é que temos de pagar? Nos países islâmicos existe menos usura e se, por vezes, existe mais é porque esses países foram contaminados… A grande maioria do mundo islâmico chegou a ser colónia do Ocidente. Mas, em geral, há menos usura. Temos a banca islâmica, através da qual, quando há empréstimo, esse deve dar lucros a ambos, quer a quem empresta, quer a quem pede emprestado. E a perda também é dividida. Aqui, nesta banca, a pessoa que empresta tem os juros assegurados. E veja, os bancos islâmicos não sofreram tanto como os bancos do Ocidente.

O mundo islâmico sofreu de duas coisas, de colonialismo e de ditadura. Há o povo a viver mal e, eles, os líderes, com fortunas nos bancos da Suíça. (embora o povo da Líbia não vivesse mal, ninguém podia era falar, mas o cidadão líbio tinha casa do Estado, bolsas para estudar, até tinha uma conta no banco onde pingava uma percentagem dos lucros do petróleo, tornando-o, até, menos trabalhador) A ‘Primavera árabe’, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Qualquer opressão tem limites, há-de sempre chegar uma altura em que o povo se ergue. A situação persistiu até agora com a bênção e a benevolência do Ocidente, que apoiou essas ditaduras, quer queira quer não. Andou com o Kadhafi na mão. E, na Líbia, continua a haver manipulação. Acho que os rebeldes estão a ser apoiados pelo Ocidente porque há interesses e porque a América está a afundar- se e tem que ir procurar a algum lado. Costumo dizer que quero viver para ver a América a ser verdadeiramente democrática. A democracia não tem a liberdade, a igualdade e a fraternidade que a França proclamava. Cada um tem os seus interesses. O ser humano está a deixar de ser humano. Além disso, as democracias do Ocidente não podem ser implantadas naquelas ditaduras, não é à força que se impõe a democracia. Agora acordaram e querem pôr lá uma democracia de um dia para o outro…

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As Madrassas no Reino Unido: uma ponte para a juventude muçulmana?

Por Asim Siddiqui – Fonte: oumma (versão portuguesa de Al Furqán)

Segundo os especialistas, verifica-se, frequentemente, um fraco nível de escolaridade e uma falta de sucesso profissional entre os jovens muçulmanos britânicos.

Segundo a Josepf Rowntree Foundation, um organismo benévolo independente que se con-sagra ao desenvolvimento e à pesquisa social, o elevador social dos muçulmanos britânicos sobe mais lentamente do que o dos seus homólogos hindus, cristãos e judeus. Esta tendência verifica-se sistematicamente em toda a Europa, onde os Muçulmanos são três vezes mais ameaçados pelo desemprego de que os restantes.

Os muçulmanos são, na Europa, um dos grupos sociais mais retraídos e um dos mais desfa-vorecidos a nível económico. É, portanto, indispensável elevar as suas aspirações, aumentar as suas oportunidades de sucesso e fazer com que os jovens muçulmanos estejam envolvidos na sociedade. Neste sentido, as mesquitas e as madrassas podem revelar-se úteis.

O Reino Unido tem cerca de 1600 madrassas, sendo que estes centros de ensino religioso funcionam durante o fim-de-semana ou após a escola e que a maioria está associada a mesquitas. Nada menos do que 200.000 crianças muçulmanas de diversas etnias, com quatro a quinze anos de idade, as frequentam.

Estes estabelecimentos oferecem os dois extremos da pedagogia, desde a aprendizagem de cor dos textos religiosos até um ensinamento interactivo, onde as disciplinas islâmicas e as dis-ciplinas escolares habituais são ensinadas num ambiente onde se verifica diversão e criatividade.

As famílias muçulmanas britânicas apreciam estas madrassas associadas a uma mesquita por-que é o único lugar onde as crianças podem aceder a uma educação islâmica essencial e por-que, por outro lado, apresentam a vantagem de poder desenvolver, nesse reservatório muitas vezes inexplorado de jovens alunos, a ambição e o sucesso profissional.

Infelizmente, algumas madrassas estão desligadas do mundo real, o que impede que as crianças possam alcançar o seu pleno potencial. Um relatório do Open Society Institute, “Muslims in Europe: A Report on 11 EU Cities”, confirmava que os métodos de ensino utilizados em muitas madrassas, baseados na aprendizagem de cor e na disciplina severa, não estão em sintonia com o pensamento e a prática pedagógicos contemporâneos, e não conseguem desenvolver as competências essenciais para o sucesso na vida activa da época actual.

