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Que falta de vergonha!

Por Tariq Ramadan – 25 de Julho de 2006, in Oumma
Versão Portuguesa de Yiossuf Adamgy para Revista Al Furqán

“A partir de que momento poderemos nós começar a utilizar o termo “Crime de Guerra”? Quantas mais crianças terão de perecer entre os escombros causados pelos ataques aéreos Israelitas, para que rejeitemos a obscena fórmula de “danos colaterais”, e comecemos a falar de perseguições e de crimes contra a humanidade?” – Depois de Beirute – Robert Fisk, jornalista, The Independent, 20 de Julho de 2006

O poeta Francês Charles Baudelaire era dono de uma determinada fórmula feliz de dizer as coisas: ‘A mais bela astúcia do Diabo consiste em persuadir-nos que não existe’. Tendo em conta o mesmo ponto de vista, podemos afirmar que o mais diabólico sucesso dos conspiradores de hoje consiste em persuadir-nos que os cons

piradores e respectivas conspirações não existem…

A instrumentalização da ‘guerra contra o terrorismo’ obteve inúmeras respostas, incluindo a hipocrisia e o terror intelectual e político, como nunca antes vistos. Todos ouvimos, e desconfiámos, dos objectivos de Ariel Sharon logo após os ataques do 11 de Setembro de 2001, ao afirmar que Yasser Arafat era o ‘(seu) terrorista’ , dizendo – com se de uma premonição se tratasse – que um dia os Palestinianos haveriam de pagar o preço pelo que Nova Iorque estava a sofrer. Havia, então, que meditar na perda de alguns civis inocentes – ‘danos colaterais’ de uma estratégia de confronto global – no Afeganistão, seguidamente no Iraque, isto antes que a ira se abatesse sobre os Palestinianos, habitantes dos ‘territórios desbastados’.

Há já alguns meses que Israel previa atacar o Sul do Líbano . Os observadores sabiam-no, assim como o sabia o Hezbollah. Este último escolheu antecipar o ataque, de modo a transferir o centro de gravidade do conflito e fazer deste uma questão regional e global. Isto sem contar com a indolência dos governos Árabes e a sua cumplicidade silenciosa, enquanto centenas de civis inocentes perecem sob o peso das bombas.

Mas, tal nós bem o sabemos, o conceito de ‘civis inocentes’ não existe, a não ser marginalmente no léxico das autocracias Árabes.

Seria lógico esperarmos que as Nações Unidas, a voz proclamada da sabedoria das nações, interferisse e pusesse cobro ao massacre…São inúmeras as más memórias que nos é possível invocar. Há pouco mais de dez anos, em Srebrenica, as Forças da Paz abandonaram aqueles que deveriam proteger e que encontraram desarmados. No Ruanda, as forças das Nações Unidas foram enviadas para proteger e ajudar a fugir os Brancos, ‘os estrangeiros’, tendo ainda abandonado os Tutsis à loucura assassina dos Hutus. Há uma semana, famílias e civis Libaneses pediram refúgio no quartel-general das forças das Nações Unidas, composto por Ganianos, os quais se negaram a protegê-los…no caminho para o exílio, poucas horas depois, estas famílias – 27 pessoas no total – foram dizimadas pelas bombas Israelitas. A quem servem os representantes das Nações Unidas? A quem servem estas, afinal uma vergonha…a repetir.

Israel anunciou necessitar de uma semana a dez dias para completar as suas operações. O G8 pediu um cessar-fogo, depois, nada mais, seguindo-se o silêncio e o desconforto. Por um feliz acaso dos calendários assassinos, eis que Condolezza Rice anuncia a sua visita à região…precisamente dez dias depois das minúcias formuladas pelo Primeiro-Ministro Israelita. Isto a acreditar que Telavive possui a agenda da Secretária de Estado Norte-Americana. Não nos esqueceremos de aqui citar esta questão – e respectiva fórmula – de Nicolas Sarkozy ao Ministro Israelita para a Integração, o qual pretendia ‘abençoar’ de uma vez por todas, todos os Franceses que haviam decidido exilar-se em Israel e o corajoso Exército Israelita: ‘De quanto tempo necessita o Estado de Israel para dar a tarefa por terminada?’ (Le Monde, 20 de Julho). Dar a tarefa por terminada? Assassinar inocentes, saquear um país? Ao conjunto de fotos que recebemos relativamente às mortíferas consequências desta ‘tarefa a terminar’, os objectivos de Sarkozy são muito mais chocantes do que as fórmulas ‘rudes’ ou dignas da ‘ralé’. Uma vergonha, uma vez mais. Mas uma vergonha que tantos ecos teve nos meios de comunicação em massa.

