Posted on

Insegurança na Fé e Queima de Livros

(Coord. por M. Yiossuf Adamgy – in Revista Al Furqán, nº. 177, de Set. /Out. 2010)

Prezados Irmãos, Assalamu Alaikum:

Um pastor de uma pequena Igreja não-denominacional, na Florida, recebeu uma cobertura mundial sem precedentes devido ao seu plano de queimar algumas cópias do Alcorão.

Quer ele decidisse ou não levar em frente esta façanha, o facto de uma pessoa que alega ser um homem de Deus querer queimar uma escritura sagrada de outra religião é desprezível.

O Sr. Terry Jones, o pastor desta Igreja, acredita que o Alcorão é coisa do Diabo e por esse motivo deverá ser destruído. O que ele não sabe é que está, infelizmente, a profanar e a incendiar o espírito e a essência das grandes mentes da humanidade: Jesus, Moisés e todos os outros Profetas, neste processo.

Esta Igreja da Florida tem apenas cinquenta membros, contudo o impacto que criaram em todo o mundo foi imenso. Apesar de tudo, desejávamos que a nossa ‘imprensa livre’ não tivesse dado tanta atenção a este grupo insignificante, mas sim que deixasse que isto fosse um momento de ensinamento.

Este pequeno grupo de Cristãos radicais alega ser verdadeiros Cristãos da mesma forma que aqueles que destruíram as Torres Gémeas em 2001 alegavam ser verdadeiros Muçulmanos.

A comunidade Muçulmana de todo o mundo está revoltada com esta intenção de queimar o Alcorão. A melhor forma de responder a tal acto seria ignorá-lo, contudo já é demasiado tarde para isso e agora os líderes religiosos, desde os EUA até à Indonésia, foram forçados a entrar neste ‘circo’.

O que é importante nesta situação é que um grande número de líderes religiosos de todas as tradições e oficiais governamentais nos EUA manifestaram uma condenação enfática à tentativa de queimarem o Texto Sagrado.

Os Muçulmanos deverão prezar esses líderes religiosos e governamentais que deram a cara para condenar Terry Jones.

Os Muçulmanos não deverão cair na armadilha que a maioria dos islamofóbicos caiu julgando a fé pelas perversões de alguns.

Os Muçulmanos devem lembrar-se que o Islão lhes exige que demonstrem respeito pelas pessoas de todas as religiões e que promovam o pluralismo que não é definido pela política do dia.

Qualquer um que queira queimar o Alcorão não conseguirá queimar a mensagem do Alcorão. O Alcorão é preservado nos corações e nas mentes das pessoas e existem mais de três milhões de Muçulmanos em todo o mundo que já memorizaram o Alcorão.

Os Muçulmanos deverão manter os altos valores morais e quando os outros falarem em queimar o Alcorão, deveremos perder algum tempo a memorizar mais alguns versículos do Alcorão e a preencher a nossa obrigação mais importante, a de ler e compreender o Alcorão.

História sobre a Queima de Livros

É habitual que o clero, exércitos invasores e outras pessoas queimem livros, conforme pode-mos testemunhar ao longo da história da humanidade. Tal acto poderá ser feito devido:

  • Às pessoas poderem estar paranóicas em relação a ideias emergentes que desafiam a sua compreensão do mundo ou
  • Às pessoas poderem estar inseguras na compreensão da sua própria fé.

Um olhar pela história da queima de textos religiosos dar-nos-á uma compreensão do ódio e da ignorância que existiu nos nossos círculos seculares e religiosos. Fica aqui uma revisão de alguns incidentes famosos de queima de livros:

A história testemunhou a queima da Biblioteca de Alexandria pelas forças Cristãs, da Biblioteca de Bagdad pelos Mongóis, a queima de livros e o enterrar de estudiosos na Dinastia de Qin na China, a destruição dos códices Maias pelos conquistadores e padres Cristãos espa-nhóis, a queima de livros Muçulmanos e Judeus por Católicos durante a Inquisição, a queima da Torah pelos Cristãos na Alemanha e a destruição da Biblioteca Nacional de Sarajevo. Em 1193, após derrotar Jai Chand, diz-se que o exército de Ghauri, maioritariamente Muçulmano, queimou a Biblioteca de Nalanda, conhecida como Dharma Gunj, Montanha da Verdade.