Outro relatório, publicado pelo Policy Resear-ch Centre da Islamic Foundation salienta a necessidade de uma melhor articulação entre as mensagens emitidas pelas madrassas e as da es-cola comum. É também indispensável favorecer uma aproximação entre as mesquitas e os sec-tores profissionais para criar confiança e alargar os horizontes dos muçulmanos no Reino Unido e em toda a Europa.

Assim, a CEDAR (www.thecedarnetwork.com), uma rede profissional Islâmica na Europa, lan-çou um programa nesse sentido. Associando-se numa parceria com a Young Enterprise, a prin-cipal organização benévola no âmbito da forma-ção profissional e empresarial, oferece, em colaboração com as mesquitas e no recinto destas últimas, cursos de orientação profissional. Esta abordagem inovadora valoriza as sinergias que os jovens muçulmanos mantêm frequentemente com as mesquitas do bairro e a grande experiência profissional dos orientadores da CEDAR. Cria-se, desta forma, uma experiência de aprendizagem na qual os jovens muçulmanos podem realmente participar.

O programa de orientação visa, não somente, engrandecer as ambições dos jovens, mas tam-bém criar vínculos com os profissionais muçulmanos, que podem, seguidamente, servir-lhes de exemplo e com os quais podem estabelecer contactos duradoiros.

Assim, durante um seminário organizado recentemente na mesquita Tawhid, em Londres, uma sessão interactiva apresentando um conjunto de experiências de aprendiagem reuniu os alunos da madrassa e outros jovens do bairro. A estes jovens foram apresentadas ferramentas e técnicas que lhes permitam construir o seu percurso de vida em consonância com as suas próprias expectativas, e com o desenvolvimento das suas competências. Um concurso destinado à apresentação do melhor business plan para uma empresa social, envolvendo a construção de um centro comunitário, incentivava os alunos a reflectir acerca das necessidades práticas da comunidade local, muçulmana e não muçulmana, além do seu próprio mundo confessional.

A mesquita Tawhid, sobejamente conhecida pelo seu conservadorismo social, permitiu que um grupo de rapazes e raparigas trabalhassem em conjunto. Percebeu o valor de um programa que possibilita que crianças muçulmanas sejam produtivas num ambiente mais relacionado com o mundo real.

Bassim el-Sheikh, uma criança de 13 anos de idade, declarou no final do seminário: ‘Sou uma pessoa muito mais confiante, sei doravante trabalhar melhor em equipa; sei ouvir mais os outros e expressar-me.’

As mesquitas britânicas procuram, lentamente, aproximar-se dos jovens, das mulheres e dos não muçulmanos. As maiores, ultrapassando o seu papel estritamente cultural, pretendem transformar-se em centros holísticos, propondo aulas de inglês, um curso de iniciação à infor-mática, salas de desporto e eventos inter-confessionais regulares.

Se as mesquitas e as madrassas conseguirem ligar-se à sociedade comum, se desenvolverem as suas aspirações e as competências de vida dos jovens que as frequentam, será então possível evitar a “guetização” que assola algumas comunidades muçulmanas britânicas e europeias e favorecer a promoção educativa e profissional dos jovens muçulmanos.

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A islamofobia será da responsabilidade dos próprios muçulmanos se estes não actuarem

Fonte: Said López / Webislam – Acomodação/Versão Portuguesa: M. Yiossuf Adamgy / Al Furqán