A Agence France Presse acaba de informar-nos que, nos últimos dias, os Estados-Unidos têm vendido armas aos Israelitas: ‘uma encomenda de bombas de comando à distância’. Para evitar o assassinato de mais civis, sem dúvida alguma! Que bela é, a Humanidade! Tanto para os Estados-Unidos, como para a Grã-Bretanha, todos estes mortos são de vítimas de uma ‘guerra contra o terrorismo’, necessária e imperativa. De facto, esta guerra permite…o terrorismo de Estado, o assassinato, a tortura, os raptos, as leis liberticidas e, como se isso não fosse suficiente, a criminalização dos imigrantes e daqueles que procuram e pedem asilo.

Àqueles que observam e, mesmo assim permanecem impassíveis, aos horrores do Médio Oriente, à injusta opressão de que são vítimas os Palestinianos, ao sofrimento dos Libaneses, e que acreditam ser suficiente manterem-se neutros, pois assim estarão protegidos e salvos do marasmo, tal como o estão os ‘estrangeiros’ do Líbano, a quem o seu respectivo país protege e repatria aos milhares quando os ‘Libaneses’, os ‘Árabes’, são abandonados à sua miserável sorte…a esses, há que dizer que a loucura ou a cumplicidade assassina dos Estados-Unidos e dos seus aliados tem, e terá, consequências que não se deterão nas fronteiras dos seus ricos países, tal como aí detêm os imigrantes ‘de todo o lado’.

No nosso quotidiano, na nossa paz social, no nosso círculo de amizades, na nossa segurança, com as nossas leis, os nossos direitos, as nossas liberdades nas nossas vidas…depressa e concretamente sentiríamos as consequências da nossa cobardia perante a barbárie. O silêncio daqueles que não sabem mais como denunciar os ‘terrores oficiais’, ou erguer a voz contra tantas injustiças ou semelhantes horrores é, de facto, uma vergonha. Uma de muitas. Sem dúvida alguma, seremos um dia convidados – de uma maneira ou de outra – para a mesa daqueles que têm contas a prestar e teremos, tal como tantos outros, de beber a substância da nossa vergonha e da nossa resignação desumanizada.

Tenho estado pensativo nestes últimos dias. A quem pode interessar ‘vetar ao silêncio’ a Comunidade Internacional, face à opressão continuada do povo Palestiniano e aos massacres perpetuados no Líbano…A quem pode, de facto, interessar? Talvez se lhe auto-conceda o direito – em nome da coerência – ao silêncio, quando as potências mundiais se movimentarem para ‘condenarem’ as consequências do seu silêncio! Talvez…haja alguma lógica nisto.

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Reflectindo de forma islâmica

Por M. Yiossuf Adamgy

Enquanto que, uma vez mais, os Muçulmanos auto-permitem-se cair na ratoeira reaccionária que lhes foi montada, confirmando, assim, a tese dos “cartoons” ofensivos, ao reagirem furiosa e violentamente, consideremos preferível reflectir sobre a súplica do Profeta (s.a.w.), proferida nos primórdios do Islão, em Ta’if. Esta é a súplica (duá) por ele proferida, com as sandálias cobertas de sangue, feridas espalhadas pelo corpo e terrivelmente insultado, caluniado e ridicularizado pelos habitantes de Ta’if. O mais importante a reter, é que isto teve lugar após um longo boicote de três anos sofrido às mãos dos Coraichitas, em consequência do qual os Muçulmanos viram-se obrigados a comer erva e a viver em árvores.

O que foi dito pelo Profeta (a paz esteja com ele), ao abandonar a cidade de Ta’if:

“A Oração de Ta’if”

“Ó Allah! A Ti me queixo da minha fraqueza,
Da minha falta de recursos e da humilhação a que fui sujeito.
Ó Todo-Misericordioso para com aqueles que são misericordiosos;
Ó Senhor dos fracos e meu Senhor também.

A quem me confiaste Tu?
A uma pessoa distante, que me recebeu com hostilidade?
Ou a um inimigo, a quem concedeste poderes sobre aquilo que é a minha missão?
Nada me preocupa, desde que não estejas zangado comigo.