Há registos de que em 367 D. C., Atanásio, o bispo de Alexandria, emitiu uma carta pascoal que exigia que os monges egípcios destruíssem todos os livros excepto os que constituíam o ‘Novo testamento’.

Na sua peça de 1821, intitulada Almansor, o escritor alemão Heinrich Heine, referindo-se à queima do Alcorão durante a Inquisição espanhola, escreveu: ‘Aqueles que queimam livros acabam, cedo ou tarde, por queimar seres humanos’ (“Dort, wo man Bücher verbrennt, verbrennt man auch am Ende Menschen.”). Os livros de Heine estavam entre os milhares de volumes que foram queimados pelos cristãos na Alemanha.

A New York Society for the Suppression of Vice (Sociedade Nova-Iorquina para a Supres-são de Vícios), fundada em 1873, inscreveu a queima de livro no seu selo, como sendo um objectivo a cumprir. A Sociedade destruiu cerca de 15 toneladas de livros, 128 toneladas de chapas de impressão e quase 4.000.000 de imagens. A Sociedade também manietou o Congresso norte-americano para incorporar os seus objectivos na Comstock Law.

Após o conselho do Ministro Li Si, o Imperador Qin Shi Huang da China ordenou a queima de todos os livros sobre filosofia e história. A isto seguiu-se o facto de um grande número de intelectuais ter sido enterrado vivo, por não acompanhar o dogma do estado.

Em 168 A.C., o monarca Antíoco IV ordenou a queima do ‘Livro das Leis’ dos Judeus, que havia sido encontrado em Jerusalém.

Por volta do ano 50 D.C. um soldado romano apreendeu um rolo da Torah e queimou-o em público. Este incidente quase levou a uma revolta judaica contra o domínio romano.

Os livros de alquimia egípcia de Alexandria foram queimados pelo imperador Diocleciano, em 292. Em 303 Diocleciano também queimou livros cristãos. Em 1242, a coroa francesa quei-mou todas as cópias do Talmud em Paris, cerca de 12.000, depois de o livro ter sido “acusado” e “considerado culpado” no julgamento de Paris.

Por volta de 1480, Tomas Torquemada pro-moveu a queima da literatura não-católica, com particular atenção para o Talmud judeu e os livros árabes, após a expulsão de muçulmanos e judeus.

Em 1490 uma série de Bíblias hebraicas e outros livros judaicos foram queimados por ordem da Inquisição Espanhola. Em 1499, cerca de 5.000 manuscritos árabes foram consumidos pelas chamas na praça pública de Gra-nada sob as ordens de Ximenez de Cisneros, Arcebispo de Toledo. Em 1526, a tradução inglesa do Novo Testamento, de William Tyndale, foi queimada em Londres por Cuthbert Tunstal, bispo de Londres. A tradução alemã da Bíblia, feita por Martinho Lutero foi queimada nas partes da Alemanha que estavam sob domínio católico em 1624, por ordem do Papa.

Em 1656, as autoridades de Boston apreen-deram o livro Quaker em público.

Em 1731, o conde Anton von Firmian Leopold – Arcebispo de Salzburg – queimou os livros luteranos.

Em 1933, os cristãos queimaram obras de autores judeus e outros trabalhos considerados “não-alemães”.

A 10 de Maio de 1933, alguns jovens cristãos influenciados pela filosofia nazi queimaram có-pias da Torah.

A 23 de Março de 1984, centenas de cópias do Novo Testamento foram queimadas em forma de cerimónia pelos judeus ortodoxos em Jerusalém.

Na história recente, tem havido vários incidentes de queima de CD’s de música e outros livros de ficção e não-ficção.

Houve vários incidentes com livros do Harry Potter a serem queimados, incluindo aqueles dirigidos por igrejas em Alamogordo, Novo México e Charleston, Carolina do Sul. Discos dos Beatles foram queimados após uma obser-vação de John Lemon a respeito de Jesus Cris-to.