Nós, muçulmanos, estamos a transformamo-nos em autênticos islamofóbicos

A islamofobia é o tema mais popular nos meios de comunicação. Não somente ouvimos falar nela, como a vivemos no nosso quotidiano. A Sra. Ndeye Andújar, no artigo que publicou, procura um medicamento contra esta epidemia. Nesse artigo, fala-nos de uma pessoa que considera aberta a outras culturas mas que teme não ser capaz de não se tornar numa pessoa islamofóbica devido a tudo o que a rodeia. Mas há uma realidade muito mais complexa. Não são apenas as pessoas que não são muçulmanas que sofrem este fenómeno próprio dos dias de hoje, designado por islamofobia, mas tam-bém nós, muçulmanos, estamos a transformarmo-nos em autênticos islamofóbicos. Como, perguntarei eu às minhas irmãs e irmãos muçulmanos? Quando entrais num lugar público, quer seja um supermercado, o metro ou o cinema, ou algo desse género, não tendes a sensação de que as pessoas que vos rodeiam pensam que sois uma pessoa introvertida, que odeia aqueles que não sejam muçulmanos, que sois ignorantes ou oprimidos e que não vos tenhais integrado na sociedade? E isto verifica-se sobretudo relativamente às mulheres muçulmanas cuja vestimenta reflecte, de imediato, a sua identidade religiosa. Caso a resposta seja afirmativa, então, digo-vos uma coisa, que talvez não quereis ouvir: Estais contagiados pela epidemia da islamofobia. Sois uns muçulmanos islamofóbicos. Isto significa que as pessoas mal-intencionadas venceram-nos, a nós, muçulmanos. Isto significa que, momentaneamente, aqueles que inventaram este fenómeno estão em vantagem em relação a nós. E o que podemos nós dizer de determinados meios de comunicação? Nada mais fazem do que divulgarem notícias que nos podem afectar negativamente. Não vereis nenhuma boa notícia na qual se falará bem dos muçulmanos.

O que vamos fazer? Darmo-nos por vencidos? Ou aguardarmos que alguém faça algo por nós? Ou esperar que desça um milagre do céu que proclame ao mundo inteiro que somos cidadãos normais e, até, exemplares?

Se esperarmos que aconteça algo deste género, então, tenho muita pena, mas não acontecerá nada do que estamos à espera. No Islão, não temos nenhuma instituição, à semelhança do Vaticano, que sirva de autoridade para todos os muçulmanos e que possa falar em nome de todos nós. Também não existe o conceito de missionários como se verifica no Cristianismo, pois, não existem conversões forçadas. A prova disso verifica-se na nossa terra, em Espanha: os califas e sultões da Andaluzia tiveram tempo suficiente (mais de setecentos anos) para converter ao Islão toda a Península Ibérica recorrendo ao poder absoluto. Mas tal não se verificou. Querem outro exemplo? Os países balcânicos: o governo Otomano governou durante mais de quinhentos anos nas terras que pertencem actualmente à Grécia, à Bulgária e à Roménia, mas ninguém forçou os povos que aí viviam a mudar de religião ou de língua. Então, como é que o Islão pôde exprimir-se nessas terras e expandir-se em tão pouco tempo? Embora as pessoas não tenham aceitado o Islão como modo de vida, como é que esta religião pôde governar em paz e com referências admiráveis durante tantas décadas? Se nós, muçulmanos, não temos uma instituição ou uma entidade, nem nenhum meio de comunicação aceitável em diversos sectores, quem nos representa em todo o mundo? Sobre quem recai esta responsabilidade?

Já não existem estados que ostentem a bandeira do califado sobre todos os muçulmanos. Então, por que razão não fazemos nós algo de forma individual? Hoje em dia, esta representação da forma correcta do Islão passou do Fard-al-Kifaya ao Fard-al-Ayn (da obrigação de toda a comunidade à obrigação de cada indivíduo). Todos os muçulmanos deveriam fixar-se neste ponto tão importante e actuarem de acordo com o que Allah, Subhana wa taala, diz a todos os muçulmanos: somos o Seu califa na terra. Individualmente, cada muçulmano é um represen-tante de Allah neste mundo.

Nos tempos actuais, em que muitos estão contra os muçulmanos e contra o Islão, enquanto representantes de Allah temos uma carga muito pesada sobre os nossos ombros: representar de forma conveniente o Islão em todos os seus aspectos. Esta é uma obrigação tão importante como a oração (salat) ou como o jejum, ou até é uma obrigação maior.

Os erros e pecados pessoais podem ser perdoados por Allah, mas as pessoas que nos rodeiam, aquando do Dia do Juízo Final, colocarão ambas as mãos no nosso regaço e perguntar-nos-ão: por que razão não fizeste nada em relação a isso? Se tivesses feito alguma coisa, eu teria alterado a minha maneira de pensar! Que diremos nós aos nossos filhos quando nos perguntarem por que razão os deixámos em apuros e não fizemos nada para mudar alguma coisa? Isto não significa que sejamos missionários, nada disso. Não estou a falar de tentarmos converter as pessoas ao Islão. É claro que acreditamos que o caminho correcto é aquele que o Criador dos céus e da terra nos enviou. Claro que gostaríamos que todas as pessoas que nos rodeiam, os nossos familiares, os nossos amigos, e todo o mundo inteiro, pudessem sentir o que sente um muçulmano no seu íntimo. Claro que pedimos para eles que Allah ilumine as suas almas, mas apenas Allah é o Muqallibal Qulub (quem muda os corações). Antes de mais, o nosso primeiro dever e obrigação consiste em quebrar os estereótipos e procurar sarar a imagem danificada do Islão.