A Tua protecção é o que eu tenho de mais precioso.
É sob a luz do Teu Rosto que procuro refúgio,
Esse Rosto que faz com que toda a escuridão se dissipe
E regula todo e qualquer assunto deste e do Outro Mundo.

Receio ter-Te desagradado e que a Tua fúria recaia sobre mim.
É meu desejo agradar-Te e satisfazer-Te.
Não existe outro poder para além do Teu,
E ninguém é tão poderoso como Tu”.

Se aqueles que afirmam amar tanto o(s) Profeta(s), ao ponto de estarem dispostos a infringir o comportamento profético devido à raiva e à fúria cega que sentem, reflectissem um pouco a respeito desta oração, isso seria para eles uma luz orientadora e uma indicação clara de como um Muçulmano deve agir face à actual situação. Este é também o único caminho que permite a almas e corações atormentados encontrarem a paz, pois não será em piquetes ou em manifestações exageradas e com violência que a encontrarão. Tais actos não podem e não devem ser usados como métodos para a clarificação da nossa reverência para com o sagrado e o divino.

A quem foi que o Profeta (s.a.w.) disse o seguinte: “O Islão nada mais significa, a não ser possuidor de um bom carácter?”.

Estamos a readoptar as normas tribais pré-Islâmicas, as quais defendiam a vingança e a retaliação, quando devíamos encarar o sucedido como uma oportunidade para alterarmos a nossa maneira de sentir e agir, seguindo o exemplo do nosso bem amado Profeta, que se manteve calmo e compassivo face ao ódio e à inimizade de que era alvo.

Estaremos nós a ceder ao pior dos pecados, que é a violência gerada pela falta de esperança? Isto quando devíamos seguir o exemplo do Profeta (s.a.w.), que nunca a perdeu? E que, já fora de Ta’if, respondeu da seguinte forma: “Não, espero que um dia este povo adore a Allah somente”, quando o Anjo, em resposta à sua súplica, se ofereceu para destruir todas as montanhas em redor da cidade, reduzindo-a a pó?

A menos que possuamos a calma e a consciência do Profeta (s.a.w.) de Allah, segundo a qual, todo e qualquer acontecimento, favorável ou não, é representativo da oportunidade de fortalecermos o relacionamento que mantemos com Deus, continuaremos a ser vítima de todo e qualquer estratagema ou truque.

Em lugar de reagirmos com violência e fúria, deveríamos intensificar o nosso trabalho na partilha da bonita e misericordiosa mensagem do Islão, especialmente agora, que o Profeta (s.a.w.) é notícia nos meios de comunicação em massa. Permitamos que a oração proferida pelo Profeta (s.a.w.) em Taif seja publicada em jornais Europeus, como exemplo da sua magnanimidade e paciência.

Violência, ameaças de morte e fúria servem apenas para denunciar a falta de confiança no poder e na luz do Sagrado; confiança, essa, perfeitamente ilustrada pela experiência do Profeta (s.a.w.) no jardim exterior a Taif, quando pessoas que ouviram a sua oração sentiram-se movidas a aderir ao Islão. Além disso, e após este incidente, quando regressava a Meca, muitos que haviam ouvido a recitação do Alcorão por parte do Profeta (s.a.w.), aquando da sua oração nocturna, converteram-se também ao Islão. E, pouco depois da sua oração nocturna, o Profeta (s.a.w.) ascendeu ao Céu. De facto, após a tempestade vem a bonança.

Contudo, com o anúncio ontem feito por eminentes eruditos do Islão, intitulado “Um Dia de Ofensas”, receio que nada mais sejamos, a não ser sabotadores. Porque não “Um Dia para Recordar o Profeta”, ou “Um Dia de Características tremendamente Proféticas”? Porque não “Um Dia da Oração de Ta’if”?

Dado o momento que vivemos, recomendo que façamos circular “A Oração de Ta’if”, a qual servirá como antídoto de toda a loucura e veneno do turbilhão emocional a que assistimos. E manifestemos sim, forte e firmemente, o nosso protesto. Mas dentro da lei.

Que Allah nos oriente para aquilo que é justo e nos conceda a sorte imensa de olharmos os nossos inimigos como se de amigos chegados se tratassem (ver Alcorão, 41:34-36), e aos quais temos o dever de transmitir o amor e a mensagem de Allah e do Seu Profeta (s.a.w.). Ámen.