Em 1988, um grupo de cidadãos muçulmanos britânicos queimaram o livro de Salman Rushdie Versículos Satânicos em Londres, seguindo-se a queima do CD de Yusuf Islam, após este ter feito algumas declarações sobre Salman Rushdie.

Em Maio de 2008, um grupo de jovens judeus queimou um grande número de cópias do Novo Testamento Or Yehuda, Israel.

Este é um lado escuro da nossa humanidade. Devemos todos fazer votos no sentido de se tra-balhar para extinguir o fogo do ódio e da intolerância. (Fonte: Religious Social Interfaith – Article Ref:IC1009-4290).

Posted on

América, América… Do conflito das civilizações ao choque das ignorâncias

Versão portuguesa de. M. Yiossuf Adamgy, publicada na revista Al Furqán, nº. 176, de Julho/Agosto.2010

26 de Agosto de 2010 – Fonte: Oumma

Aquando do seu discurso, no Cairo(1), o ano passado, Barack Obama pregava a reconciliação com o mundo muçulmano: ‘(…) os Estados Unidos e o mundo ocidental devem aprender a conhecer melhor o Islão. Aliás, se contabilizar-mos o número de Americanos muçulmanos, veremos que os Estados Unidos são um dos maiores países muçulmanos do planeta (…). O que procuro fazer consiste em criar um diálogo melhor para que o mundo muçulmano possa compreender melhor como os Estados Unidos, e em termos gerais o mundo ocidental, concebem determinados problemas difíceis, tais como o terrorismo ou a democracia’. Estas palavras, impregnadas de conciliação, tinham sido aclamadas pelos numerosos chefes de estado do mundo árabe-islâmico. Hoje, mais do que nunca, a questão das relações ‘normalizadas’ e ‘pacificadas’ com o Islão regressa, com vigor, à cena local americana. ‘Islam, islamic, Muslims…’ tornaram-se igualmente vocábulos com, muitas vezes, uma conotação negativa no País do Tio Sam, ao julgarmos pelas peripécias do Centro Cultural Islâmico de Nova Iorque. Quem não se lembra do projecto controverso de uma Mesquita a dois quarteirões do Ground Zero, onde se encontravam as torres gémeas destruídas no dia 11 de Setembro de 2001, que ultrapassou um obstáculo importante no início do mês de Agosto, com luz verde dada pela autarquia e com o apoio do Presidente da Câmara de Nova Iorque. Esta decisão muito controversa foi imediatamente assimilada a ‘um insulto à memória das vítimas’ pelos que se opunham ao projecto. Esta protestação geral transformou-se numa verdadeira campanha de descrédito das atitudes islamofóbicas: um autocarro exibindo, nos seus flancos, slogans hostis quanto à edificação de uma mesquita e de um centro cultural islâmico nas imediações de Ground Zero, fotografias de aviões despenhando-se contra o World Trade Center relembrando os atentados do 11 de Setembro…

Cartazes gigantescos ostentando a pergunta ‘Por quê aqui?’ (‘Why here?’), insistindo no ‘carácter provocador’ de um pedido legítimo, contudo garantido pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos.(2)

Sabendo que o anunciante não é nada mais, nada menos do que o organismo SIOA (‘Stop Islamzation of America’, ‘Cessem a islamização da América’), é fácil imaginar que a Estátua da Liberdade tenha ficado transida de assombro nesse grande país onde nos é relembrado, frequentemente, que os direitos fundamentais de todos os cidadãos americanos, sem distinção, são imprescritíveis. A intervenção do Presidente americano e o seu posicionamento ao lado de Michael Bloomberg não acalmou, porém, os ardores dos detractores deste projecto. Perante os ataques constantes, o chefe do Executivo teve até de apresentar alguns esclarecimentos de modo a tranquilizar, nomeadamente, um determinado segmento desta América ultra conservadora que suspeita que este dissimule a sua confissão! (3)