Como podemos nós consegui-lo?

Temos muitas coisas para fazer. Por Allah. Ninguém nos pede que nos atiremos num campo de batalha. O Santo Profeta (a paz esteja com ele) disse, ao regressar da Batalha de Uhud onde muitos muçulmanos tinham sido martirizados: ‘Regressamos da jihad menor para a jihad maior’. Os companheiros do Profeta perguntaram-lhe ‘Há alguma jihad maior do que esta?’, ao que o Profeta (a paz esteja com ele) lhes respondeu: ‘A luta contra o nafs’ (contra o nosso ego).

Devemos lutar contra o nosso conforto: quantos de nós podem dizer que conhecem o vizinho que mora em frente à nossa porta? E o que vive no andar de baixo, o que vive no andar de cima? E o que vive no último andar? Quantas vezes os convidámos para que jantassem connosco em nossa casa, para tomar um café, para que vejam que somos pessoas normais, como eles, que temos família, que temos um computador, que temos livros para ler, que também gostamos de petiscar, comendo azeitonas, que também gostamos de comer paella, que também ficamos contentes quando a selecção nacional ganha? Quantas vezes lhes oferecemos um doce do Ramadão ou meio quilo de carne aquando do Eid-al-adha, explicando-lhes que se trata de uma tradição abraâmica, o pai dos Profetas? Quantas vezes lhes comprámos uma prenda para o seu aniversário ou lhes demos os parabéns na ocasião das suas festividades como, por exemplo, no Natal, em que dizem que nasceu o Messias? Quantas vezes lhes disse-mos que nós também acreditamos neste milagroso nascimento, que não fazemos nenhuma distinção entre os enviados de Allah e que daríamos as nossas vidas por Jesus sem pensar-mos duas vezes?

Um dia, quando for necessário – Allah Sub-hana wa taala manifesta o Seu poder através das causas – as únicas pessoas que poderão pôr um término às críticas contra nós, muçulmanos, serão essas pessoas a quem, a um determinado momento, nos apresentamos e que nos conheceram, tal como somos, com total transparência.

Se os muçulmanos … tivessem dialogado mais com o ‘outro’, talvez tivéssemos podido evitar a catástrofe: ‘Esperai! Eu conheço o meu vizinho, é muçulmano, ajuda o seu vizinho, da sua palavra e da sua acção não tememos nenhuma maldade, temos muitas coisas em comum, não permitirei que lhes façais nenhum mal, nem a ele, nem à sua família!’.

Em primeiro lugar, para cumprir o Fard-al-Ayn, todos os muçulmanos devem fazer tudo o que podem para serem transparentes e amigáveis para com as pessoas que os rodeiam e, além disso, têm que se esforçar para conhecerem o maior número possível de pessoas oriundas de todas as classes: os estudantes relativamente aos seus professores, os trabalhadores relativamente aos seus superiores hierárquicos, as donas de casa relativamente ao seu cônjuge e aos seus vizinhos, etc.

Em segundo lugar, as entidades e organismos islâmicos, para que possam cumprir o Fard-al-Kifaya, devem organizar mais actos de apresentação: reuniões onde imperam o diálogo e a compreensão, nas quais não se mencionem as diferenças, mas apenas os pontos comuns, festivais de arte e todas as actividades originais que possam surgir. (1)

Se actuarmos desta forma, Allah pode transformar, mediante uma única ordem Sua, os Invernos em Primaveras. Caso contrário, não teremos sido capazes de erguermos a carga que Allah colocou nos nossos ombros e que é a única maneira de procurarmos agradecer-Lhe pelo tesouro mais valioso que possa existir no universo: o Islão.

(1) – N. Tradutor: Um destes actos foi, recentemente, por mim presenciado (11 de Dezembro) no Colégio Islâmico de Palmela: um convívio-diálogo-confraternização do Colégio com as autoridades autárquicas e vizinhos. Parabéns! Mas é preciso mais…

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Primavera árabe… o que pensam os árabes?