– “Jamais poderão equiparar-se a bondade e a maldade! Retribui (ó Muhammad) o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo!
Porém a ninguém se concederá isso, senão aos tolerantes, e a ninguém se concederá isso, senão aos bem-aventurados. Quando Satanás te incitar à discórdia, ampara-te em Deus, porque Ele é o Omniouvinte, o Omnisciente.” – Alcorão, 41:34-36.

– “É possível que Deus restabeleça a cordialidade entre vós e os vossos inimigos, porque Deus é Omnipotente. E Deus é Indulgente, Misericordioso”. – Alcorão, 60:7

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A religião como denominador comum

Por: M. Yiossuf M. Adamgy

O Ocidente e o Mundo Muçulmano são universos multi-facetados, multi-culturais e multi-religiosos, apesar de serem considerados ou descritos como sendo tacanhos. Existem milhares de muçulmanos no Ocidente, assim como existem milhares de indivíduos de outras tradições religiosas no “mundo muçulmano”. Existem relações subjacentes entre estes mundos, supostamente separados, e que se manifestam nos alicerces mais profundos das suas culturas, da mesma forma que o renascer permanente da religiosidade está no íntimo de ambas e é observável ao longo das suas histórias.

O objectivo da religião é a piedade e uma consequência temporal da piedade é a constante transformação do desejo individual e colectivo nos valores e ética que são, universalmente, acalentados por todos os seres humanos. Dada esta relação entre a piedade e o tempo, se for louvada a ética e os valores, qualquer indivíduo de boa vontade, seja ou não ocidental, deverá sentir-se encorajado pela vertente da doutrina islâmica que apoia o culto da piedade através da prática religiosa e faz sobressair no praticante uma ética inter-humana, também partilhada pelas tradi- ções judaica, cristã ou outras.

Nessa ordem de ideias, podemos encontrar semelhanças entre todas as culturas e religiões do sistema teocêntrico. Com efeito, até nas culturas que, aparentemente, estão em conflito podem encontrar-se bases comuns. E este é um conceito que está indiscutivelmente presente no Alcorão, assim como a concepção de que as instituições de poder executivo, legislativo e judicial devem manter-se neutrais, mas, simultaneamente, reconhecendo a divindade e cultivando a piedade e a santidade, independentemente do procedimento formal que seja escolhido para o fazer (seja cristão, budista, islâmico, etc.). O objectivo destas instituições deve ser acompanhar o entendimento operacional do governo, tal como defendem os princípios do Alcorão.

Estes foram os princípios criados pelo Profeta Muhammad (a paz esteja cm ele) e segundo os quais ele próprio e os seus companheiros viveram.

Embora possam ser deslindadas semelhanças, as culturas do Oriente conservaram uma essência mais teocêntrica nas suas religiões, enquanto as culturas ocidentais advogam religiões progressivamente mais seculares. A concepção ideológica de um governo e sociedade sadios tem por base a aplicação da Sharia do próprio Ocidente, um código de leis definido pelo Alcorão que adopta o pluralismo. Se essa vertente da Sharia é ou não posteriormente representada, protegida e apoiada pelo forças do poder nacional dominante ou pelos agentes do poder geopolítico transnacional é uma questão totalmente diferente.

O carimbo do Ocidente, que tem por base o humanismo secular, que considera a expressão pública da fé ou a menção de Deus uma imposição perniciosa da religião, é incompatível com o paradigma islâmico. Ainda assim, espera-se que os muçulmanos do Ocidente obedeçam ao sistema de leis e costumes do país onde se encontram. Dando um exemplo exagerado, se houvesse uma lei que decretasse que a prática religiosa e a referência a Deus deveria passar a ser mantida apenas na esfera privada, o muçulmano deveria obedecer, pela lei da ética ditada pela Shari’a, ou então, deveria encontrar outro local para viver.

No Mundo Muçulmano, tal como no restante terceiro mundo, existem imposições dos regimes de clientelismo e aristocracia colectivos ocidentais que se manifestam através do uso de operações de guerra declaradas ou dissimuladas. Com a auto-determinação enfraquecida, muitos segmentos da população são naturalmente prejudicados pelas consequências nocivas a nível sócio-político e económico, sentindo -ss profundamente lesados. Quando esta população do “mundo muçulmano” se expressa intelectual e verbalmente contra as injustiças que são verdadeiramente reais, fá-lo através da fraseologia e paradigmas intelectuais da Shari’a, ética que lhes promete o direito à vida, liberdade, propriedade, segurança e a distribuição justa da riqueza e oportunidades. A Shari’a tem base na religião, por isso, o revivalismo religioso neste contexto é análogo aquele que está presente na exigência de um determinado “direito constitucional”, feita por um ocidental, perante uma hipotética opressão de carácter sócio-político ou financeiro. Vários movimentos reaccionários têm base nesta dinâmica. A relação entre as actuais operações de guerra e os crimes atribuídos a esses diferentes grupos, por um lado, e as empresas internacionais e os interesses ocidentais, por outro, torna necessária uma reflexão mais profunda.