Os detractores deste projecto, accionados pelas associações das famílias das vítimas do 11 de Setembro, e por Sarah Palin – a ex-candidata republicana à Vice-presidência -, reagiram com virulência de modo a interpelar a opinião americana e a denunciar o apoio da Casa Branca. O representante de Nova Iorque na Câmara Baixa do Congresso declarava, recentemente, na CNN, com alguma arrogância:

‘A comunidade muçulmana demonstra insensibilidade e falta de compaixão ao querer construir uma mesquita na sombra de Ground Zero. Infelizmente, o presidente cedeu ao que é politicamente correcto’, lamentou. ‘Embora a comunidade muçulmana tenha o direito de construir a mesquita, abusa deste direito, ofendendo, inutilmente, tantas pessoas que tanto sofreram. A boa escolha, moral, que o presidente Obama deveria ter feito, deveria ter sido exortar os dirigentes muçulmanos a respeitarem as famílias dos que morreram e a levarem a sua mesquita para longe de Ground Zero’.

Os defensores do projecto argumentam que a ‘Casa Córdoba’ ajudará a ultrapassar os este-reótipos negativos aos quais a comunidade da cidade continua a estar sujeita desde os atentados. Mas de nada vale, o tratamento mediático tende a dar a impressão que, afinal, a comunidade muçulmana americana representa uma entidade muito especial, com revindicações no limite da decência.

Além da deriva semântica, infelizmente recorrente desde o ‘Nine eleven’, este episódio conduzidos a um período sombrio da história recente dos Estados Unidos: a caça às bruxas sob uma ideologia institucionalizada: o macartis-mo.(4)

Recentemente, uma personalidade política afirmava:

‘Os EUA aplicaram, com sucesso, relativamente aos comunistas, uma política baseada na ‘repressão’ (Foster Dulles). Deveriam retomar esta filosofia no seu conflito contra o Islão em vez de se entregarem após complacências…'(5)

Incontestavelmente, o vento da intolerância sopra novamente do outro lado do Atlântico e os cerca de 7 milhões de cidadãos americanos(6) são elevados ao estatuto de testa-de-ferro, até mesmo responsáveis de uma ‘dor colectiva’, que levará algum tempo antes de ser exorcizada. Desde a tragédia do 11 de Setembro, os cidadãos americanos de confissão muçulmana habituaremos, infelizmente, a um dispositivo de segurança impressionante e às suas derivas liberticidas.(7)

‘Infelizmente, neste Estado como em todo o País, a islamofobia está a aumentar’, reconhecia Ramsey Kilic, porta-voz do Centro para as relações islâmico-americanas (CAIR).(8)

A este respeito, também não parece ser o momento para a conjuração dos demónios do ódio devido à organização de um ‘dia internacional para queimar o Alcorão’ na data de aniversário dos atentados do 11 de Setembro de 2001. Na origem desta iniciativa, um chamado Terry Jones, pastor de profissão, convida a reduzir a cinzas, na praça pública, o Livro Sagrado de um quarto da humanidade, o próprio fundamento da crença islâmica. Na realidade, trata-se, nada mais, nada menos, de combater ‘o demónio do Islão’, considerado por este homem da igreja como o mal incarnado. Do autor de ‘Islam is of the devil'(9), cultura do ódio, estigmatização e anátemas têm uma completa coerência com esta personalidade de ‘má fé’, em todos os sentidos do termo. À pergunta do apresentador da CNN, ‘Por que razão quer fazer isso a 1,5 mil milhões de pessoas no mundo inteiro?’, responderá sem equívocos:

‘O Islão e a Chariah são responsáveis pelo 11 de Setembro. Queimaremos os livros do Alcorão porque pensamos que já é tempo, para os Cristãos, para as igrejas, para os responsáveis políticos, que se levantem e digam: ‘Não, o Islão e a Chariah não são bem-vindos nos Estados Unidos’.

E cá estamos nós, desta forma, a ser levados para o âmago de determinadas práticas medievais e demais autos-de-fé organizados na época do Terceiro Reich!