Palestine Chronicle

Desde a deposição do presidente da Tunísia Zinelabidine Bin Ali, em Janeiro passado, no primeiro movimento do que viria a ser conhecido como ‘Primavera Árabe’, o mundo árabe acompanha uma sequência de levantes e revoltas contra ditadores e tem produzido avaliações nem sempre concordantes do próprio contexto político. A Tunísia ainda vive sob o caos controlado que se seguiu ao colapso do antigo regime; o Egipto sofre crescente instabilidade, em função das agendas divergentes dos diferentes grupos políticos. Mas nem na Tunísia nem no Egipto assistiu-se à destruição massiva e o massacre de civis semelhantes aos que se vêem hoje na Líbia e na Síria.

Intelectuais, escritores e jornalistas árabes que apoiaram e saudaram com entusiasmo os levantes na Tunísia e no Egipto expõem agora posições mais complexas nos casos de Líbia e Síria. Os intelectuais públicos no mundo árabe estão divididos no que tenha a ver com os eventos na Síria e na Líbia, embora a opinião pública esteja claramente contra as ditaduras que sobrevivem no Iémen, na Síria e na Líbia.

Contudo, o envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia e o apoio que deu aos chamados ‘rebeldes’ líbios comprometeram indelevelmente o carácter democrático do levante na Líbia, na opinião de vários intelectuais públicos do mundo árabe.

O facto de o ocidente e a OTAN terem-se envolvido tão profundamente nesses e noutros levantes árabes criou um dilema para muitos pensadores e militantes democráticos árabes. Intelectuais que dedicaram a vida e a carreira a escrever contra qualquer intervenção do Ocidente na política árabe, vêem-se agora perple-xos ante a extensão do envolvimento e do apoio material e moral que o Ocidente tem garantido a alguns daqueles levantes, embora não a todos.

Abdel Bari Atwan, editor do jornal panárabe Al Quds Al Arabi escreveu no editorial, mês passado, declarando-se contra os ataques aéreos da OTAN na Líbia; para ele, além do inaceitável número de civis mortos, a OTAN está destruindo cidades, estradas, infra estrutura em geral. Atwan não esconde a sua oposição aos chamados ‘rebeldes’ líbios e suas lideranças políticas, que acusa de serem financiados pela OTAN e pela União Europeia. Atwan oferece a hipótese de que aqueles ‘líderes’ que lá estão só assumiram o comando dos ‘rebeldes’ depois de o filósofo e jornalista francês Bernard-Henri Levy ter manifestado publicamente o seu apoio a eles, quando visitava Benghazi como enviado especial do presidente Sarkozy da França.

Levy é nome conhecido na Região pelo apoio irrestrito que sempre deu às políticas de Israel; é citado como autor da frase ‘o exército de Israel é o mais democrático do mundo’. Levy também já exigiu intervenção militar na Síria, para depor o governo de Bashaar Al Assad. O ativismo de Levy parece ter complicado ainda mais as coisas. Atwan diz que Levy é uma das razões pelas quais, embora não apoie o governo de Kaddafi, absolutamente não apoia os planos políticos dos ‘rebeldes’ de Benghazi.

Atwan não está sozinho nessa posição, de desejar apoiar os direitos democráticos das sociedades árabes, sua luta por mais liberdade e por direitos civis respeitados para todos, mas, simultaneamente, rejeitar qualquer tipo de inter-venção dos EUA e do Ocidente na política da Região.

Lina Abubaker, romancista, poeta e colunista que vive em Londres e também escreve no jornal de Atwan publicou uma nota pelo Facebook no início do mês, alertando para a existência de um ‘novo mapa do caminho’ que visaria a dividir ainda mais os árabes. Para ela, os levantes árabes seriam efeito de uma espécie de conspira-ção que visaria a ‘decapitar os governos e manter intactos os corpos’. Para ela, haveria aí uma muito ampla conspiração, pensada pelos EUA para dominar o mundo árabe, servindo-se do que ela chama de ‘terrorismo dos EUA contra os árabes’. ‘Os levantes populares são o novo terrorismo norte-americano. Será que vocês nunca aprendem?!’ – Perguntou ela, em referência à ocupação norte-americana no Iraque.

Duas outras linhas de ideias estão alimentando as percepções sobre a Primavera Árabe dentro do mundo árabe. Uma delas entende que os levantes sejam movimentos de libertação nacional indígenas que, eventualmente, levarão a governos democráticos. A outra entende que os levantes são, sim, plano inspirado pelo ocidente para fragmentar definitivamente os estados árabes – o que favoreceria as ambições de EUA e Israel para a região.