A religião, quando é praticada com autenticidade, cria, por definição, pontes entre os seus praticantes, independentemente do tipo de religião que pratiquem. O Alcorão refere explicitamente este fenómeno em vários versículos. Uma das teses mais inaptas (da qual mesmo os religiosos melhor intencionados são vítimas) é a tese que defende que existe algo nas religiões autênticas (seja qual for a sua forma) que se torna na causa principal dos conflitos que ocorrem ao longo da linha que separa as várias religiões. Defender esta tese é o mesmo que argumentar que é algo de inerente à existência de várias raças e etnias que causa o conflito sectário a nível racial e étnico.

O fanatismo religioso, racial, étnico ou qualquer outra forma de fanatismo é, por definição, uma depravação psicológica. Embora a religião, a raça e a etnia estejam semanticamente associadas de uma forma existencial à sua respectiva forma de fanatismo, estas características não são, em si próprias, a causa de qualquer forma do mesmo. Um judeu devoto, um cristão ou um muçulmano terão, ideologicamente, o mesmo tipo de comportamento face à sua ética inter-pessoal. As formas de veneração podem variar, mas o comportamento que um cristão devoto, um judeu, hindu, persa ou budista, terá em relação ao próximo será idêntico.

Todos os seres humanos, sejam teocêntricos ou teofóbicos, desejam viver a sua vida tendo os seus direitos salvaguardados e sendo livres para levarem a cabo a sua jornada numa sociedade pacífica e ordeira. E é este o elo de ligação entre os religiosos e os não-religiosos. Existe um substrato próprio do ser humano que é comum a todas as pessoas, culturas e religiões deste mundo. Uma campanha pública massiva deve ser desenvolvida no sentido de derrubar as barreiras existentes entre os “dois mundos”. Devemos encorajar o jornalismo honesto e devemos também promover a educação e o entendimento culturais. Está na altura de pararmos de procurar diferenças e de começar a prestar atenção às semelhanças.

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Renovação da religião

Quando acontece uma renovação da Religião, significa que a sujidade e o pó se juntaram na face da “Verdadeira Religião”. As suas cores verdadeiras distorçeram-se e necessitam restauração para a forma original. Quando a renovação for completada, será revelado que a religião é algo quase diferente do que o Homem fez com que fosse.

Em 1509 Miguel Ângelo (1475-1564), pintor, escultor, arquitecto e poeta, foi contratado pelo Papa Julião para desenhar e pintar os frescos da Capela Sistina do Vaticano. O projecto foi completado em 1512. Nos 450 anos que passaram desde então, as côres originais utilizadas por Miguel Ângelo tornaram-se consideravelmente diluidas e, portanto, distorcidas. Uma razão para isto foi que um revestimento de cola animal foi espalhado sobre a superfície dos frescos no século XVII para evitar que o estuque estalasse. Esta cola então acumulou séculos de fuligem das tochas usadas na iluminação da Capela anterior ao advento da electricidade.

Sob o Papa João Paulo II, o Vaticano ordenou a restauração dos frescos. No início de 1986 os primeiros resultados do trabalho de limpeza foram apresentados ao público. A renovação revelou algumas coisas interessantes acerca do trabalho original de Miguel Ângelo. Inicialmente calculara-se que o mestre teria usado cores desmaiadas, crepusculares, mas agora parece que as cores que usou eram tão vibrantes que foi necessária iluminação difusa quando a limpeza terminou em 1988. Os historiadores de arte agora têm de rever todo o conceito da escola Florentina a qual Miguel Ângelo representava, pois os florentinos eram considerados os mestres do desenho, mas não da pintura. George Armstrong escreve no Guardian Weekly (de 16 de Fevereiro de 1986) que o axioma de Tintoretto (1518-1594) desenhar como Miguel Ângelo, pintar como Ticiano foi atirado por terra pelas cores restauradas da Capela Sistina. A renovação, diz Armstrong, revelou Miguel Ângelo sob uma nova luz.