Especifiquemos, além disso, que esta alma perdida e cegada pela aversão não é nada mais, nada menos, do que o líder da igreja Dove World Outreach Center (atingir um mundo de paz!): podemos ver que, nos dias de hoje, o ridículo já não mata. As teses huntingtonianas e demais slogans que pensávamos relegados ao esquecimento (‘o eixo do Bem contra o eixo do Mal’) reactivaram-se, desta forma, para ‘justificar’ um combate ‘justo’ destinado a salvar os valores da América. ‘Conflito das civilizações’ e demais ‘fim da história’ são reunidos para propagar outras construções teológicas que, no caso presente, se fundamentam no Islão (‘dar al islam, dar al kufr…’)(10). Assim, em conformidade com uma regra inalterável, os extremos alimentam-se uns dos outros.

Por outras palavras, esta visão cósmica maniqueísta tem a sua consagração no choque das ignorâncias!

O pastor Jones evoca numa ‘lista de argumentos’ 10 razões para ‘justificar’ a sua cruzada contra o Islão.(11) Num inventário ‘à Pré-vert’, o internauta encontrará aí propósitos insultuosos, contra verdades e outros delírios paranóicos (‘A vida e a mensagem de Muhammad não podem ser respeitadas’, ‘Muhammad não terá existido’, ‘A lei islâmica é de natureza totalitária (…) tem muitas semelhanças com o nazismo, o comunismo e o fascismo’, ‘O mundo sofre devido à influência demoníaca do Alcorão’, ‘O Islão representa uma arma do imperialismo árabe e suscita o colonialismo’ …). Daí a comparar o Islão à ‘Besta’ mencionada pelo Profeta Daniel, há apenas um passo… alegremente dado por determinadas ovelhas que privilegiam uma singular hermenêutica.(12) A tradição muçulmana relata que a ignorância é o maior inimigo do homem quando o Alcorão declara:

‘Dize: ‘Serão iguais, aqueles que sabem e aqueles que não sabem?’ Só os dotados de inteligência se lembram’.(13)

Podemos, razoavelmente, pensar que o interessado não é dotado desta última faculdade. Consciente das suas derivas, nas antípodas da fé cristã, a Associação Nacional dos Evangélicos (EU) quebrou os laços de solidariedade ao exigir a anulação do auto-de-fé e ao citar a Primeira Epístola do Apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses. A Conferência Mundial das Religiões para a Paz (Religions for Peace, realizada em Nova Iorque) também condenou esta iniciativa perigosa para a coesão e o viver em conjunto.

Um maior cuidado e um dever de indignação impõem-se face aos pirómanos de qualquer espécie, apóstolos da divisão e do ódio e demais epígonos.

Património universal, a humanidade constrói–se na perseverança, razão e fé, na palavra parti-lhada e esforço de uma reflexão constantemente renovada. Viver em harmonia com o outro, com as suas diferenças, abrir-se ao outro na fraternidade e solidariedade, trabalhar para um melhor conhecimento mútuo, respondendo ao convite divino…:

‘Ó seres humanos! Na verdade, criámo-vos a partir de um homem e de uma mulher, e fizemo-vos nações e tribos para vos conhecerdes. O mais nobre de vós, perante Deus, é o mais temente. Na verdade, Deus é Sábio e Omnisciente’. (Alcorão, 49:13).

NOTAS:

  1. 19 de Junho de 2009
  2. A Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América faz parte das dez emendas ratifi-cadas em 1791 e conhecidas colectivamente como a Declaração dos Direitos (Bill of Rights). Proíbe a adopção, por parte do Congresso dos Estados Unidos, de leis que limitem a liberdade de religião e de ex-pressão, a liberdade de imprensa ou o direito a reunir-se pacificamente.
  3. Uma sondagem realizada pelo Pew Research Center para o Washington Post, no dia 19/08/2010, revela que 20% dos Americanos pensam que o Presidente é muçulmano. Paralelamente, o número de Americanos que identificam correctamente Barack Obama como cristão descaiu para cerca de metade, em um ano, para 34%. A Casa Branca teve de apresentar um desmentido! Encontramos, nalguns meios de comunicação americanos e franceses, ‘Obama bin Laden’ caricaturado com uma barba e um turbante.
  4. O macartismo (ou McCarthyism) é um episódio pouco elogioso da história do país, conhecido igual-mente pelo nome de ‘Medo Vermelho’ (Red Scare) ou de ‘caça às bruxas’ (witch hunts). Estende-se de 1950, a aparição do Senador Joseph McCarthy na cena política americana, a 1954, o voto de censura contra McCarthy. Durante dois anos (1953-1954), a comissão presidida por McCarthy perseguiu eventuais agentes, militantes ou simpatizantes comunistas; tudo isto com o seu quinhão de derivas liberticidas.
  5. O governador do Tennessee questiona até a designação de religião no que diz respeito ao Islão que considera ser uma seita ou um partido político! Sobre este assunto, ler ‘Ron Ramsey: Tennessee Republican politician under fire in ‘Islam is a cult’ row’ in The Daily Telegraph publicado a 27/07/2010.
  6. Conforme o Council on American-Islamic Relations (CAIR).
  7. Consultar o estudo de Daniel Sabbagh, Segurança e liberdades nos Estados Unidos após o 11 de Setembro: uma descrição in Critique internationale nº 19 – Abril 2003, Centro de Estudos e Investigações Internacionais.
  8. Council on American-Islamic Relations
  9. Na sua introdução, podemos ler: ‘O Islão é satânico. Aprendei as verdades espirituais que levarão novamente a igreja cristão à posição revelada por Deus’.
  10. O mundo complexo globalizado no qual evoluímos não pode ser reduzido a estes dois campos ini-migos: ‘a residência do Islão’ versus ‘a residência do descrédito’.
  11. Consultar o sítio http://www.doveworld.org/-blog/ten-reasons-to-burn-a-koran
  12. O leitor motivado pela exegese pode consultar Daniel 7.19-27.
  13. Alcorão, 39:9.
Posted on

Faleceu Mansur Escudero: a voz espanhola do Islão

M. Yiossuf M. Adamgy

 

A voz prestigiosa do Islão em Espanha, Mansur Abdessalam Escudero, faleceu Domingo, dia 3 de Outubro de 2010, com a idade de 63 anos, em sua casa de Dar as-Salam, em Almodovar del Río, Córdoba.

 

O funeral teve lugar no dia 4 de Outubro, no Cemitério Municipal de Almodovar del Río, que conta com uma zona de enterramento Islâmico. O Islão perde em Espanha uma das suas vozes de grande prestígio. Mansur Escudero, era Presidente da Junta Islâmica de Espanha. Abdelkarim Carrasco, o até agora vice-presidente de Escudero, vai substituir-lhe, provisoriamente, na presidência da Junta Islâmica.

 

Segundo informações colhidas da Web Islam, Escudero nasceu em Almáchar (Málaga) em 1947, filho de padre de Valladolid, médico rural em Axarquía malaguena, e de Zamora, ambos católicos. Escudero, baptizado com o nome de Francisco, estudou com os jesuítas em San Estanislao de Koska, en Málaga.

 

Homem de sólida formação intelectual, licenciou-se em Medicina e Cirurgia pela Universidade Complutense de Madrid em 1973. Especializou-se em neuropsiquiatria no Centro de Saúde Mental de Córdoba. Durante o franquismo militou no Partido Comunista de Espanha.

 

A sua conversão ao Islão aconteceu nos finais dos anos 70. Em 1980 fundou a primeira comunidade de muçulmanos espanhóis, a Sociedad para el retorno al Islam en España, que depois se converteria na Comunidade Islâmica de Espanha. Em 1989 funda a Junta Islâmica, à frente da qual se distinguiu pela sua acção a favor dos direitos dos muçulmanos e contra o tratamento de favor do Estado para com a Igreja Católica.

 

Escudero foi um dos assinantes do Acordo de Cooperação entre o Estado e a Comissão Islâmica de Espanha em 1992 e do Acordo sobre a Designação e Regime Económico das Pessoas Encarregadas do Ensinamento Religioso Islâmico nos Centros de Educação, em 1996.