Mohammad Dalbah, jornalista árabe-norte-americano que vive em Washington entrevistou intelectuais árabes, aos quais perguntou por que havia entre eles opiniões tão fortemente polarizadas sobre os levantes populares de 2011, e definiu dois grupos. No primeiro grupo Dalbah reuniu os intelectuais que classificou como ‘nacionalistas e patriotas árabes’ – que interpretam os eventos na Região de um ponto de vista estratégico, assumindo, como critério para apoiar ou não cada levante, caso a caso, o conflito entre israelitas e árabes. No segundo grupo estão os ‘árabes liberais’ – que pregam o fim de todas as ditaduras e a constituição de governos democráticos e não vêem qualquer inconveniente em qualquer tipo de intervenção do Ocidente para alcançar esses objectivos (por exemplo, no caso da Líbia). Falta, de facto, um terceiro grupo, no qual se reuniriam os que apoiam o fim das ditaduras mediante luta popular, sem qualquer tipo de intervenção de forças ocidentais.

Explicando a ausência desse terceiro grupo, Dalbah, que é jornalista veterano do mundo árabe, argumenta que o regime sírio, por exemplo, não exige necessariamente o fim da longa ocupação de territórios palestinos pelos israelitas, como tampouco exige o fim da ocupação, pelos israelitas, sequer, das planícies sírias do Golan. ‘O que distingue o regime sírio, dentre os demais estados árabes, é a recusa a seguir os planos dos EUA para a Região’, diz ele. Mas essa recusa não é feita por princípios e explica-se porque o governo sírio, de facto, aspira a ‘ter papel central na Região, em troca de promover qualquer acordo que ponha fim ao conflito entre árabes e israelitas’ – acrescenta Dalbah.

Em outras palavras, a posição dos sírios na questão do conflito entre israelitas e palestinos e a ‘resistência’ contra EUA e Israel seriam decisões tácticas, não estratégicas. Além do mais, os que apoiam o regime sírio apoiam-no porque os sírios recusam-se a render-se à hegemonia dos EUA na Região, a qual, por extensão, se-gundo esse ponto de vista, implicaria completa rendição a Israel.

Mwaffaq Mahadin, escritor e colunista jordaniano, cujas posições o inserem no grupo dos ‘nacionalistas árabes’ de Dalbah, manifestou-se, em coluna recentemente publicada no diário jordaniano Al Arab Al Yawm, contra qualquer tipo de apoio ao levante contra Bashar. Mahadin argumenta que o pensamento que anima os levantes da Primavera Árabe é um combinado de magnatas das finanças ocidentais (como George Soros) e de cientistas políticos norte-americanos (como Gene Sharp), que pregam a resistência não violenta à opressão.

Em sua mais recente coluna, Mahadin argumenta que Israel, ajudada pelos EUA, trabalha para fragmentar e dividir os países árabes, para continuar a controlá-los. Para chegar a isso, Israel e seus aliados ocidentais recorrem hoje a uma ‘fragmentação soft’ mascarada de ‘reformismo’ e de ‘democracia’.

Isso não implica dizer que intelectuais como Mahadin sejam contrários às reformas ou à democracia; mas, para eles, nem reformas nem democracia são questões prioritárias nesse momento; a prioridade, agora, para eles, é resistir à ocupação israelita e à dominação do mundo árabe pelos EUA.

Outro grupo que já apoia a derrubada do governo Baath da Síria e quer mais democracia, mesmo que ao custo de intervenção estrangeira, são os signatários da ‘Declaração de Damasco’ – assinada em 2005 por 250 nomes da oposição síria, que advoga transição e reformas graduais na política da Síria. Dalbah argumenta que figuras importantes desse grupo, como o escritor Michel Kilo, já estão bem próximas de aceitar e passar a apoiar a ideia de uma interven-ção militar em seu país, se esse for o meio mais eficaz para arrancar o governo Assad do poder.

Têm havido manifestações diárias anti-Assad em Amman, Beirute, Kuwait, Manama e em várias outras cidades, todas exigindo o fim do governo de Assad e família; mas nenhuma manifestação, até agora, em lugar algum, deu sinal de apoiar, ainda que longinquamente, qualquer tipo de intervenção militar ocidental na Síria.