Do mesmo modo, a natureza da verdadeira religião foi distorçida através dos séculos. Originalmente a religião foi revelada por Deus e ensinada na sua forma pura pelos Profetas. Então, quando cai nas mão de pessoas vulgares, estas corrompem a verdadeira mensagem, tornando-a de acordo com os seus próprios desejos. Visto que originalmente a religião se baseou na crença e no futuro. Mais tarde tornou-se instrumento para a aquisição de riquezas terrenas e de poder. A verdadeira fé, tal como transmitida pelos Profetas, sai do coração, mas a religião na sua forma corrupta torna-se um mero acumulado de ritos e cerimónias, isento de qualquer espírito verdadeiro. A religião na sua forma primitiva alimenta a humildade nos seus seguidores, protejendo a unidade do Homem; mas quando a religião se torna distorcida, torna-se uma fonte de orgulho, com um grupo a usá-la para afirmar a sua superioridade sobre o outro.

Quando isto acontece, significa que a sujidade e o pó se acumularam sobre a face da verdadeira religião. As suas verdadeiras cores tornaram-se distorcidas e necessitam de restauro à sua forma original. Quando a renovação se completar, será revelado que a religião é algo quase diferente do que o Homem a fez tornar-se. Alguns teólogos serão expostos como enganadores nas suas interpretações, assim como o público foi desencaminhado nas suas opiniões.

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Tesouros da Biblioteca de Al-Kadiriya

Compilado por: Salma Sheherezade Terenas

A história da escola Al-Kadiriya remonta a 1133. Ela foi primeiramente dirigida pelo Sheikh Abou Said Al-Moukarami, depois pelo Sheikh Abdul Kadir Al-Jailani.

A Escola e a Mesquita com as suas sete cúpulas douradas viveram no esplendor até ao momento da invasão de Bagdad pelos Mongóis em 1258.

Os adeptos e os filhos do Sheikh Abdul Kadir Al-Jailani, reconstruiram, a seguir, o túmulo e a Escola. No entanto a Mesquita e a Escola foram destruídas e reconstruídas várias vezes no decurso das guerras que opuseram os Otomanos aos Persas.

A Mesquita e a Escola foram construídas pelo Sultão Suleiman Al-Kanouni no ano 941 da Hégira. Foram igualmente reconstruídas sob o reinado do Sultão Mourad IV.

Sob o reinado do Sultão Daoud Pacha, a peste e as inundações destruíram Bagdad, em 1246 da Hégira. A Biblioteca da Escola Al-Kadiriya foi então dizimada.

Mas, a exemplo de uma esfinge, a Mesquita e a Escola emergiram novamente e beneficiaram de uma atenção particular por parte de Said A. Rahman Al-Naqib.
Seguidamente este último ordenou em 1927 aos seus filhos que oferecessem a sua biblioteca à da Escola al-Kadiriya. Este voto foi cumprido em 1954.
Foi assim que os 763 velhos manuscritos e os 2088 livros que constituiam a biblioteca privada de al-Naqib foram remetidos para a Escola al-Kadiriya.

A Biblioteca está rodeada de um cuidado particular por parte da Direcção da Revolução, nomedamente por parte do Presidente Saddam Hussein e do Ministério dos Assuntos Religiosos e dos Waqf.

A Direcção da Revolução dispendeu grandes somas de dinheiro para permitir trabalhos de alargamento e de reconstrução. A biblioteca foi dotada com um novo equipamento do qual microfilmes.

A superfície do grande hall que se compõe de dois andares, passou para 180 m2. Os trabalhos de reconstrução respeitaram cuidadosamente o estilo Islâmico do hall. Uma vez os trabalhos acabados, esta superfície será três vezes maior.

A Biblioteca encerra mais de 4000 volumes que tratam de diversos assuntos em 20 línguas.
O mais antigo manuscrito da Biblioteca remonta a 1052. Intitula-se “Al-Mostehal Li Abi Mhjam bin Yateemet al Dehat” e fala sobre a literatura e poesia. A Biblioteca encerra igualmente um manuscrito que se pôde salvar do Tigre onde os Mongóis tinham atirado todos os livros da capital: trata-se de “Moufradat Gareeb al-Quran”, de Al-Asbahani.

Entre os tesouros desta Biblioteca enumeram-se uma bela cópia do Alcorão em 2 volumes que constitui uma obra caligráfica de raro valor e que foi oferecida pelo dirigente de Cachemira, Abdullah Khan al-Kor’ay al-Derany, em 1796.