 

Escudero alcançou grande notoriedade pela sua defesa em prol da oração compartilhada de cristãos e muçulmanos na Mesquita-Catedral de Córdoba.

 

Escudero era abertamente progressista no político e social. Defensor dos directos da mulher e de um Estado laico, expressou publicamente o seu apoio a iniciativas do Governo Socialista como a Aliança de Civilizações e chegou a pedir o voto para os partidos progresistas antes das eleiçõe de 2008, o que lhe valeu duras críticas da direita mediática.

 

Foi com enorme pesar que recebemos a notícia do falecimento do irmão Dr. Mansur Escudeiro.

 

Em meu nome pessoal, no de Al Furqán (órgão para divulgação do Islão em Portugal) e em nome dos Muçulmanos de Portugal expresso os nossos mais sentidos pêsames aos seus familiares, amigos e a toda a Comunidade Islâmica de Espanha, que perdeu um dos seus membros mais queridos, que mais trabalhou em Espanha pela divulgação do Islão e pela cultura de paz e diálogo.

 

Que Allah S. T o recompense pela sua altruísta dedicação e o acolhe no seu seio e lhe dê o Jannat-al Firdous (Paraíso).

Posted on

Morre Muhammad Sayed Tantawi, um dos mais influentes Líderes do Islão

Fonte: Reuters / EP

Era considerado como uma figura relativamente liberal em questões como os direitos da mulher

O Sheikh Muhammad Sayed Tantawi, Grão Imame da Mesquita de Al Azhar, uma das mais influentes Instituições Islâmicas Sunitas do Mundo, faleceu a 10 de Março de 2010, aos 81 anos de idade, devido a um ataque cardíaco sofrido durante uma visita a Arábia Saudita.

Abdul el Nagar, assessor de Tantawi, declarou à cadeia da Televisão Egípcia Nilo que a morte foi uma surpresa, porque antes de sair para a Arábia Saudita, a sua saúde era “excelente”.

Por sua vez, um membro do gabinete de Tantawi, Ashraf Hassan, informou que o Imame adjunto de Al Hazar, Mohamed Wasel, assumirá temporariamente o cargo que o falecido deixou vago até que o Presidente Egípcio, Hosni Mubarak, designe o seu sucessor.

A Mesquita de Al Azhar, um dos mais importantes Centros de Ensino Islâmico Sunita em todo o Mundo Muçulmano, dispõe de Escolas, de uma Universidade (a mais antiga do planeta, fundada no século X) e de outras Instituições Educativas em todo o Egipto, cujos fundos procedem fundamentalmente do Estado.

Tantawi fora designado para o cargo por Mubarak em 1967 e, desde então, fora considerado como figura relativamente liberal em questões delicadas como os direitos da mulher, embora tenha recebido muitas críticas pela sua submissão às posturas do Governo.

Durante o tempo que exerceu o cargo, havia-se oposto abertamente à circuncisão feminina e ao “niqab”, o véu que cobre totalmente o rosto, ao ponto de, no ano passado, inclusive ter emitido um ‘fatwa’ (édito islâmico), pela qual se proibia o ‘niqab’ em todas as escolas femininas dependentes de Al Azhar.

Autor prolífico de numerosas obras sobre a exegese do Alcorão, o Cheikh Muhammad Sayyed Tantawi será sepultado em Medina, na Arábia Saudita.

Posted on

Misericórdia Divina

Por: M. Yiossuf Adamgy

Solicitado por alguns amigos, leitores e teólogos islâmicos para comentar e esclarecer, em livro a publicar, a temática islâmica focada no romance recém-publicado, intitulado “Fúria Divina”, da autoria de José Rodrigues dos Santos, pareceu-me que deveria escrever – à luz da verdadeira Fonte do Islão – esclarecendo sobre os muitos mitos do Islão: a metodologia de compreender o Alcorão, o muito incompreendido conceito de Jihád e os relevantes conceitos de “paz” e “guerra” no Islão, o conceito de Kafir, de Compaixão, de Apóstata, de Lapidação, de Tolerância, de Fundamentalismo, de Extremismo, de Terrorismo, de Democracia, da Mulher no Islão, se o Islão foi divulgado pela espada, etc., etc. .

Num esforço para dissipar todas essas falácias, este livro, intitulado “Misericórdia Divina”, concentrar-se-á na investigação destes conceitos contextualizados no Alcorão. O Alcorão é a indiscutível fonte e autoridade de todos os aspectos da religião do Islão. No livro citarei alguns ditos Proféticos (Ahadices) que estão em linha com os versículos Alcorânicos que trato. No entanto, evitei conscientemente o uso de ditos Proféticos ou de outras fontes para a obtenção de conclusões que o Alcorão não apoia explicitamente.(1) O uso apenas do Alcorão assegura a revelação da verdade sobre os conceitos em causa, a qual se revela muito diferente da imagem comum que se tem destes conceitos.

Naturalmente, o livro citará extensivamente o Alcorão. De facto, pretende-se que em muitas partes seja lido como um comentário a versículos Alcorânicos. Dada a natureza e a estrutura do Alcorão, é comum que um mesmo assunto seja abordado em diferentes partes do Livro. Por conseguinte, é necessário que versículos relevantes sejam reunidos e observados em conjunto. Esta abordagem, a qual irei seguir neste estudo, permite ao pesquisador ver nesses versículos temas comuns e significados complementares que podem não ser visíveis quando os versículos são estudados separadamente.

Darei o meu melhor para fazer deste livro um livro autónomo, que não exige um conhecimento prévio do Alcorão ou da História ou pensamento Islâmicos. Toda a informação e explicações necessárias serão fornecidas onde importam de modo a tornar este estudo profundo e focalizada uma leitura fácil.

Ao apresentar factos claros e verificáveis e ao afastar sofismas infundados a respeito dos conceitos em causa, rezo para que este livro possa alcançar dois objectivos para dois diferentes públicos:

Em primeiro lugar, que prove ser uma fonte de informação útil para Muçulmanos e pesquisadores da verdade que consideram ou venham a considerar abraçar o Islão, voluntariamente. Assim como entre os seguidores de qualquer outra Fé, existem muçulmanos que apresentam uma falta de conhecimento dos fundamentos da sua religião.

Em segundo lugar, que convença outros que não estão interessados em adoptar o Islão como religião por uma razão ou por outra, de que o Islão é uma religião excepcionalmente pacífica, com que se pode coexistir.

Muitos reconhecerão, infelizmente, que o abismo entre Muçulmanos e não-Muçulmanos se tem vindo a alargar. Igualmente triste, é o facto de muitos não saberem que, embora este conflito implique crentes do Islão, não teve origem na religião do Islão. Eu, como muitos outros pelo mundo fora, sinto partilhar da responsabilidade em ajudar à dissipação deste crescente distanciamento entre Muçulmanos e não-Muçulmanos. Estas tentativas, se feitas correctamente, são, na verdade, uma forma de jihád, como veremos neste estudo.

(1) – Este válido critério foi observado pelos grandes eruditos do Islão, desde o início. Continua a ser o fio condutor dos pensadores actuais. Ibn Khaldun escreveu: “Não acredito em nenhum Hadice ou relato de um companheiro do Profeta, paz esteja com ele, como sendo verdadeiro se diferir do sentido do Alcorão, por muito fidedignos que tenham sido os seus narradores. Não é impossível que um narrador pareça fidedigno embora seja movido por outros motivos. Se os Ahadice fossem analisados pelos seus conteúdos como o foram relativamente à cadeia de narrado- res que os transmitiram, grande parte deveria ter sido rejeitado. Um princípio aceite é o de que um Hadice pode ser rejeitado se divergir do sentido do Alcorão, dos princípios da Chariah, das leis da lógica, ou de qualquer outra verdade evidente”. Este critério, que foi apresentado pelo Profeta (s.a.w.), e seguido por ibn Khaldun, está em perfeita harmonia com a análise científica moderna.